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18.3.18

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A preocupação do storytelling e o aparecimento do Cinema!

 

O ensino do português não se pode limitar aquilo que chamamos matéria”, como refere o jovem professor Alberto Soares (Jaime Freitas) perante o reitor do Liceu de Évora (João Lagarto), uma pequena lição que poderia ser seguida pela nosso Fernando Vendrell (aqui registando o seu regresso à realização, 12 anos desde Pele). Reformulando essa doutrina algo ativista citada pela personagem, o Cinema não se pode limitar aquilo a que chamamos narrativa, visto que no caso de Aparição, a adaptação do homónimo livro de Vergílio Ferreira, exista uma clara sede de ir além do seu próprio enredo.

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Tal sente-se, numa narrativa descosturada, que desesperadamente liga e interliga situações, figuras e pensamentos que são aqui e ali invocados de maneira despachada. Pena, até porque em termos produtivos, Aparição comporta-se como uma lição bem estudada às milésimas estruturas televisivas que se confundem nas grandes telas, porém, para este filme em si ser sobretudo incisivo era preciso não se contentar com a superficialidade e num ato como o de beber e gargarejar por completo os reflexos contidos na obra.

 

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O incentivo da criatividade, o existencialismo que desafia a religiosidade de um Portugal (ainda) refém e a subliminar crítica a um país que se vive nas odes das “limitações seguras” (“não é permitido ter mais que a quarta classe ou mais de 300 porcos”), sugestões desaproveitadas em prol de uma narrativa direta que não despreza a intelectualidade do espectador, mas que nunca verdadeiramente a incentiva.

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Um caso em que o storytelling não é tudo enquanto não existir uma profunda introspeção à relação à matéria-prima, e que por sua vez, não basta ser “boa adaptação” como se limitasse “aquilo que chamamos matéria”. Entretanto, existe sempre uma luz no fundo disto tudo, da mesma maneira que Amor Impossível, de António Pedro-Vasconcelos, usufruiu da sua “força centrifuga”: Victoria Guerra releva-se mais uma vez, que mesmo sob pequenas doses, é um dos must do cinema nacional e esperamos que não só dele.

 

Filme visualizado na 9ª edição do FESTin: Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa

 

Real.: Fernando Vendrell / Int.: Jaime Freitas, Victoria Guerra, Rui Morisson, Rita Martins

 

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4/10

publicado por Hugo Gomes às 00:55
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8.3.18

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“Minha dor é perceber

Que apesar de termos feito tudo o que fizemos

Ainda somos os mesmos e vivemos

Ainda somos os mesmos e vivemos

Como os nossos pais...”

 

Assim canta Elis Regina naquele seu êxito o qual partilha o mesmo titulo com esta nova obra de Laís Bodanzky (O Bicho de Sete Cabeças). Não é coincidência, a realizadora já veio a público assumir a presente referência, e com isso, é natural que as letras desta canção de 1976 (do álbum Falso Brilhante) adquiram uma certa cumplicidade a este drama no feminino. Como Nossos Pais [filme] é um ensaio interiorizado na validade do matrimónio, ou para irmos mais além, na “longevidade” do relacionamento, o que está por detrás da paixão, do entusiasmo e das jornadas ao conhecimento do nosso par. Longe das canções românticas, infantilizadas por um platonismo mortal que coabitaram o universo deixado por Regina, a obra de Laís Bodanzky forma um cerco que rodeia estas personagens enclausuradas no cansaço, enquanto espelha as rotinas dando solução às mesmas por saídas que não cedem, e até mesmo desafiam, o seio dos moralismos implantados, sobretudo por uma educação cristã.

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Aqui o objetivo não é julgar as opções de Rosa (Maria Ribeiro), a imagem da “super-mulher” moderna, em constante malabarismo com as facetas domésticas e o seu lado de profissionalismo, enquanto o seu marido dedica os dias num ativismo prolongado para salvar a Amazónia. É obvio que dentro deste cenário suscita-se uma reavaliação do contexto da Mulher no século XXI, e os discernimentos sociais estão presentes como denúncias silenciosas, mas Como Nossos Pais é um filme que se adapta à audiência, longe do género exposto, até porque existe uma Rosa em cada um de nós. O Amor (palavra sequentemente imperativa) torna-se não um sentimento, e sim um conceito imposto pela sociedade (será que amamos os mesmos conceitos, mais que as próprias pessoas?). A fidelidade é também questionada, hesitada, olhada como uma repreensão que trava os nossos devaneios. Os ditos escapes que surgem na outra margem.

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Sim, somos remetido a experiências sociais, enunciados que emitem lógicas a ser debatidas pós-visionamento, orquestrado por personagens que autodestroem os estereótipos alicerçados, assim como o maniqueísmo fatal dos chamados “panfletos feministas”. Longe disso, Como Nossos Pais revela-se num “playground” para os afetos. Segundo Bodanzky, da mesma forma que reproduz nos desejos da sua personagem-chave, a intenção do filme é arrancar onde a peça de Henrik Johan Ibsen, Casa de Bonecas, termina. O que fazer depois da declarada emancipação? O que surge depois da motivação de espirito? Uma cadência que vai atingindo numa narrativa episódica, endereçada a modelos ou exercícios de reflexão que funcionam como conflitos. Ou seja, este é um daqueles casos onde o conteúdo (a provocação deste) sobressai ao formato, que no seu todo se resume a um cinema “limpo” e tecnicamente previsível.

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Mas o Cinema não se faz apenas de formas, ele também comunica com o espectador. Aliás, “O Cinema é a arte do sensível”, salienta o filosofo francês Jacques Rancière, e Como Nossos Pais, não se revelando brilhante ou fundamental na História da Sétima Arte, embica nesse tremendo dialogo e sensibilidade.

 

Filme de abertura do 9º FESTin: Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa

 

Real.: Laís Bodanzky / Int.: Maria Ribeiro, Clarisse Abujamra, Antonia Baudouin, Herson Capri

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 18:04
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6.3.18

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Redemoinho, de José Luiz Villamarim, conquista o prémio de Melhor Longa-Metragem de Ficção na Competição da 9ª edição do FESTin. Contando o reencontro de dois amigos de infância que não se viam desde um evento trágico, o filme conseguiu para além da distinção máxima, o prémio de realização.

 

Nas interpretações, Grace Passô em Praça Paris e Marat Descartes por Mulher do Pai saem os vencedores das suas respetivas categorias, enquanto que o Açúcar, de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira, detêm o título de Melhor Filme para o Júri da Crítica.

 

Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky, que contará com estreia nacional, conquistou o “paladar do público”.

 

 

CATEGORIA DE LONGA-METRAGEM

Melhor longa-metragem: “Redemoinho” de José Villamarim

Melhor realizador: José Villamarim por “Redemoinho”

Melhor atriz: Grace Passô por “Praça Paris”

Melhor ator: Marat Descartes por “Mulher do Pai”

Melhor filme – Júri da Crítica: “Açúcar” de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira

Menção honrosa de longa-metragem - Júri da crítica: “Mulher do Pai” de Cristiane Oliveira

Melhor filme – Júri Popular: “Como Nossos Pais” de Laís Bodanzky

 

CATEGORIA DE CURTA-METRAGEM

Melhor curta-metragem: “A gis” de Thiago Carvalhaes

Menção honrosa de curta-metragem: “África na Europa” de Atcho Express e “Carga” de Luis Campos

Melhor curta-metragem – Júri Popular: “Hospital da memória” de Pedro Paula de Andrade

 

CATEGORIA DOCUMENTÁRIO

Melhor Documentário: “Saudade” de Paulo Caldas

Menção honrosa de Documentários: “Serviçais das memórias à identidade” de Nilton Medeiros

Melhor documentário – Júri Popular: “Serviçais das memórias à identidade” de Nilton Medeiros

 

CATEGORIA INFANTOJUVENIL

Melhor filme – Júri popular infantil: “Como surgiram as estrelas” de Renato Barbieri e Adriana Meirelles

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 22:57
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5.3.18

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Sublimidade não faz parte do cardápio …

 

No cinema português existem vários pecados; os autores passivos que esperam pelo financiamento fácil, os realizadores convertidos à industria e com isso uma evidente perda de identidade cinematográfica e no caso de Luís Diogo uma recusa pelo legado da nossa cinematografia em prol de uma folha de rascunho.

