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Título
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15.4.18

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Foi divulgado o trailer de Mary Shelley, o novo projeto da realizadora saudita Haifaa al-Mansour (Wadja) que remete-nos á juventude da homónima escritora, que desafiou toda uma conservadora sociedade ao escrever a tão célebre ficção Frankenstein. O filme focará na sua relação com o poeta Percy Shelley.

 

Elle Fanning (Neon Demon) é a protagonista. Maisie Williams e Douglas Booth encontram-se também no elenco. Mary Shelley foi apresentado no último Festival de Toronto, tendo estreia prevista para maio nos EUA e em junho no nosso país.

 


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publicado por Hugo Gomes às 16:28
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6.4.18

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Han Solo: Uma História de Star Wars será exibido no próximo Festival de Cannes. O filme assinado por Ron Howard que decorre antes dos eventos da trilogia original de Star Wars, tem projeção especial no tão cobiçado evento cinematográfico no dia 15 de maio.

 

Com estreia marcada para dia 24 em Portugal, Han Solo: Uma História de Star Wars conta no elenco com Alden Ehrenreich, Woody Harrelson, Emilia Clarke, Donald Glover, Thandie Newton, Phoebe Waller-Bridge, Joonas Suotamo (como Chewbacca) e Paul Bettany. Esta prequela focará no primeiro encontro entre o famoso mercenário, anteriormente interpretado por Harrison Ford, e o seu comparsa "Chewie".

 

Em relação ao Festival de Cannes (8 a 19 de Maio), esta não será a primeira vez que um filme da saga intergaláctica integra a programação. Em 2002 e 2005 os episódios II (Ataque dos Clones) e III (A Vingança de Sith), respetivamente, tiveram as honras de ser apresentados em Fora de Competição.

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 13:27
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11.3.18

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Black Panther torna-se no 33º filme a conquistar a casa dos mil milhões de dólares rendidos em box-office. O novo êxito da Marvel alcançou tais valores estando apenas 26 dias em cartaz.

 

Realizado por Ryan Coogler (Creed, Fruitvale Station), esta viagem pelo país fictício afro-futurístico Wakanda colocou o franchise da Disney /Marvel com cinco filmes no topo do Box-Office Mundial, tendo arrecadado mais de 562 milhões só em território norte-americano e 516 milhões no restante Mundo, dando um total de 1.078 milhões de dólares rendidos até então. Com estes mesmos números, Black Panther ultrapassa The Dark Knight, o spin-off Star WarsRogue One e ainda Finding Dory.

 

Black Panther surgiu pela primeira vez no MCU (Marvel Cinematic Universe) durante o conflito do Captain America: Civil War. Trata-se do alter-ego de T'Challa (Chadwick Boseman), príncipe da região de Wakanda que protege os seus cidadãos através do seu "disfarce" e tecnologia de ponta. Michael B. Jordan, Lupita Nyong'o, Forest Whitaker, Andy Serkis, Martin Freeman e Angela Bassett completam o elenco.

 

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publicado por Hugo Gomes às 16:58
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1.3.18

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Poderia ser uma descida ao Inferno em jeito de Dante, mas não. Frost (Geada), o novo filme do lituano Sharunas Bartas, é o encontro com uma Ucrânia pós-Maidan, a revolução de 2014 que indiciava um novo capítulo na História desse país, mas cujas promessas não chegaram a se cumprir. Aqui, somos confrontados com um cenário devastado em que o medo impera e a hipocrisia dos protegidos mistura-se com um ativismo sem resolução, não faltando ainda militares forçados a combater na sua pátria na forma de uma resistência.

 

Estreado na última Quinzena de RealizadoresFrost chega por fim aos cinemas portugueses. Um filme frio, calculista e delicado que tenta incentivar o debate no espectador acima de tecer a sua própria ideologia. O Cinematograficamente Falando ... falou com o realizador sobre alguns pontos fulcrais deste projeto.

 

Nos primeiros minutos do filme, o protagonista procura o termo “Maidan” na internet, o qual o levará a algumas imagens do homónimo documentário de Serge Loznitsa. De certa maneira, Frost é uma (des)romantização da romantização atribuída à insurreição de Kiev?

 

Se estou certo, está a presumir que Frost desmistifica a revolta decorrida em Kiev? O dito romance nesse tipo de eventos só pode ser produto de imaginação. Não existe romantização ali.

 

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Jornalismo não é mais uma vocação, tornou-se numa oportunidade”. Aqui temos um comentário sobre a própria condição do jornalismo de Guerra assim como do chamado jornalismo participativo, onde cada um pode criar a sua própria informação. A revolução de Kiev conduziu a essa “fabricação informativa”? E como esta citação exemplifica a gradual transformação do protagonista?

 

O jornalismo que opera nesses chamados “lugares críticos” é, obviamente, diferente. Uns resistem e arriscam as suas vidas para nos mostrar a realidade para o resto do Mundo, outros convertem-se em “vendedores desse material”, de uma maneira algo cínica. O protagonista nada sabe daquilo que presencia num país que não é o seu, a Ucrânia. Por isso, ele terá que escolher no que quer acreditar.

 

Se o protagonista tende em apresentar tendências jornalísticas ao longo da narrativa, é verdade que esta jornada intrínseca entra em paralelismo com o seu trabalho enquanto realizador. Será Frost a sua peça ficcional de jornalismo?

 

Não. Não, consigo encontrar um paralelo aqui. Julgo que não seria correto definir Frost como uma peça ficcional de jornalismo. É somente uma jornada à Ucrânia devastada.

 

Nos seus filmes, é clara existência de uma delicadeza estética. Em Frost é sugerido um abandono desse mesma “delicadeza” em prol de um comentário sociopolítico. Tem receio que por momentos o seu filme seja propicio a causas propagandistas?

 

Não acredito que este filme possa servir para tais causas, até porque em Frost nunca faço de uma declaração direta. Nunca me posiciono em nenhum lado concreto.

 

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Curiosamente, Frost é um dos poucos filmes que vimos recentemente em que não existe uma “demonização” cega  do papel do militar. Contudo, as questões de patriotismo encontram-se inseridos nos seus discursos.

 

A Guerra é em todos os cenário um demónio, no qual se reflete o pior da raça humana. Conquistamos, destruímos e detemos (à força) melhores territórios, etc. Infelizmente, quando olhamos para a História deparamos com uma guerra prolongada. Nós compreendemos esses “demónios” e tentamos eliminá-los. O que não sei é até quando isso acontecerá definitivamente.

 

Como decorreu o casting?

 

Como sempre, dispensamos muito tempo a procurar atores e não-atores, que queiram trabalhar nas ditas condições. Muitos que integram o filme são “não profissionais”. Nós fazemos sempre ocasting “on the road” (durante a jornada), até porque atuar é no geral expressar sentimentos ou emoções para outra pessoa, para outras sociedades. Não é nada de sobrenatural para todos nós.

 

Quanto ao envolvimento de Vanessa Paradis no projeto?

 

Vanessa é para além de uma excelente pessoa, uma ótima atriz, que foi capaz de improvisar e sentir as diferentes situações que ela experienciou anteriormente, e ao mesmo tempo ser capaz de se envolver neste processo de atuação com tamanha devoção. Ela foi o coração deste projeto.

 

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Esta jornada por uma Ucrânia dividida e constantemente ameaçada enriqueceu-lhe como pessoa da mesma forma como realizador? Como vê esse atual cenário e como o Cinema poderá ser uma ferramenta na revelação das mesmas?

 

É certo que existe uma  guerra não declarada a acontecer na Ucrânia. A situação é crítica e, obviamente, tal experiência enriqueceu-me. Cada dia, cada mês, isso incutia algo no meu coração. O Cinema é diverso, como sabemos. Existem filmes analíticos, documentários, alguns que levantam problemas, outros questões do panorama social e depois os que procuram respostas. Nos meus filmes, o que tento fazer é desvendar experiências na vida de alguém. Somente isso. 

 

Quanto a novos projetos?

 

Sinceramente, eu nunca falo de projetos em estado tão precoce. Peço desculpas.

