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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cannes 2021: recomecemos fresquinhos para mais uma temporada

Hugo Gomes, 18.07.21

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Dou por terminada mais uma edição do festival, desta marcado pelas imensas saudades que tinha deste ritmo e da quantidade de sexo que a Competição ostentou nesta edição. Normalidade, não foi bem o que tivemos, mas o gosto de proximidade foi deveras revitalizador.

Com 36 filmes vistos e somente 12 entrevistas executadas com realizadores e atores como Ryusuke Hamaguchi, Nanni Moretti, Ari Folman, Tim Roth, Viky Krieps, Louis Garrel e Adèle Exarchopoulos (mais uma vez) e uma Palma de Ouro concretizada a “Titane”, o OVNI da Competição que confirmou a visão de Spike Lee em apostar num cinema arrojado, moderno e de género, fora dos conformismo que muita cinefilia apresenta, a 74ª edição de Cannes mostrou que a Sétima Arte permanece viva e vista em grande tela, em contradição às declarações precoces da sua morte, agravadas pela pandemia e pela expansão dominante do streaming.

Assim, deixo a minha lista de 10 filmes (marcantes diria eu) nesta Seleção, quer Oficial, quer secções paralelas (sem ordem de preferência):
 

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A Hero (Asghar Farhadi) – Competição
 

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Drive My Car (Ryusuke Hamaguchi) – Competição
 

218600966_10219717303819979_2221912876172221315_n. Julie (en 12 chapitres) / The Worst Person in the World (Joachim Trier) – Competição

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La Civil (Teodora Mihai) – Un Certain Regard
 

218772960_10219717303339967_1525778472785753653_n. Onoda, 10 000 nuits dans la jungle (Arthur Harari) – Un Certain Regard 

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Mi Iubita, Mon Amour (Noémie Merlant) – Sessão Especial

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Rien à foutre (Julie Lecoustre e Emmanuel Marre) – Semana da Crítica
 

219407939_10219717304219989_4367070920732744759_n. Stillwater (Tom McCarthy) – Fora de Competição

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Titane (Julia Ducournau) – Competição
 

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Tre Piani (Nanni Moretti) – Competição

Durante as noites, toda a Lisboa é parda

Hugo Gomes, 03.07.21

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No ano 2000, o cinema português encontrou entre quatro paredes o culminar da sua arte, despindo-se da ficção e focando num "não-lugar" em transformação com "No Quarto da Vanda" de Pedro Costa. Curiosamente, foi também o ano do obscuro "Noites" de Cláudia Tomaz, que partilha um espírito-irmão com a referida obra de Costa.
 
Para a iniciativa "Vamos Falar Sobre Cinema Português" do Estúdio de Investigação de História Oral Audiovisual do Cinema Português, decidi contextualizar "Noites" num espaço não-convencional, mas que em breve iria se tornar num lugar-comum.
 
"O espectador é assim convidado a esta miséria performativa que transcreve um coletivo experiencial, porque para Tomaz, eles são João e Teresa, desta forma introduzidos por diálogos trocados, mas bem poderiam ser qualquer João e qualquer Teresa. A ficção não conta aqui, somente a exposição, o simulacro de um realismo formal, sujo e intensamente soturno."
 
Para ler aqui

A menina das sete saias e o Adónis nazareno

Hugo Gomes, 11.06.21

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Mesmo aprovado pelas entidades reguladoras da altura, o filme de José Leitão de Barros – “Maria do Mar” (1930) – ostenta um fascínio quase “exótico” e peculiar pela comunidade piscatória de Nazaré (docuficção que se distanciaria do seu anterior documentário “Nazaré, Praia de Pescadores”, em 1929).

Entre esses momentos, está a sequência paralela, onde mulheres decidem regozijar na praia e os homens, jovens, a mesma ideia colocam em prática. Aqui, a câmara de Leitão de Barros demonstra uma desigualdade no olhar. As jovens, limitadas aos seus largos e amorfos fatos de banhos, são despachados por visuais indiferentes e alguma rudeza para com os seus “brutos” movimentos, constata-se uma fria distância, até quando uma delas, a Maria do título, deixa escapar um mamilo por uns breves segundos. Já os homens, a câmara repousa ao lado destes, cumpliciando com as suas brincadeiras e júbilos prazerosos, os corpos “adónicos” dos jovens pescadores são observados atentamente por este, e automaticamente pelo espectador, refém dos planos que o filme entende por nos oferecer.