 

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Não é ao acaso a utilização da palavra pecado aqui, Luís Diogo para além de ter na consciência a maldição que foi o argumento de A Bomba, de Leonel Vieira (aquela obra que se tornou num assombrado “mito urbano”), experimentou a realização-a-solo e sob autodidatismo empreendedor (dou graças a isso) com Pecado Fatal, onde cometeu o seu primeiro grande erro - uma promoção sobretudo ignorante (“um filme para quem não gosta de cinema português”) - tendo resultado num produto amador aos mais diferentes níveis. Mas apesar do equivoco, um realizador não se faz de um filme apenas, sendo que é com algum entusiasmo que sigo em frente para uma segunda longa da sua autoria, com a esperança de assistir aperfeiçoamento e sim … redenção.

 

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Mas é com tristeza que saio deste Uma Vida Sublime, até porque Luís Diogo demonstra alguma ocasionalidade nas suas ideias (basta recordar o seu contributo no Gelo, do pai e filho Galvão-Teles). Todavia, aquilo que acabo de presenciar é uma falta de talento e de garra em conduzir um filme para o seu propósito de Cinema. Existe uma cena em particular que demonstra exatamente isso: um plano conjunto onde uma família reúne para consumir a sua refeição matinal. Aqui encontra-se concentrado várias ações distribuídas por quatro personagens, cada uma delas operando por si próprias mas com um foco principal no cansaço do casal (pai e mãe), tendo como representação um episódio envolvendo uma “taça de cereais”. Existe muita informação aqui, o propósito desta mesma cena é evidente e nisso estamos de acordo com a visão do realizador, porém, algo de errado se passa. O plano não obtém a profundidade necessária, a câmara é incapaz disso e a ação principal, que poderia manipular a nossa atenção com um cuidado quase “velasqueano” (o segundo plano jogado como o primeiro), é simplificado à mão de semear pelo espectador deixando o resto da ação (o pedinchar de um telemóvel por uma das filhas do casal) num total desaproveitamento.

 

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A nível técnico estamos esclarecidos, passemos agora para o interpretativo e nesse termo confrontamos com uma agravante, Luís Diogo é incapaz de comportar como um diretor de atores, é insciente a captar e incentivar nos seus colaboradores desempenhos verdadeiramente convincentes, e a cena referida anteriormente é contagiada por esse mesmo mal. Esse, que nos leva a outro - os diálogos - a somente ponta do iceberg para a escrita do filme. Se deparamos uma ideia ou outra inserida com convicção, no seu todo somos atingidos por um argumento costurado com tiques e manias dos “rodriguinhos” do género de terror (um Saw à Portuguesa, resumidamente), onde não falta pseudofilosofias de autoajuda como moralismos quase propagandísticos e ditatoriais. Ainda temos os diversos absurdos, mas não vale ser drama queen nesse sentido.

 

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Sim, Uma Vida Sublime é um objeto longe da sublimidade prometida, a milhas da perfeição o qual esperava ser colhido e sobretudo do dito ativismo contra com o Cinema Português no geral (hipocrisia, visto que Luís Diogo pertence a essa “comunidade” quer queira, quer não) que estes filmes tendem em evidenciar. Está a uns quantos "passos" acima de Pecado Fatal, mas sem grande efeito e significância.

 

Filme visualizado no âmbito do 9º FESTin: Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa

 

Real.: Luís Diogo / Int.: Eric da Silva, Susie Filipe, Rui Oliveira, Mafalda Banquart

 

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2/10

publicado por Hugo Gomes às 17:05
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27.2.18

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Arranca hoje a 9ª edição do FESTin: Festival Itinerante da Língua Portuguesa, a qual decorrerá até 6 de março no Cinema São Jorge, em Lisboa. O novo filme de Laís Bodanzky, Como Nossos Pais, uma abordagem atual e por vezes pertinente dos desejos e ambição da mulher do século XXI protagonizado por Maria Ribeiro, terá as honras de abrir esta mostra de cinema falado em português. A realizadora estará presente na sessão de abertura.

 

Contando com o maior contingente português da história do festival, desde a coprodução Vazante, filme sobre a escravatura no Brasil que tem causado polémica, até os novos filmes de Rui Simões e Fernando Vendrell, o 9º FESTin terá este ano parceria com a 4ª edição do Guiões – Festival de Roteiros de Língua Portuguesa e com a Lusophone Film Fest.

 

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publicado por Hugo Gomes às 15:27
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30.1.18

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FESTin regressa a Lisboa com a promessa de mais e melhor cinema lusófono. O 9º Festival Itinerante da Língua Portuguesa decorrerá entre 27 de Fevereiro e 6 de Março, tendo como espaço, como já é habitual, o cinema São Jorge, em Lisboa.

 

Vazante, uma das obras brasileiras mais badaladas de 2017, será um dos destaques da Seleção Oficial. Esta coprodução da Ukbar apresentada no Festival de Berlim nos transportará ao Brasil do século XIX, nos meandros da escravatura e com reflexo profundo na consciência colonialista. Com direção de Daniela Thomas, habitual colaboradora de Walter Salles (Terra Estrangeira, A Linha de Passe), Vazante contará com Adriano Carvalho e Sandra Corveloni nos papeis principais.

 

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Continuando nas produções lusitanas, o FESTin apresentará ainda a nova longa-metragem do produtor/realizador Fernando Vendrell, Aparição, onde os actores Jaime Freitas e Victoria Guerra viverão um apelidado “romance dentro de um romance” numa Evola da década de 50. Psicologia e catarses nas favelas do Rio de Janeiro com Praças Paris, um filme de Lucia Murat com a participação de Joana de Verona e por fim, o independente Uma Vida Sublime, completam o quarteto nacional nesta competição.

 

Quanto ao cinema brasileira, que tem sido uma das grandes forças deste festival, pretende continuar a revelar a sua diversidade produtiva e sobretudo engenho narrativo. A realizadora de O Bicho de Sete Cabeças e Chega de Saudade, Laís Bodansky regressa ao cinema com Como Nossos Pais, um drama intimista que teve estreia na secção Panorama da Berlinale, e que será a abertura deste nono ano de FESTin. A amizade secreta de As Duas Irenes, de Fábio Meira, promete “arrasar-corações” e Açúcar, de Sérgio Oliveira, atualmente em estreia no Festival de Roterdão, são alguns dos destaques da programação.

 

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O português poderá ser a língua oficial do FESTin, mas não é a exclusiva. O latim, esse idioma ancestral do português, será ponto de partida para esta nova secção paralela “Mostra Latim - A Língua em Movimento”, onde serão exibidos  uma série de obras vindas de países com língua neolatina, tais como Espanha, Cuba, França, Itália e Roménia. Como grande atração, pela primeira vez em Portugal, Vaticano será representado em filme com O Menor Exército do Mundo, um premiado documentário estreado no Festival de Veneza.

 

Este ano, o FESTin contará com duas importantes parcerias, a 4ª edição do Guiões – Festival de Roteiros de Língua Portuguesa, que irá decorrer no âmbito do festival entre os dias 2, 3 e 4 de março, e o Lusophone Film Fest, evento que levará produções em língua portuguesa a vários lugares do mundo – incluindo sessões em Nairóbi (Quénia), Zanzibar (Tanzânia), Bangkok (Tailândia), Sydney (Austrália), Phnom Penh (Camboja) e Macau (China).

