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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Orwell entre nós ...

Hugo Gomes, 23.01.26

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Constatar, mais do que nunca, que a História é repetição, não numa fórmula plena, e sim elementos que trespassam eras para as outras eras, intactos, soando a conspiração. No fundo, é o Poder: a forma como se movimenta, os seus comportamentos, as suas execuções, e nada melhor para traduzir, de modo leigo, esse modus operandi de múltiplas faces e feitios do que a distopia. E, de uma forma ou de outra, é impossível falar de distopia sem falar de “1984”, bestseller intemporal, escrito no momento exacto em que o seu criador, George Orwell, se barricou numa ilha escocesa, enfermo e angustiado, tal como a Ordem em que o mundo insiste ciclicamente em regressar, seja por finta ilusória, seja por distância simulada.

Se há um filme que nos assusta nestes tempos incertos, em que alguns gritam “Nova Ordem Mundial” ou normalizam a mentira, é “Orwell: 2+2=5”, de Raoul Peck. Não como tese, mas como verificação de factos, para lá dos “factos alternativos” que nos tentam impor. Indicia-se aqui um processo de evidência clara: vivemos em verdades orwellianas, ou melhor, nunca delas saímos. Entre imagens de arquivo, eventos e até filmes (não apenas a mão-cheia de adaptações dos seus livros, mas também outros traços cinematográficos) Peck constrói igualmente uma espécie de biografia orwelliana. Encosta-se ao rosto do escritor doente, lê os seus registos diários e materializa a dor: a da escrita, que Orwell assume como essência martirológica da sua arte (é Damian Lewis quem empresta a voz à narração).

Nesse efeito, “Orwell: 2+2=5” parece-nos duas nascentes a desaguar numa só foz, um documento sobre o autor e um relatório da contemporaneidade política, nada de impressionante, que por via de uma processo de papel químico parece ser um episódio recap daqueles seriados velhos e bafientos. Agora, o que se presta a este filme não é um sentimento de alerta, Raoul Peck não irá converter cépticos nem crentes de regime, apenas trará as ferramentas aos já convertidos … melhor, aos que realmente sabem que 2+2 = 4, e não prolongando a mentira, essa besta de sete cabeças amestrada por institucionalizados Poderes, porque quem controla a narrativa controla tudo, ensinamento [inserir número] de George Orwell.

Béla Tarr (1955 - 2026): eis a minha rosa atirada à tumba

Hugo Gomes, 06.01.26

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“Descobri” Béla Tarr no Exército. Recordo como se fosse ontem: uma crise descomunal de insónias. Tentei de tudo, comprimidos, corridas nocturnas pelo mato do quartel, álcool, trocas de serviço de porta de armas, até filmes chatos tentei. Nada! Não conseguia dormir. Certa noite, já conformado com a minha derrota, vi “O Cavalo de Turim”. Li algures elogios, e numa outra nota de rodapé, em meio pejorativo, que era mais peça de museu do que Cinema (era da revista Empire, não se podia esperar muito deles). Durou-me três dias. O tédio filmado, a câmara circundante assim como a sua narrativa, as batatas e a música de Mihály Víg, tudo isso parecia uma orquestração organizada para o meu sono. Era hipnótico, como um feitiço, e ali lutava com todas as forças para deter o tão esperado João Pestana. Queria acabar o “maldito” filme, aquele Fim do Mundo pronunciado e sentido na angústia daquelas personagens.

Depois de terminado, o fascínio levou-me à conquista da sua obra: vi todos os filmes, adquiri os DVDs, li Jacques Rancière e, finalmente, conheci-o em 2016, numa das suas muitas passagens pela Cinemateca (uma conversa ainda por publicar, por preguiça, timing ou falta de contexto). Foi na esplanada do bar, sob o calor tórrido desse Verão. Apresentei-me, dizendo ser um admirador e sentir uma grande honra em estar na presença de quem considerava um dos maiores “cineastas vivos”. Com o seu ar rezingão, mandou-me sentar, dispensou os elogios [“Cut it”] e perguntou o que bebia. Durante o diálogo, fiz a mais genérica das perguntas: “O que é o Cinema?”. Tarr apontou para a mesa do lado, ocupada por jovens numa alegre cacofonia. “Aquilo é Cinema. Pessoas a interagir, a viver. Se tivesse uma câmara no meio deles, faria Cinema.

