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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Ainda podemos acreditar na magia de Hollywood?

Hugo Gomes, 24.11.25

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O quarto está a caminho! Não há como fugir: o caderno de encargos é quem mais ordena. Enquanto isso, deixamo-nos “encantar” pelo espectáculo de ilusionismo, dos pobres até, dos efémeros porém, óptimos para se adaptarem a uma pequena tela, a ser transmitida num serão de um qualquer fim-de-semana.

Ruben Fleischer, realizador promissor em tempos, reduzido a tarefeiro de segunda, sem visão, sem enquadramento, sem opinião para os chamamentos que o seu lugar na indústria poderia invocar. Assim sendo, na saga “Now You See Me”, cada filme entregue a um realizador distinto (Louis Leterrier inaugurou, Jon M. Chu continuou, hoje “querido” do seu meio pelo díptico “Wicked”), sem que estes mostrem mais do que a sua mera operacionalidade. Virou rito de passagem, de colheitas fáceis, pois o público não se revela mais exigente do que o uso do cinema enquanto escapismo … e apenas escapismo.

Voltam as caras antigas (até Morgan Freeman, cada mais velho, a sua aveludada voz é a primeira vítima), juntam-se outras, reúnem-se os cheques, ergue-se o enredo em pleno truque de magia, vingam-se nos ares do tempo, provoca a ingenuidade do próprio tema (politicas a três pancadas, bem e mal, capitalismo de faćil compreensão e moralismos samaritanos, só quem acredita como quem acredita em fadas). Preparem-se… vem plot twist, portanto, tentem adivinhar. Pouco, ou quase nada, há a dizer de “Now You See Me: Now You Don’t”, além de ser sintoma de uma Hollywood anestesiada (incapaz de muito mais entre as lutas do streaming e a IA a entrar pela porta dentro, somado à fraca adesão do público a produções minimamente originais), é  é a maior cartada esperada daquele canto e recanto.

O cinema importa pouco — ou nada — nestes tempos inquietos. Estamos no limbo. Ouçamos o tilintar da máquina registadora: milhões para o cofre sem o mínimo esforço, e isso, sim, é o melhor dos truques de magia … simplesmente enganar-nos a todos.

Bem juntinhos ...

Hugo Gomes, 23.08.25

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Antes de avançarmos para o filme propriamente dito, convém esclarecer que “Together” está neste momento a ser judicialmente processado por plágio. O lesado é a comédia surreal “Better Half”, de Patrick Henry Phelan, cujos produtores afirmaram ter apresentado a ideia ao casal Dave Franco e Alison Brie, que a recusaram por preferirem desenvolver uma produção própria. O filme estreou em 2023, narrando a história de um casal que, na sua noite de cúpula, se funde num só corpo. Quase ninguém o viu, até porque hoje enfrenta imbróglios de distribuição e divulgação, remetendo para aquele velho esquema de remakes americanos em tempos ainda não muito longínquos. Casos como “We Are What We Are”, de Jim Mickle, ou “Silent House”, de Chris Kentis e Laura Lau, beneficiaram desse estratagema de cópia à americana, que por sua vez tudo fizeram para dificultar a circulação das obras originais (respectivamente do mexicano Jorge Michel Grau e do uruguaio Gustavo Hernández). 

Feito este parêntesis, importa dizer que o conceito de “Together” não é (alegadamente) 100% original, embora também não se reduza a mera preguiça criativa, digamos que o meio para atingir o fim revela-se rebuscado … mas já lá vamos. Aqui, a narrativa centra-se no casal Franco-Brie (também na vida real), que se muda para um lugar remoto com o intuito de recomeçar a vida: novos trabalhos, fugas às cicatrizes ainda não saradas. A partir daí, os seus corpos manifestam um desejo de fundir sempre que se tocam, como pretenderam formar uma só entidade (e identidade). 