 

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publicado por Hugo Gomes às 20:08
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8.2.18

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Foi divulgado o primeiro trailer de Venom, o spin-off de Spider-Man que se centrará nas origens do célebre e homónimo vilão. Tom Hardy será a personagem-título, liderando um elenco composto por Michelle William, Riz Ahmed e Woody Harrelson.

 

Venom tem a realização de Ruben Fleischer (Zombieland, Gangaster Squad) e chega aos cinemas a 5 de Outubro de 2018.

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 15:15
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7.2.18

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Star Wars irá contar com dois argumentistas de peso no seu universo. David Benioff e D.B. Weiss, as duas mentes por detrás da série televisiva de Game of Thrones serão os argumentistas de uma nova trilogia, separada da actual e de outra anunciada que será preparada por Rian Johnson (Star Wars: The Last Jedi).

 

Recordamos que o próximo filme do franchise a estrear será o spin-off Solo: A Star Wars Story, de Ron Howard, com lançamento marcado para maio deste ano e cujas primeiras imagens foram divulgadas neste fim-de-semana durante o evento desportivo Super Bowl.

 

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publicado por Hugo Gomes às 00:20
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5.2.18

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Chega-nos o primeiro teaser de Han Solo: A Star Wars Story, um spin-off sobre o famoso personagem interpretado por Harrison Ford.

 

Alden Ehrenreich assume o papel domercenário nos seus tempos de jovialidade, tendo como subenredo o primeiro encontro com o seu parceiro do crime, Chewbacca. Emilia Clarke, Woody Harrelson, Donald Glover, Thandie Newton e Paul Bettany encontram-se igualmente no elenco.

 

Com estreia prevista para Maio de 2018.

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 15:47
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Tom Cruise regressa ao papel Ethan Hunt em mais um Missão: Impossível. Neste sexto filme, uma missão corre mal fazendo com que Hunt e a sua equipa partem numa corrida contra o tempo.  

 

Henry Cavill, Simon Pegg, Rebecca Ferguson, Michelle Monaghan, Vanessa Kirby, Angela Bassett, Ving Rhames, Alec Baldwin e Sean Harris, o retornado vilão do capítulo anterior, completam o elenco. Mission: Impossible – Fallout, conta com direcção de Christopher McQuarrie (Jack Reacher, Rogue Nation) chega aos cinemas a 28 de Julho.

 

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publicado por Hugo Gomes às 01:20
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4.12.17

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De Luís Ismael, criador da trilogia Balas e Bolinhos, chega-nos um novo trailer de Bad Investigate.

 

Uma comédia policial que coloca o espectador na caça de um perigosos criminoso conhecido como "El Dedo" (Enrique Arce). Luís Ismael para além de realizador, regressa como actor ao lado de Robson Nunes, Francisco Menezes, João Ricardo, Luísa Ortigoso, Ana Malhoa e Laura Galvão.

 

Bad Investigate tem data agendada para Janeiro de 2018.

  

 

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publicado por Hugo Gomes às 19:08
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30.11.17

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Um cowboy de boxers a regar o seu cacto, uma imagem que marca qualquer cinéfilo que recorda precisamente deste homem situado algures entre Paris e Texas. Trata-se de Harry Dean Stanton, naquele que é o seu desempenho final, o derradeiro filme que começou como uma celebração e terminou numa marcha fúnebre.

 

John Carroll Lynch desconhecia essa transformação. O actor conhecido por filmes como Zodiac, Gran Torino e da série American Horror Story: Cult, avança para o cargo de realização numa primeira, mas emocionalmente desafiante obra. A experiência adquirida, a sabedoria recolhida através dos seus protagonistas, das memórias guardadas e da vontade alimentada de estar no outro lado da câmara. O Cinematograficamente Falando … falou com John Carroll Lynch, o realizador de Lucky.

 

Como descreve esta sua primeira experiência como realizador numa longa-metragem?

 

Tentei trazer a minha experiência para esta nova experiência. Na altura que estava a filmar tinha 32 anos como ator e isso influenciou bastante a minha abordagem com os atores, desde a nível de vocabulário até à confiança que depositava e recebia deles. Acreditava que o meus atores eram capazes de atingir os seus objetivos de representação através dos métodos que selecionavam. Contudo, como primeira experiência como realizador, tive que aprender bastante sobre o oficio, e consegui através do processo de rodagem. O filme estimulou o meu intelecto e com isso descobri capacidades que desconhecia. Enquanto actor, a minha experiência adquirida proporcionou-me uma boa perceção a nível narrativo, mas ainda encontrava-me na curva da aprendizagem. Respondendo à tua pergunta, não consigo concretamente descrever esta minha iniciação na realização, porque foi exatamente isso, uma iniciação … uma experiência nova.

 

Durante o processo de rodagem descobriu algo de si que desconhecia” … o quê exatamente?

 

Descobri alguns aspetos surpreendentes em relação à minha pessoa. Por exemplo, desconhecia o facto de ser bastante paciente, algo que apenas notei durante esta minha experiência. Outro fator que descobri sobre mim foi, até certo ponto, a capacidade de decisão. Obviamente que tinha colaboradores que sugeriam, e com isso debatíamos ideias, mas a minha palavra enquanto realizador era a definitiva. Fiquei surpreso por deparar-me com essa aptidão pela decisão. Como acréscimo, a minha diplomacia. Mas alguém teria que decidir, e essa pessoa era eu. Isso revelou-se crucial na maneira como lidei com este projecto.

 

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Como surgiu a escolha de Harry Dean Stanton? O filme mudou com a sua chegada ao elenco ou já estava tudo definido no argumento?

 

Obviamente. Não existia mais ninguém para o papel. Este projeto nasceu e idealizou-se através da imagem de Harry. Quando debati com os dois argumentistas e com os produtores que “embarcaram” neste projeto, todos nós, por unanimidade, afirmávamos que este papel era exclusivo para ele. Se Harry dissesse que não, ou se Deus quisesse, ou o levasse antes do tempo,  este filme nunca seria feito. Não havia, nem haveria, substituto.

 

Deparamos aqui com um caso de um filme que se transformou com a tragédia de Harry Dean Stanton. Acredito que Lucky não foi concebido para ser uma homenagem.

 

Infelizmente, não estou num universo onde Harry Dean Stanton vivesse tempo suficiente para ver o filme, por isso não tenho nenhuma noção acerca dos seus pensamentos e sentimentos acerca deste. Mas sim, o filme mudou, simplesmente porque os espectadores trazem essa informação com eles quando o veem. A obra alterou com essa perceção, principalmente com a maneira como encerra e até mesmo nalguns diálogos. É a realidade, ou como Lucky diz, “realism is a thing” [realismo é algo].

 

A verdade é que quando terminamos de filmar, nenhum nós preveria que Harry Dean Stanton morresse antes da estreia do filme. Ele encontrava-se completamente saudável. Quer dizer, estava nos seus 90 anos mas continuava com uma “saúde de ferro”. Só depois, quando a saúde dele começou a fraquejar, aí sim, pensei no inevitável: “ele não vai sobreviver até à première”. Foi a primeira e única vez, porque como nós sabemos ele faleceu duas semanas antes da estreia.

 

Com aquela idade, a morte é algo que já faz parte do nosso pensamento. Não era impensável. Mas ninguém previa. Acreditávamos que ele duraria mais. Contudo, o que quero dizer é que Lucky foi concebido uma celebração à sua pessoa, não uma elegia.

 

Em Lucky reparamos que a personagem principal foi escrita exclusivamente para Harry Dean Stanton. Apesar da transformação, e tentando abstrair desse contexto, nota-se uma espécie de saudação ao ator nesta personagem. Desde a sua caracterização até às reuniões com outras personagens.

 

Sim, e isso está implícito no filme assim como esteve no argumento. Não só apenas reuniões, mas também à sua “personagem”. Acho impossível termos o Harry Dean Stanton a vaguear no deserto e não, automaticamente, pensar em Paris, Texas, por exemplo. Encarei toda esta homenagem direta e indiretamente como algo verdadeiramente interessante. Poucos filmes conseguem isso.

 

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Mas também é verdade que o filme recupera outra personalidade. James Darren, que não entrava numa produção cinematográfica desde 2001.

