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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

O Hotel da Tristeza

Hugo Gomes, 04.04.24

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Esperemos que Polanski faça mais um filme para além deste, não vá o destino pregar uma partida e empurrar-nos ao fado de que aquele último plano seja a imagem-epítome da sua carreira, uma representação da bizarria e do mau gosto que este "Hotel Palace" ("The Palace") apresenta como sua tonalidade. Uma imagem antecedendo à ardente felicidade de Fanny Ardant (perdoem-me o trocadilho rasteiro) e que, mesmo tirando uma solta gargalhada de espanto ou de embaraço, somos induzidos ao fundo negro dos créditos finais. Será o “bug”, como estes super-ricos amedrontam só de o ouvir? Roman Polanski vai do aproveitamento histórico de "J’Accuse" (um filme mais sobre ele próprio do que o episódio que adapta) a isto, uma sátira negra, e bem negra, de proveito de classes, as castas representadas num hotel de luxo no meio dos Alpes suíços, em vésperas do ano novo - 2000 - o qual se avizinha mudanças e muito mais as ameaças de um fenómeno, "Y2K", o qual viríamos a conhecer enquanto "bug" por terras lusas.

Mas voltando às classes, é algo bem definido aqui, da ralé composta por camareiras, seguranças, canalizadores e outros operários, aos mordomos e recepcionistas, passando pela pobre e ingénua família vinda de nenhures com propósito de conhecer um parente perdido, contrastando com os ricalhaços, vedetas, cirurgiões plásticos, aristocratas, atores em decadência e trapaceiros, verdadeiras aberrações ou "monstros", em alguns casos, e a ponte dessas antípodas é encarada em forma de gerente do Hotel Palace (Oliver Masucci), a ligação comunicacional e servicial, um teste à sua aparente interminável paciência. São classes que são como água e azeite, não há intenções de os misturar, ao menos que essa felicidade "ardente" (perdoem-me) faça sentir como precoce "happy ending"; contudo, é através deles, dos mais altos, que a jocosidade emprenha em sketches soltos, narrativas entrelaçadas onde só as previsões de Nostradamus e o incansável gerente a tentar resolver trapalhadas ou pedidos exuberantes parece interligá-los.

Roman Polanski faz deste circo de aberrações sem um pingo de novidade, nem sequer ácida sofisticação. É um filme a seguir uma tendência perpetuada, basta recordar "Triangle of Sadness" de Ostlund para ter uma ideia de tom, visto que Polanski não abranda nem acentua o tom escatológico e brejeiro neste retrato satírico, caricaturas a servirem de cromos estereotipados dos "super-ricos". Longe de mim defendê-los, porém, nota-se um facilitismo no uso e abuso destes nos quadrantes cinematográficos, enquanto que esta narrativa em forma de teia conduz-nos a lugar nenhum, sem punchline e sem propósito, apenas caviar em desperdício. 

Réveillon feito, cada um vai à sua vida, e nesta matéria de comédias, Polanski rendeu-se ao banal, ou melhor, ao vulgar. A cena final, esse infame plano, demonstra o quanto cedido e derrotado se tornou.

Reviver o passado não custa, basta ter um cheque chorudo

Hugo Gomes, 21.12.19

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La Belle Époque” pode muito bem ser o novo "crowd pleaser" de Nicolas Bedos (“Monsieur & Madame Adelman”), mas o filme que é descrito nas tão apetecíveis equações da crítica americana como um cruzamento de “The Truman Show” com Eternal Sunshine of the Spotless Mind”, é-nos apresentado como uma subliminar analogia da chamada "nostalgia mercantil".

Poderá ser equívoco, mas vivemos em tempos ultra-capitalistas onde as memórias adquirem um certo valor monetário, um saudosismo ao serviço do empreendedorismo. Basta ver a atual governação da Disney nas bilheteiras com a maioria dos seus sucessos e ainda o mais recente “Star Wars”, com J.J. Abrams como o "rei" da “nostalgia a saldos”.

“La Belle Époque” assenta nesta ideia de saudosismo, neste caso para um reencontro de “amantes” quando um velho cartunista (Daniel Auteuil) requisita um serviço de réplica de memórias (dirigido por um paranoico Guillaume Canet) como escapismo da sua fracassada vida matrimonial. Esta comédia romântica parte desse princípio do valor sentimental que as recordações possuem, capitalizando-as descaradamente para, no final, nos entregar o que muitos filmes entregaram, a lamechice proveniente dos encantos do romance cinematográfico para as massas.

Nada contra, nada a favor, visto que Bedos tem uma realização segura e uma aposta estética confortavelmente atmosférica. E, acima disto tudo, o elenco possui a capacidade de transformar os modelos em seres empáticos (está aqui o papel mais relevante de Fanny Ardant em anos) e os momentos assumidamente “lelouchianos” [relativo ao cinema romântico e caloroso de Claude Lelouch] compensam as mundanas escolhas que o filme fará.

No fim de contas, estamos perante um filme que quer transmitir prazer ao grande público. Para isso há que satisfazê-lo mostrando os lugares-comuns das suas memórias. Sim, porque o conforto das nossas recordações continua a ser um atrativo bem de mercado, mesmo se “La Belle Époque” gosta de jogar com os dois lados desta moeda.

