Dea Kulumbegashvili: "sou feminista, sou mulher, e esse olhar atravessa naturalmente o meu cinema."

April
Consagrada em San Sebastián com “Beginning”, a sua primeira longa-metragem, Dea Kulumbegashvili posicionou-se de imediato entre os nomes certeiros de uma nova frente do cinema europeu pós-COVID-19, até porque, de forma quase acidental (ou premonição), o drama de perseguição, sufoco e violentação de uma testemunha de Jeová parecia espelhar alguns dos elementos agravados do mundo após esse “reset” de 2020.
Quatro anos depois, a chegada de um segundo trabalho confirma o que já antecipávamos: a georgiana responde à realidade que a “pariu” como cineasta. “April” é um Abril despedaçado, igualmente violentado, e no trilho de uma obstetra que realiza clandestinamente abortos em vilas próximas do hospital onde trabalha, o espectador é acorrentado a um clima de constante medo, que corrói monstruosamente em vez de perseguir furtivamente. A impotência, sentimento que une esta metragem à anterior, permanece intacta, fortalecida, metamorfoseando o tempo e os corpos.
Filme difícil, que recusa a supremacia da mensagem sobre a imagem, “April” coloca Dea Kulumbegashvili no território da estética da provocação: mostra-nos que as imagens valem mil mensagens e que o incómodo é um sentimento a abraçar enquanto espectadores.
Cinematograficamente Falando… conversou com a realizadora, cujo filme, premiado no Festival de Veneza de 2024, estreia esta semana nos cinemas portugueses. Um encontro sobre provocações, crueldades, raivas e a empatia que nos resta neste Mundo … adivinhem … não caminha para “melhores dias”.
O seu primeiro filme, “Beginning” já detinha uma carga muito particular, sentia uma certa crueldade, tanto para a personagem principal, Yana (Ia Sukhitashvili), como também para o espectador, que acompanhava de perto o seu sofrimento. Já no seu novo filme, “April”, parece que vai ainda mais fundo nessa tal crueldade …
Na verdade, nunca penso no meu trabalho a partir da ideia de ser cruel. Mesmo agora, enquanto escrevo um novo argumento, a minha intenção não é essa. O que faço é confiar no que sinto em relação ao mundo e às personagens que trago para o ecrã. Tenho a necessidade de ser muito aberta, directa e honesta com elas. Não acredito nessa separação dicotómica, essa, entre “boas” e “más” pessoas, para mim não existem apenas polos, porque cada pessoa é um todo, com todas as suas contradições. Quero olhar para elas assim, na sua totalidade. Talvez por isso a minha abordagem possa parecer cruel, porque tento manter um ponto de vista directo, sem filtros.
Quando estava a filmar “April”, nas aldeias onde rodámos, vivi momentos muito difíceis, sobretudo pelas conversas com mulheres que me procuravam para partilhar as suas histórias. Foi algo emocionalmente intenso. Eu própria sentia-me cada vez mais revoltada, com uma raiva que não sabia exatamente como transformar. Acho que esse sentimento acabou por se refletir no filme.

Dea Kulumbegashvili
De volta ao início… ou melhor, ao primeiro filme [“Beginning”], uma obra concebida e montada para transmitir uma ansiedade prolongada, a mesma que consome a personagem. A meio da narrativa, porém, ela deita-se na relva e adormece. O filme acompanha a totalidade desse repouso … pausa no conflito, tal como a protagonista, permitindo também ao espectador descansar com ela. É um instante de paz. Já em “April”, a protagonista nunca descansa. São os outros que repousam por ela. Ela vagueia pela noite com as suas ânsias.
Exacto! É curioso, porque para mim a experiência do filme também foi muito marcada pelo facto de estar grávida enquanto o rodava. Dei à luz durante a montagem e continuei a trabalhar depois. Foi uma vivência muito intensa, porque não consigo separar o milagre de ter um filho da experiência de fazer este filme.
Vivemos num mundo que já não nos deixa descansar, e por isso, quando penso no cinema, não acredito que ele deva existir apenas para agradar, consolar ou apaziguar. Para mim, o cinema pode — e às vezes deve — abalar-nos, porque a realidade, mesmo sendo tão dura todos os dias, nem sempre consegue fazê-lo. “April” reflete essa inquietação: um mundo em permanente agitação, onde o repouso quase não existe.
Quero agora fazer-te uma pergunta difícil, talvez traiçoeira. Na segunda cena do filme vemos um parto real (existem dois no filme, mas o primeiro é natural, enquanto o segundo um cesariana). É uma sequência muito dura para o espectador, e parece funcionar quase como um aviso: “a partir daqui o filme pode ir a qualquer lado, por mais graficamente seja”. Porquê começar desta forma? E como foi possível filmar algo tão raro e delicado? Sobre a autorização, todo o processo?
Quando disse aos produtores que queria filmar um parto real, a reação imediata foi: “mas isto não é um documentário!”. [risos] A verdade é que eu passava muito tempo na clínica a falar com mulheres, a ouvir as suas histórias, que eram por vezes dolorosas. Algumas tinham engravidado sem desejar, outras tinham percursos muito difíceis até decidirem ter aquele filho. Essas conversas marcaram-me profundamente.
