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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Falando com Dídio Pestana: Um pouco sobre tudo, um pouco sobre nada.

Hugo Gomes, 13.02.19

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Dídio Pestana / Foto.: Hugo Gomes

Mesmo sendo “Sobre Tudo Sobre Nada” a sua primeira longa-metragem como realizador, Dídio Pestana já povoava neste universo cinematográfico há bastante tempo. Habitual colaborador e companheiro de Gonçalo Tocha (para além do sound design, ambos integram uma banda musical denominada TochaPestana), o agora realizador decide aventurar-se sozinho no Cinema pessoal, algo caseiro, o qual, através de 8 anos de filmagens, percorre toda uma jornada íntima e profissional da sua persona.

São as rodagens, os festivais, as amizades e os romances que não vingaram, temas e muitos, abordados e simultaneamente deixados no vazio. É por isso que entramos num mundo partilhável “Sobre Tudo Sobre Nada”. Aliás, será mesmo isso a essência dicotómica do Cinema.

Falei com este homem de mil ofícios (vencedor da primeira edição do Prémio do Público da KINO 2019 – Mostra de Cinema de Expressão Alemã), da sua suposta emancipação, até ao cinema caseiro pelo qual inspirou e sobretudo, sobre a definição exata (se é que existe) do Cinema com “C” grande.

Antes de começar, gostaria de perguntar se este projeto nasceu de uma intenção, ou a ideia do filme surgiu a meio do processo?

Sim, houve uma intenção inicial de fazer um filme, daí pegar na minha câmara e no Super 8 e começar a filmar. Foram escolhas iniciais conscientes. Já a duração, a de oito anos, não foi controlada por mim, lá está, por não ter um lado diarístico, o que implica que estive à espera de um momento em que me indicasse que não precisava mais de filmar este filme. E isso aconteceu em 2016, numa viagem ao Chile, na qual me apercebi de estar a filmar menos.

Mas durante este processo de registo, e tendo agora o produto final nas mãos, não se sente exposto? Aliás, é uma parte da sua vida que vemos no grande ecrã, incluindo as desilusões amorosas.

Não sinto isso. É óbvio que houve uma exposição, mas essa apenas deixei acontecer. O que está ali apenas não tive controlo, não selecionei o que deveria ou não deveria filmar. Parece estranho dizer isto, a verdade é que nunca experienciei a exposição, até porque no preciso momento em que começas a editar o filme – aquelas imagens, o meu íntimo, as pessoas envoltas, os amores (óbvio que tenho relações amorosas muito fortes ali) – tudo isso transforma-se em personagens na transcrição para a obra. E o hiato que houve ali, essa paragem ou abrandamento, serviram como distância necessária para com as imagens da edição, visto que eu próprio a fiz em conjunto com Rui Ribeiro. E na sala de edição, houve uma pré-seleção feita por mim e isso contribuiu para o afastamento. E está à vista de todos que todas aquelas imagens têm uma ligação afetiva para comigo. Então, o ato de cortar não foi um processo fácil.

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A decisão de filmar em Super 8 garantiu ao espectador esse sentimento de invasão a algo íntimo, a algo seu? Explique como surgiu esta ideia de filmar em tal formato.

A ideia de fazer um filme, apesar de à partida querer fazer algo intimista e próximo, que se aproximasse a esse cinema pessoal de Jonas Mekas ou de Ross McElwee. Depois é todo esse universo amador que o Super 8 proporciona. Aliás, o seu aparecimento permitiu que toda a gente pudesse pegar numa câmara, numa massificação das filmagens. Até porque foi a primeira vez que surgiram os ditos filmes caseiros.

À medida que ia filmando “Sobre Tudo Sobre Nada”, ia colecionando muito material caseiro vindo de outras famílias que deparava em diferentes esferas ou em leilões como o Ebay. É um universo muito interessante e cinematográfico, visto que nos inserimos num espaço muito íntimo. E para dizer a verdade, pegando na tua questão da exposição, foi através desses vídeos caseiros provenientes de outros que senti que estava a invadir qualquer coisa (há uma frase no filme que refiro a isso, “invadir privacidades”). Mas tinha que ter consciência de que estes filmes deveriam ser vistos, porque as famílias os libertaram para o Mundo.

Em “Sobre Tudo Sobre Nada” pretendia pegar em imagens pessoais e transformá-las num filme narrativo, uma história, neste caso diria 100% real, mas foi um processo em que permitiu. Como falei, interessa-me esse lado pessoal do cinema, assim como o cinema que se expõe, aquele em que vemos o realizador do filme ou o técnico de som, ou simplesmente a câmara cai acidentalmente. Para isso, diversas vezes dava a câmara a outros para que pudessem filmar-me, porque no fundo o Cinema é isso, uma partilha.

De certa forma, e visto que foi um colaborador assíduo do realizador Gonçalo Tocha, este “Sobre Tudo Sobre Nada” é uma espécie de emancipação?

Não há necessidade de emancipação. Quanto ao Gonçalo, já me dou com ele há vários anos, temos uma relação de amizade de 20 anos, conhecemo-nos no 1º ano de Faculdade e desde então trabalhamos juntos na música e no cinema. Na verdade, ele não me incentivou para o filme, mas sim nos últimos estados do filme, em que me aconselhava a despachar a montagem e arriscar a minha sorte no envio para Locarno. É normal que exista neste tipo de relações uma interajuda, uma troca de energias. Por isso, essa ideia de emancipação não faz sentido, porque na verdade é que depois disto continuarei a colaborar com ele, não me tornei realizador e não será agora. Voltarei aos meus trabalhos na área do som e do sound design.

