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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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"Shazam!": chegou um novo super-herói a gritar alto para todo o mundo ouvir

Hugo Gomes, 03.04.19

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Não é com “Shazam!” que o pós-modernismo no Universo Cinematográfico da DC é inaugurado. Para isso é preciso recuar até aos (não tão longínquos) “tempos negros” da marca, mais concretamente a 2016 com “Batman V Superman: Dawn of Justice”, onde Zack Snyder já colocara um dos seus heróis em constante contexto com o mundo que vivemos. Bastava olhar para os “falsos-noticiários” produzidos para fins dramáticos, as reflexões impostas por tais e os comentários que choviam como torrentes sobre a supremacia de uma das figuras de prestígio deste Universo – o Super-Homem.

Mas é com o infame Snyder e o alter-ego de Clark Kent que chegamos a este “Shazam!”, onde o seu construído ecossistema suporta todos os heróis até então apresentados, olhando para estes com uma distância própria de um espectador. Billy Batson (Asher Angel) é esse espectador, um órfão que por coincidência coexiste nesse universo povoado de heróis e vilões e que, sem prever, integrará parte desta mesma legião.

Criado em 1940, o anteriormente apelidado de Capitão Marvel (não é difícil perceber o porquê da sua mudança de nome), Shazam! surgiu numa época de ouro dos comics, espelhando esse fascínio de milhares que porventura sonhavam encarnar nos corpos dos seus ídolos fictícios. Não é por acaso que esta personagem detém similaridades evidentes com o super-herói mais popular dos quadrinhos, endereçando uma atitude algo meta para com o seu inserido panorama. O alter-ego de Batson faz a sua primeira aparição cinematográfica em 1941, num seriado à imagem de outros congéneres, que no entanto transponham essa fronteira, das páginas aos ecrãs. Nesse sentido, são 78 anos nos que separam dessa incursão protagonizada por Tom Tyler com esta aposta da DC / Warner, que em certo sentido traça um novo rumo para este espólio na indústria atual.

Com James Wan a assumir o controlo criativo do franchise (fez o estrondoso êxito com “Aquaman”), confia em David F. Sandberg, “saidinho” das produções de terror “Lights Out” e “Annabelle: Creation”, para prestar serviço neste episódio acima de tudo colorido e venturado em nostalgia mercantil. Não é por nada que as referências da sua estrutura narrativa são tomadas como óbvias e garantidas em determinadas cenas (“Big” é o seu vangloriado medalhão), o filme tende em não esconder isso, o que deixa a perder qualquer exercício para com o espectador.

Infelizmente, e repescando o dito pós-modernismo no primeiro parágrafo (aqui estamos nós a jogar com questões meta também), essa virtude é diversas vezes abandonada para se instalar na memória cinéfila das audiências, trazendo a nostalgia como cúmplice da demanda do entretenimento. É uma tendência que J.J. Abrams encontrou como sofisticação de marketing no seu “Super 8” e hoje se expande, quer no pequeno (“Stranger Things”) ou grande ecrã (“Star Wars: Force Awaken”, “Ready Player One”, “It”). “Shazam!” não foge a esses vícios, orquestrando uma narrativa e uma atmosfera de um produto PG-13 digno dos anos 80, onde os pequenos laivos de terror estão no limite da sua auto-censura (Sandberg tem alguns motivos de júbilo).

E essa imposição de um conforto referencial frente à vontade de transgredir o subgénero, é o que torna “Shazam!” num exemplar de pouco fôlego, por mea culpa e ao mesmo tempo por culpa da saturação que se vive neste tipo de produções. Por um lado, é uma fórmula vencedora que a DC, que diversas vezes “engole” pó da Marvel/Disney, encontrou como registo a seguir.

Dirão as más línguas que é o mais “Marvel” dos filmes da DC, pautando o seu humor e carregando nos seus tradicionais elementos de um produto de família (moralidades mil no nosso horizonte), sendo isso um sinónimo de sucesso entre o grande público. Contudo, convém afirmar que Zachary Levi, enquanto herói acidental, é uma aposta ganha.

Por ordens do mercado, o medo deve chamar-se "Annabelle: Creation"

Hugo Gomes, 09.08.17

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A popularidade desta boneca amaldiçoada em “The Conjuring” levou-a a bordo num franchise próprio. Aí, Annabelle, anteriormente reduzido a adereço secundário converte-se no centro de uma artimanha de jump scares e provocações satânicas num malfadado filme de 2014, sendo que uma sequela / prequela desse mesmo fenómeno foi visto com alguma desconfiança, principalmente com a vinda de notícias de um “Universo Partilhado”. As brisas positivas chegaram com a entrada de David F. Sandberg na cadeira de realização, o sueco que havia demonstrado perícia em trabalhar a luz e a escuridão na sua curta, e mais tarde convertida a longa, “Lights Out”. Se é bem verdade que este “Creation” supera aos pontos os acidentes cometidos pelo anterior “Annabelle”, é também verdade que se trata de mais um caso de um prolongado síndrome nas grandes produções de terror. Mas vamos por partes.