 

Foi incrível o facto de o termos no filme. James Darren trabalhou com um dos produtores de Lucky na série Star Trek: Deep Space Nine. Contudo, a entrada dele no projeto foi bastante curiosa. O actor que inicialmente iria fazer o seu papel teve que sair devido a conflitos de agenda, sendo que, como não tínhamos nenhum para interpretar a personagem e que continuávamos a procura do ator certo, combinei com Harry filmar as sequencias de casa todo o domingo. Certo Domingo, a caminho do local, encontro o carro do James Darren avariado à beira da estrada. Encosto e pergunto-lhe o que aconteceu. Ele respondeu que o carro tinha avariado e eu disse o seguinte: “olha, eu sei que este não é o momento indicado, mas estou a rodar um filme e um dos atores teve que abandonar. Se quiseres eu envio-te o guião e a partir daí, aceitas ou não

 

Darren aceitou a proposta e quarta-feira já estávamos a contar com ele nas filmagens. Mas a maneira com que ele “agarrou” aquele papel, alterou para sempre a personagem, e a química desta com os restantes atores. Ele trouxe uma variação de dureza e ao mesmo tempo doçura à personagem. Alterou por completo a via do filme.

 

Mas existe algum teor autobiográfico na sua personagem? Eu senti isso.

 

Julgo que a personagem dele nada tem de relacionado com material autobiográfico, até porque já estava escrito. O feito dele foi transformar esses diálogos, essa aura, em algo próprio da sua figura. O contexto de “nicles” que a sua personagem até a certa altura diz, veio com ele. Agora, falando disso, recordo-me da confusão que houve em tentar traduzir aquilo para legendas. Em Locarno, houve uma espécie de “lost in translation” com a palavra “nicles” (ugatz), julgo que foi traduzido para “il cazzo”, que tem um significado completamente diferente, o que não deixou muito feliz os próprios italianos que assistiam o festival.

 

Mas voltando ao ponto da personagem que se confundia com Harry Dean Stanton, e tendo em conta, não o filme, que nos leva à dúvida, mas a sinopse oficial de Lucky que refere a crise existencialista de um ateu. Pela sua experiência com o ator, consegue dizer se essa “fé” é partilhada pelo homenageado, ou simplesmente pela homenagem?

 

Quer dizer, ele como Harry acreditam 100% que não existia Deus. Que depois da vida não existia nada. A personagem lida com isso enquanto questiona os seus termos de mortalidade. Lucky detém uma visão distinta do fim da vida que os cristãos, por exemplo, ou os budistas, que acreditam na reencarnação, não têm. O que tentei fazer aqui não foi uma demanda pelo divino e dessa vida pós-morte. O que fiz foi transmitir a visão de quem acredita no nada. No nascer, viver e morrer simplesmente.

 

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Mas é curioso o facto da personagem principal ser um ateu, visto que em Hollywood e muito do outro cinema norte-americano, eles são vistos como “ferramentas morais”.  Seres impuros que no final encontram o castigo ou a discórdia daquilo que sempre acreditaram. Você trouxe dignidade a essa faixa.

 

Sim, o ateísmo niilístico não é pessimismo, é realismo. Eles podem não acreditar em nada, mas se não houver “fé” na Humanidade ou  simplesmente no próximo, não podem existir. Acredito que o ateísmo é o equivalente ao aumentar a expetativa, a equação da noção de mortalidade, e isso não muda aquilo que queremos fazer, como viveremos na verdade ou na realidade. Não basta visitar Deus no seu templo diário. O ateísmo como as outras religião tem como base a escolha. Como nós, escolhemos viver a vida tendo noção da nossa própria mortalidade.

 

Para Lucky, o seu templo era a sua rotina quotidiana, desde o dinner onde almoçava até ao bar que frequentava todas as noites.

 

Obviamente, mas tudo é uma fachada. Quando algo lhe atinge, Lucky começa a questionar essa mesma rotina, essa sua crença. Esse templo.

 

Quanto a novos projectos? Irá se manter como realizador?

 

Bem, estou bastante “apaixonado” por uma história. Tenho um amigo meu que é escritor e não faz qualquer questão que adapte a sua história, a qual gostei imensamente. Quero alargar sobretudo a minha experiência na realização.

 

Curiosamente, o que levou a apostar na direção foi que há 16 anos atrás fiz uma curta com um ator chamado Drago Sumonja [risos]. Ninguém esperava por isso. A verdade é que, no ponto-de-vista de Harry, não fazemos as coisas acontecer. As coisas acontecem. Ponto. E para ser sincero, neste aspeto, ele está absolutamente certo. 

 

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publicado por Hugo Gomes às 19:04
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23.11.17

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Apesar de ter conquistado o Prémio de Realização no último Festival de Cannes e com um elenco de luxo dirigido por Sofia Coppola, The Beguiled não chegará às salas de cinema em Portugal, sendo lançado diretamente no mercado home vídeo (DVD e Blue-Ray), no VOD e por via streaming. O filme foi o escolhido para abrir a 4ª edição do Porto/Post/Doc que arranca já no próximo dia 27 de Novembro, segundo o press release do festival, esta será provavelmente a única oportunidade de o vermos projectado num grande ecrã.

 

Sofia Coppola concebeu o filme como uma resposta feminina à obra de Don Siegel em 1971, com Clint Eastwood e Geraldine Page nos principais. Com uma intriga que nos transporta para os meados da Guerra Civil Norte-Americana onde um soldado da União encontra exilio numa casa habitada por mulheres sulistas, conquistou elogios pela crítica durante a sua passagem na competição de Cannes, onde foi realçado principalmente as suas virtudes técnicas, assim como o elenco que operava coletivamente neste conto de violência idealista (Nicole Kidman, Colin Farrell, Kirsten Dunst e Elle Fanning).

 

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publicado por Hugo Gomes às 22:25
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20.11.17

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Era considerada a resposta da DC Comics para Os Vingadores da Marvel, mas Justice League, apesar de não fracassar nas bilheteiras, falhou completamente o alvo estimado para primeiro fim-de-semana, que rondava os valores de 130 milhões de dólares. O resultado foi um valor estimado de 96 milhões em território norte-americano, um valor portanto bastante abaixo do esperado e pouco otimista para uma produção que custou cerca de 300 milhões de dólares.

 

Fontes do The Hollywood Reporter referem orgulho ferido na Warner Bros., simplesmente pelo facto de uma das esperadas equipas de super-heróis da DC não conseguir, citando, nem sequer ombrear com um herói de classe B da Marvel (referência direcionada a Thor: Ragnarok). Tentando apurar as causas, fala-se sobretudo da fraca receção critica e apreciação da imprensa, até à confiança do espectador (sabendo que Batman V Superman e Suicide Squad desiludiram até mesmo na aprovação dos fãs), e a atribulada produção de Zack Snyder, que teve que sair devido a uma tragédia familiar, tendo a tarefa de terminar o projeto ficado atribuída a Joss Whedon, que exigiu reshoots e a garantia de um tom mais descontraído que os episódios anteriores.

 

Justice League torna-se, até então, o filme da DCEU (DC Expanded Universe) com a mais baixa abertura nos EUA. Surpreendente revelou-se a mais recente obra de Stephen Chbosky, o realizador de The Perks of Being a Wallflower, Wonder, que arrecadou mais de 27 milhões de dólares, conquistando assim o segundo lugar da tabela, ficando acima do terceiro Thor (que já conta com 247 milhões nos EUA e 738 milhões globalmente).

 

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publicado por Hugo Gomes às 09:38
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19.10.17

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Os realizadores Dorota Kobiela (DK) e Hugh Welchman (HW) envolveram-se nesta paixão do artista, que em conjunto com mais de uma centena artistas, compuseram um trabalho com mais de 62 mil frames pintados a óleo, cujo tal feito levou 6 anos a concretizar. O resultado foi Loving Vincent, a biografia ficcionada do pintor Van Gogh, um ensaio de animação que por si torna-se um ensaio anti-noir.

 

Numa conversa com o Cinematograficamente e com o jornalista e crítico Jorge Pereira do C7nema, o duo falou do início do fascínio pela personagem de Van Gogh, as dificuldades e restrições que tiveram de lidar e da satisfação com que veem a reação do público ao resultado final. Ah! E falaram também dos seus próximos trabalhos, que passam por um filme em imagem real e uma nova animação de horror inspirada nos quadros de Goya.