Béla Tarr foi o mais convicto dos devotos do tempo esculpido tarkovskiano, criando, ao mesmo tempo, uma linguagem sua, única e reconhecivel, de uma humanidade desesperançada e cinzenta, mas onde, nas entrelinhas, existe uma sensibilidade à espera de ser (re)encontrada. Antes das birras de Tarantino, decidiu parar de filmar: sentia-se cansado da fórmula, sem crença na novidade que lhe restaria enquanto gesto autoral. Preferiu lecionar, ensinar, guiar. Deixou os seus “filhos” espalhados pelo globo.

Cineasta de espírito e de corpo… era um dos meus cineastas. Hoje, em pleno Dia de Reis, despedimo-nos de um corajoso. Bravamente dançou com Satanás, viu a baleia, fabricou famílias e olhou para almanaques afora, testemunhou o Fim do Mundo: da civilização e de tudo o resto. Foi um herói de uma arte hoje mais desmerecida e orfã.

Para sempre, Béla…

Não houve comeback. Ficou a eternidade.

Hugo Gomes, 11.10.25

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Diane Keaton (1946 - 2025) em "Looking for Mr. Goodbar" (Richard Brooks, 1977)

Ouvi dizer que havia por aí uma série, das mais recentes, que a resgatou. Peço desculpa, não faço parte dessas audiências, portanto prossegui com o desejo, ou talvez a fantasia, de testemunhar o seu ‘comeback’: o retorno à ribalta, após anos e anos do arquétipo “filme à Diane Keaton”, mãe neurótica em comédias de pavoroso termo. Se esse acontecimento não nos chegou, fica então a eternidade: a de “Annie Hall” e outros Woody Allens; a de “The Godfather”, como impotente vítima indirecta da herança sanguinária; a de Theresa, nos "encantados" trilhos de “Looking for Mr. Goodbar” ou em "Reds ", de Warren Beatty. Por isso, e por outros motivos, a saudade já se começa a sentir e adquiriu um outro sabor. O de elegia, talvez…

Do teu nascimento vês o teu Futuro. Lumière, os bruxos-inventores!

Hugo Gomes, 04.10.25

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Se Thierry Frémaux, já havia penetrado no espólio dos Lumière no seu anterior documentário [“Lumière ! L'aventure commence”, 2016], de que serve uma outra aventura nos primórdios do cinema? 

Memória! A resposta automática saída da Fábrica de Lyon. O pensamento que me entra pelas ventas acima quando termino de assistir o seu “Lumière, l’aventure continue”. A memória de algo tão querido para nós, para a nossa modernidade que é o Cinema, a sua relação em tempos de pós-verdade, ou como alguém havia declarado (perdoem-me a minha fraca fixação por citações, nomes e devidas apropriações), no pós-História, onde tudo é alvo de revisionismos consoante a vontade do freguês, do vento político corrente, a História sem impunidade, enfraquecida, questionada, e por outras, violentada. Por outro, partilhamos espaço com cineastas do alcatrão, daqueles que alcatroam a estrada cinematográfica, “resgatam” o passado, as invenções e inovações, maquiam, fazem-se suas por direito ou por pilhagem. 

Thierry Frémaux (director do Institut Lumière e director artístico do Festival de Cannes) invoca Lumière (Auguste & Louis) para demonstrar o simples que é, no seu começo, no cinema idealizado ou nas experiências de uma “invenção fracassada”, a possibilidade de termos toda uma história cinematográfica em ebulição … e o restante, décadas e décadas de metragens são a confirmação e o empregar dessas descobertas. Ver os Lumière hoje é verificar a sua trajectória. É, discretamente, observar as sementes da sua germinação. Sabe-se que havia três versões da Saída dos Operários da Fábrica de Lyon, o pontuado primeiro ponto do Cinema enquanto tal. Sim! Três! O ícone não foi uma tentativa única, mas sim três, e quem relata, uma carroça algures entre o plano fixo, constata as particularidades de cada um delas, e, num sentido arqueológico, aquele que fora mostrado na tão badalada “primeira exibição pública”. Por isso, como podem resgatar deste facto, os remakes existiam antes do remake ser consolidado e encaixado na sua gíria cinéfila, de igual modo, o gag, aquele jardineiro apanhado de desprevenido, igualmente repetido até à exaustão, evidenciando a comédia como elemento da sua génese

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E o terror? Sim, como é óbvio, já se construía naturalmente. E sim, daqueles que hoje suscitam mitos, lendas, folclores e ‘creepypasta’, mais concretamente a Chegada do Comboio à Gare e a debandada apanicada dos espectadores, atualmente partilhado como mero facto sem ‘fact checking’, a memória colectiva de um não-acontecimento, segundo os poucos, mas valentes e legítimos, os questionadores da sua veracidade sem nunca descurar o efeito espanto de tais imagens. Frémaux não o aborda, portanto, acreditando na sua palavra como salteador do arquivo ‘lumieriano’, simplesmente não aconteceu. 