“Annabelle: Creation” recorre às típicas camadas do old dark house, as assombrações como ponto de criação para um dispositivo narrativo que mais tarde ou mais cedo assemelhará a um “comboio-fantasma”. Mas é logo nesta declaração a um subgénero tão antigo, que este segundo capítulo arrecadou o seu primeiro ponto favorável. Quando deparamos com uma visita guiada pela casa, esse cenário que nos acompanhará ao longo do filme, somos induzidos por uma câmara que topografa espacialmente esse imóvel-décor. Assim, o espectador consegue ter uma visualização mental de onde encontra-se cada assoalhada, cada compartimento, cada quarto escuro e proibido, isto, acima da “cegueira” cometida no primeiro “Annabelle”, onde encarávamos uma protagonista correndo desalmadamente por “sabe-se lá onde”. As audiências são assim, visitantes em plena descoberta do espaço.

Apresentado o espaço, personagens e subenredos, seguimos então para os jumpscares, pelos sustos que saltitam e pelas personagens que se comportam como verdadeiras cobaias do medo. Sandberg é dotado na sua inclusão da escuridão, o jogo de luzes e sombras que salienta a sua dose de terror atmosférico – e mais, notável conhecedor do chamado “terror invisível” que tão bem Jacques Tourneur usufruiu nas suas incursões do fantástico. Aqui, a boneca é um acessório máximo dessa … sugestão.

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Contudo, o carris oleado e devidamente meticuloso da sua proposta, depressa descarrila e é então que entramos no referido “síndrome” (que contagiou todas as produções de James Wan): o terceiro ato, essa apropriação do caos, literalmente falando. "Annabelle: Creation” esgota a sua porção de sustos e truques e cede ao desespero. É tudo ou nada, o espectador habituado à construção desta atmosfera depressa se vê encurralado numa rodopiante perseguição sobrenatural. Há que fugir aos demónios que já não se dão ao trabalho de “brincar connosco”, ao invés disso, é a dependência do CGI (esse maldito “parasita” do género), a música que denuncia os “surpreendentes” sustos e do Universo Partilhado que atualmente se insere. O resultado, um final com um cameo “especial” (a verdadeira Annabelle, essa boneca de pano, faz a sua, por fim, aparição), que nada acrescenta e com um sentido muito, mas muito duvidoso.

Annabelle: Creation”, uma sequela/prequela que supera o seu antecessor, reúne o que de melhor e de pior se faz no chamado “terror de estúdio”. Quanto a isso, há que reconhecer o talento por detrás de Sandberg, nele sim, encontramos um certo vínculo perdido no género.

Quem tem medo do escuro?

Hugo Gomes, 21.07.16

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“Lights Out” é mais um exercício de terror sob o modus operandi de um “The Babadook” ou “Mama”, ou seja, a sua base seguiu-se de uma curta, um mecanismo de susto que culminou numa prolongada ideia para uma longa. No caso de “Babadook”, o projeto tinha “pernas” para atingir o seu pico, mas ficou-se pelo interesse inicial, em relação a “Mama”, a sua situação é semelhante a esta criação de David F. Sandberg, os grandes estúdios levaram a melhor e injetaram a sua dose de cobertura mercantil. Mesmo tendo na produção nomes como James Wan (“The Conjuring”) e o Roger Corman do novo século – Jason Blum (atualmente podemos referi-lo como o grande mentor por detrás dos êxitos do díptico “The Conjuring” e “Insidious”) – “Lights Out” é um produto que resiste à sua ideia de medo, infelizmente esticado por subenredos e pelos conflitos emocionais que este tipo de produção tresandam. 

A curta, produzida em 2013, rendia os seus dois minutos de duração com uma sugestão primitiva de medo, a escuridão. Quem tem medo do escuro? A resposta, muitos, mas muitos possuem uma fobia ao turn off das lâmpadas, o desaparecimento da luz, a dominância do escuro, sentimos receio naquilo que se esconde por entre as sombras. Desde o tempo dos homens primitivos que o tememos e é normal, mesmo nos dias de hoje, como homem civilizado, ainda demonstramos esses receios, que em conjunto com a nossa natureza supersticiosa, geram os mais labirínticos medos. 

Sandberg sob um preciso e tão simples ato recriou o choque com o mundo noturno, onde a “escuridão” abraça-nos e nos deixa indefesos. Um jumpscare, assim descrevendo o minimalismo do “Lights Out” original, transformou-se numa autêntica salada de referências vincadas ao moralismo cristão (um indivíduo que ouve música metal é visto como um marginal social e incapaz de tomar responsabilidades), comumente presente nas produções norte-americanas, e nos elementos “apropriados” do J-horror

Tudo funciona de forma disforme, mas o exagero do referido e anterior minimalismo contrai um efeito inesperado, em certas alturas, muitas mais nas réplicas referenciais, “Lights Out” é uma comédia involuntária. E é pena que tal resulta nessa forma, o esforço de “assustar” não desgruda dessa comédia inequivocamente lançada e no desespero dos lugares-comuns. Infelizmente é essa a ordem do dia, até porque existe aqui indícios de transformar “Lights Out”, mais do que mero produto corriqueiro. Como por exemplo, Teresa Palmer é uma protagonista forte, o suficiente para a destacar fora do rótulo de sósia de Kristen Stewart, e a entidade antagonista, ao contrário de muitos que se converteram em ícones do terror, é necessariamente desprezível para que desejamos a sua “aniquilação”.

Porém, esses curiosos elementos não salvam “Lights Out” de ser um valente “apagão” de ideias de terror, é um exercício que se faz e desfaz nos momentos em que as luzes reacendem na sala de projeção. Quem tem medo do escuro? Não com filmes destes.