 

[para Dorota Kobiela] Como começou esta sua fascinação por Van Gogh? Antes ou depois de ter entrado na Universidade de Artes?

 

DK - A fascinação começou com os meus 16 anos. Era uma adolescente no museu de Van Gogh e aquilo foi para mim uma experiência. E as cartas? Bem. Depois, seguiu a minha tese de mestrado, com 22 anos (sim, sinto alguma vergonha por ter feito a minha tese tão tarde), que consistiu em traçar um paradoxo sobre escritores, pintores e filósofos, e de que forma as suas saúdes mentais influenciaram os seus trabalhos, ou o inverso, se a sua saúde mental inspirava os seus trabalhos. E por fim, novamente, as cartas.

 

Creio que foi dito numa entrevista vossa, que numa exposição em Londres, ficaram fascinado por os visitantes fazerem fila só para ver as cartas e não as pinturas.

 

HW - Sim, era impressionante o facto de esperarem mais de 3 horas para apenas vislumbrar as suas cartas dentro de caixas [risos]. Ao contrário de Dorota, que leu-as quando tinha uns 16 anos, eu comecei com 33 anos e isso foi depois dessa exposição, no qual questionava o porquê de serem tão “populares” e o porquê desta loucura, essa dita paixão por Van Gogh. E foi ao lê-las que me apercebi o porquê. A verdade é que após começar nunca mais quis parar. A minha fascinação pela personalidade dele expandiu-se para lá dos seus escritos. Li todas as biografias escritas possíveis, incluindo o importante livro de Julius Meier-Graefe, de 1921, na Alemanha. É uma história poderosa.  

 

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Foi nessa altura que surgiu a ideia de avançar neste projeto, que inicialmente era para ser uma curta-metragem.

 

HW - Nessa altura a Dorota iria fazer uma curta e eu iria produzi-la, até porque apaixonei-me pela realizadora e não por Van Gogh [risos]. Essa foi a verdadeira razão pelo qual integrei o projeto [risos].

 

DK - Foi uma boa tática, porque eu lembro-me que tinha outro produtor e ele “roubou-lhe” o projeto.

 

HW - Sim, porque estava interessada na realizadora.[risos] Imagina, se continuasse com o mesmo produtor, a vida seria completamente diferente.

 

DK - Sim, mudar a vida das pessoas é a sua habilidade especial [risos].

 

A certo ponto tiveram uma campanha no Kickstarter. O que pensam dessas plataformas?

 

DK - Eu adoro-as. Eu penso que ela abrem tantos canais a pessoas que não conseguem financiamento de outra maneira. Recentemente falei com um amigo, que teve uma ideia incrível para um jogo de tabuleiro, e é lindo e inteligente, e ele falou com pessoas (…) porque fazer algo original é algo difícil de fazer (financiar), por isso no Kickstarter temos uma ideia original e a plataforma para as pessoas apoiarem o projeto. E isso é brilhante.

 

HW - Este filme sempre foi do público, que esteve sempre à frente da indústria em termos de fazerem as coisas acontecer. E a querer que essas coisas aconteçam. Primeiro foi o Kickstarter, e queríamos para uma coisa muito específica, porque já tínhamos dinheiro para o desenvolvimento da ideia dado pelo Instituto do Cinema da Polónia. Mas eles não nos deram dinheiro para treinar os pintores, e nós não tínhamos dinheiro para contratar animadores para este tipo de trabalho, até porque eles não existiam. Certamente não existiam 125 que pintassem no estilo do Vincent Van Gogh. Por isso, o Kickstarter foi muito útil pois conseguimos juntar dinheiro para recrutar e treinar a nossa força de trabalho.

 

Foi também através do Kickstarter que encontramos dois dos nossos investidores privados, pois não estávamos a ter sorte nenhuma com os financiadores da indústria do Cinema. E com o dinheiro destes investidores conseguimos começar a produção. E só quando entramos em produção conseguimos reunir algum material, que usamos em anúncios a procurar pintores.

 

Este anúncio tornou-se viral, porque o fã de um dos atores, o Douglas Booth, que tem uma grande base de fãs em Itália, colocou uma publicação no Facebook e ela foi partilhada e partilhada.

 

Eu não percebia muito de redes sociais na época, e nem sabia que aquilo se conseguia fazer. A verdade é que em 24 horas, 2 milhões de pessoas viram a publicação. Em 2 meses, 200 milhões de pessoas viram-na. Foi por causa desses 200 milhões de pessoas que uma série de coisas aconteceram: primeiro, encontramos financiamento; segundo, vendemos os direitos para todo o mundo, até agora para 135 países; terceiro, tivemos mais 4 mil pessoas a candidatarem-se para trabalhar connosco.

 

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Então tiveram de fazer um casting para os pintores?

 

HW- Ao todos tivemos 5 mil pessoas que se inscreveram para trabalhar connosco.

 

DK - É interessante porque tivemos pessoas que trabalharam para criar algo que se tornou muito viral. E se isso acontece por acidente, tu agradeces muito.

 

HW- Tivemos 5 mil pessoas a se inscreverem, depois disso escolhemos 500 pessoas para fazer uma audição de pintura de animação, depois disso 125 foram escolhidos para serem treinados. Era um treino de 200 horas a ensinar-lhes a pintar no estilo de Van Gogh. E 100 horas a ensinar-lhes as bases do cinema de animação. Depois disso eles seguiram para a produção

 

E como escolheram os actores? Como foi o processo de casting?

 

DK - Alguns escolhemos porque era importante que fossem semelhantes às personagens das pinturas.

 

HW - Sim, nós quisemos sempre que eles fossem parecidos aos retratos.

 

DK - Outros não tinham grandes marcas distintivas, como a Marguerite, quando a vemos por exemplo a tocar piano.

 

HW- Nos dois quadros que o Vincent fez dela não se vê a face dela.

 

DK - Acho que foi nisto que tive a visão da Saoirse (Ronan) no papel, e ela é uma atriz brilhante. Eu acompanho-a desde que ela é pequena, no Atonement (2007), no Hanna (2011).

 

HW - Tu sempre a quiseste para o papel da Marguerite.

 

DK - Sim, eu sempre a quis e quando ela aceitou, eu fiquei… feliz

 

HW - Depois houve outras escolhas como o Chris O'Dowd, que realmente queríamos ter….

 

DK - Outros ainda porque seria interessante vê-los pintados, e eles queriam-se ver pintados. Isso foi divertido.

 

HW - Eles gostaram do guião, por isso foi muito mais fácil encontrar atores, a equipa, etc, que o financiamento. A maioria das pessoas que se juntaram a nós entendiam o que estávamos a querer fazer e estavam todos muito excitados com o projeto.

 

Obviamente quando fomos falar com os financiadores foi mais difícil. Eles perguntavam que filme na mesma linha tinha sido feito e corrido muito, muito bem. Porque eles querem investir em algo seguro. E nós tínhamos de dizer que nunca ninguém tinha feito isto, e então diziam, ‘Ah, não. Não queremos investir.’.

 

Estão contentes com o resultado final? O filme vai estrear em mais de uma centena de territórios…

 

DK– Cento e trinta e cinco

 

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Quando começaram a trabalhar no filme, alguma vez imaginaram que iam estrear em tantos países?

 

HW  - Não em tantos. Eu sabia que as pessoas iam gostar do filme, pois sabia que o Van Gogh tinha uma grande legião de seguidores, mas ficamos sempre surpreendidos com a forma como as pessoas têm reagido ao filme, de forma apaixonada. Temos pessoas depois dos visionamentos que vêm ter connosco…Que nos dizem, ' Nós seguimos este projeto há quatro anos, desde que ouvimos falar dele'. Isso é fantástico. Temos também pessoas que chegam até nós a chorar, muito emocionadas. Sinceramente, não esperava esse nível de envolvimento emocional.

 

O filme teve a sua estreia no Festival de Cinema de Animação de Annecy. É um festival importantíssimo para os filmes de animação…

 

Sim, foi fantástico….

 

Vocês consideram mesmo um filme de animação?