Enquanto espelho do Mundo, uma viagem, um cartão-postal de portos e cidades de outras margens, e até a travessia visual ao Novo Mundo, em pleno século XXI são documentários na sua mais genuína forma; documentam, registam, e imprimem através da sua projecção os tempos que passaram nesta nossa existência enquanto Humanidade, ou porque não, Modernidade. Frémaux reconhece nesse espólio, as respostas do cinema que se pratica e o que sucede, de Lumière parte as vagas, nouvelles e progressivas, o neorrealismo e o new deal, e o seu “rival”, Méliès, do outro lado da barricada, veio o joguete narrativo, do expressivo sonho, do expressionismo alemão à Hollywood, de Fellini a outros mentirosos. Mas um não seria possível sem o outro, nem o outro na sua expansão sem o “devido”.

O que podemos apontar com esta viagem … desculpem, aventura, é que a casa de partida é ao mesmo tempo a de chegada. Lumière tiveram uma premonição, e apesar das “más línguas”, não acreditavam no seu devaneio, houve quem o contrapusesse essa descrença com aquilo que detemos hoje enquanto legado. Frémaux não lecionou aula de qualquer género, apenas demonstrou um facto mais que histórico; de onde veio o nosso cinema, e que segredos se esconde nos seus primórdios. Não se esqueçam da coincidência das coincidências, Lumière significa luz em francês, e estas imagens nasceram disso mesmo, da luz … luz, câmara e acção, a Santa Trindade do altar cinematográfico. 

Episódio 0: Notas de Intenção

Hugo Gomes, 24.09.25

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Pensei em gravar um monólogo, mas depois de duas ou três tentativas apercebi-me de que não sou apto para “falar para o boneco”. Portanto, cá vai … para mal dos vossos pecados … em versão escrita.

Este episódio 0, assim numerado para não integrar a linha canónica que pretendo criar com o projecto “Bola Preta”, também poderia chamar-se “Nota de Intenção”. Inspira-se na tradição das vinhetas de uma ou duas páginas em que os realizadores expõem os propósitos e ideias do filme que se prestes a ver nos institucionalizados press kits. Em festivais internacionais, muitas destas notas são o primeiro contacto da imprensa com a obra, a inaugural fonte de informação.

“Bola Preta” é, sem surpresa, um podcast. — “Ui, mais um, como se já tivéssemos poucos.” — Sim, estamos saturados de podcasts: é podcast para aqui, podcast para ali, muitos deles a suscitar dúvidas sobre a sua existência ou até mesmo utilidade. Contudo, um podcast de cinema não é propriamente um oásis neste país, muito menos no formato que tenciono construir.

Quero, à semelhança das tais ‘notas de intenção’, revisitar um elemento essencial da minha educação cinéfila: a tertúlia. Nem que seja numa mesa de bar, acompanhado por uma birra, debatendo cinema, crítica e todos os temas que daí desaguem. É isto que desejo: conversas longe da formalidade, da “estreia da semana”, da temática exclusiva, da lógica da entrevista. Quero falar com amigos, camaradas de tela, conhecidos, figuras de diferentes áreas, com a crítica de cinema no centro, e em modo eclético.

O modelo é simples: em cada episódio terei um ou mais convidados, com quem embarcarei numa discussão, numa dúvida talvez, numa provocação por vezes. Daí seguirá, de forma labiríntica, a fluidez da conversação. Para onde nos levará? Não sei.

A minha jornada será exactamente essa, falar sob o intuito da promessa de aprender com o outro, de me deixar guiar pelas suas visões, de fortalecer a minha “sagrada” cinefilia, ou apenas de resistir com o meu ponto de vista.

Sim, será um podcast de cinema. Mas, acima de tudo, um programa sobre a humanidade no Cinema e nos diferentes olhares que dele brotam. Porque Cinefilia tem algo de amizade, porque não fazer alguma ‘coisa’ com ela?

*Episódio 1 prestes … mas prestes a sair! Estejam atentos.

"Lavagantar"

Hugo Gomes, 19.09.25

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História de lavagantes e safios, de realizadores do povo e realizadores de outra ordens morais, um filme sobre a memória recente urgentemente requisitada que opera numa transformação alegórica do corpo de Júlia Palha num país que nunca existiu, mas o qual se deseja intensamente.

"Lavagante" estreia 2 de outubro nos cinemas portugueses.