 

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publicado por Hugo Gomes às 17:02
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12.10.17

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José Pedro Lopes não concretizou nenhum feito, até porque o terror sempre fora um género ao alcance do cinema português. O que realmente consegue com A Floresta das Almas Perdidas é quebrar essa barreira que se tem a vindo a converter-se num tremendo tabu. Esta fobia pelo cinema de género no panorama nacional, as hostilidades que fazem a sua longa-metragem num marco raro, colhido com elogios em inúmeros festivais de cinema e publicações estrangeiras. O suicídio e o crime de mãos dadas com a criação de um psicopata que rivaliza com Diogo Alves nas questões das auras cinematográficas em Portugal. O Cinematograficamente Falando … falou com o realizador que nos convidou a penetrar nesta floresta dos suicídios.  

 

Vamos começar com a pergunta mais básica em relação ao Floresta das Almas Perdidas. Como surgiu a ideia para deste projeto? E o porquê da “apropriação cultural” da Floresta dos Suicídios?

 

Queria explorar como o mal surge em todo o lado, de forma oportunista. Sempre que há uma calamidade, existe que tira vantagem disso. Ou numa grande perda. Aqui a minha ideia era ter alguém que se alimentava dos sentimentos de um suicida e da sua família de luto. Inspirei-me em filmes como o Whristcutters (do Goran Dukić) e o Audition (do Takashi Miike).

 

No que toca a lugares conhecidos pela prática do suicídio existem por todo o mundo, mesmo aqui em Portugal. Claro que a floresta de Aokigahara é uma referência no contexto que criamos – mas estas personagens estão e lidam claramente com problemas portugueses.

 

O cinema de género é uma raridade em Portugal. Como foi, ou pensa, contornar um desafio tão grande na nossa cinematografia?

 

Em termos de contexto, ‘A Floresta’ não foi feita para provar nada cá dentro, nem para contrariar ninguém. Quanto muito, como fã do género fantástico, queria contribuir nesse género global. Queria ver histórias portugueses no meio desse grande género que descobre filmes nos quatro cantos do mundo.

 

No nosso país há uma dificuldade grande em financiar filmes de género, e talvez ainda maior em coloca-lo e distribuí-lo. Mas é um pouco inerente ao género em sim: o terror sempre foi peregrino e sempre assustou. É o tipo de filmes que vemos em adolescente para chatear os pais, e que continuamos a ver em adultos para baralhar os amigos.

 

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Acho que quem faz terror cá ou lá fora não pode muito pensar no mercado local, mas sim no internacional. Todos os anos tens filmes de terror que viajam o mundo com abordagens muito culturais. Esperar conceber um filme para ser um sucesso no mercado nacional é esperar bater o cinema de Hollywood em algo que eles tem toda a vantagem.

 

Em A Floresta das Almas Perdidas nota-se uma gradual artificialidade, principalmente no genérico estilizado. Será que aqui influências do cinema de Argento? Esse neo-expressionismo do género?

 

Apesar de ‘A Floresta’ ser um filme muito estilizado e visual, diria que é mais sobre contenção e sobre implosão. O Dario Argento vejo-o como mais explosivo. As minhas influências foram mais o cinema de realizadores como o Takashi Miike e o Kim Ki-Duk, situado entre o horror e o drama, sem grandes linearidades.

 

‘A Floresta’ é sobre a chegada à idade adulta de um assassino, sobre a maturação do mal. Por outro lado, é sobre a tristeza e a fatalidade das vítimas. O terror está mais no coração das personagens do que naquilo que vemos.

 

Ao contrário de muitas obras do género, principalmente vindo dos EUA, o antagonista não possui um devido motivo para a sua violência. Será que aqui se concentra uma reflexão do fascínio pelo mórbido e violência, normalmente anexada, à juventude de hoje?

 

Creio que em certa forma a ausência de motivo é o motivo mais comum para quem faz mal aos outros no mundo real. O cinema procura razões e desculpas para o mal para não nos assustar demasiado. Mas a verdade é outra – quem faz mal aos outros faz-lo por uma opção de vida. Tens pessoas que passam por vinte vezes pior e que mesmo assim não faria mal a ninguém.

 

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O lado da juventude é truculento. O filme faz muitos referências às idiossincrasias da juventude atual, das redes sociais e da abordagem superficial das coisas. No entanto, acho que o lado mórbido é desprovido de época. Este tipo de maldade já está connosco à décadas. Acho que também a insensibilidade provocada pelas nossas tecnologias não está só na juventude – existe um hábito de acusar os jovens de viverem muito online e se relacionarem com os seus telemóveis, mas isso é um problema que atinge todas as idades.

 

Floresta das Almas Perdidas é também um desafio para a pequena produtora Anexo 82. Fale-nos das dificuldades de financiamento e até mesmo de produção.

 

‘A Floresta’ foi maioritariamente financiado pela produtora Anexo 82, sendo que contou com um apoio da Fundação GDA e alguns patrocínios privados e apoios. O segredo para fazer o filme com pouco foi pensá-lo de forma a ir de encontro ao que conseguíamos fazer. Foi um sacrifício grande mesmo assim – um que eu não sei se voltaria a fazer.

 

Sobre o casting? Como sucedeu a escolha de Daniela Love para o papel de psicopata?

 

A Daniela já tinha participado numa curta-metragem nossa chamada Videoclube. Nela ela era também cheia de referências e irreverência. A Carolina de ‘A Floresta’ é o lado obscuro dessa personagem, e desde muito cedo que a Daniela foi a escolha para o papel.

 

Como vê o cinema português de hoje, desde os apoios até à variedade estilística?

 

Creio que não é o meu lugar fazer essa apreciação, nem sou a pessoal ideal para o fazer.

 

Quanto a novos projectos?

 

Estamos de momento a terminar uma curta-metragem do Coletivo Creatura, um filme de animação chamado “A Era das Ovelhas”. A seguir a isso vemos analisar o resultado de ‘A Floresta das Almas Perdidas’ e concluir o que fazer a seguir. Temos vários projectos – uns a procura de desenvolvimento ou outros de financiamento – mas só depois de ver o impacto deste é que saberemos o melhor a seguir.

 

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publicado por Hugo Gomes às 22:11
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9.3.17
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Vidas … cinematograficamente … destruídas!

 

Consideravam-na num "furacão", uma mulher que transformou a música brasileira para todo o sempre. Apontada como uma das grandes vozes femininas do Brasil, Elis Regina, o ícone, foi agora "vitima" da típica cinebiografia que é cometida por esse Mundo fora (este fenómeno dos biopics não é exclusivo de Hollywood), a vida retalhada em prol de um profundo anonimato cinematográfico. É triste verificarmos o desperdiçar de vidas formidáveis, condensadas, esquematizadas e convertidas aos enésimos ciclos viventes. Por outras palavras, maioritariamente no cinema, ficamos com a sensação que grandes figuras são transformadas em enfadonhas e inexpressivas vozes. Elis, de Hugo Prata, é um mero telefilme, vulgarizado pelos lugares comuns, pela logística da narrativa forçada pelos factos verídicos e pelo estilo anacrónico e de disposição académica.

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A rapariga que euforicamente descobre cantar no mesmo palco que Diane Ross cantara minutos antes, não possui a força, a vontade, nem a criatividade de transgredir o "certinho" formalizado do subgénero, nem mesmo Andréia Horta (que rigidamente limita-se à mimetização, ao alinhamento de tiques e manias em full playback) possui a capacidade de a salvar, nem mesmo invocar a forte presença que Elis fora. Infelizmente, é isto, uma biopic falhada, sem o mínimo interesse, nem para fãs, nem para aqueles que desejam conhecer a sua obra.

