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31.1.10

 

A vida é uma estrada!

 

A estrada que é representada neste filme de Federico Fellini, não é mais do que um percurso entre duas figuras de teor trágico cuja inocência é a sua similaridade, cada um expondo à sua maneira. Num tempo em que o nome de Fellini fazia-se sentir no já costurado neo-realismo italiano, um dos seus filmes mais emblemáticos era realizado, La Strada, que funcionava como uma metáfora da vida exposta pela jornada entre uma jovem mulher com distúrbios mentais, Gelsomina  (Giuletta Masina, a mulher do realizador), que fora vendida pela mãe a um artista circense ambulante, Zampanó (Anthony Quinn). Enquanto os dois seguem numa estrada sem fim, são confrontados pelas suas divergências, medos e a repudia social de ambos. Zampano e Gelsomina operam como dois seres inadaptados que se completam não pelo amor, mas pela visão que têm do mundo que os rodeia.

 

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La Strada é um belíssimo exemplo onde não é a chegada que conta, mas sim o percurso, a referida distância destes dois seres que transmitirá o contexto de grande parte do cinema de Fellini, cujo resultado é irrelevante perante os artifícios utilizados para a sua chegada. Negro, realisticamente cru anexando a uma beleza inóspita, nem que seja pela música composta por Nino Rota (que viria a ser o compositor musical predilecto da filmografia de Fellini), com interpretações envolventes por parte de Giuletta Masina, provavelmente a actriz com os olhos mais expressivos do cinema clássico, Anthony Quinn, num "enfant terrible" do contexto do teor fabulista que o filme parece encontrar, e também Richard Basehart na pele do The Fool, uma personagem tão deslocada ao tecido modular desta obra. À semelhança de qualquer figura de um conto de Lewis Carol, este louco recheado de diálogos “meanless”, aufere uma sapiência quase metafórica em relação às leis do Mundo civilizado, este arquétipo irá ser posteriormente reproduzido na carreira do realizador (quem não se lembra do "bobo" leitor de mentes em 8 1/2)

 

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Fellini se comporta como um mero espectador e mergulha de cabeça na pobreza intrínseca de Itália, onde mais uma vez a religião é dona de palavra, porém, aqui não a retrata como um veneno mental como nos seus filmes seguites, mas sim o seio da bondade, quase exclusiva em todo o percurso. A última sequência, fenomenal, devo dizer, exibe-nos a crueza que a vida por vezes lecciona, onde a inocência é indiscutivelmente a primeira vitima a ser abatida neste trilho de almas. La Strada venceu o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1957 e o Leão de Prata do Festival de Veneza em 1954, tornando-se uma obra insólita e ímpar do cinema e da carreira de Fellini, assim como uma das suas matrizes.

 

“For... I don't know. If I knew I'd be the Almighty, who knows all. When you are born and when you die... Who knows? I don't know for what this pebble is useful but it must be useful. For if it’s useless, everything is useless. So are the stars!”

 

Real.: Federico Fellini / Int.: Anthony Quinn, Giulietta Masina, Richard Basehart, Aldo Silvani, Marcella Rovere, Livia Venturini

   

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A não perder – Um dos filmes mais emblemáticos de Fellini

 

O melhor – a beleza triste desta fita

O pior – não existir muitos filmes destes nos dias de hoje; ternurentos, mas tristes.

 

Recomendações – La Dolce Vita (1960), Natural Born Killers (1994), Ladri di Biciclette (1948)

 

Ver Outras Fontes

Flavio’s World – La Strada (1954)

 

10/10

publicado por Hugo Gomes às 18:29
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25.1.10
25.1.10

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A vida num filme, um sonho numa fita!

 

Guido Anselmi (Marcello Mastroianni) é um realizador bem sucedido e de nome internacional que se encontra numa fase negra quanto a inspiração. Perdido entre uma crise de identidade e numa loucura artística, Guido vê a sua vida pessoal a desmoronar, enquanto, incansavelmente, procura aquilo que havia perdido, ou talvez aquilo que nunca havia tido. 