Quando o Sorriso é a última das resistências

Hugo Gomes, 04.09.25

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Aquele sorriso … Aquele sorriso era uma anomalia, uma anomalia sintetizada perante o absurdo que a envolvia. “Pára dizer normal. Não é normal”, pede do outro lado a cineasta iraniana Sepideh Farsi, já cansada da constante “normalização” acompanhada sempre por aquele mesmo sorriso de dentes cintilantes e por um olhar, por vezes reprimido, de tons esverdeados. O “normal”, a resposta definitiva, surgia invariavelmente à pergunta de Sepideh, em videochamada para Gaza, com a jovem de 24 anos Fatima Hassouna a testemunhar os horrores vividos. “Normal”, dito com uma leveza aterradora perante a constatação de vizinhos bombardeados pelas forças israelitas, da família morta, dos horrores que para muitos seriam simplesmente “anormais”.

Mas a normalidade estava lá, e não apenas nas palavras como consolação, quase de pavio curto, pragmáticas, como se o assunto não fosse o centro daquelas imensas conversas. Conversas nas quais Fatima prestava afectivamente, nelas se sentia fora do seu cerco solitário, sonhando com a possibilidade de um mundo lá fora, distante dos bombardeamentos, dos assaltos de última hora, dos escombros, dos cadáveres, da poeira, e do incómodo barulho de drones e apaches, “passeando” nos céus como aves de rapina.

A “normalidade” perante aquele cenário ia além das chamadas de longa duração, sempre sorridente é certo. Estava também nas fotografias que partilhava com Sepideh, como um presente vindo da outra fronteira: nelas via-se destruição, desolação, desumanidade, impressas com essa mesma “normalidade”. Eram fotografias que não procuravam denúncia, nem apelo à consciência, nem sequer o sensacionalismo de uma tragédia. Não. Nessas imagens havia apenas a “Normalidade”, a resignação de um olhar voltado para as ruínas de um território (e sua gente) reduzido a um eventual Nada. 

Mas o sorriso manteve-se até à última cena, à última conversa (um sintoma de aceitação da sua própria desgraça, nada de jubilante escondia nessa expressão). A 15 de Abril de 2025, Sepideh conseguiu transformar aqueles momentos em filme - “Put your Soul on Your Hand and Walk” (com base numa ‘expressão’ utilizada pela própria Fatima numa das enésimas conversas) - e por sua vez garantir lugar na programação de um, senão do maior Festival de Cinema do Mundo: Cannes (na secção ACID). A notícia foi recebida com o sorriso mais sincero de todo o catálogo de sorrisos de Fatima. Já não era mera defesa, nem ostentação da “banalização da sua desgraça”. Foi seguido de uma euforia: o esperado convite — “Dá-me o teu passaporte, vens a Cannes para apresentar o filme”.

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Naquele rosto … um belo rosto que progressivamente denunciava os sinais de deterioração … emergiu a felicidade, o momento que esperava sem saber. Alegria! Para o espectador, não o será. A chamada termina. Entra em cena o cartão há muito antecipado: na madrugada de 16 de Abril (apenas no dia seguinte), Fatima e a sua família foram mortas num ataque relâmpago das tropas israelitas, ou melhor, sem meias palavras: foram assassinados. O coração aperta. Os créditos finais ocupam a sala.

Sai-se da projeção. Entra-se no mundo exterior. No caminho, cruzam-se as caras macambúzias, fechadas, melancólicas, dos lisboetas que apanham os seus transportes: uns regressam a casa, outros entram nos turnos nocturnos. Trabalho e trabalho. Rotina. Um cansaço desmedido e visível. Nesses rostos, nota-se uma desgraça acumulada, mas eu só penso naquele sorriso. Perante uma desgraça maior que a nossa, o privilégio (sem o usar como nefasta condição banalizada pelos discursos propagandeados) não é, por vezes, reconhecido, é um conforto, uma ‘sorte’, e mesmo assim sentimos, com todo o respeito, um luto eterno.

Em Gaza, através daquela janela aberta por Fatima, vi um sorriso. O único que lhe restava enquanto humana.

 

"Put your Soul on Your Hand and Walk" estreia nos cinemas portugueses a dia 18 de setembro

Eduardo Serra (1943 - 2025): pintando telas em tom de pérola

Hugo Gomes, 22.08.25

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Girl with a Pearl Earring (Peter Webber, 2003)

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O Delfim (Fernando Lopes, 2002)

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Unbreakable (M. Night Shyamalan, 2000)

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A Promise (Patrice Leconte, 2013)

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A Mulher do Próximo (José Fonseca e Costa, 1988)

Fados (Carlos Saura, 2007)

 

Um dos nossos nomes mais internacionais deixou-nos, após uma homenageada “Carta Branca” e ciclo na Cinemateca. O fantasma da sua ausência fazia-se sentir nos corredores e nas salas de projeção, até que alguém disse: “Está doente, é uma pena… era muito talentoso.” O derradeiro chegou e, com ele, a força das manchetes. O que dirão perante obra afiada e olhar aguçado? Valorizarão apenas o facto de ter ido para Hollywood e de ter assinado um dos “Harry Potter”? Já esse ciclo continha uma mensagem clara: há sempre mais por onde olhar no cinema de Eduardo Serra. A sua internacionalização não deve ser desmedida para os puristas; a sua sensibilidade fotogénica enche telas … e se as enche!