Michael Shanks declarou em entrevistas promocionais que os efeitos práticos dominariam cada cena, numa vénia não assumida ao que melhor se fez nos anos 80, de “The Thing” (a referência mais óbvia) a “Society”, de Brian Yuzna. porém, ao contar com essa promessa, o espectador sai defraudado, tal como “Together” trai a própria premissa de criar uma “omelete humana”. O filme cede aos rodriguinhos do género, e à tentação de explicar tudo por tintim, forçada e empapada. Diria até que sofre do “efeito” “The Substance”, tendo em conta que as comparações com a obra de Coralie Fargeat são ocasionalmente sobressaltadas, e a sobreliteralidade … essa maldição da audiência moderna … impregna-se, infesta e corroi. 

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Some-se a isto a propensão da cultura americana para enfiar ainda uma alegoria grega pelo meio: o género como castigo. O filme insiste em recordar-nos, com tom professoral, a conhecida narrativa de que, na sua génese, os humanos eram criaturas mistas; de quatro braços, de quatro pernas, de duas cabeças, dois géneros, até Zeus, irado, os dividir em metades condenadas a procurar-se mutuamente. Assim nasceu a distinção entre feminino e masculino, com vestígios de hermafroditismo ainda presentes nos desígnios dos deuses do Olimpo. Contudo, tudo é atirado à cara do espectador como um chave de lógica, como meter o Rossio na Rua da Betesga, minando a simbologia e impedindo o filme de criar uma mitologia própria. E isto é pena, porque havia terreno fértil para comentar as relações nas realidades virtuais de hoje, onde perfis de redes sociais juntam casais numa só identidade (ou despersonalizam ambas perante a despedida das anteriores). 

Só que o filme prefere oferecer explicações óbvias (sobrenaturais, se necessário), traindo a promessa dos efeitos práticos, conduzir-nos para um resultado leviano demais para a expectativa, e, não querendo propositalmente trair o apelo de Shanks, ambiguamente artificial para o gosto vintage. Vale pela química entre Franco e Brie na representação de identidades em risco. 

Eu sei o que fizeste no aluguer passado

Hugo Gomes, 18.09.20

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Depois de James Franco e das suas enésimas incursões na realização (sim, há muito mais filmes para além do bem-sucedido “The Disaster Artist” ou do malfadado “Zeroville”), chegou a vez do seu irmão mais novo – Dave Franco – de se aventurar em tais andanças (esperemos que não tenha o congénere como exemplo).

O resultado desse esforço intitula-se de “The Rental” (“O Segredo do Refúgio”), um thriller de variação “home invasion” que combina engenhosamente a expansão do alojamento local, fazendo algumas “perninhas” ao fervor dos atuais embates ideológicos norte-americanos. Contudo, por mais que delicioso esta premissa parece sugerir, Franco (que também assina o argumento) é inapto em inovar ou até mesmo reinventar a própria cadeia de lugares-comuns que germinam proposta.

O que acontece desse gesto é um filme que ostenta alguma preocupação na concepção do seu quarteto de vítimas, as personagens e as suas relações que são exploradas como dispositivos de conexão para com o espectador e um certo cuidado estético do qual combina os elementos ao seu redor, mas que falha ao não conseguir atingir o seu dito clímax, e quando este parece surgir, se evidencia como um epílogo elaborado. Por outras palavras, são preliminares sem o sexo propriamente dito, uma promessa que absolve-se na sua atmosfera e que não concretiza os seus propósitos. Não existe aqui, nem sequer uma criação por via dos simbolismo ou a habitual vénia para com o seu próprio universo, apenas estabelecendo-se como um filme-choque em temas que já nada trazem desta “prefeitura”.

Convenhamos que a culpa não seja totalmente da parte de Dave Franco, até porque, como fora mencionado, o ator convertido em realizador é habilidoso em criar empatia com o público através destas suas personagens. O que realmente acontece é que o cinema de género parece satisfazer-se com os velhos modelos, com fórmulas exatas, sendo cada uma delas direcionadas para um espectador específico, e dentro desses mesmos territórios, cedendo-se à sedução do já reconhecido e prescrito.

