Orwell entre nós ...

Constatar, mais do que nunca, que a História é repetição, não numa fórmula plena, e sim elementos que trespassam eras para as outras eras, intactos, soando a conspiração. No fundo, é o Poder: a forma como se movimenta, os seus comportamentos, as suas execuções, e nada melhor para traduzir, de modo leigo, esse modus operandi de múltiplas faces e feitios do que a distopia. E, de uma forma ou de outra, é impossível falar de distopia sem falar de “1984”, bestseller intemporal, escrito no momento exacto em que o seu criador, George Orwell, se barricou numa ilha escocesa, enfermo e angustiado, tal como a Ordem em que o mundo insiste ciclicamente em regressar, seja por finta ilusória, seja por distância simulada.
Se há um filme que nos assusta nestes tempos incertos, em que alguns gritam “Nova Ordem Mundial” ou normalizam a mentira, é “Orwell: 2+2=5”, de Raoul Peck. Não como tese, mas como verificação de factos, para lá dos “factos alternativos” que nos tentam impor. Indicia-se aqui um processo de evidência clara: vivemos em verdades orwellianas, ou melhor, nunca delas saímos. Entre imagens de arquivo, eventos e até filmes (não apenas a mão-cheia de adaptações dos seus livros, mas também outros traços cinematográficos) Peck constrói igualmente uma espécie de biografia orwelliana. Encosta-se ao rosto do escritor doente, lê os seus registos diários e materializa a dor: a da escrita, que Orwell assume como essência martirológica da sua arte (é Damian Lewis quem empresta a voz à narração).
Nesse efeito, “Orwell: 2+2=5” parece-nos duas nascentes a desaguar numa só foz, um documento sobre o autor e um relatório da contemporaneidade política, nada de impressionante, que por via de uma processo de papel químico parece ser um episódio recap daqueles seriados velhos e bafientos. Agora, o que se presta a este filme não é um sentimento de alerta, Raoul Peck não irá converter cépticos nem crentes de regime, apenas trará as ferramentas aos já convertidos … melhor, aos que realmente sabem que 2+2 = 4, e não prolongando a mentira, essa besta de sete cabeças amestrada por institucionalizados Poderes, porque quem controla a narrativa controla tudo, ensinamento [inserir número] de George Orwell.






















