Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Addio alle tue glorie, maestro ...

Hugo Gomes, 06.07.20

Ennio-Morricone-Press-Photo-2019-770x470.jpg

O meu primeiro contacto com Ennio Morricone … mais precisamente com o trabalho, hoje legado, do maestro, aconteceu numa quinzena passada na aldeia das Antas, situado algures nas localidades de Fornos de Algodres (Guarda). Enquanto criança, longe das tentações citadinas entrei em modo de autopunição por um ano letivo vergonhoso, refugiando-me numa antiga coleção de VHS, maioritariamente composta por clássicos populares, portugueses da dinastia de Vasco Santana e António Silva e por alguns westerns spaghettis.

Recordo o dia … não exatamente o dia em questão, mas o sentimento que me atingiu após o longo e animado genérico de The Good, The Bad and the Ugly (O Bom, O Mau e o Vilão). Vibrei com aquela música, que se já era tida como parte irreconhecível da cultura popular, ainda mais na associação automática com o dito género western. Não deixei o filme continuar após o fim dos créditos iniciais, parei a fita, rebobinei e pressionei no “play” e repeti a sinfonia.

Fiquei maravilhado com aquela sonoridade, sem saber (o que viria a confirmar a alguns anos depois, após assumir-me cinéfilo) que aquela composição que marcou aquele meu verão “danado” tinha o dedo de Ennio Morricone. Este foi o meu primeiro “ricordo” com o seu mundo de acordes, sons e melodias … hoje, essa cornucópia musical silenciou-se.

(1928 - 2020)

«Roman Porno»: Ainda há muito desejo para consumir ...

Hugo Gomes, 03.07.20

41a1ed8e-0d41-11e7-9af0-a8525e4e6af4_image_hires.j

Com toda a dedicação, prosseguimos para terceira parte do ciclo “roman porno” (literalmente traduzido, ciclo da “pornografia romântica”, vindo da designação atribuída por crítico e programador da Cinemateca Francesa Jean-François Rauger), a estratégia de produção dos estúdios Nikkatsu nos anos 70 para conseguirem superar a decadência da indústria da altura, no Espaço Nimas. Chega-nos a vez do quarto filme da série Angel Guts: Red Porno (Tenshi no Harawata: Akai Inga, 1981), de Toshiharu Ikeda, e o não consensual, Anti-Porno (Anchiporuno, 2016), de Sion Sono.

O artifício dimensional perpetuado por “Anti-Porno” (simbolizado, que no seu todo, por um lagarto preso na garrafa, o fatal conformismo pela sua realidade) anula qualquer perversão obtida do exercício sexual, revelando-se um trabalho-tese que finaliza todo um gesto produtivo. Depois deste filme, acreditamos que as vontades (se existissem) de ressuscitar o “roman porno” nos nossos dias não serão mais do que meros devaneios oriundos de homens saudosistas, presos a um passado cada vez mais longínquo. Com o cineasta Sion Sono, o sexo muda de holofote, altera a sua exposição, o seu consumismo e sobretudo o seu olhar e os olhos pelo qual se direciona. O que sobra é a cultura do seguidismo, da veneração dos corpos e a constante batalha campal em salvaguardar o sexo como a divina arte.” Ler artigo completo no Mag.Sapo.

Da Palestina, com amor e poesia ... agora, nas salas!

Hugo Gomes, 03.07.20

60778879_10213953729854232_4655841426146328576_o.j

Para quem diz (ou persiste) que não há filme "novos" para colocar nas nossas salas de cinemas neste pós-confinamento, basta meter os olhos nas estreias desta semana.
 
Não é coincidência que dois dos grandes filmes do ano chegaram às nossas (poucas) salas. A começar pelas crónicas de um palestino por esse mundo fora, It Must Be Heaven, a quarta longa-metragem de Elia Suleiman, condecorado com uma Menção Especial na última edição o Festival de Cannes (sim, a de 2019):
 
"Com “It Must Be Heaven” (Paraíso, Provavelmente), centramo-nos, até à data, no seu filme mais frustrado, aquele que parece perder todas as esperanças por qualquer intervenção divina, até porque, segundo Suleiman, num encontro em Cannes, a possibilidade de uma utopia entre os dois estados é a mais longínqua fantasia; uma luta para sonhadores que renega o passado tumultuoso da sua coexistência. Assim, partindo no óbvio que nada pode mudar, resta reencontrar o seu espaço no Mundo. O que resta ao palestino nesta geografia? E é então, que o silêncio ativista de duas décadas rompe perante uma resposta, um “statment” que Suleiman não quer deixar emudecido. Há que dizer a tudo e a todos que é o palestiniano antes que a sua identidade se desvaneça em anexos." ler crítica completa no C7nema.
 