 

DK- Sim, claro. Há pessoas que falam num trabalho de rotoscopia, mas não é. É mesmo animação.

 

HW - É stop-motion. Um trabalho frame a frame. É isso que a animação é….

 

Já leram as críticas ao filme?

 

HW- Eu não leio, mas a Dorota lê.

 

DK- Li, mesmo no início do lançamento do filme. Depois parei.

 

Não gostam de ler essas críticas?

 

DK- Quando és um realizador, um artista, um escritor, não interessa qual, és a pessoa que toma certas decisões e caminhos, e essas são as tuas escolhas, e tens de viver com elas. As pessoas gostam dessas escolhas, ou não. Umas vezes eles criticam as tuas escolhas, outras vezes não…  Por isso não dou assim muita importância.

 

HW- Para mim os críticos são como a audiência. Estes lêem o que os críticos dizem e seguem-nos, se gostarem do crítico, e isso vai influenciar se vão ver o filme ou não. A nós não, porque nós fizemos o filme…

 

Sim, mas para o futuro, ou seja, a crítica muitas vezes “leva um filme para o futuro”...

 

HW- Pensas que os críticos vão me ensinar como filmar?… Pensas que o feedback de um crítico vai fazer de mim um melhor realizador?

 

DK- Às vezes acho que o feedback é bom. O que faço quando os leio - se é sobre algo que não envolva as minhas escolhas pessoais que tinha a certeza que queria tomar - é ver se isso ajuda-me e me faz pensar que podia ter feito de maneira diferente. Isso gosto, algo construtivo.

 

HW- Eu prefiro ver a reação do público. Eu fiz este filme para eles. Eu não fiz para os críticos, mas para as audiências. E eu todos dias vejo a reação do público.

 

DK- Depende, porque os críticos também constroem a reação da audiência.

 

HW- Sim, mas não foi para eles que fiz o filme.

 

KW- Sim, podemos ir ao Rotten Tomatoes e…

 

HW- … ficar muito contentes porque temos a melhor reação deste ano no site - desde que abrimos nos EUA há 4 semanas atrás.

 

Então sempre liga aos críticos?

 

HW - (risos) Estou a falar da reação da audiência. Dos críticos de topo temos 85% de aprovação e das audiências temos 94%. No geral da crítica temos 77% [entretanto este valor já subiu para 78%], o que é mais que eu esperava, por isso estou contente. Mas na verdade estou é maravilhado com os valores da audiência, porque isso sim era o meu sonho.

 

DK-  Eu respeito a crítica. Eu sei que faço escolhas e que as pessoas podem gostar delas ou não. Se alguém me diz algo de uma escolha na qual hesitei, isso dá-me algo, ajuda-me a fazer algo melhor no futuro.

 

E no futuro. Como acha que as audiências vão ver o filme…

 

HW- Eu penso que quando uma pessoa pensa em filmes sobre Van Gogh, falam do Lust for Life (1956). Nos meus melhores sonhos, e se pensar daqui a 50 anos, penso que vão dizer o Loving Vincent. Mas veremos. [O primeiro] é com o Kirk Douglas, uma produção de Hollywood… mas quem sabe. O meu sonho é que digam A Paixão de Van Gogh, que vejam o nosso filme como O FILME sobre Van Gogh.

 

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Há uma enorme influência do Cinema Noir nesta obra. Houve algum cineasta ou filme que vos influenciou para A Paixão de Van Gogh?

 

HW - Eu vi The Big Sleep (1946), sete ou oito vezes.

 

DK - A sério? Eu vi …

 

HW: Tu viste o Double Indemnity (1944).

 

DK: Sim, eu vi porque é um clássico. Quer dizer, eu gosto das personagens de detetives relutantes…

 

HW - Eu adoro os diálogos desses filmes, são fantásticos.

 

DK - E a cinematografia deles, é algo que considero tão incrível.

 

HW - Por exemplo, a abertura do The Big Sleep é tão inteligente

 

DK - Mas por exemplo. No Citizen Kane temos aquela cena com o sinal de «Não Passar» (No Trespassing), e acho que isso é uma grande influência para construir uma personagem sem nunca saber realmente a verdade sobre ela… Houve outras influências. No início vimos muitos documentários…

 

HW - Sim, o The Thin Blue Line (1988), do Errol Morris, foi uma das primeiras coisas que vimos um par de vezes

 

DK - Sim, adorei. Como ele consegue ter um documentário de investigação tão da velha escola e ao mesmo tempo tão emocional.

 

HW -E com uma banda-sonora fabulosa….

 

DK - Sim, é do Philip Glass

 

HW - Para além disso já vi vezes sem conta o final do Dreams of a Life (2011), da Carol Morley. É um documentário fabuloso…

 

DK- E por acaso nem tem grandes críticas

 

HW - A sério? É tão poderoso.

 

DK - Sim, mas há pessoas que não gostam porque não existem resoluções.

 

HW-  Sim, mas eu vi o final desse documentários muitas vezes…

 

DK - E é sempre poderoso.

 

E agora. Têm algum projeto em desenvolvimento?

 

DK- Eu tenho um filme que gostava muito de fazer, um filme em imagem real. Gostava de passar seis meses a fazer um filme em vez de seis anos. Eu gostei muito de trabalhar com os atores no Loving Vincent, foi fantástico. Não digo que gostei mais dessa parte do que do resto, mas é algo que me atrai.

 

Esse filme é sobre uma mulher, já falecida, muito conhecida na Polónia, durante a era comunista. É uma personagem feminina muito forte. É uma ideia, vamos ver onde culmina essa ideia.

 

HW - Bem, nós criamos esta técnica, e treinamos todas estas pessoas para o Loving Vincent.

 

DK -  E elas  agora semanalmente questionam o que vamos fazer a seguir.

 

HW - Por isso estamos a pensar fazer um filme de horror pintado inspirado nos últimos trabalhos de Goya, Não queremos contar a história dele, mas ser inspirado por ele para contar uma história. No Loving Vincent tínhamos muitas amarras – à sua história, aos seus quadros – até nas decisões da realização. Por exemplo, não podíamos mudar os enquadramentos dos seus quadros para contar a sua história, embutir a história dramática e os enquadramentos dos seus quadros e interligar com a parte histórica. A parte mais difícil foi mesmo escrever o guião para este filme… Por isso, dissemos para nós mesmos que no nosso próximo projeto teríamos de ter uma mais liberdade.

 

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Voltando ao Loving Vincent, como conjugaram as pinturas do Van Gogh e a construção do guião. Como geriram esse processo?

 

DK - As pinturas definiam o local, o ambiente, o guarda-roupa…. Veja-se a Adeline Ravoux, nós sabemos que ela está sentada e vamos apresentá-la a partir dessa imagem, por isso influencia muito o guião.

 

HW - Sim, por exemplo, quando vemos pela primeira vez o Armand Roulin, ele tem de surgir com o verde em pano de fundo. Por isso temos de pensar como vamos colocar a personagem com um fundo verde. E o Milliet, a primeira vez que o vemos ele tem uma estrela sobre si. Como metemos uma estrela? E o Zuavo? Uma parte do fundo é verde e o resto é tijolo. Por isso ele só podia estar num sítio onde isso acontecesse. Por isso criamos a cena de luta e ele cai, ficando com a parede em tijolo e o verde no fundo… e tudo acontece à noite porque o Milliet tem de ter a estrela.

 

Temos de pensar em todas estas coisas quando escrevemos o guião. Outro exemplo, o carteiro Roulin tem no quadro um fundo amarelo, por isso colocamo-lo no Café à noite, porque o Café é amarelo…. Quando escrevemos o argumento criamos estes “Clusters” e depois ainda temos de juntar todos esses Clusters.