Ao início surgiu quase como uma brincadeira, mas depois tornou-se inevitável: o parto tinha de fazer parte do filme. Porque acredito que o trabalho de um realizador é criar as circunstâncias para que o cinema aconteça e, muitas vezes, o que acontece diante da câmara vai além do que estava escrito no guião.
Foi também uma decisão importante para mim enquanto mulher cineasta. Há ainda quem veja o feminismo como um estigma no meio artístico, como se assumir-se feminista fosse reduzir a arte a “mensagens”. Não sinto necessidade de justificar nada: sou feminista, sou mulher, e esse olhar atravessa naturalmente o meu cinema. Mostrar um parto real foi, portanto, uma afirmação, e tive a sorte de ter uma equipa que compreendeu e apoiou essa escolha, mesmo sabendo que poderia complicar a distribuição do filme. Mas, como disse na altura: isso já não era o meu problema, era o deles.
O tema central do teu filme é o aborto. A maioria dos filmes que vi sobre esse tema foca-se na perspectiva de quem decide interromper a gravidez, raramente no lado médico. Lembro-me apenas, assim por alto, de “Vera Drake”, do Mike Leigh, mas aí a personagem da abortista (interpretada por Imelda Staunton) é retratada quase como inocente, angelical e movida apenas das “boas intenções”. Já em “April”, a protagonista ajuda outras mulheres, mas há nela algo de monstruoso (e visivelmente testemunhamos essa bestialidade na pele). Muitas vezes vemos a personagem como uma figura ambígua, não vilã, mas também não anjo.
Para mim, essa ambiguidade liga-se à dramaturgia clássica. Tenho formação nesse campo e sempre me interessou a questão do herói no mundo contemporâneo. Na tragédia grega, o herói é definido pelo sacrifício: vai para a batalha, enfrenta a luta, e geralmente morre, porque se sobreviver acabará corrompido e perderá a glória. O que me interessa hoje são os actos heroicos do quotidiano, muitas vezes invisíveis, quase banais. A protagonista de “April” cumpre o seu dever profissional. Isso, por si só, não é heroico, mas torna-se no contraste com o mundo à sua volta, um mundo que recusa assumir responsabilidades. O que ela faz, dentro da sua profissão, é uma forma de fidelidade.
Claro que a questão do julgamento permanece. Ela realiza abortos, mas nunca procura transformar a realidade para além desse gesto. E então podemos perguntar: o que significa isso? Que mudanças são realmente possíveis? Pessoalmente, não acredito muito em grandes mudanças estruturais.

April
Mera curiosidade: como entrou o Luca Guadagnino na produção? O vosso cinema é distante. Nunca teria imaginado essa ligação.
Conheci o Luca no Festival de San Sebastián, quando mostrei “April”. Ele foi muito encorajador comigo e também com os produtores que já tinham trabalhado em “Beginning”. A ideia de ele se juntar ao projeto começou quase como uma fantasia, mas acabou por acontecer. Para mim, foi sobretudo um apoio pessoal e artístico. O Luca tem muito mais experiência e, em momentos em que me sentia insegura como realizadora, ele foi alguém a quem podia recorrer. Em certas fases de produção, esse apoio fez realmente a diferença.
Ainda assim, persisto [risos], os vossos cinemas são muito diferentes.
É verdade, mas não vejo problema nisso. Para mim, cinema é cinema. Não faço distinções dessa forma.
Há algo no seu trabalho que admiro e que também vejo em alguns dos meus realizadores de eleição: o modo como trabalham o tempo. Hoje vivemos numa sociedade acelerada, que consome tudo depressa. Os seus filmes, pelo contrário, exigem tempo.
Sim, e isso é sempre uma luta. Tenho páginas e páginas de notas de pessoas ligadas às minhas produções a dizer: “Podes cortar facilmente 45 minutos”, ou “Podes clarear esta cena porque está demasiado escura e o público não vai aguentar”. Talvez tenham razão, porque não sou comercial nem popular como outros realizadores. Mas acredito que o cinema não é feito só de tendências. As modas passam, mas o que permanece são aqueles cineastas que se mantêm fiéis à sua visão durante décadas. Às vezes os jovens espectadores ainda não conhecem certos autores, como o Apichatpong Weerasethakul, por exemplo, e de repente, cinco anos depois, descobrem-no e apaixonam-se.
O que tento é ouvir-me a mim própria, mesmo quando é difícil, e aceitar o risco de falhar. Porque no nosso meio há cada vez menos espaço para o erro, mas acho que é legítimo fazer um mau filme, tropeçar, e depois recomeçar.
