"O Grande Irmão" está armado!

O esperado salto na chamada grande produção: Edgar Wright encontra-se rodeado pela indústria na sua forma mais selvática e, nesse prisma, avança para uma das minas mais exploradas actualmente por este mercado, Stephen King. Parte de um romance distópico publicado em 1982 sob o pseudónimo Richard Bachman - “The Running Man” - , que em tempos [mais precisamente em 1987] dera origem a uma versão “à moda de Arnold Schwarzenegger” (no mesmo efeito do posterior “Total Recall”, o astro contamina plenamente a temática e a própria sapiência em prol de um arquétipo de “filme à Arnold”). Contudo, deixamos o musculado e gigante austríaco e seguimos por esta visão de um futuro que, na altura, parecia distante, hoje nem tanto: os EUA enquanto sociedade totalitária, renegando bens sociais tornados privilégios, sistemas de saúde inacessíveis e um universo laboral adverso à intervenção sindical, com regalias oferecidas ao corporativismo.
“Coisas” que a literatura futurista sempre nos lançou como sinal premonitório do que aí vinha, e das quais Stephen King soube beber, apontando ao pequeno ecrã (a tal “caixinha mágica”) como perversa ilusão da saída da precariedade vigente. Concursos mórbidos, circos ou coliseus gladiatórios captam a violência e a baixeza em reality shows transvestidos. Entre esses, o programa a servir de título da metragem, “The Running Man”, onde indivíduos se sujeitam a ser perseguidos (sem delicadezas algumas) por um esquadrão de caçadores de recompensas, e sob a vigilância atenta das populações com remunerações à vista. Têm de resistir trinta dias, o máximo necessário para alcançar um prémio sedutor: o bilhete de ida para uma vida minimamente confortável, longe da miséria que os desespera. Ben Richards (Glenn Powell) é o mais recente, e promissor, candidato à montra final. As suas motivações são simples: a precariedade da vida familiar e o facto de a filha de dois anos necessitar de cuidados caros, impraticáveis para a sua classe (proles, sublinha-se), levam-no a participar neste concurso mortal. Cedo se torna um astro nesse universo, enquanto, dia após dia, se apercebe da sua condição e do sistema corrupto e autopreservador que o rodeia. A insurreição dentro do jogo fá-lo trilhar caminho como “símbolo de uma iminente revolução”.
A contradição deste filme, talvez sob o efeito de certa hipocrisia industrial, é que — tal como o livro — capitaliza a distopia para fazer o seu comentário político, e fá-lo através de um anarquismo institucionalizado, com o protagonista-heroi, esse actor ventríloquo, a debitar um discurso de revolta contra chefias e oligarquias (vemos aqui também um contexto tecnocrático, actualizado). O fervor é real, certa puerilidade também, e o cinismo diante do material é constante: cinismo perante o texto de origem e o embuste inerente ao gesto de adaptação. Essa hipocrisia revela-se, na prática, semelhante às adaptações de “The Hunger Games” ou “V for Vendetta”, aqui dois exemplos imediatos desse cinema de milhões que incita políticas de intervenção e, simultaneamente, conserva o seu lado de “símbolo de revolução”, ou a crença de que “a ideia não morre”. (“The Running Man” cita essa linhagem, tal como Hugo Weaving clamava “heroicamente”, em “V for Vendetta”, que “ideias são à prova de bala”.)
Podemos cair na ingenuidade: fruto de um desgaste politizado desses ares já algo nauseabundos, ou podemos revoltar-nos contra a própria ideia de um estúdio como a Paramount incitar ao “desliguem as vossas TVs”, “descubram quem manda”, empunhando a arma como Luigi Mangoni e o CEO, numa performance de revolta e violência política estilizada. Pois bem, Wright acerta no tom, na brincadeira doseada nessa seriedade, no elenco e na construção de mundo. Falha nos meios: recursos milionários para uma mensagem anti-milionária. Hollywood a ser contraditória, e nisso há um espectáculo excessivamente à americana a consagrar.




