Quarteto de cordas

Tenta-se mais um Quarteto. Tenta-se ser mais Fantástico do que o anterior. Mas as ilações tiradas mostram como uma das personagens mais complexas da assinatura Marvel, o(a) Surfista Prateado, criatura de um outro espaço que para proteger os seus, sacrifica-se à eternidade numa servidão a um tirânico devorador de Mundos (Galactus), angariando culpa e culpa de trilhões de vidas perdidas em prol da insaciável fome da entidade. Contudo, continua sem atingir a sua ênfase dramática nem os seus dilemas existenciais na transposição para o grande ecrã.
Se não contarmos com as constantes alusões projectadas pela personagem de Richard Gere em “Breathless”, de Jim McBride (sim, o remake americanizado de “À bout de souffle”), as raras importações cinematográficas da figura criada por Jack Kirby são de uma bidimensionalidade atroz, e este “Fantastic Four: First Steps” não foge à regra, mesmo que o “building up” da incorporação de Julia Garner prometa algo acima do que é entregue. Mas não poderíamos esperar muito da Disney neste conteúdo, e os incómodos dilemas, os complexos que estes quatro magníficos poderiam trazer e deliciar, são facilitados para qualquer freguês entender, sensibilizar, ou interpretar tudo no rol de cinema escapista, diríamos até “pipoqueiro”, se não fosse o caso de as pipocas se apoderarem do espectáculo, nestas condições, ao invés do filme.
Pintado com tinta retro-futurista, a aposta marvelesca inicia-se com a condição de ser um mundo alternativo, não situado no contexto partilhado, mas sim na mistela multiversal que esta fase [phase] nos assegura como grande finale. A ópera aqui orquestrada tem notas que, vá lá, arrancam sorrisos breves, mas nunca uma verdadeira adição. Primeiro, o descartar de muito do humor marvelesco, representando um risco quanto ao seu modus operandi. E, se “Superman”, na sala ao lado, adquiria a cor e a jocosidade que se recordava com nostalgia, aqui a Disney quer consequências, quer seriedade, e insinua umas piscadelas ao texto de crítica político-social.
Obviamente, nem uma coisa nem outra se expandem. Tudo é despejado, entregue a discursos demagogos e de compreensão deslizante. Nem o tal Complexo de Abrãao, que poderia, por um lado, alavancar, feito Arquimedes, o produto para além do aristotélico A e B e clímax C com destruição e festim CGI, é repensado na oralidade de Vanessa Kirby, enquanto Susan Storm (aka Mulher Invisível), de cima do palanque, frente a uma violenta mob, desesperada pela escolha dos seus herois de inspiração, às portas do Armagedão. Resolve-se a situação com empatia, não ao próximo, mas para com eles, a do tal grupo de super-humanos, algo elitistas e bravos no seu admirável novo mundo. Contudo, não convém sermos demasiado duros com esta miopia crítica, porque o próprio mundo aqui construído é binário: os protagonistas e os “outros” (que se resumem ao restante globo), completamente servis às vontades destes seus conquistadores.

Mesmo com algum camp e kitsch atirado à cara, “The Fantastic Four: First Steps” resume-se ao “mais do mesmo” em termos produtivos e dentro dessa linhagem do MCU. Tem personalidade, o que já é algo, quando comparado aos seus congéneres formatados (“Thunderbolts*” sofria precisamente dessa carência), mas, evidentemente, não é Kierkegaard, mesmo que assumindo a sua limitada sapiência em ser-se “alegórico” sem sê-lo. São milhões investidos, há que ser perceptível, há que acompanhar a juvenilidade dos seus atendentes.
Noutras ordens, Kevin Feige convocou recentemente as suas hordas para anunciar que, em breve, todos estes universos terão o seu reset, um recomeço, ou seja: “toca o disco, vira, toca do mesmo”. Assim vai o estado de saúde do cinema americano à la Hollywood. Enquanto isso, o Surfista Prateado continua aquém da sua potencialidade. Parece que há filosofia nos comics que o audiovisual ainda não consegue replicar.


