O curioso é que a indústria cria rótulos para ‘cinemas’ como o seu, ou o do Apichatpong, ou o do Béla Tarr. Chamam-lhe “slow cinema”, contudo, debato-me intensamente com esse termo …
Também não acredito nesse rótulo. O que significa ser “lento”? Dramaturgicamente, pensemos: um filme do Béla Tarr pode decorrer em três dias, numa semana. Como podemos comparar isso, por exemplo, com a “Bourne Trilogy”? São quase meios diferentes. Adoro cinema experimental, como o de Stan Brakhage, e posso ver os seus filmes durante horas. A questão não é a velocidade, mas o que significa algo acontecer em cena. Para cada espectador, isso tem um peso diferente. Pessoalmente, não consigo empatizar com personagens que estão sempre a correr, saltar, matar ou salvar o mundo. Fico exausta com esses filmes … chego a adormecer até, de tão sobrecarregada que me sinto.
Por outro lado, adoro o tempo do Kiarostami. Para mim, o cinema dele nunca é lento. Lembro-me de quando estudava em Columbia e um colega viu pela primeira vez “Stalker”, de Tarkovsky. Sentou-se ao meu lado e estava a sofrer, visivelmente. No fim disse: “Como é que podes gostar disto? É só um homem deitado na lama a recitar poesia!” E pensei: também é legítimo descrever o filme assim. Depende sempre do olhar de quem vê.
É curioso, porque mencionaste o tempo do Kiarostami, e em “April” temos imensas cenas filmadas dentro de uma viatura, como em “Taste of Cherry” (1997).
Sim, claro. Sou influenciada por muita coisa, na verdade. Acima de tudo, amo cinema — sou uma grande cinéfila. Para mim, o cinema é sempre um diálogo, e contínuo. Já não é um meio jovem, já tem história, já carrega tradições. Por isso não existe sem influências: estamos sempre a responder a filmes anteriores, a referências, a preferências pessoais. Faz parte do próprio acto de filmar.

April
Gostava agora que falasse-me sobre a sua atriz principal, Ia Sukhitashvili. Ela passou do primeiro para o seu segundo filme. Vai também estar no terceiro? [risos]
[risos] Talvez. Antes de mais, a Ia é uma grande amiga e uma pessoa extraordinária. Quando estava a preparar “Beginning”, não queria vê-la no casting. Ela já era uma atriz muito conhecida na Geórgia, atriz principal do Teatro Dramático Nacional, e trabalha desde os quatro anos. Procurava rostos mais próximos de pessoas reais, não de intérpretes com essa bagagem.
Mas a Ia ligou ao director de casting e disse: “Como é possível não quererem falar comigo?” [risos]. Apareceu de surpresa no casting, entrou na sala, e começámos a conversar. O meu director de fotografia ficou imediatamente fascinado, e aí percebi algo: os grandes atores têm a capacidade de entrar no mundo que estás a criar e de se sintonizar com todos os outros, sejam eles actores profissionais ou não. A Ia é exatamente esse tipo de atriz: consegue tudo. No “Beginning” aprendi imenso com ela, e gosto de trabalhar assim, de escrever a pensar em pessoas concretas, porque escrever para um actor é diferente de escrever no abstracto. Com ela sinto sempre que posso ir mais longe.
Porque sinto que ela não está apenas a representar. Ela encarna a personagem, envolve-se totalmente …
Sim, ela encarna e permite-me trabalhar dessa forma. Deixo-lhe muito espaço em aberto. Não quero que esteja sempre a falar ou a fazer algo; quero que simplesmente seja. Isso é muito difícil de alcançar. Já no “Beginning” caminhámos nessa direção, mas em “April” foi ainda mais profundo, porque aprendi como criar condições para ela existir dessa maneira.
No primeiro filme, dependi mais do guião. No segundo, confiei mais no cinema em si, naquilo que acontece entre todos os elementos. Mas continuo a achar que nunca serei uma realizadora totalmente segura, porque o cinema lida sempre com o desconhecido. E é o desconhecido que o torna fascinante.
Talvez isto não seja uma pergunta, mas uma provocação: a agressividade deste filme parece-me também uma resposta ao momento político actual. Os movimentos conservadores crescem, os direitos humanos estão cada vez mais restringidos, e principalmente so direitos alcançados pelas mulheres estão a regredir em alguns países, como o aborto, que está de novo em risco.
Infelizmente, acho que só vai piorar. Tenho quase a certeza. Na Geórgia, desde que terminei o filme, a situação já se agravou, e no mundo também.
Quando rodava, em 2023, ainda existia a crença de que não poderíamos ser assim tão ingénuos enquanto sociedade, que não deixaríamos os movimentos de extrema-direita ganhar tanto espaço. Mas essa ilusão foi-se desfazendo, pouco a pouco. É como se a humanidade tivesse esta tendência de, a certa altura, começar a gostar demasiado de si própria e acreditar: “Não vamos chegar tão baixo”. Só que depois, inevitavelmente, chegamos ao ponto. Basta olhar para os Estados Unidos, ou para o que acontece na Polónia e na Hungria.
O ataque aos direitos reprodutivos e à representação das mulheres na sociedade é sempre uma característica das derivas autoritárias. E estamos a viver exatamente esse momento.

