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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

O pecado mora ao lado ... ou simplesmente, um adeus a Rogério Samora!

Hugo Gomes, 15.12.21

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Duas silhuetas banhadas pelo lusco-fusco - Rogério Samora e Carla Chambel - nos meandros de um estendido jogo de sedução e um constante “flirt”, interrompem o silêncio com uma questão … ou diríamos melhor, uma adivinha: “Quantos são os pecados mortais?Rogério Samora responde à sua parceira errante somente com os dedos, fazendo a numeração de sete, e o qual é respondido automaticamente pela questionadora com um mordiscar num desses dedos esticados. Samora, confuso, lança-se noutra e encadeada pergunta: “Quantos são?”. “São 8”, acrescenta Chambel. “Qual é o oitavo?”. 

És tu, a dizer o meu nome”.

Esta particular sequência de “98 Octanas”, uma das muitas colaborações do ator com o realizador Fernando Lopes, tornou-se na imediata imagem surgida na minha mente após a notícia da sua morte. Nela encontro as especialidades pelo que tornaram Samora num dos mais respeitados da sua área, a voz ora sedosa, ora abrutalhada, capaz de ofuscar algazarras e o seu interminável carisma que em conjunto com personagens dúbias e vilipendiadas (talvez um leque predileto na sua carreira) colocavam o espectador em cheque quanto aos seus dotes empáticos. Rogério Samora não foi apenas um ator de televisão nem o vilão Scar do “Rei Leão” na elogiada versão dobrada, foi um personagem completo, sagaz e munido de experiência com alguns dos melhores mestres do cinema português. Mas poderíamos ficar somente com a sua estadia no universo de Lopes, só por aí tínhamos os mais iluminados palcos que alguma vez pisou.

 

Rogério Samora (1959 - 2021)

Uma eterna derrota chamada Cinema Português

Hugo Gomes, 25.05.20

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Quando um realizador de cinema tenta convencer um pugilista profissional a perder perante um ator de pelicula, eis um momento que, não só celebriza The Lovebirds, de Bruno de Almeida, mas como também resume a resistência prolongada do cinema português na sua longevidade. A soturnidade, o saudosismo e o nosso eterno fatalismo, elementos e vários que se aliam dando origem a uma utopia que se dá pelo nome de Portugal cinematográfico. Aqui, o realizador, de cigarro na mão e brandy na outra, é nada mais, nada menos que Fernando Lopes, um dos guerreiros da primeira frente do Cinema Novo e um experiente no que requer ao derrotismo enquanto signo de vivência.

There’s a certain beauty in defeat” – a tradução universal para todo um estado de alma que apenas o português conhece e bem. Gostamos de pensar na derrota porque é através dela que deparamos com a nossa (i) mortalidade.

Dancemos, porque a derrota é inevitável!

Hugo Gomes, 01.06.18

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“Existe uma beleza triste na derrota”, Fernando Lopes numa das suas viradas a ator, neste caso, em uma presença num dos filmes de Bruno de Almeida [“The Lovebirds”], condensou toda uma obra a um singelo e sentido reparo. Foi nas recordações ao seu “Belarmino” que Lopes, envergado a personagem-tributo, falou-nos do boxe com uma “vivaça melancolia”, um fado essencial, mas destruidor da alma humana. Não é preciso ser pugilista para encarar o boxe como o mais romantizado dos desportos no cinema e Bruno de Almeida guardou para si tais signos para impor a sua investigação no projeto seguinte – “Bobby Cassidy” – um documentário por si vergado em melancolia e compaixão a “Belarmino”.

De boxe e pugilistas o seu novo filme nada tem, mas o desporto de “murraças” e “ganchos” é somente uma aura metaforizada neste “Cabaret Maxime”, o tango entre dois e o pesar do derrotado, não pelo ringue, mas pela vida, mais precisamente, as mudanças que o atingem. Porém, foi no exato filme que Fernando Lopes debitou tal citação, que Michael Imperioli, entre o quotidiano lisboeta, é encantado por uma das sereias da cidade, Ana Padrão. O encontro dos dois levará ao desfecho do filme-mosaico de 2007. O casal reencontra-se, ou diríamos antes, nós o reencontramos, agora envelhecidos e cansados. Ele, Imperioli, o gerente de um cabaret em vias de extinção, mas que resiste arduamente às “modernizações” da noite hedonista. Ela, Padrão, é agora uma “velha” estrela de palco, Stella (“que significa estrela”), perdida e sem norte, por entre o passado glorioso e o futuro incerto.

O casal “brilhante” de “The Lovebirds” é transformado agora em dois seres autodestrutivos que deambulam por entre um Cais do Sodré convertido a “não-lugar”. Atmosférico e sobretudo fascinado pelo seu próprio universo, Almeida assume-se como náufrago nestas andanças noturnas, por entre o veludo vermelho que compõe o pano do seu espetáculo e pelos novos freaks que se pavoneiam em iluminações-holofotes. São os circos dos novos tempos … correção … dos tempos passados. Se existe em “Cabaret Maxime” a apetência de recriar um biótopo que nos agarre enquanto espectadores, sem esquecer pelo meio as menções do cinema narrativa (storyteller como muitos gostam de “estrangeirar”), existe também uma melancolia derrotista que nos confronta, mais do que confortar (apesar de desejarmos que a nossa vida contenha as intervenções de John Ventimiglia). É deixar para trás os vestígios de épocas expiradas para prevalecer o modernismo ou o modismo de ocasião, temática que parece afrontar as divagações de Imperioli por entre a montra de bares e danceterias.

O grande senão destes convites irresistíveis por ambientes povoados de criaturas fora de horas é o fascínio em demasia de Bruno de Almeida na sua criação cénica – não continuando, sobretudo, essa experimentação sensorial sem cortes nem espaços para acolher a dita narrativa, completamente enfaixada em finais fáceis. Porque tal como acontece nos contos da noite, o fácil não é propriamente a palavra que nos acompanha nestas ruas da “amargura”.