MDOC 2025: Como filmar a Guerra? [Parte 3]

Hugo Gomes, 16.08.25

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Apesar da hegemonia mediática do genocídio (sim, a palavra é política, mas de uso correcto) palestiniano, a guerra na Ucrânia ainda acontece no horizonte. Talvez por via da sua ‘frescura’, grande parte do que nos chega em conteúdo documental são despachos com o intuito de exaltar a causa e a resistência ucraniana contra um inimigo que é Grande, seja em território, poder bélico ou em infantaria. De facto, muitos desses filmes não são interessantes do ponto de vista cinematográfico. Cedem ao facilmente ao seu próprio propagandismo: engrandecem a resiliência do seu povo ou expõem a miserabilidade a que hoje estão submetidos, testes de consciência ou apelos.

Mas no MDOC 2025 houve um ‘insider’ do lado inimigo do Ocidente. Da Rússia, deparamo-nos com Pavel Talankin, que nos avisa desde cedo: sempre se sentiu diferente dos outros homens da sua pacata cidade, junto aos Montes Urais. Talvez delicado demais, ou simplesmente dotado de um faro para mudanças inconvenientes. Jovem professor, testemunhou, a partir da data de 22 de Fevereiro de 2022 (a oficialização do conflito armado), a infiltração da propaganda político-bélica nas suas aulas — recitações patrióticas, história soviética revisada, apelos à morte pela Pátria, e com todos os descaramentos que isso traz, a presença dos mercenários [Grupo Wagner] em missão de “educação”. Assim se convertem alunos, rebentos de um futuro promissor, em “carne para canhão” num conflito de ditames: “desmilitarização e desnazificação”.

As imagens desta transição foram recolhidas clandestinamente por Talankin, e, com a sua fuga do país que prometia conhecer de ginjeira, constrói este documentário (supervisionado pelo americano David Borenstein) sobre a sua experiência que não é mais do que um retrato de uma Nação dedicada ao seu poderio e aos passados saudosos. "Mr. Nobody Against Putin" entra no vasto lote de obras geradas pela guerra Ucrânia-Rússia, mas, ao contrário do muito que se vê do lado ucraniano — onde muitos filmes resultam de um desespero genuíno e da necessidade de sensibilizar para a causa, numa espécie de cinema de guerrilha —, o infiltrado, o "traidor", reflete-se, incontestavelmente, numa elegia à Mãe-Rússia, aos “filhos” sacrificados, e à desfragmentação social que o jovem professor observa, impotente.

Há um foro emocional, de primeira pessoa, que o agora activista explicita com clareza. Mais do que denúncia ou desumanização do outro, Talankin olha à volta e vê um país entorpecido, sem um pingo de raiva nem de repúdio. Refere o seu colega de História, completamente vidrado nos mitos dos metralhas de Estaline: “vítima de uma lavagem cerebral”. A propaganda em plena operação, e a recompensa, um apartamento de luxo como prova dos serviços prestados a doutrinar os seus alunos. Não há monstros nesta Terra de Putin. Há juventude iludida, velhos castigados por memórias vendidas (o olhar despedida da mãe, que silenciosamente identifica o ‘adeus’ censurado do seu filho), e umas quantas lições a serem dadas com o maniqueísmo no centro. "Vocês vão morrer, mas não se esqueçam: as vossas campas terão flores durante séculos. A Pátria nunca vos esquecerá."

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Filmou-se uma guerra à distância, no quartel-general da massa humana. “Mr. Nobody Against Putin" poderá não ser o exemplar mais gratificante na estética bélico-documental que vivemos, subjuga-se à palavra do “eu” como conexão ao espectador. Contudo, não nos limitarmos à Rússia, há em neste relato documental algo que podemos associar na apropriação propagandista ao vivo, e quem sabe, já estar em curso em outros territórios.

Quanto a Talankin o filme desfecha com a promessa da sua segurança … devemos acreditar nisso? Ou o poderemos encarar como um homem identitariamente fragmentado?