“O Segredo do Refúgio” vive dos seus clichés, os das enésimas “home invasions” e assim adiante do terror moderno de perversão. Nada a acrescentar, fiquemos somente pelo mero exercício.

Titanic for the Boys

Hugo Gomes, 04.01.18

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Primeiro de tudo, “The Room”, o filme original de 2003, produzido, dirigido, escrito e protagonizado por Tommy Wiseau, é um desastre por inteiro, a questão é como encaramos esse mesmo acidente. Alguns afirmam que é o pior filme da História da Sétima Arte, outros vão mais longe garantindo que apesar de “mau” (um rótulo algo oligárquico para qualquer crítico de cinema), trata-se de uma espécie de obra-prima nesse mesmo sentido, e quiçá, uma transgressão da arte narrativa.

Não falamos de reavaliação ou revisionismo, mas sim de um “cult” que estabeleceu o filme como um sucesso de matinés, uma troça involuntária que se metamorfoseou para uma espécie de comédia negra. E como todos os “descarrilamentos” existe um enredo a ser absorvido por detrás disto tudo, e tal aconteceu em 2013 com o livro “The Disaster Artist”, onde Greg Sesteros aborda todas as atribulações de uma produção “arriscada”, assim como a misteriosa figura de Wiseau. Foi essa mesma matéria que serviu de base para esta homónima adaptação de James Franco (que realiza e protagoniza), que a certo momento cita “Titanic” para espelhar a sua verdadeira natureza – uma iminente “catástrofe” a servir de cenário para o amor entre dois seres – neste caso especifico a amizade entre dois aspirantes a atores. Inadaptados envolvidos em fracassos contínuos que decidem traçar as suas próprias regras, por outras palavras, o seu próprio filme.

Mas em relação a “Titanic” de Cameron, ficamos somente por esta sintaxe enviesada. O filme de Franco tende a ser um prolongado making of dramatizado que bem tenta conquistar os que estão de fora deste fenómeno “The Room”. Infelizmente, a própria fenomenologia é falhada. A matéria-prima é demasiado nicho para o mainstream e de forma a conservar essa atmosfera bizarra que entra em paralelo com o objeto real, Franco emancipa-se dessa habitual tendência do “contado a principiantes” e aventura-se na sua própria jornada pessoal. Com isto afirma-se que não encontraremos nenhuma experiência de qualquer estado, nem algo arriscado em termos de storytelling clássico. Nada disso, os marcos narrativos aristotélicos mantém-se como manda o cinema de entretenimento, mas a vénia a este Quarto de Wiseau, que é constantemente indicado como o objetivo definitivo.

E todo este jeito de homenagem faz bem à saúde de Franco, que para além de um ator em constante mimetização (o mesmo se pode apontar ao seu irmão e co-protagonista Dave Franco como Sesteros), é como realizador que deparamos com o seu melhor trabalho. Sim, este é o seu filme mais contido, o menos intimista e egocêntrico e sobretudo mais competente para fins comerciais, resultando numa compaixão terna entre criação e criador.

Afastando-se da mera anedota, ou a caricatura de algo que por si merece a ridicularização, de que maneira funciona essa mesma? Tal depende do espectador. “The Disaster Artist” é um complemento dotado de carinho. É para ver, e desta vez sem a companhia de colheres.   

"É esta a tua carta?"

Hugo Gomes, 15.06.16

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Juntamente com o recente “Alice Through the Looking Glass", este “Now You See Me 2” é já um dos fortes candidatos ao título de “sequela não pedida de 2016”, um filme cujo título português (“Mestres da Ilusão”) adequa-se perfeitamente à sua natureza.

Mais do que um filme, este é um verdadeiro truque de ilusionismo, que procura convencer o espectador de que todo este espetáculo é no mínimo saudável para a massa cinzenta de cada um. Contudo, a verdade está longe de ser mágica – tudo se resume a um argumento reciclável que utiliza como desculpa “o ilusionismo” para explicar o inverosímil. A prequela podia seguir os mesmos erros, mas no caso da sequela, o registo é insuportavelmente longo, atrapalhado com o excesso de informação e precocemente reprimido em consequências de “milésimos” falsos twists, engodos lançados para a audiência como se de burlas se tratassem.