 

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Fellini 8 ½ é descrito como uma autobiografia do próprio realizador Federico Fellini, essa personalidade marcante do cinema italiano que invoca em Guido Anselmi, um alter-ego ao serviço de um oculto testamento. Uma visão intrínseca de um filme que cresce de dentro para fora e que convida o espectador a encontrar-se em frente a um pleno espelho de misticismo e de palavras soltas, reorganizadas na tendência de um onírico que desafia as ditas convenções de neo-realismo. Nesse foco com a arte executada e inovada por italianos, o surrealismo é bem-vindo, fomentando fantasmas e alimentando fantasias, pecados e ideais de um homem que tal como a personagem representada por Mastroianni se auto-titula como um dos grandes mentirosos, arrastado por uma vida sucessivamente guiada por mentiras e de ilusões imaginadas sob o efeito alucinogénico.

 

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Depois de La Dolce Vita, onde o dito neo-realismo dá braços a uma parábola achincalhado à comunidade artística, em 8 1/2, Fellini parece querer destroçar não só, o cinema italiano, assim como a sua própria posição enquanto artista mundial. A falta de inspiração e essa jornada assumida, não é só mais que macguffins para um reencontro pessoal do nosso "herói", mais perdido do que achado. Entre linhas, a crítica, réstias deixadas de A Doce Vida são emanadas por um desleixado fatalismo, até porque Fellini é um mero mortal, induzido pela sua posição, e estatuto assim adquirido, mas igualmente honesto para compreender que está longe de se encontrar acima de qualquer Homem. Entre os seus pecados, a luxúria insaciável, essa fome desgovernada que enquadra-se como o seu maior dilema humanitário e a sua profunda fantasia, essa que não nega e que não esconde dos demais. Através dessa sua grande "falha", enquanto herege que se auto-engana como homem de Deus, as memórias deslavadas, retratadas sob uma linguagem cinematográfica e o próprio signo de Fellini, a sua grande mentira que funciona como a sua verdade adulterada.

 

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8 ½ reside assim como um tributo do autor para ele próprio, onde deposita nele todo um Homem que só ele conhece, a obra de uma vida, assim por dizer. Por isso uma vez dentro de sua mente somos quase como obrigados a repudiar o seu ofício surrealista que aborda os seus sentimentos passados, cheios de simbolismo e representações fílmicas que de certo nenhum outro ser vivo poderá decifrar, nem sequer tentar ou pretensiosamente citar. Porque no fundo tudo aqui filmado e concebido foi apenas criado para agradar, não um vasto publico, mas sim um único Homem, o próprio Fellini. Porém, Marcello Mastroianni, um dos actores predilectos do italiano realizador, conseguiu de certa forma abordar uma personalidade complexa e inerentemente insatisfatória, se era isso o pretendido de Fellini, não saberemos. Contudo, é um desempenho e tanto, senão honroso de um ventríloquo assumir-se temporariamente como o seu ventriloquista.

 

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Voltando ao bem comum que Fellini expressa constantemente, a Bela Mulher Italiana, representada por um belíssimo leque de dotadas actrizes que vão desde Claudia Cardinale até a uma exuberante Anouk Aimée, como Luisa Anselmi, esculturas vivas que servem de separadores para uma vida indecifrável readaptada sob código morse. No final, como cita Jean Rougeul, que compõe um crítico de cinema “para os produtores, um filme falhado é um factor económico, para o realizador representa a beira de um fim”. Felizmente, 8 1/2 foi uma catarse de um realizador, longe do fracasso, e perto da cumprida meta pessoal. Um dos melhores filmes de Federico Fellini e provavelmente uma das mais enigmáticas obras do Cinema Mundial.

 

"Mie care, la felicità consiste nel poter dire la verità senza far mai soffrire nessuno."

 

Real.: Federico Fellini / Int.: Marcello Mastroianni, Claudia Cardinale, Anouk Aimée, Sandra Milo, Rossella Falk, Jean Rougeul

 

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A não perder – um espelho distorcido e indecifrável da incontornável figura de Federico Fellini

 

O melhor – ser um filme diferente dos outros

O pior – ainda existir gente que pergunta “Federico quem …?

 

Recomendações – La Dolce Vita (1960), Il Casanova di Frederico Fellini (1976), Nine (2009)

 

Ver Outras Fontes

Cinema is My Life – 8 e ½

Split Screen – 8 1/2, por Tiago Ramos

 

 

10/10

publicado por Hugo Gomes às 23:35
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La Strada (1954)

8 1/2 (1963)

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