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Mas nem nós poderemos ficar a rir dos nossos "irmãos", a nossa grande diva musical, Amália Rodrigues, também ela fora "liquefeita" a igual tratamento. O problema não está no Cinema, portanto, está na ideia errada de como devemos retratar a vida de alguém na grande tela, ou simplesmente, o oportunismo de concretizar matérias fáceis e preguiçosas, que dão pelo nome de biopics. Triste ensaio este Elis.

 

Filme de encerramento da 8ª edição FESTin 2017: Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa

 

Real.: Hugo Prata / Int.: Andréia Horta, Gustavo Machado, Caco Ciocler

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2/10

publicado por Hugo Gomes às 22:32
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7.3.17

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Foto: Mafalda Martins

 

Mariana Ximenes começou aos 17 anos no circuito das novelas, e desde então tem apostando numa abrangente carreira, quer televisiva, quer cinematográfica. Em alturas do FESTin, a actriz esteve presente na capital portuguesa para apresentar duas obras distintas. A primeira, A Prova de Coragem, a sua experiência na produção, e o segundo, a cumplicidade com um dos nomes maiores do cinema autoral brasileiro, Ruy Guerra, em Quase Memória. O Cinematograficamente Falando … falou sobre a criatividade no seu trabalho como profissional, e as obras que chegarão com algum entusiasmo ao público português.

 

Esta é a sua primeira vez em Lisboa?

 

Não, já estive mais vezes aqui em Lisboa, inclusive duas semanas em rodagem da longa-metragem de um realizador brasileiro maravilhoso e que fez História no Cinema, Cácá Diegues. O filme era O Grande Circo Místico, uma co-produção do Brasil, França e Portugal, contando com uma equipa maioritariamente portuguesa.

 

A Mariana é sobretudo uma "cara" conhecida das novelas da Globo, e esta sua faceta cinematográfica é praticamente desconhecida, por exemplo, para público português. Acredita que existe uma certa linguagem no pequeno ecrã que não existe, ou simplesmente não assiste, no grande ecrã?

 

Quando a Globo começou a produzir filmes, esse diálogo entre cinema e televisão se tornou cada vez maior. Mas por exemplo, começou a série Super Max, uma produção televisiva concretizada totalmente com uma equipa ditamente cinematográfica, ou seja, temos televisão sob moldes cinematográficos. Até um cameraman francês tivemos, este que usufrui do método "shoulder rigs", uma técnica não muito vulgar em produções televisivas.

 

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Sim, cada vez mais se debate entre Cinema e televisão, e sobretudo nos Festivais de Cinema (e como é bom vocês terem um festival de língua portuguesa) que proporcionam uma abertura maior para os filmes brasileiros.

 

Referindo ao FESTin, a Mariana encontra-se presente para apresentar dois filmes, inclusive a sua co-produção A Prova de Coragem. Quer falar-nos sobre essa experiência na produção?

 

Comecei a ser produtora para poder realizar os projectos que sempre sonhara fazer. Mas quanto ao A Prova de Coragem, na verdade, não é um projecto meu, nem sequer foi idealizado por mim, é sim fruto de Roberto Gervitz, e a adaptação de um livro dum escritor gaúcho chamado Daniel Galera. O livro chama-se "Mãos de Cavalo", o filme era para ter o mesmo título, mas foi decidido intitulá-lo de A Prova de Coragem. Apesar de gostar do título original, porque simplesmente funciona como uma metáfora à coragem.

 

O filme aborda o drama da mulher contemporânea, que é o de ser mãe e conciliar com a carreira profissional, além de retratar o relacionamento e as dificuldades que existem numa relação de hoje em dia. Para este filme, cujo tema central é o montanhismo, tive que aprender a escalar, frequentei um curso e subi o Monte Babilónia, que fica no Rio. Foi um experiência fascinante, agora posso sim afirmar, que amo escalar.

 

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Em A Prova de Coragem, nós filmamos em locais bastante belos como a serra gaúcha. Da mesma forma que a minha personagem gosta de escalar, também tem uma paixão por fotografia, o que tem um certo relacionamento comigo, porque também tenho um curso de fotografia [risos].

 

Mas como nasceu essa decisão de virar-se para a produção?

 

Sou uma mulher que já fez mais de 20 filmes. Adoro fazer cinema ... simplesmente adoro, e por causa disso comecei a produzir. A minha carreira enquanto produtora já conta com mais de 4 filmes, dois deles como produtora associada. No caso de O Prova de Coragem, sou produtora associada, e gostei de envolver-me nesse processo de criação, porque agregamos elenco, equipa, todos aqueles que sempre quisemos trabalhar. Tenho esse encantamento pela envolvência nos meus projectos, como se diz, gosto de "meter mãos à obra".

 

Iremos ver num futuro próximo, uma Mariana Ximenes como realizadora?

 

Dirigir? Assim sozinha? Não tenho vontade, não. Sinto o desejo, e cada vez mais, de participar no processo criativo e o olhar de cada pessoa, tanto do director de fotografia, o de cinematografia, caracterização, figurino, de outro actor. Adoro o jogo, o de contracenar, assim como o de ambientes, o de criar espaços. Digo que sou bastante curiosa.

 

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Director de fotografia? Está disposta a experimentar o cargo de direcção fotográfica?

 

Director de fotografia? [risos]. Não sei se vou ser porque é um cargo muito difícil. Sou mais sentida na criação de diálogos e o que me interessa mesmo são os processos criativos.

 

Em relação ao segundo filme do FESTin, Quase Memória. Como foi trabalhar com o "lendário" realizador Ruy Guerra?

 

Uma aula. Diariamente. Não só uma aula de cinema, mas de vida. Ruy Guerra tem 80 anos e mesmo assim, possui muita energia. Para perceberes, nós filmávamos de madrugada.

 

De madrugada?

 

Sim, 12 horas de madrugada, no frio de Minas Gerais e ele estava ali, firme e forte. Foi um procedimento muito intenso. Aceitei o papel para ficar perto dele, é lindo de ver, ele com mais de 80 anos, filmando, fazendo o seu Cinema.

 

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Ruy Guerra estava ausente do Cinema por mais de 10 anos, a Mariana, de certa parte, faz parte desse seu regresso.

 

Sim, esteve fora por mais de uma década, que nem o Roberto Gervitz, o realizador do Prova de Coragem. Ele também estava 10 anos sem fazer um filme.

 

Fazer cinema é muito difícil, o de conseguir investimento e recursos para fazer um filme, não é tarefa fácil. Por isso, é louvável que um realizador tão renomado como o Ruy consiga investimento para poder filmar. Também me interessa projectos alternativos, como Super Max, por exemplo, que é uma experimentação. Gosto de ousadia, de experimentar, quando apostamos em projectos diferentes temos prosperidades de ampliar os olhares. Pode-se acertar como se pode errar, mas o risco está lá. O meu objectivo é aprender com o processo, como exercício de fazer.

 

Então, esta é a sua face mais autoral. Mas dentro da produção brasileira podemos encontrar obras de gostos diferentes, quer o mainstream da Globo, até ao cinema mais independente e autoral, como o do Ruy Guerra. O que a faz interessar-se por ambos os lados?

 

Menciono que A Prova de Coragem, assim como o Quase Memória são dois projectos diferentes e até estou querendo trazer os meus outros filmes para cá [risos]. Para termos a possibilidade de discutir isso mesmo, a diversidade da produção no Brasil. E isso é de valor, diversificar mais para podermos experimentar. Acrescento que Super Max, também, em certo jeito, é uma experimentação da Globo. Como já havia referido, sou completamente interessada nessas experiências, qual seja o lado que se possa experimentar. 

