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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

... Já andámos por este jogo há algum tempo, mas o dinheiro fala mais alto.

Hugo Gomes, 11.12.19

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Em 2017, algures entre a sequela e o "reboot", “Jumanji” descobriu uma nova vida na densa selva da indústria de Hollywood, com Dwayne “The Rock” Johnson no comando e obviamente mais uns rodriguinhos (e estranhamnete assinado por Jake Kasdan, filho do prestigiado realizador e argumentista Lawrence Kasdan).

Voltemos a 1995 e ao primeiro "Jumanji" sob os ecos de “What year is it?” na deliciosa histeria de Robin Williams (um ator de quem sentimos tanta falta!), para entendermos o culto gerado por uma sofisticada fantasia para miúdos e graúdos. Apesar de ter envelhecido bastante mal, nomeadamente nos efeitos visuais, uma continuação da história do homónimo jogo de tabuleiro (inspirado num livro de Chis Van Allsburg) sempre esteve na lista de desejos dos estúdios.

A alternativa acabou por chegar em 2005 com “Zathura: Aventura no Espaço”, que serviu de uma espécie de "spin-off" espacial com sabor de reciclagem (curiosidade, Kristen Stewart integrava o elenco), mas a solução apenas foi desbravada em 2017 com o poder de Dwayne Johnson, ator que é hoje um dos mais curiosos casos de sucesso a apurar e um dos raros de Hollywood a manter uma espécie de "star system" (algo perdido neste consumo desenfreado por formas de entretenimento). A tal ressurreição chamou-se “Jumanji: Welcome to the Jungle” (em jeito de coincidência, também é o título de um dos precoces filme de Dwayne Johnson, aquele de 2003 ao lado de Sean William Scott que se passava na Amazónia) e o jogo de tabuleiro que Robin Williams jogava com uma “gaiata Kirsten Dunst tornava-se um esboço: o dispositivo passava a ser é uma "vintage" consola semelhante ao Super Nintendo.

O resultado foi um inesperado sucesso da Sony Pictures, com uns impressionantes 900 milhões de dólares em bilheteiras mundiais que criaram para esta saga moribunda um percurso de respeito (mesmo com um “Star Wars” estreado bem próximo da mesma data). E como é lei em Hollywood, sucesso é igual a sequela e assim nos é oferecido, novamente na mesma época natalícia, o chamado “Next Level” (novamente sob a batuta Kasdan), com os mesmos dados. Em “Welcome to the Jungle”, o ritmo, o elenco e o artificial sentido de aventura guiavam um filme de risco para as extremidades do despreocupado produto, enquanto esta continuação sobrevive à conta de restos.

Os pormenores não adiantam nem avançam no reino do entretenimento fácil e mesmo com aquisições de peso (Danny DeVito, Danny Glover e, por que não, Awkwafina), este novo “Jumanji” é incapaz de superar o registo piloto-automático do argumento, escrito às três pancadas e rodeado dos mais entranhados e cansativos clichés, onde nem mesmo os gags disfuncionais e cada vez mais imaturos parecem funcionar. Fora isso, é mais do mesmo, com um ritmo tremido e por vezes conduzido para uma mensagem "bigger than life" [maior do que a vida] que apenas ganha sentido com o afeto que temos pelos atores veteranos nas suas personagens envelhecidas.

Quanto à estrela, Dwayne Johnson, no registo híbrido da comédia e ação, está como peixe na água ao lado de um sempre exagerado Kevin Hart. Sim, há química, mas falta a isto tudo coração e isso ainda faz sentir mais saudades do filme com Robin Williams...

Zombies de fantochada

Hugo Gomes, 20.06.19

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Começaremos pelo início: a pacata cidadela de Centerville encontra-se ameaçada por forças sobrenaturais e os mortos que não querem se manter mortos. E com o homónimo single de Sturgill Simpson a contaminar as rádios locais, Adam Driver fica a temer o pior: “isto vai acabar mal”.

Jim Jarmusch é um dos grandes e reconhecíveis nomes do cinema independente norte-americano (“Ghost Dog”, “Dead Man”), que aqui  abandona a poesia mundana do magnífico "Paterson" e aventura-se na assumida série B, seis anos depois dos vampiros boémios de “Only Lovers Left Alive”. Como efeito de uma certa igualdade, os espectadores estão sincronizados com as personagens quanto ao conhecimento dos factos, até mesmo pela denominação das criaturas nefastas: "zombies".

Tudo isto nos coloca a par de um filme-meta que se joga constantemente com a sua meta-informação, e a brincadeira, evidente ao longo do trabalho de Jarmusch, é puxada aos limites da sua linguagem (ou não-linguagem). Era difícil cometer algum rasgo de criatividade nesta temática excessivamente explorada desde que George A. Romero reinventou o morto-vivo, extraído das fantasias vudus de “White Zombie” (1932). Entretanto, o apocalipse putrefato revelou diversas facetas, desde a comédia tresloucado ao terror moderno de cariz social.

Em relação aos “The Dead Don't Die”, este tratamento de distorção não é por si novo, já o Rei dos Mortos-Vivos [Romero] incentivou tais criaturas na sua variação found footage em “Diary of the Dead” (2007). E quanto à integração do "zombie" enquanto elemento cultural da trama, já fora o pioneiro o subvalorizado “The Return of the Living Dead” de Dan O'Bannon (1985).

O que resta a Jarmusch? A anedota, a satirização de um subgénero em perfeita cumplicidade com a natureza B. E isso, tendo o “grandioso” elenco de amigos (Bill Murray, Adam Driver, Chloë Sevigny, Steve Buscemi, RZA, Tilda Swinton, Tom Waits, Danny Glover, Caleb Landry Jones, Rosie Perez, Carol Kane, Selena Gomez, Iggy Pop, que apostamos que se divertiram mais neste filme do que que o espectador alguma vez irá), sabe a pouco.

Cannes: Os convencidos zombies de Jim Jarmusch não convencem ...

Hugo Gomes, 14.05.19

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Já que falamos de piadas, o filme de abertura deste 72º Festival de Cannes pode muito bem se enquadrar nesse registo. Mesmo que Jim Jarmusch mine o seu “The Dead Don’t Die” com “pequeníssimas” pérolas numa revisitação pós-modernista do universo zombie, este é um daqueles filmes que o seu lado de paródia parece querer ocultar o óbvio: a falta de imaginação e criatividade alicerçada a um subgénero tão saturado.

O elenco é de luxo, disso não há dúvidas, indo de Bill Murray a Chloë Sevigny, Adam Driver a Tilda Swinton, Selena Gomez a Iggy Pop, passando pelos “desaparecidos” Steve Buscemi e Danny Glover, todos eles estrelas dos seus próprios sketches, peões de uma obra que não se reconhece na caricatura ou no “camp” que por vezes segue com casualidade passional.

A plateia riu … e o quanto se riu … mas no final a desilusão tomou o Palais. Esperava-se mais do que uma simples anedota. A expectativa era alta e o desafio de fazer algo frutífero nesta mesma temática era grande. Nem um, nem outro. Jim Jarmusch brincou com mortos-vivos … só isso.