 

Por isso, no final, não existia assim muita liberdade na construção do guião…

 

HW - Sim, é verdade, mas às vezes as restrições obrigam-te a surgir com soluções que não tomarias se não tivesses esses constrangimentos. As vezes isso é bom. Mas penso que num próximo filme gostaríamos de ser mais livres, embora mais tarde possamos novamente trabalhar em algo tão restrito. Mas queremos agora mais liberdade. Queremos mudar a posição das câmaras, etc…

 

DK - Freedom [risos]

 

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publicado por Hugo Gomes às 14:48
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12.10.17

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José Pedro Lopes não concretizou nenhum feito, até porque o terror sempre fora um género ao alcance do cinema português. O que realmente consegue com A Floresta das Almas Perdidas é quebrar essa barreira que se tem a vindo a converter-se num tremendo tabu. Esta fobia pelo cinema de género no panorama nacional, as hostilidades que fazem a sua longa-metragem num marco raro, colhido com elogios em inúmeros festivais de cinema e publicações estrangeiras. O suicídio e o crime de mãos dadas com a criação de um psicopata que rivaliza com Diogo Alves nas questões das auras cinematográficas em Portugal. O Cinematograficamente Falando … falou com o realizador que nos convidou a penetrar nesta floresta dos suicídios.  

 

Vamos começar com a pergunta mais básica em relação ao Floresta das Almas Perdidas. Como surgiu a ideia para deste projeto? E o porquê da “apropriação cultural” da Floresta dos Suicídios?

 

Queria explorar como o mal surge em todo o lado, de forma oportunista. Sempre que há uma calamidade, existe que tira vantagem disso. Ou numa grande perda. Aqui a minha ideia era ter alguém que se alimentava dos sentimentos de um suicida e da sua família de luto. Inspirei-me em filmes como o Whristcutters (do Goran Dukić) e o Audition (do Takashi Miike).

 

No que toca a lugares conhecidos pela prática do suicídio existem por todo o mundo, mesmo aqui em Portugal. Claro que a floresta de Aokigahara é uma referência no contexto que criamos – mas estas personagens estão e lidam claramente com problemas portugueses.

 

O cinema de género é uma raridade em Portugal. Como foi, ou pensa, contornar um desafio tão grande na nossa cinematografia?

 

Em termos de contexto, ‘A Floresta’ não foi feita para provar nada cá dentro, nem para contrariar ninguém. Quanto muito, como fã do género fantástico, queria contribuir nesse género global. Queria ver histórias portugueses no meio desse grande género que descobre filmes nos quatro cantos do mundo.

 

No nosso país há uma dificuldade grande em financiar filmes de género, e talvez ainda maior em coloca-lo e distribuí-lo. Mas é um pouco inerente ao género em sim: o terror sempre foi peregrino e sempre assustou. É o tipo de filmes que vemos em adolescente para chatear os pais, e que continuamos a ver em adultos para baralhar os amigos.

 

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Acho que quem faz terror cá ou lá fora não pode muito pensar no mercado local, mas sim no internacional. Todos os anos tens filmes de terror que viajam o mundo com abordagens muito culturais. Esperar conceber um filme para ser um sucesso no mercado nacional é esperar bater o cinema de Hollywood em algo que eles tem toda a vantagem.

 

Em A Floresta das Almas Perdidas nota-se uma gradual artificialidade, principalmente no genérico estilizado. Será que aqui influências do cinema de Argento? Esse neo-expressionismo do género?

 

Apesar de ‘A Floresta’ ser um filme muito estilizado e visual, diria que é mais sobre contenção e sobre implosão. O Dario Argento vejo-o como mais explosivo. As minhas influências foram mais o cinema de realizadores como o Takashi Miike e o Kim Ki-Duk, situado entre o horror e o drama, sem grandes linearidades.

 

‘A Floresta’ é sobre a chegada à idade adulta de um assassino, sobre a maturação do mal. Por outro lado, é sobre a tristeza e a fatalidade das vítimas. O terror está mais no coração das personagens do que naquilo que vemos.

 

Ao contrário de muitas obras do género, principalmente vindo dos EUA, o antagonista não possui um devido motivo para a sua violência. Será que aqui se concentra uma reflexão do fascínio pelo mórbido e violência, normalmente anexada, à juventude de hoje?

 

Creio que em certa forma a ausência de motivo é o motivo mais comum para quem faz mal aos outros no mundo real. O cinema procura razões e desculpas para o mal para não nos assustar demasiado. Mas a verdade é outra – quem faz mal aos outros faz-lo por uma opção de vida. Tens pessoas que passam por vinte vezes pior e que mesmo assim não faria mal a ninguém.

 

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O lado da juventude é truculento. O filme faz muitos referências às idiossincrasias da juventude atual, das redes sociais e da abordagem superficial das coisas. No entanto, acho que o lado mórbido é desprovido de época. Este tipo de maldade já está connosco à décadas. Acho que também a insensibilidade provocada pelas nossas tecnologias não está só na juventude – existe um hábito de acusar os jovens de viverem muito online e se relacionarem com os seus telemóveis, mas isso é um problema que atinge todas as idades.

 

Floresta das Almas Perdidas é também um desafio para a pequena produtora Anexo 82. Fale-nos das dificuldades de financiamento e até mesmo de produção.

 

‘A Floresta’ foi maioritariamente financiado pela produtora Anexo 82, sendo que contou com um apoio da Fundação GDA e alguns patrocínios privados e apoios. O segredo para fazer o filme com pouco foi pensá-lo de forma a ir de encontro ao que conseguíamos fazer. Foi um sacrifício grande mesmo assim – um que eu não sei se voltaria a fazer.

 

Sobre o casting? Como sucedeu a escolha de Daniela Love para o papel de psicopata?

 

A Daniela já tinha participado numa curta-metragem nossa chamada Videoclube. Nela ela era também cheia de referências e irreverência. A Carolina de ‘A Floresta’ é o lado obscuro dessa personagem, e desde muito cedo que a Daniela foi a escolha para o papel.

 

Como vê o cinema português de hoje, desde os apoios até à variedade estilística?

 

Creio que não é o meu lugar fazer essa apreciação, nem sou a pessoal ideal para o fazer.

 

Quanto a novos projectos?

 

Estamos de momento a terminar uma curta-metragem do Coletivo Creatura, um filme de animação chamado “A Era das Ovelhas”. A seguir a isso vemos analisar o resultado de ‘A Floresta das Almas Perdidas’ e concluir o que fazer a seguir. Temos vários projectos – uns a procura de desenvolvimento ou outros de financiamento – mas só depois de ver o impacto deste é que saberemos o melhor a seguir.

 

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publicado por Hugo Gomes às 22:11
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22.9.17

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Leonel Vieira (A Selva, Sombra dos Abutres, O Pátio das Cantigas) regressa à realização com Alguém como Eu, uma comédia romântica de coprodução luso-brasileira, que conta com Ricardo Pereira e Paolla Oliveira como protagonista.

 

O enredo arranca com a básica temática “girl meet a boy” (mulher conhece rapaz) para depois desenvolver como uma comédia de contornos fantasiosos. Helena (Oliveira), é uma brasileira que decide mudar de vida, e para isso muda-se para Portugal. Lá conhece Alex (Pereira) e é amor à primeira vista, porém, a relação entra numa espiral conflituosa e Helena, desesperada, pede ajuda a Deus.

 

Paulo Pires, Dânia Neto, Manuel Marques, Sara Prata, José Pedro Vasconcelos, Irene Ravache (Yvone Kane) e Júlia Rabello (Porta dos Fundos) completam o elenco. Pedro Varela encontra-se por detrás do argumento.

 

Alguém Como Eu estreia a 12 de Outubro.

 

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publicado por Hugo Gomes às 14:55
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21.9.17

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De Luís Ismael, criador da trilogia Balas e Bolinhos, chega-nos o primeiro trailer de Bad Investigate.

 

Uma comédia policial que coloca o espectador na caça de um perigosos criminoso conhecido como "El Dedo" (Enrique Arce). Luís Ismael para além de realizador, regressa como actor ao lado de Robson Nunes, Francisco Menezes, João Ricardo, Luísa Ortigoso, Ana Malhoa e Laura Galvão.

 

Bad Investigate tem data agendada para Janeiro de 2018.

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 16:19
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20.9.17

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A Fábrica de Nada é o mais recente projecto realizado por Pedro Pinho (A Cidade e as Trocas, Um Fim do Mundo). Passado numa fábrica de elevadores onde um grupo de operários organiza um sistema de autogestão, insatisfeitos com a sua direcção, a obra tem arrecadado grande aclamação por parte da imprensa internacional, tendo mesmo conquistado o prémio FIPRESCI na última edição do Festival de Cannes.