Nem mesmo a ironia o filme consegue suportar. Aliás, temos aqui um enredo sobre mágicos e ilusionistas com Daniel “Harry Potter” Radcliffe como o vilão em cena, o “ateu” nesta ordem apocalíptica de coelhos e cartolas, infelizmente uma piada digna de “stand up comedy” desvanecida por um tom hiperativo e exaustivamente industrial. Continuando com o fracasso de todo o tamanho, “Mestres da Ilusão 2” ostenta um visual de brilhantismo que afoga qualquer indício provocado de “filme de golpe”, e quanto toca a explicações de planos intermináveis, o “cenário” torna-se ainda mais desesperado por atenção (verifica-se na entediante e demasiado longa sequência no laboratório).

Por fim, o elenco poderia ajudar a tornar esta experiência mais capaz na sua entrega mais cinematográfica e menos “videoclippeira“, mas a esta altura do texto o leitor já deve ter percebido que são mais um … fracasso. Um Jesse Eisenberg nos seus piores dias, um Woody Harrelson mais preocupado com o cheque (provavelmente a dobrar neste produto), um Dave Franco sem expressão e uma Lizzy Caplan como pneu suplente em modo “Kat Dennings wanna be“, não são certamente os anfitriões que queremos no nosso serão.

Entre Mágicos e Ladrões!

Hugo Gomes, 17.09.14

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The more you look, the less you see.

O francês Louis Leterrier revelou recentemente que a sua passagem por terras americanas não tem sido muito feliz em termos profissionais. Descontente com o resultado final do seu Hulk e da reimaginação tecnológica “Clash of the Titans”, o qual o realizador culpa a pressão dos estúdios e as complicações do argumento, o anterior “afilhado” de Luc Besson decide vergar por um cinema mais modesto e menos colossal em termos orçamentais, porém sem fugas possível ao mainstream norte-americano (está-lhe no sangue!). “Now You See Me” é um misto de cinema de golpe à lá “Ocean’s Eleven com um show de David Copperfield, a história de quatro ilusionistas de elite tido como principais suspeitos de um roubo a um grande banco francês, contudo, o quarteto tem como álibi um espectáculo em Las Vegas visto por milhares de pessoas.

Muitos truques de magia na manga e eventuais malhas de ilusão são os tópicos de interesse de uma fita que se resume a uma autêntica farsa. Tendo como título traduzido de “Mestres da Ilusão”, este é um filme em modo 200 à hora onde a suposta “magia” do argumento dissipa-se perante as artimanhas mais baratas do cinema comercial, onde parecia ser um ensaio de estilo erguido com astúcia automaticamente cede a um conjunto de perseguições, tiroteios e acção à moda de um trivial policial norte-americano. Depois de terminada a trama, “Now You See Me” ainda possui o descaramento para justificar tudo e todos através de reviravoltas, algumas necessárias outras não, dando uma sensação de um final “fake”, como se a experiência se resumisse a um simples truque de ilusionismo. É que até certo ponto, uma obra que supostamente poderia vingar pela imprevisibilidade torna-se o oposto, apenas disfarçado pelo facto de Louis Leterrier ser, de facto, dos maiores ilusionistas aqui.

Por fim o elenco, um articulado de luxo, e que são meramentes ‘fogo de vista’, correspondendo aos seus personagens-tipos desassociáveis. Só que no meio disto tudo são eles que acabam por ser vítimas desta imensa “vigarice”. Desequilibrado, desperdiçado e banal (a realização de Louis Leterrier é idêntico a um esticado videoclipe), “Now You See Me” é pura metáfora de Hollywood: um puro espectáculo de brilho e truques, onde a fórmula se converte numa verdadeira ilusão, por outras palavras – desilusão.