… e  à TochaPestana, a vossa banda.

Sim, iremos [risos]. E na faculdade tínhamos uma banda que se chamava Malina, depois veio o Lupanar e agora o TochaPestana. Nós dizemos que essa banda será para sempre [risos]. Sim, a nossa relação de amizade extraviou para o lado profissional, o que é bom, porque nem sempre é fácil trabalhar com amigos, mas no nosso caso resulta.

Visto que referiu Jonas Mekas e tendo em conta que o cineasta recentemente nos deixou, gostaria de falar sobre a sua influência no seu trabalho.

No fundo, não foi o Jonas Mekas a pessoa que me fez abrir os olhos a este cinema pessoal, mas sim, o Ross McKewie, do qual vi quase todos os seus filmes numa retrospetiva no Doclisboa. Na altura fiquei fascinado com o Sherman 's March, aquela ideia de um filme de História transformar-se num diário pessoal e numa viagem pelo sul dos EUA. Por isso é que afirmo que foi o McKewie o responsável por esse despertar para este cinema.

Quanto a Mekas, o filme que mais me tocou, curiosamente, vi há pouco tempo, na altura em que começava a filmar em Super 8, e foi “As I Was Moving Ahead Occasionally I Saw Brief Glimpses of Beauty”. Encontrei naquele caos todo, naquela ausência de cronologia / narrativa, uma história: a sua e da sua família.

Quando vejo filmes em Super 8, deparo-me com algo mais além do universo caseiro, e sim com o uso da montagem. E apesar de Mekas referir que não a utilizou, existe no filme uma ideia desta, um discurso sobre e acima de tudo existe música. É uma montagem através de datas que se vai montando como um puzzle na cabeça do espectador. É simplesmente um filme muito bonito.

É um cliché dizer isto, mas Mekas foi uma grande perda. O que ficou foi muito bom cinema para vermos e, acima de tudo, essa ideia de pegar no amador e transformar em cinema para além das quatro paredes de casa.

Queria questionar sobre o título – “Sobre Tudo Sobre Nada” – que acaba por ser bastante honesto e adequado ao tom do seu filme.

Foi na altura quando procurava por um título mas não sabia qual. Enquanto filmava, coloquei como provisório este e só percebi que era o mais correto quando comecei a montar. Através desse processo, apercebi-me que estava a querer abordar muitos tópicos. Na altura não entendi e fazia-me confusão, mas descobri que a essência do filme era mesmo essa, abordar tudo e mais alguma coisa e ao mesmo tempo não processar muito sobre elas. Até porque as coisas continuavam a andar e a vida continuava. No final, foi o título que me fez mais sentido.

O título é também uma referência a um diálogo que teve com a sua mãe.

Sim, há uma parte do filme que corresponde a um processo que não está lá, que foi o da memória familiar. Gravei algumas conversas que tive com a minha mãe e com outros membros da família de forma a criar um arquivo histórico. Algo que me interessava a mim, mas não só.

Mas é a pensar num filme que lançamos ideias e daí surge a construção do que acontece no final. Neste caso tentei aflorar conversas que não tinha no meu dia-a-dia, mas que foram possíveis através do processo de criação deste filme. Dei por mim a ter quatro horas de conversa com a minha mãe, algo que não aconteceria num dia normal.

Quanto a novos projetos?

Vou continuar a trabalhar no que me dá prazer. A colaborar com realizadores dos quais gosto, gravar som em rodagem, sound design. Aliás, é isso que eu gosto de fazer.

"Sobre Tudo Sobre Nada": apoiando nos 8mm como ensaio memoralista

Hugo Gomes, 18.08.18

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Será que o cinema consegue ser autobiográfico? Uma pergunta desnecessária, visto que a resposta parece ter sido encontrada há muito tempo, e a juntar isso, a intimidade com que depositamos nas imagens e nos seus simbolismos.

Sobre Tudo Sobre Nada”, de Dídio Pestana, é um filme que nos presta a condição da autorrepresentação, não inserida no valor visual, mas na estrutura deambulante com que coloca a sua experiência de vivente. É um relato filmado a Super 8 (durante oito anos) que por sua vez depara-se com um autêntico molde temporal, as memórias que se depositam e que surgem após o crepúsculo, é o Cinema a servir não como base de uma arte universal, mas um exorcizar das reflexões interiores. Sim, é um cinema no “Eu”, referindo ao “Eu” e que convida os “Outros” a remexer nessas reminiscências e pensamentos, que uma vez libertados são de domínio público.

Sobre Tudo Sobre Nada” é, como o título indica, um rol de experiências como é o nada extraído destas. Ora é a família imortalizada nas memórias e nos leit motiv que servem como atalhos às mesmas, ora são as amizades que gradualmente se convertem em meras visitas, ora as conversas de tudo e de nada (mais uma vez referência), e, por fim, os amores, sejam eles cinematográficos, geográficos e obviamente amorosos. Dídio Pestana apenas expôs-se, e fá-lo de forma egocentrista, mas igualmente serena, humilde quanto às suas capacidades de narração, um contador de história que vai para além das palavras, recorrendo às imagens que valem sobretudo folhas de diários inteirinhos.

É um bonito ensaio, sem com isto declarar o adjetivo como primário e infantilizado. Quem dera que muito do nosso cinema umbiguista tivesse este terra-a-terra das suas intenções, ao invés de cair por campos sem pássaros, silenciosos e pedantes na sua caminhada. Este é simplesmente um filme sobre tudo … e sobre nada.