 

O Cinematograficamente Falando … teve o privilégio, em parceria com o jornalista e crítico de cinema Duarte Mata (C7nema) de entrevistar o realizador numa conversa que vai do aspeto político do filme ao método de trabalho com actores não-profissionais, passando por questões como a validade da política dos autores ou o desaparecimento da película em prol do digital nas produções fílmicas.

 

Qual a sua reacção à recepção do filme em Cannes?

 

A recepção da crítica em Cannes foi absolutamente surpreendente. Logo a partir do momento em que o filme estreou começou a sair uma chuva de críticas muito positivas, sobretudo da América Latina e de Espanha, mas também França, Itália e vários outros sítios. Começámos a ver as leituras sobre o filme, leituras que nem tínhamos feito anteriormente. E depois houve o ranking dos críticos onde o filme foi considerado o melhor do Festival. Filme de cinema, isto é. Foi incrível, superou de longe as nossas expectativas.

 

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Uma das reacções em Cannes, talvez pelo contexto político do filme, foi acusações de que o filme se tratava de propaganda esquerdista.

 

Por acaso não li essas reacções, felizmente. Mas o filme não é nem propaganda nem de esquerda. Há obviamente quem tenha várias leituras sobre o assunto e essa é uma delas. Há muitas outras pessoas que têm outra visão e baseio-me mais nessas optimistas do que nas outras.

 

Até porque na 2ª metade o filme entra justamente nessa vertente mais política e decide discutir o que aconteceu na 1ª, em busca das suas fragilidades.

 

Eu não vejo o mundo baseado nessa dicotomia esquerda/direita. Isso é um sistema de leitura que nos conduz a um equívoco. Mas claro que sou mais próximo de pessoas e ideias de esquerda. Agora o facto de o filme convocar uma série de ideias políticas esquerdistas, não quer dizer que a tese do filme seja essa. Procura pensar sobre uma série de assuntos e sobre um contexto político, social e histórico que estamos a viver e uma possibilidade de resposta ao mesmo. E essa possibilidade, obviamente, é de esquerda porque as outras, como o Trump ou o nazismo, nem me interessa pensar sobre elas. O que o filme procura fazer é uma reflexão sobre um conjunto de temas fundamentais nos tempos que estamos a viver. Acho até que algumas ideias apresentadas são antagónicas, negam-se e anulam-se mutuamente. Acho que quando chegamos ao fim do filme não estamos convencidos mas, ao invés, cheios de dúvidas.

 

Ou seja, apesar de não apontar para nenhum dos lados, é um filme político. Porque a neutralidade política é, em si, um acto político.

 

Claro.

 

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Um dos momentos mais memoráveis do filme é a cena musical. Sendo o musical visto como um género escapista, todo aquele foco musical é, de certa forma, um escape?

 

Isso do musical ser um género escapista é só verdade parcialmente. Desde os anos 70 que há um conjunto de musicais operários passados em fábricas.

 

Como o Tout va Bien, de Godard?

 

Ou o Dancer in the Dark. Esses filmes juntam duas realidades quase paradoxais, cantar para esquecer e um certo realismo da vida e do universo operário. Aceitámos esse desafio, fazer um musical à nossa escala e ao nosso jeito.

 

Começou por ser um projecto musical realizado pelo Jorge de Silva Melo. Como se passou esta transição de uma obra exclusivamente musical para um filme com uma parte docufictícia?

 

A mim não me interessava que as pessoas estivessem sempre a cantar, mas agradou-me a ideia de um musical porque é um desafio enorme. O que acabou por acontecer quando repensámos o filme foi esta ideia de nos introduzirmos nele, um certo olhar exterior ao âmbito estritamente narrativo da história dos operários na construção dramática. Acabámos com esta coisa um bocado estranha que é um filme feito por camadas, onde numa primeira há uma história simples de uma fábrica que fecha e depois há a entrada de um intruso [Danièle Incalcaterra] que é um olhar muito paralelo ao nosso, de um realizador que interfere na realidade operária e a perturba. Isso permitiu introduzir-nos novas camadas de reflexão que achámos necessárias, a realidade dura dos operários que ficam na miséria, sem trabalho ou que têm ataques cardíacos e se suicidam. E por ser uma realidade tão dura achámos que devíamos refletir sobre ela.

 

Foi por isso que quis concentrar a acção numa fábrica de elevadores? Esta simbologia de várias camadas/andares?

 

Foi um acaso absoluto. A fábrica que encontrámos (Otis), coincidentemente, estava em autogestão. Mas não houve a intencionalidade dessa transição.

 

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Esta questão da docuficção, vai buscar pessoas que viveram aquela situação de perto e transforma-as em personagens. Onde está a linha que separa a personagem da pessoa?

 

Não há uma fronteira muito nítida e é essa a intenção. São personagens a partir do momento em que fazem parte da matéria fílmica. Mas são construídas com os caracteres das vidas das pessoas. Não é como a água e o azeite, a ideia é que as coisas se misturem e que a personagem absorva a identidade do sujeito para que se produza um efeito de verdade e uma sensação de relação com a realidade que me interessa trabalhar.

 

A 1ª parte parece muito orgânica, as pessoas engasgam-se, corrigem-se e isso traz um lado muito realista. Isto estava no guião, foi trabalhado com eles ou foi improvisado?

 

Nós tínhamos tudo escrito. Mas é impossível dar uma lista de diálogos a 30 atores e esperar que a coisa surja com atropelos como na vida. Procuramos criar uma situação, fazemos um ensaio que seja qualquer coisa semelhante e trabalhamos dinâmicas entre os atores. Só no dia da rodagem é que eles sabem o texto. E a situação é lançada e procura-se que vá fervendo até chegar a um ponto de ebulição. E nesse momento introduzimos diálogos escritos que fazem avançar dramaticamente a cena. Alguém sussurra ao ouvido do actor o que ele deve dizer, o que faz com que o grupo reaja em surpresa e se torne tudo mais orgânico.

 

A tensão entre eles parece muito genuína. Perguntava-lhe se provocava atritos entre os seus atores para obtê-la.

 

Não havia conflitos reais entre eles porque acho que todos estavam a gostar da experiência e a divertirem-se, mas muitas vezes nas cenas de conflito a tensão tinha que aquecer até um ponto em que fosse credível. Para isso, eu e o assistente de realização iniciávamos um confronto físico com os atores. E isso demora 15 minutos de histeria e como estávamos a filmar em película só o começávamos a fazer quando estava tudo exaltado.

 

Falemos agora nessa questão da película. Cada vez mais em Portugal, por questões financeiras, opta-se pelo digital, mas o seu filme, mesmo apesar da sua duração de 3 horas, não foi por essa via.

 

Até filmámos mais do que isso porque estamos a lidar com atores não-profissionais e é um processo mais demorado. Para mim a película é muito importante, é uma materialidade totalmente diferente. Não tem a ver só com a metodologia e das diferenças que acarreta face ao digital, mas também com a materialidade própria. Não é o mesmo pintar em óleo ou em aguarela. Há uma materialidade no cinema e ela, na minha opinião, faz parte do objeto, da escolha estética.

 

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Desconsidera totalmente filmar em digital?

 

Não, cada vez se torna mais difícil filmar em película, já nem há laboratórios cá e eu acho que o digital está a evoluir, cada vez mais próximo da película, apesar de não ser totalmente igual. Em França entrei numa sala de cinema e projectaram um filme da Claire Denis em 35 mm. Aquilo é um prazer que já não estamos habituados sequer a ter, apesar de ser belíssima a projecção. O olhar das pessoas que estão a ser formadas e mesmo o meu estão a ficar habituados a uma outra materialidade.

 

Há pouco falávamos da personagem do Danièle Incalcaterra. Não me parece que tenha sido acidental a escolha de um realizador de um filme chamado Fábrica Sin Patrón para interpretá-la.

 

O Danièle tinha sido professor num atelier aqui da Gulbenkian e a Leonor Noivo, o Tiago Hespanha e a Luísa Homem [co-argumentistas do filme] foram alunos dele. E quando estávamos a escrever o filme pensámos em quem seria ideal encarnar esta personagem. Foi uma ideia que nos veio rapidamente. É um cineasta que fez um documentário sobre uma fábrica em autogestão e houve uma data de conexões que nos mostraram que fazia sentido ser ele. Claro que isso teve implicações na narrativa porque a dada altura vem uma encomenda da Argentina que corresponde a esta relação dele com essa fábrica.