 

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publicado por Hugo Gomes às 00:57
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1.3.17

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O FESTin comemora hoje (1 de Março) o especial número 8. Oito anos de existência, em uma oitava edição que prolongará até oitos dias no Cinema São Jorge, recheado com o melhor de um cinema falado na língua portuguesa, a ponte cultural de oito países separados por milhas, oceanos e História. Um signo a merecer a atenção do mais vasto público, dos cinéfilos em geral, e dos curiosos que tem a oportunidade de encontrar neste evento cultural uma cinematografia rica e igualmente pouco conhecida no nosso país. Referimos ao cinema brasileiro, uma produção diversificada que luta por um espaço na memória e mercado português.

O cinema brasileiro como "espinha dorsal"

 

Para Roni Nunes,  programador do FESTin, a derradeira luta está em trazer uma mostra plena de um cinema que "passa por uma fase excelente, como se viu com nove longas-metragens selecionadas para a Berlinale." O curador entende que com a qualidade do cinema brasileiro actual, era óbvio que não haveria "razões para não termos uma grande programação. Está na hora de mudar a imagem do cinema brasileiro em Portugal, que é muito associado às telenovelas, algo que não faz qualquer sentido, ou então a “Tropa de Elite” e “Cidade de Deus” – que são excelentes filmes mas que, obviamente, estão longe de ser representativos do cinema do país."

 

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Sim, Brasil será o país predominante do FESTin, e nele encontraremos uma "mão cheia" de estreias, tais como pernambucano Big Jato, o muito antecipado Comeback, a desforra de um pistoleiro de terceira idade e a loucura boémia dos anos 60 em Br 716, que segundo Roni Nunes, representam uma pequena fatia do melhor se produz nos dias de hoje, possuindo "uma magnífica característica, a possibilidade de agradar cinéfilos e espectadores casuais". O certame arrancará com a exibição de O Outro Lado do Paraíso, de Andre Ristum, um relato emocionado do Brasil em plena metamorfose político-social dos anos 60.



Para acompanhar as obras, o FESTin terá imensos convidados de honra, entre realizadores e actores, equipa de produção e técnicos, presenças exaustivas que prometem estabelecer uma ligação com o público. Entre as esperadas vindas, contaremos com a presença de Mariana Ximenes, que segundo Roni Nunes é "mais do que um rosto conhecido das telenovelas, ela é uma artista que tem investido muito em cinema de autor no Brasil." A actriz apresentará duas obras do seu currículo, ambas em Competição. Quase Memória, dirigido por Ruy Guerra, um ícone do Cinema Novo do Brasil, e Prova de Coragem, que também co-produz.


"O que mudou na programação foi que enveredamos definitivamente por um caminho mais autoral e desafiante na competição – a ponto de poder dizer que, em termos de quantidade, diversidade e, principalmente, qualidade, temos a melhor montra de cinema brasileiro de Portugal." proclama o programador.

 

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Lisboa, menina e moça, a capital Ibero-Americana

 

FESTin encerrará a edição com Elis, um retrato biográfico da cantora Elis Regina, uma das maiores da terra da Ordem e do Progresso. A escolha deste filme de Hugo Prata, protagonizado por "uma das revelações do ano passado" Andreia Horta (que estará presente), não foi ao acaso, a cinebiografia de uma das mulheres mais ícones do Brasil é servida de comemoração ao Dia Mundial da Mulher.

 

O feminino, por sua vez, será tema importante em toda a programação do FESTin, quer pela Lisboa Capital Ibero-Americana que escolheu o festival como o evento cultural oficial desta temática, preenchido por mesas redondas, debates, actividades paralelas e claro, mais mostras de filmes. "Em termos de filmes um dos destaques é a mostra dedicada à Margarida Gil, que terá cinco dos seus principais trabalhos (“Rosa Negra”, “O Anjo da Guarda”, “Adriana”, “O Fantasma de Novais” e “Paixão” exibidos" sugeriu o programador.

 

Ainda com a Lisboa Capital Ibero-Americana, "o FESTin dará a conhecer, numa parceria com o Instituto Cervantes, a obra do realizador cubano Titón, que será representa pela sua ex-mulher e uma figura icónico do seu país, Mirta Ibarra."

 

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Duas grandes apostas em português de Pessoa

 

Comparativamente ao cinema brasileiro, Portugal é de uma produção mais pequena, mas não é por isso que deixará de estar representado nesta oitava edição do FESTin. O festival vai contar com duas antestreias lisboetas, "dois excelentes exemplares de cinema português", afirma Roni Nunes. Integrados na Competição e vincadamente lusitanos estão Uma Vida à Espera, o regresso de "um realizador experiente na televisão, Sérgio Graciano, investindo num registo completamente diferente, onde Miguel Borges vive um sem-abrigo", e A Floresta das Almas Perdidas, de José Pedro Lopes, "uma bela mistura de cinema de género, neste caso o terror, com arthouse – tendo como ponto de partida uma floresta conhecida por ser um lugar procurado pelos suicidas".

 

Em contrapartida e questionado sobre a produção dos outros seis filmes de língua portuguesa que compõem este octógono cinematográfico, o programador referiu que "o cinema africano em língua portuguesa tem sido muito difícil de encontrar e as nossas solicitações nem sempre são atendidas com celeridade. Alguns destes países não têm indústria, outras aparecem com projectos de forma intermitente. E há países importantes na lusofonia onde a cultura é mesmo um alvo a abater. Ainda assim temos alguns projectos nas secções de curta-metragem e documentário"

 

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publicado por Hugo Gomes às 09:34
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8.2.17

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O 8º FESTIn: Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa, regressa a Lisboa já no próximo mês de Março, entre os dias 1 a 8, convocando uma mostra inteiramente falada em português, com convidados especiais e a Mulher com tema central.  

 

Serão mais de 70 filmes, uma selecção lusófona que arranca com O Outro Lado do Paraíso, a obra de Andre Ristum, e encerra com Elis, a cinebiografia da cantora brasileira Elis Regina dirigido por Hugo Prata, e cuja protagonista, Andréia Horta, marcará presença no festival.   Outra presença destacada neste oitavo ano é a da actriz Mariana Ximenes, "cara" conhecida pelas inúmeras telenovelas da Globo, que vem demonstrar ao público português, através do FESTin, a sua faceta mais cinematográfica. A actriz apresentará dois filmes em competição, Prova de Coragem, de Roberto Gervitz, e Quase Memória, do lendário cineasta brasileiro Ruy Guerra.     

 

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O FESTin contará ainda com duas antestreias portuguesas, o novo trabalho de Sérgio Graciano (Assim Assim), Uma Vida à Espera, e a primeira longa-metragem de José Pedro Lopes, A Floresta das Almas Perdidas, uma obra de contornos fantásticos e de terror, sobre duas figuras que penetram num local comum entre os suicidas. Outros filmes seleccionados a merecer atenção são o documentário Curumim, de Marcos Prado, que causou certo impacto no Festival de Berlim do ano passado, a de um brasileiro condenado à morte por tráfico de drogas na Indonésia, e o regresso de Cláudio Assis (vencedor do prémio de Melhor Filme do FESTin em 2011 com Febre do Rato), com o road movie Big Jato.  

 

O FESTin é ainda um dos eventos culturais seleccionados para fazer parte da Lisboa Capital Ibero-americana de Cultura. Entre as diversas actividades no Cinema São Jorge, estão previstas debates, mesas redondas, masterclasses e sessões especiais de cinema. Neste último ponto, há que realçar a mostra especial do realizador cubano Titón (alcunha de Tomás Gutiérrez Alea), falecido em 1996. A sua viúva e protagonista de algum dos seus filmes, Mirtha Ibarra, estará presente. A actriz foi responsável pelo documentário Titón – de Habana a Guantanamera, que também será exibido. Ainda, a homenagem à cineasta portuguesa Margarida Gil, onde a sua carreira será condensada e discutida no Cinema São Jorge.  