"Nunca falei nos meus filmes, até então, pelo que achei que seria uma mudança interessante e inesperada aqui. Como dizes, uso a posse da palavra para mencionar “ Nazaré” e “palestino”, que em certa parte é como não dissesse rigorosamente nada. Não gosto de trabalhar com diálogos, nem sequer monólogos, nos meus filmes. Por um lado é menos trabalho que tenho na conceção destes, mas acima de tudo é porque prefiro centrar-me nas imagens, emoções, e através disso elaboro um diálogo metodológico. Por norma, confundimos linguagem com informação, o que não é verdade. Podemos encher-nos de palavras e dizer rigorosamente nada, e essa presunção leva-nos a minimizar o poder das imagens. Com isto, o que pretendo é construir uma narrativa fílmica com base nessas e não dependente das palavras." segundo Elia Suleiman, na entrevista dada ao C7nema.

E para terminar na angustia de um homem em elevar-se a escritor na (muito) livre adaptação do livro de Jack London, Martin Eden, de Pietro Marcello (e não esquecer a dedicação de corpo e alma do ator Luca Marinelli):
 

"Martin Eden” é, para todos os efeitos, um filme de coração-artista: tumultuoso e inquietante numa sufocante ânsia em criar a todo o custo. É assim a personagem (figura refém do desempenho anárquico e igualmente magistral de Luca Marinelli), é assim a obra que busca livremente os sopros do homónimo trabalho literário de Jack London (de cariz autobiográfico) para proclamarem como seus numa Itália abstrata e enevoada quanto à perceção de século XX." ler crítica completa no Cinema 7ªArte.

 
Pois é, dá gosto ver obras como estas a marcarem presença nos nossos espaços. Ficam as sugestões.
 

Carl Reiner: mortos não pagam dívidas

Hugo Gomes, 30.06.20

106054616_194497465341792_9040684276088263543_o.jp

Carl Reiner, o proclamado Mestre da Comédia, como tem sido descrito, nos deixou hoje, aos 98 anos. Dele (enquanto realizador) gostaria de salientar Dead Men Don't Wear Plaid (Cliente Morto Não Paga a Conta, 1982), que confesso, ser dos escassos trabalhos o qual tolero Steve Martin, porém, este não é um filme de ator e das respetivas gags, é sim, uma obra zeitgeist munido de um elenco estrelar, do melhor visto daqueles lados de Hollywood.
 
Se bem verdade que muitos dos “companheiros” de Martin não partilharam, literalmente, o ecrã, mas é nas suas memórias (aquelas registadas) que deparamos num utensilio inventivo e hilariante. Estes atores convertem-se automaticamente em recortes distorcidos nesta ação, e só para mencionar alguns dos rostos e corpos emprestados; Cary Grant, Bette Davis, Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Ava Gardner, Barbara Stanwyck …. Quer dizer … já devem estar a perceber a figura!
 
Mas no fundo é isto: Carl Reiner não foi apenas um artesão em “fazer-nos rir”, foi um entusiasta no riso e na procurar dele através da criatividade, inventividade e engenho. 2020 não está a ser particularmente generoso com a comédia …

«Roman Porno»: Onde o sexo continua a ter lugar ...

Hugo Gomes, 26.06.20

agenda_1000@2x.jpg

Continuando na nossa viagem pelos sentidos com o “roman porno” (literalmente traduzido, ciclo da “pornografia romântica”, vindo da designação atribuída por crítico e programador da Cinemateca Francesa Jean-François Rauger), a estratégia de produção dos estúdios Nikkatsu nos anos 70 para conseguirem superar a decadência da indústria da altura, no Espaço Nimas. Nesta segunda parte do ciclo, chegamos às “mulheres-gatos” com Night of the Felines (Mesunekotachi no yoru, 1972), de Noboru Tanaka, e a modernizada versão, Dawn of the Felines (Mesunekotachi, 2017) de Kazuya Shiraishi.

"Nasce aqui uma espécie de triângulo amoroso, sem as ditas arestas reconhecíveis, que irá culminar numa viragem sexual ao som de cantos gregorianos a explorar territórios não-binários da sexualidade de cada um. Digamos que se descobre que as mulheres têm algo de gato dentro delas, independentes, matreiras e nunca devidamente domesticadas, enquanto os homens, meramente ridículos do debaixo das suas propositadas capas de masculinidade (ou como, no caso de Makoto, sensibilidade à flor-da-pele), abrem portas para um universo, ainda que secreto, da homossexualidade da altura em Tóquio." Ler artigo completo no Mag.Sapo.

As tuas palavras, Martin Eden, serão as minhas!

Hugo Gomes, 25.06.20

capture_decran_2019-10-12_a_05.27.21.png

Ainda estou arrepiado! Degusto devagar e de forma prazenteira os sentimentos que este Martin Eden me convocou. Pelo menos, com este filme (pensando bem, rasuro, e troco pela palavra “obra”, adequa-se mais) de Pietro Marcello fez-me acreditar, por breves momentos, que o Cinema Italiano está de boa saúde. Pelo menos isso … Isso e um ator chamado Luca Marinelli (culpa minha, já devia ter reparado há tempos).

Perdão pelas palavras vazias, mas é o calor do momento. Brevemente tento domar as palavras de Martin Eden como minhas.