 

Alguns críticos têm interpretado que se trata de um alter-ego seu…

 

Essa é uma questão um pouco abusiva. É um realizador de cinema de outra geração e que tem um papel que eu nunca faria. A personagem do Danièle é uma espécie de encarnação do nosso gesto, mas não me identifico nada com aquela figura. Como já disse, queríamos uma espécie de tridimensionalidade no filme, criar um movimento perpendicular do nosso olhar e, para isso, criámos a personagem dele.

 

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O filme está a ser promovido como um “filme colectivo” e não como “um filme de Pedro Pinho”. Este “colectivo” é uma alusão ao corporativismo do projecto?

 

O “filme colectivo” tem a ver com o facto de como a imprensa se apropriou do facto de dizermos “um filme de x, x, x e realizado por Pedro Pinho”. Nunca falámos em colectivo. Mas a forma como o projecto nasceu e abraçámos na Terratreme depois do Silva Melo ter deixado de poder realizar foi absolutamente colectiva, sim. Decidimos que eu iria realizar, isto é, ter a última voz nas opções de rodagem e de montagem, mas que todos iríamos pensar o filme desde o início. Daí esta autoria colectiva. Não acho muito certo no cinema o realizador assumir a autoria individual do filme.

 

Não é a favor da política dos autores?

 

Não. Não gosto dessa ideia. O cinema é um trabalho colectivo. Muito mais num tipo de registo em que a escrita dos diálogos é muito feita na rodagem. É abusivo reivindicares para ti algo produzido a partir de um confronto entre várias pessoas. Não tenho problemas em assumir a realização porque fui eu que decidi as ideias do enquadramento, mas isso não é tudo. O pensamento sobre o filme nasceu de um processo que envolveu várias pessoas.

 

Um dos aspectos mais interessantes no seu filme é o filmar sempre à altura dos homens e só se baixar quando as personagens se sentam. Isto é o princípio Hawksiano: filmar a acção à altura dos olhos. Foi para lhes dar um pouco mais de dignidade e salientar a camaradagem entre eles que tomou esta opção?

 

Eu nem sequer concebo muito bem outra forma de realizar. Mas isso se calhar tem a ver com a forma como aprendi a fazer cinema, com essa relação de horizontalidade para com as pessoas. Não penso muito nisso, só na montagem. No primeiro filme que fiz tive grandes discussões com a montadora porque ela achava que se devia usar uma cena em que pessoas estavam a comer no chão, filmada em picado. E eu e o co-realizador não aceitámos e tivemos uma discussão tão grande que acabou por implicar uma mudança de montador.

 

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Um dos grandes momentos do seu filme é aquele em que a personagem Zé [interpretada por José Smith Vargas] vai buscar o filho à escola e a câmara filma-os a descerem a rua para depois fazer uma panorâmica vertical e mostrar a fábrica, como se estivesse a dizer que a base de uma família, de uma companhia, de uma fábrica é o amor.

 

A fábrica que aparece nesse plano não é a do filme, mas o que eu acho fascinante naquela paisagem da região é que mistura de uma forma muito harmoniosa uma brutalidade incrível. E isso para mim é absolutamente violentador do que poderia ser a vida humana e ao mesmo tempo belíssimo. Essa paisagem industrial é bastante fotogénica porque só os edifícios religiosos e os centros comerciais têm aquele tipo de escala. E as fábricas são despojadas de cuidado arquitectónico, é como se estivesse tudo esventrado e aberto, com os órgãos completamente visíveis. E a relação entre as pessoas convive e vive apesar dessa brutalidade toda. É um gesto de resiliência e amor. O foi escrito para representar este gesto e a forma como se prolongam estas questões no círculo da intimidade.

 

O que é que representam as avestruzes?

 

Não representam nada, são avestruzes. Tenho alguma dificuldade com metáforas. Depois da discussão entre o pai e o filho (com o pai um pouco aluado, preso a um tempo que já passou, com as armas que estão enterradas há 40 anos) queríamos uma cena de um reencontro forçado por uma violência qualquer, algo que encontrassem e que envolvesse um trabalho de equipa que os aproximasse. Originalmente a cena era com um cavalo enterrado na lama e tinham que o remover dela. Mas foi complicado porque ninguém nos queria emprestar o cavalo. Foi então que, ao filmarmos a cena das armas na ilha do Tejo deparámo-nos com um ovo de avestruz. E foi a partir daí.

 

Tem novo projectos que possa discutir?

 

Estou a escrever uma longa passada na África Ocidental, sobre um engenheiro do ambiente que vai fiscalizar a construção de uma estrada e a relação com o que encontra.

 

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publicado por Hugo Gomes às 14:24
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10.9.17

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Foi revelado o teaser trailer do último capítulo da saga Cinquenta Sombras de Grey, intitulado de As Cinquenta Sombras Livre (Fifty Shades Freed). James Foley, que havia assinado o segundo filme do franchise [ler crítica], regressa à realização, o mesmo se pode dizer do argumentista Niall Leonard.

 

Baseado numa saga literária de E.L. James, estas Cinquenta Sombras Livre segue o romance quente de Anastasia Steel e Christian Grey, ameaçado por fantasmas do passado e inimigos de família. Dakota Johnson e Jamie Dornan estão de volta aos seus anteriores papeis.

 

Estreia em Fevereiro nos cinemas portugueses.

 

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publicado por Hugo Gomes às 23:33
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8.9.17

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Mother!, o mais recente filme de Darren Aronosfsky (Black Swan, The Wrestler) foi aplaudido e vaiado durante a sua apresentação no Festival de Veneza, o qual encontra-se em Competição. O realizador tem demonstrado agradado pelas dispares reacções envolto ao seu novo trabalho, sendo o seu intuito que mother! não deixe ninguém indiferente, e como tal, segundo algumas entrevistas dadas, tudo fez para chocar as audiências. Um desses choques voluntários encontra-se na diferença de idades do casal, Jennifer Lawrence com 27 anos e Javier Bardem com 48. À Digital Spy, Aronofsky referiu:

 

"Após escolher a Jennifer, comecei a pensar quem iria contracenar com ela, e que de forma poderia sobressair, quem seria este homem mais velho. Tenho conhecimento que existe uma forte crítica em relação a Hollywood juntar velhas estrelas com jovens ingénuas, mas este filme é sobre isso, portanto encaramos de ‘caras’, não é propriamente aproveitarmos disso. Originalmente, a personagem do Javier iria ser chamada de 'o seu velho' ['Her old man'] – e seria um homem numa cadeira de rodas. Mas isso não era muito sexy, portanto tivemos que arranjar outra coisa. E depois a possibilidade do Javier interpretar esta figura paternal mais velha era verdadeiramente emocionante. A escolha começou com a Jennifer, mas depois do argumento estar concluído".

 

O realizador revelou ainda que não escreveu o argumento a pensar em Lawrence, apesar do papel ser à sua medida e de ser a sua actual namorada.

 

Mother! (Mãe!) tem estreia prevista para dia 21 de Setembro nos cinemas portugueses.

 


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publicado por Hugo Gomes às 01:43
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26.8.17

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A actriz, e agora realizadora Vanessa Redgrave, vai estar presente em Lisboa durante a Festival Internacional de Cultura de Cascais, assim como para a apresentação do seu documentário, Sea Sorrow.

 

Tendo estreia especial no último Festival de Cannes, o filme assumiu-se como uma meditação pessoal da actriz para a com a crise dos refugiados, uma espécie de testemunho do seu trabalho solidário e activista. A sessão, terá lugar no cinema Medeia Monumental no dia 19 de Setembro, contará também com a presença do produtor Carlo Nero e ainda de Lord Alfred Dubs, membro e antigo deputado do Partido Trabalhista, como também activista dos direitos dos refugiados e ex-presidente do Conselho para os Refugiados.

 

Sea Sorrow estreará nos cinemas nacionais a 28 de Setembro.

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 14:32
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