 

Para mais informação sobre a programação, ver aqui

 

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publicado por Hugo Gomes às 15:38
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7.5.16

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E tudo o tempo levou!

 

Nos primeiros momentos, a morte toma o seu lugar na inospitalidade do cenário. Aí o tempo parou, mas as histórias entrelaçadas neste funeral anónimo florescem: a vida, seja ela qual, continua, seguindo o seu caminho entre os grãos que descem vagarosamente na sinistrada ampulheta. Nessas primeiras sequências é possível perceber o interesse do realizador Camilo Cavalcante em não ligar-se a estados temporais mas sim a crónicas desencontradas, enredos que encontram refúgio numa aldeia que, por sua vez, encontra-se "congelada" no referido tempo.

 

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A História da Eternidade é uma parábola a esse mesmo tempo, que destrói tudo e ao mesmo tempo faz renascer nova vida. É nessa vida depois da morte que o filme interage em mais um "conto de faroeste" disfarçado que, em união com o recente Boi Néon (de Gabriel Mascaro), não oculta a rebeldia aos parâmetros estabelecidos da masculinidade. O ambiente religioso e conservador é apenas "sol de pouca dura", até porque o enredo tem tanto de perverso como de mágico, confiando cegamente na sugestão, na memória, para expelir uma teia de infinidades. Entre espaços é ouvido Fala, cantado por Ney Matogrosso, a confirmar a pureza das artes performativas em consolidação com o másculo do seu teor indisciplinado. A sequência imergida nesta musicalidade invoca outro tributo quanto à narrativa desta história intemporal - o primitivismo - a ligação tenra entre Homem e a Natureza, entre o moderno civilizado e o folclore digno de um ancestral druida.

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Camilo Cavalcante, mesmo sob a "cartada" de sugestões, não engana o espectador perante os seus conseguíveis truques de magia, os planos completamente panorâmicos que rodopiam as suas personagens desmascarando ilusões que, no entretanto, poderiam ser impostas e induzidas. A História da Eternidade remete todo esse jogo de misticismo, onde no final, no calor do conflito que cerca entre o grupo de personagens, é novamente o tempo, que é posto em prática, funcionando numa só vez, para apagar o irreversível e embarcar as personagens numa nova oportunidade.

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Sim, é tudo uma questão do tempo, que voa ou opta pela imobilidade. Porém, conforme seja o seu "movimento", o cinema continua a ser feito. Reflectindo sobre esses espaços temporais que tão importantes foram para a evolução de uma arte. Simplesmente mágico!

 

Filme visualizado na 7ª edição do FESTin: Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa

 

Real.: Camilo Cavalcante / Int.: Marcelia Cartaxo, Leonardo França, Débora Ingrid

 

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9/10

publicado por Hugo Gomes às 01:45
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5.5.16

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Sem comentários, o título diz tudo!

 

Lembro perfeitamente de assistir à trupe composta por Lauren Bacall, Betty Grable e Marilyn Monroe alugarem um apartamento em Manhattan, a fim de embarcarem numa demanda em busca de um marido milionário que pudesse providenciar uma vida isente de sacrifícios e possível a excessos. Esse filme, How to Marry a Millionaire, de Jean Negulesco, estreava há 62 anos atrás, num mundo onde a mulher de sucesso ainda era vista como um dedicada esposa e dona-de-casa. E quem fala desse filme, refere também às enésimas produções que no entretanto estreava nessa década, como antes e depois dela.

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Mas os anos passaram, neste momento uma réplica desse How to Marry a Millionaire seria um filme perigoso, sexista e provido de incapazes personagens femininas. Nos tempos actuais, pedimos mulheres de carácter, detentoras de personalidade e sobretudo, determinação. No caso de sociedades ultra-conservadoras, todos nós solicitamos a crítica como a especiaria das eventuais narrativas. Nesse aspecto, quem não se lembra de Mustang? A obra onde cinco raparigas turcas tentam desafiar destinos traçados por matrimónios arranjados numa comunidade "governada" por homens.

 

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Contudo, no caso de Cartas de Amor são Ridículas (título inspirado num poema de Álvaro de Campos, heterónimo do poeta português Fernando Pessoa) não existe sequer uma tentativa de sátira (visto tratar-se de uma comédia de costumes), mas sim uma cumplicidade descarada da realizadora e argumentista, Alvarina Souza e Silva, aos ideais misóginos que o filme não tem vergonha de expor. Tudo corre muito mal aqui, um cruzamento entre Orgulho e Preconceito e Cyrano que resulta na patética tentativa de branquear o matrimónio como a mais pura das etapas humanas, mesmo quando a violação é aqui sugerida, porém, ofuscada simplesmente pela ideia de um casamento como uma garantia de sobrevivência.

 

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São doutrinas parolas, ultra-conservadoras do século passado e ainda a religião novamente a apresentar culpas no cartórios que tornam esta "filme" ofensivo e desprovido de qualquer denúncia social ou algo do género. Não, simplesmente é um "faz-de-conta" de que tudo aquilo apresentado é correctíssimo e que a mulher não possui qualquer tipo de voz em todo este cenário. Agora, passando para o resto, porque um filme não deve ser apenas construído com base numa crença, Cartas de Amores são Ridículas serve ainda outras ofensas em termos técnicos, interpretativos e argumentativos.

 

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A primeira, evidencia a urgência de oferecer um tripé à realizadora nas suas fracassadas tentativas de steadycam, leccioná-la a uma rápida introdução quanto à edição e a necessidade do tempo nas passagens entre planos e, por fim, demonstrar como é indecente apresentar um produto sem qualquer brilho quer fotográfico ou de sonoplastia. No segundo ponto, os atores são automáticos sob as suas pele de "bonecos" ocos, pseudo-emocionais e motivados por uma argumento (terceiro ponto) sem noção de construção quanto às personagens, nem a inserção do conflito dramático. Por último, devemos consolar Fernando Pessoa, que imensas reviravoltas deve ter efectuado na sua tumba perante à utilização indevida dos seus poemas. Tudo ao serviço de tamanha dose de amadorismo. Resumidamente, eis um filme ridículo e não as supostas cartas de amor. Enfim!

 

Filme de abertura da 9ª edição do FESTin: Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa

 

Real.: Alvarina Souza e Silva / Int.: Roberto Bonfim, Carolina Oliveira, Sandra Barsotti

 

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2/10

publicado por Hugo Gomes às 01:21
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3.5.16

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O FESTin prepara mais uma edição repleta de cinema afluente de língua portuguesa. Nesta 7ª estadia no já habitual Cinema São Jorge, o festival apresentará uma mostra composta por 74 filmes, incluindo longas e curtas-metragens ficcionais e documentais, e um rico leque de trabalhos realizados por mulheres. Entre as novidades deste ano conta-se com a recém-criada secção FESTin Arte, que visa o lado mais experimental e alternativo do cinema lusófono. O festival decorre entre 4 e 11 de Maio.

 

O certame arrancará com a estreia As Cartas de Amor são Ridículas, de Alvarina Sousa e Silva, cujo título é inspirado num poema de Fernando Pessoa e que centra na história de um pai e cinco filhas, todas elas com nomes de flores e com idades recomendáveis para casar. Na competição destaca-se ainda o thriller de vingança, Mundo Cão, que marca o regresso de Marcos Jorge, o mesmo realizador de Estômago, considerado como um dos filmes surpresas de 2007, Zenaida, o drama cabo-verdiano de Alexis Tsafas e Yannis Fotou sobre uma mulher que torna-se vitima de uma rede de tráfico de humanos e ainda Ausência, de Chico Teixeira, com estreia mundial na secção Panorama do Festival de Berlim.