Por entre os sonhos húmidos do sovietismo

Hugo Gomes, 26.01.17

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Num determinado momento de “O Divã de Estaline” (“Le divan de Staline”), uma fotografia do verdadeiro líder soviético é gradualmente sobreposta por uma imagem da personagem homónima encarnada por Gérard Depardieu. Não existem muitas semelhanças entre os dois (o real e o da ficção), mas somente a vontade de recriar e trabalhar a História, tirá-lo do seu estatuto imaculável e intocável, e fazer o Cinema exercer-se como um poço de criatividade em vias de exploração.

O homónimo livro de Jean-Daniel Baltassat (uma perspectiva freudiana a uma das figuras incontornáveis da nossa História) é transportada para o grande ecrã pelas mãos de Fanny Ardant, a emblemática atriz que teima em deixar a sua marca como realizadora. A sua terceira longa-metragem vem inicialmente evitar os “becos sem saída” e o pedantismo “farsolas” de Cadências Obstinadas. Onde antes havia vazio emocional, agora há um outro sob o desejo de ser preenchido, como uma tela aguardando pelas suas cores. É nesse aspecto que o filme vem ganhando a sua devida forma. Assume-se então uma representação de um pedaço de História vencida, onde o teor psicológico aventura-se acima da veracidade dos factos.

Há um regresso à ritualidade de “Cinzas e Sangue” (“Cendres et Sang”), aquele fascínio pela plasticidade do organismo fílmico e a aspiração pela arma mais potente do teatro: a sua recorrente imaginação, aquele “faz-de-conta” na recriação. Talvez seja por isso que Depardieu funciona simbióticamente como uma alternativa staliniana, mais do que as vestes camaleônicas que um qualquer biopic de Hollywood tentaria culminar.

Neste universo, o ator é o perfeito Estaline, numa versão que anseia respirar a breve emancipação. Um homem frio, calculista, inteiramente regido às ideologias criadas por ele próprio e estabelecidas no seu regime, um reinado com tamanho medo. O líder soviético espera aqui o seu momento de fragilidade, a desmistificação dos métodos de Sigmund Freud – a psicanálise – que o próprio considera charlatanices igualmente competentes que “roubam segredos a burgueses ricos” do outro lado da Europa. As sessões improvisadas, ensinadas no momento, servem de catarse para a desconstrução dessa mesma personalidade.

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Em contracampo, surge Emmanuelle Seigner como Lídia, a referida improvisada “psicanalista”, a mulher “privilegiada” no seio afetuoso de Estaline, encarada como uma “ponte quebradiça” entre a emocionalidade resgatada do seu líder. As duas figuras constituem dois vértices de um triângulo formado por ódio / amor / medo, completado pelo pintor Danilov (Paul Hamy), um artista reprimido por uma expirada inspiração. Mas este triângulo é isósceles, dois lados servem como “sessões” de teor psicanalista a uma só figura, e a esta altura o leitor já se apercebeu qual sai beneficiada neste registo.

Mesmo que a psicologia não esteja no ponto (uma ciência não exata neste filme) é indiscutível o passo em frente que Fanny Ardant dá na sua carreira de direção. “O Divã de Estaline” é, até à data, a sua obra mais completa, concisa e sobretudo, cinematográfica. Acreditando que o Cinema é uma arte de criação desprovida de rédeas, eis a minha saudação a Madame Ardant!

Cadences Obstinées ... a obstinar “talento”

Hugo Gomes, 31.03.14

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Cadences Obstinées marca o segundo trabalho da atriz Fanny Ardante como realizadora, a última das musas de François Truffaut e o motivo de vénia no "La Grande Bellezza" de Paolo Sorrentino, quatro depois da sua estreia em Cendres et Sang. Enquanto no seu primeiro produto, a diva usufruía das influências teatrais para esboçar um filme metódico e agarrado a ciclos (onde a estética é acima de tudo valorizada), nesta pseudo-intelectualidade remetida a “parte alguma” assenta puramente no artístico das suas imagens sem possuir decerto, palavras para o preencher.

É a história de amores perdidos, entregues com paixão mas dissipados pelo tempo e pelo ócio, que nos transporta para um triângulo amoroso a régua e a esquadro onde personagens e interesses são substituídos por “bonecos” automatizados sob consciências vazias. Em Cadences Obstinées, produzido por Paulo Branco, tudo soa a falso, a presunção intelectual escorrida sem mensura, a citação de frases algures entre a pretensão poética ou o somente “pacóvio” sem dó nem piedade, os atores náufragos (Asia Argento por outro lado comete jogging sem compaixão) e uma intriga esgotada a fim de 10 minutos.

Sim, é tudo perda de tempo, é o caminhar sob disfarces e mantos com Fanny Ardant a autoproclamar-se de autora, sem o conhecido básico de sê-lo nem as razões para tal, a esconder-se no improviso experimental a fim de evitar a sua inutilidade. Ao menos poderia ter tirado partido da sua experiência enquanto esteve ao lado de cineastas de vanguarda como Truffaut, Resnais ou Varda, assim saberia verdadeiramente transgredir as regras pelo qual muito vezes o cinema encontra-se acorrentado, mas “bolas!” nem oito nem oitenta.