Regressando ao Cinema. De regresso à capital.

Hugo Gomes, 24.06.20

Capa.png

Convidado pelo site Cinema Sétima Arte a partilhar o meu "desconfinamento" cinematográfico, que em certa parte está associado ao meu regresso a uma cidade que tanto afeto nutro.

"Porque foi com “A Cidade Branca” que regressei ao cinema e simultaneamente à cidade que tanto amo e que, infelizmente, me permite viver à sua porta. É a tela a dialogar diretamente comigo, a comunicar da única maneira que bem sabe, através de imagens e sons aparelhadas numa narrativa, ou numa não-narrativa, assim como tão bem pretenderem. Enquanto crítico, sempre tive a necessidade de coletar esses visuais e sonoridades na promessa de desvendar o hieróglifo decriptado do meu quotidiano e, através da branca cidade na perspetiva de Tanner, redescobri uma Lisboa “selvagem” que deseja sobretudo voltar a ser explorada (e filmada)." Ler texto completo aqui.

Obrigado.

«Roman Porno»: Onde o sexo tem lugar ...

Hugo Gomes, 20.06.20

MV5BNjg4MjVmYjEtZTFlMy00MjI0LWE1YmQtNTFmMmUzMDEwYT

Arrancou esta semana, o, literalmente traduzido, ciclo da “pornografia romântica” (vindo da designação atribuída por crítico e programador da Cinemateca Francesa Jean-François Rauger, “roman porno”). Um plano de subsistência e resistência a expansão televisiva dos anos 70 elaborado pelo estúdio Nikkatsu, que consistia em produzir filmes repletos de conteúdo erótico e sexual, com a advertência de poderem contornar as rigorosas implementações de censura da época.

 

O resultado foram um leque de filmes perversos que romperam tabus e perceções quanto ao jogos das obsessões corporais, para além de, diga-se de passagem, serem objetos de um tremendo desejo cinematográfico. A primeira parte desta viagem está disponível no Mag.Sapo, onde os “viajantes” poderão ser seduzidos pela natureza de fetiches invocada em Lady Karuizawa, de Masaru Konuma, ou os trabalhos lascivos de olearia na homenagem de Hideo Nakata (sim, o realizador de Ringu e Dark Waters) com White Lily.

 

Dirigido por Masaru Konuma, este é, notavelmente, um filme sobre o desejo impregnado como força animal. Diga-se que a própria construção visual é deveras alusiva a essa bestialidade interiorizada, sendo que a fauna e flora assume um papel fundamental nos registos de passagem e transformação das personagens, assim como as suas mais profundas fantasias.” Ler artigo completo aqui.

Pelas ribeiras do cinema de Mizoguchi

Hugo Gomes, 14.06.20

primary_EB19530101EDITOR40827002AR.jpg

Sansho the Bailiff (1954)

Ugetsu-2.jpg

Ugetsu (1953)

43576706_676855506023816_4022435257243402240_o.jpg

The Crucified Lovers (1954)

tumblr_88c38e96b6e084a56ebc620a56b4df9a_aeba344b_6

Miss Oyu (1951)

cine120109.jpg

Miss Oyu (1951)

 

Se Kenji Mizoguchi fosse um continente, nele poderemos ser um rio que atravessa a condição dos seus habitantes. Tal, leva-os a refletir sobre a sua própria existência, reduzindo “nobres” e “ladrões” ao igual estatuto de meros mortais. Enquanto Yasujiro Ozu, nos seus últimos anos, gradualmente transgredia o tradicionalismo para nos demonstrar um Novo Japão, um país pelo qual hoje conhecemos e reconhecemos, o seu contemporâneo, Mizoguchi, devolvia-lhe o passado “glorioso” através de uma bandeja de dilemas intemporais sem saudosismos, para nos apresentar uma nação que rebela contra a sua própria sofisticação. Os peões da via fluvial mizoguchiana são seres que debatem sobre a sua aparente impotência perante as adversidades do Mundo.

Uma eterna derrota chamada Cinema Português

Hugo Gomes, 25.05.20

maxresdefault.jpg

Quando um realizador de cinema tenta convencer um pugilista profissional a perder perante um ator de pelicula, eis um momento que, não só celebriza The Lovebirds, de Bruno de Almeida, mas como também resume a resistência prolongada do cinema português na sua longevidade. A soturnidade, o saudosismo e o nosso eterno fatalismo, elementos e vários que se aliam dando origem a uma utopia que se dá pelo nome de Portugal cinematográfico. Aqui, o realizador, de cigarro na mão e brandy na outra, é nada mais, nada menos que Fernando Lopes, um dos guerreiros da primeira frente do Cinema Novo e um experiente no que requer ao derrotismo enquanto signo de vivência.

There’s a certain beauty in defeat” – a tradução universal para todo um estado de alma que apenas o português conhece e bem. Gostamos de pensar na derrota porque é através dela que deparamos com a nossa (i) mortalidade.