 

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Quanto aos documentário, muitos serão os temas abordados pelas seis longas-metragens presentes na respectiva competição. Nas recomendações surge Touro, de Larissa Figueiredo, a viagem da actriz portuguesa Joana de Verona à Ilha de Lençóis, situado no litoral norte do Brasil, em busca dos rasto mitológicos de D. Sebastião. Estreado em Roterdão e com passagem em Locarno, Touro poderá ser encarado como um herdeiro do cinema docuficcional de Miguel Gomes visto que, segundo a realizadora, o cineasta português foi o seu mentor. A arte como cura terapêutica de Olhar de Nise, de Jorge Oliveira e Pedro Zoca, o drama da deportação em Deportados, de Paulo Cabral, e a focada realidade do interior das penitenciárias brasileiras em Central, de Tatiana Seger e Renato Dorneles, são outras recomendações a terem em conta na secção documental.

 

Quanto ao FESTin Arte, que segundo a organização foi criado para servir de espaço para “propostas estimulantes e fora do circuito convencional”, serão apresentados três filmes que tão bem esboçam a experimentalidade e criatividade do cinema em geral. O filme Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois, de Petrus Cariry, o confronto emocional de uma mulher ao lidar com a anunciada morte do seu pai, inaugura esta nova secção.

 

Mesmo com a homenagem ao 20 anos de CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), o FESTin terá uma programação com predominância brasileira, muito graças à Mostra de Cinema Brasileiro, que nesta edição salientará a chamada Nova Geração. Um leque de obras distribuídos em variados géneros e alguns deles improváveis na historia do festival como thriller sobrenatural, A Floresta Que Se Move, de Vinícius Coimbra.

 

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FESTin 2016: Fernando Pessoa inspira filme de abertura!

 

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publicado por Hugo Gomes às 23:28
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12.4.16

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De 4 a 11 de Maio, no já habitual espaço do Cinema São Jorge, decorrerá mais uma edição do FESTin: Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa, cuja programação foi hoje divulgado em conferência de imprensa no Hotel Florida, em Lisboa. Esta 7ª edição, tem como principal novidade o FESTin Arte, uma secção dedicada a um cinema mais alternativo e experimental.

 

Contando com mais de 74 filmes, desde curtas a longas-metragens, a selecção arrancará com As Cartas de Amor são Ridículas, um trabalho de Alvarina Sousa e Silva inspirado num poema de Fernando Pessoa e que centra na história de um pai e cinco filhas, todas elas com nomes de flores e com idades recomendáveis para casar. Uma comédia dramática que abrirá a Competição de Longas, composta por 15 filmes incluindo o cabo-verdiano Zenaida, de Alexis Tsafas e Yannis Fotou, sobre uma jovem mulher "acorrentada" ao tráfico humano, e a co-produção luso-brasileira, História de Alice, dirigido por Oswaldo Caldeira, onde um realizador brasileiro procura as suas raízes portuguesas.

 

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Quanto à secção competitiva de documentários, destaca-se Touro, a obra de Larissa Figueiredo. Estreado no festival de Rotterdão, esta é uma das propostas mais aliciantes do certame, tratando-se numa viagem da actriz portuguesa Joana de Verona à Ilha de Lençóis, situado no litoral norte do Brasil, em busca dos rasto mitológicos de D. Sebastião. No Olhar de Nise, o documentário de Jorge Oliveira e Pedro Moca, a arte é servida como terapia a doentes do foro psicológico.  

 

Ainda uma Homenagem aos 20 anos da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), uma mostra diversificada de produções oriundas dos países abrangidos pela dita colectividade, e as já tradicionais Mostra Festinha (dedicado ao mais novos), Competição de Curtas-Metragens, a Mostra de Inclusão Social e FESTin + (um ciclo de cinema dedicado à terceira idade).

 

Ver programação completa aqui

 

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publicado por Hugo Gomes às 20:00
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19.4.15

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Quando o cinema é um jogo para alguns!

 

Prisão e mulheres no cinema já são por si temas de exploitation, temas, esses que foram muito popular nos anos 60 e que conseguiram perdurar até aos dias de hoje graças a alguns exemplares. Mas em Jogo de Xadrez, a primeira longa-metragem de Luis Antonio Pereira, a temática algo trash desses mesmos produtos é aqui invocada de forma involuntária.

 

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O que reside nesta fita protagonizada por Priscila Fantin (popular em Portugal devido ao trabalho em inúmeras novelas da Globo) é somente uma caricatura do termo. Depois é o enredo que desenvolve a partir de pedagogias e morais dignas de telenovela que entrelaçam com a denuncia "à la direitos humanos" sob bonecos unidimensionais. Aliás, chamar disto "bonecos" é pouco, basta evidenciar o leque de pseudo-personagens que nunca saem do registo de estereotipo e maniqueísmo, munidos por diálogos tão risíveis e pueris como o próprio argumento (também ele da autoria do realizador).

 

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Parece que Luis Antonio Pereira encontra-se mais interessado em mimetizar um mundo de faz-de-conta do que resolver elaborar um quadro credível povoado por personagens respiráveis. Infelizmente, nem os mínimos foram requisitados pois a realização é pura mediocridade e isente de ênfase dramática, que era seu dever evocar para benefício do seu conjunto de bonecos. Sim, existe aqui qualquer coisa de penoso em assistir um desperdício tão prolongando de material.

 

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Felizmente, parece que os envolvidos aperceberam de imediato o "potencial" da obra e não excederam o filme para além dos 60 minutos de duração. Até esse curto tempo enfraquece o enredo e os devidos personagens, todos eles encabeçados por atores mal direccionados. O que resta nisto tudo, segundo o realizador, é a denuncia social. Porém, esse mesmo não ostenta seriedade porque simplesmente o anexo não apela a tal atitude. Para um filme destes, a prisão perpétua era pouco.

 

Filme visualizado na 6ª edição do FESTin: Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa

 

Real.: Luis Antonio Pereira / Int.: Priscila Fantin, Carla Marins, Antonio Calloni

 

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2/10

publicado por Hugo Gomes às 21:11
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15.4.15

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O último filme de Marcelo Galvão, A Despedida (ler crítica), foi considerado pelo júri da 6ª edição do FESTin: Festival de Cinema Itinerante de Cinema Português, como Melhor Longa-Metragem da Competição, curiosamente o anterior filme do realizador (Os Colegas) venceu o Prémio de Público no mesmo Festival, 2 anos atrás. Enquanto isso, o Prémio de Melhor Realizador seguiu para José Eduardo Belmonte, que apresentou um vertiginoso olhar para uma das perigosas favelas do Rio Janeiro, no filme Alemão, também vencedor da menção honrosa.

 

No campo dos desempenhos, o amargo adeus de Nelson Xavier conquistou o júri em A Despedida (Melhor Actor) e a enclausurada Priscila Fantin foi a vencedora do campo feminino (Melhor Actriz). Destaque também para o português Lura (ler crítica), de Luís Brás, que foi eleito pelo público como Melhor Longa-Metragem e Setenta (ler crítica), de Emília Silveira, como Melhor Documentário.

 

Depois dos anúncios dos palmarés, seguiu-se a projecção da cinebiografia do escritor brasileiro Paulo Coelho, Não Pare Na Pista.

 

 

FICÇÃO – Longas-metragens

 

Melhor Longa-Metragem: A Despedida

Menção Honrosa: Alemão

Melhor Actor: Nelson Xavier (A Despedida)

Melhor Actriz: Priscila Fantin (Jogo de Xadrez)

Melhor Realizador: José Eduardo Belmonte (Alemão)

Melhor Longa-Metragem eleita pelo Público: Lura (de Luís Brás)

 

 

FICÇÃO – Curtas-Metragens

 

Melhor Filme: Urbanos (de Alessandra Nilo)

Menção Honrosa: Balança (de Rui Falcão)

Menção Honrosa: O Mal e a Aldeia (de David Serôdio e Diogo Lima)

Melhor Curta-Metragem eleita pelo Público (ex-aequo): A Boneca e o Silêncio (Carol Rodrigues)

Melhor Curta-Metragem eleita pelo Público (ex-aequo): O Mal e a Aldeia (de David Seródio e Diogo Lima)

 

 

DOCUMENTÁRIOS

 

Melhor Documentário: Setenta (de Emília Silveira)

Menção Honrosa: Sem Pena (de Eugenio Puppo)

Menção Honrosa: Qitupo, Hoyé (de Chico Carneiro e Rogério Manjate)

Melhor Documentário eleito pelo Público: Água para Tabatô (de Paulo Carneiro)

 

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 22:05
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15.4.15

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Isente de ar!

 

Chris (Marisol Ribeiro) é uma jovem que sofre de apneia do sono, por outras palavras, dormir é um risco para a rapariga visto que a insuficiência respiratória é frequente. Para prevenir esses tormentos da noite, Chris penetra num mundo de drogas, sexo e álcool, tornando todo os dias numa festa interminável.

 

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Apneia afigura-se no mesmo registo de Bling Ring, de Sofia Coppola, e do subvalorizado Spring Breakers, de Harmony Korine, na dissecação de uma geração niilista e "acorrentada" a vínculos de futilidade e luxúria. Mas ao contrário dos exemplos acima referidos, o filme de Maurício Eça peca pela sua constante falta de carácter e de primazia em abordar tais assuntos. Para além disso, o filme assume-se como um conto com fins morais, onde o conjunto de personagens não são mais que mero protótipos novelescos com evidentes fobias em devotarem-se como "figuras vazias" num cenário propício. Os atores fazem o que podem perante esse sacrilégio de "bonecos" sistematizados por lugares-comuns da TV, ou sob outras tendências, como a expansão das webséries, visto que esse formato não fomenta intrigas complexas para benefício do seu público-alvo (impaciente e exaustivamente consumidor).

 

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Já que falamos de webséries, é curioso que muitos trabalhos ostentam um rigor técnico mais apresentável que este Apneia. A sua estrutura de planificação é académica o suficiente para não salientar nenhuma prova de vivacidade no ramo da direcção, para além de mudança de planos injustificáveis que atrapalham, e muito, a visualização do espectador. Mesmo tendo temáticas joviais e debates sociais pelo meio, Apneia não revela esse instinto inconsequente nem essa força vital, o que existe aqui é somente um amontoado pastiche, povoado por personagens desequilibradas repletas de conflitos pessoais resolvidos num ápice, sem nunca ter espaço para ecoarem na narrativa.

 

Filme visualizado na 6ª edição do FESTIn: Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa

 

Real.: Mauricio Eça / Int.: Fernando Alves Pinto, Thaila Ayala, Maria Fernanda Cândido, Fernando Alves Pinto, Gustavo Duque

 

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3/10

publicado por Hugo Gomes às 20:13
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O último caso! Quando o Cinema é pessoal e maduro!

 

Depois da ingenuidade vinculada ao amor pelo cinema na "road trip" Os Colegas, Marcelo Galvão aposta desta vez num retrato da ausência dessa mesma inocência, aqui perdida porque o tempo assim o quis. Tal como o titulo refere, todo o filme é uma amarga despedida sob a ilusão de um doce adeus. Baseado em factos verídicos, esta é a história de Almirante (Nelson Xavier), um idoso que certo dia acorda com uma nova energia, uma premonição de que os últimos momentos na Terra estão para vir. Com essa mesma energia, decide envergar por um conjunto de últimos actos, entre os quais fazer amor com a mulher da sua vida (Juliana Paes), a qual é 40 anos mais nova.

 

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Os primeiros 15 minutos de película revelam uma força esquecida na História do Cinema. Nunca um filme foi tão fiel em abordar a decadência humana, esboçando em episódicas superações pessoais que resumem a acção e o conflito da narrativa. A liderar esse realismo, o actor Nelson Xavier é um pedestre credível, munido de uma força de acting verdadeiramente genial. Esse desempenho é subtil e reconfortante para com o espectador, como se o preparasse para uma derradeira redenção. Como alicerce da sua interpretação, Juliana Paes é invadida pela tal subtileza, numa prestação doce e sensualmente frígida (apesar de tudo). Os momentos em que partilham o ecrã revelam uma cumplicidade arrebatadora e inseparavelmente melancólica.

 

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A realização de Marcelo Galvão frisa esse realismo comportamental, ao mesmo tempo que detém uma câmara receosa em encarar os seus atores frontalmente, como se isso transmitisse um atalho aos "braços" da morte. "O problema não é ser velho, mas sim o de ter sido jovem", expressa Almirante, justificando a sua disfarçada saudade pelos tempos de juventude e salientando a sua vontade de vida, que se encontra de momento refém de um escasso prazo de validade. A demonstrar que é possível fazer um grande filme sob um protagonista da terceira idade, compondo a simplicidade e a conivência entre câmara e actor. Imperdível e jovial!

 

Filme visualizado no FESTin: Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa

 

Real.: Marcelo Galvão / Int.: Nelson Xavier, Juliana Paes, Amélia Bittencourt

 

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10/10

publicado por Hugo Gomes às 00:00
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12.4.15
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Isolado!

 

Lura é a história de náufragos voluntários, reféns dos fantasmas do passado, eremitas que se tornam cúmplices da solidão. Manuel (Filipe Vargas) é o dito náufrago, não numa ilha, mas de uma casa abandonada que comporta como um pedaço relevante do seu passado, o qual o persegue incessantemente, sendo a sua única forma de luta e reconstrução dos laços corrompidos. Luís Brás compõe aqui a sua primeira longa-metragem, um objecto pessoal que assenta no expressionismo das imagens e na linguagem corporal das suas sequências. Além disso, é um risco cinematográfico onde é possível ver o desenvolvimento do realizador, que a olhos vistos passa de um mero académico a um poeta visual com infinita abordagem.

 

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Trata-se de um filme que recorre várias vezes às influências do fantástico. Tal como no clássico de Robert Wise, The Haunting (1963), a casa de Lura expõe um magnetismo assombroso, uma personalidade transversal e fortemente pesada que se sente na personagem. Mas essa força espiritual não se encontra no respectivo imóvel. Luís Brás herda a força expressiva das mãos e gestos de um M, de Fritz Lang, e, graças a tal, cria uma das sequências mais fantasmagóricas do cinema português recente. Para além do cenário, da atmosfera conseguida e toques metafísicos aludidos às diversas realidades, Lura é um portento técnico. Nesses termos, vale a pena salientar a fotografia de Leandro Ferrão (com acentuados toques de loucura) e a sonoplastia envolvente por João P. Nunes.

 

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Lura funciona como uma revelação do cinema português e uma determinação de crescimento pessoal acompanhado por um afecto fraterno à arte de fazer cinema. Mas não deveríamos tecer tantos elogios a Luís Brás, até porque muito trabalho deve ser feito, nomeadamente em encontrar um elo entre a expressão fílmica e a credibilidade dos actos (diria que a loucura assenta demasiado cedo no seu protagonista). Por enquanto, uma coisa é certa. Lura é hipnótico e como primeira obra, tenebrosamente bela.

 

Filme visualizado na 6ª edição do FESTin: Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa

 

Real.: Luís Brás / Int.: Filipe Vargas, Ana Padrão, Rita Martins

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 18:07
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