Sucessivamente, os dois grupos aparentemente distantes se unem por consequência de um afogamento, a bela Maria (Rosa María) é levada pela corrente marítima e Manuel (Oliveira Martins), o nosso salvador de última hora, a resgata da fúria do mar que “devorou” os seus respetivos pais. Depois disto, o momento orgástico do filme, Maria inconsciente, deitada no húmido areal e Manuel exausto, cedendo também ele à inconsciência. Leitão de Barros executa tal sequência, sempre concentrado no tronco nu do jovem e na sua cadente respiração ofegante.

Curiosamente, em 1930, seja por razões subentendidas ou pelo constante receio da erotização do corpo feminino (o tradicionalismo e conservadorismo patriarcal tiveram como alvo principal a mulher e a sua emanada sexualidade), “Maria do Mar” procura a sensualidade em outros campos e formatos. Por outro lado, a perspetiva quase antropológica do filme reflete esse vindouro desejo ocidental pelo exotismo, obviamente encontrado como alternativa a ruralidade nazarena, encantos que seduziram o realizador de “Lisboa, Crónica Anedótica de uma Capital” (1930). E é bem verdade, que desse efeito já “sofria” o proclamado “pai do documentário”, Robert Flaherty, em “Moana” (1926), só que os paraísos eram obviamente outros.

Filmes de Negros também importam

Hugo Gomes, 10.05.21

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“Straight Outta Compton”, “Harriet”, “Sorry to Bother You”, “Hustle & Flow” e agora “Judas and the Black Messiah”, o que há em comum nestes filmes além de serem apelidados de "filmes de negros"?

A resposta é bem simples: não estrearam (nem hipótese tiveram) nos cinemas portugueses. E no caso do último exemplar, pelos vistos o facto de ter conseguido 6 nomeações, incluindo a de Melhor Filme, e ter conquistado duas estatuetas (a de Melhor Ator Secundário para Daniel Kaluuya) não foram o suficiente para lhe garantir espaço nas nossas salas, condenado a ser despachado para o “videoclube”, ou seja, um nicho constrangedor. O que indigna nisto tudo, é que existe um padrão e quiçá, um racismo sistémico com disfarces de capitalismo. Seja as majors mães que “comandam” estas produções, seja as nossas representantes, uma coisa é certa, há que questionar e acabar com as persistentes “tradições”, essas que nos garantem filmes de teor direct-to-video nas salas e que colocam para VOD (nem streaming é) obras que mereciam um pouco mais de respeito e risco.

Tendo conhecimento das existências de taxas de publicidade requerida para estes filmes, e o historial de más bilheteiras em território português (assim nos fazem acreditar), é também incompreensível que uma das nossas principais distribuidoras – NOS – que declarou nos “Encontros de Cinema Português” de 2020, que, mesmo em contexto pandémico (onde os hábitos de consumos dos espectadores alteraram drasticamente), iriam continuar apostar em “filmes para millennials”, e entendendo nós que são essas novas gerações (o seu suposto “publico-alvo”) que mais preocupados estão com as questões de representação e diversidade. Por isso, abram os “cordões às bolsas” e soltam os “filmes de negros” nas nossas salas.

Isto tudo para avisar, com alguma tristeza, que o filme de Shaka King [“Judas and the Black Messiah”] encontra-se disponível em VOD.

Deixo ainda como leitura o artigo de Rui Pedro Tendinha no Diário de Notícias - https://www.dn.pt/cultura/o-filmes-dos-oscares-que-portugal-nao-quis-estrear-13695773.html

Godzilla vs . Kong: O lamento do espétaculo em sala

Hugo Gomes, 07.05.21

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Quando a Pandemia ameaçou as salas de cinema, espalhando o pânico e o medo de regressar à sua devida “normalidade” (rituais quotidianos era substituídos por outros), a grande indústria – Hollywood – depositava crença em Christopher Nolan, o seu São Sebastião, para demover os espectadores a “migrar” para o seu habitat natural. O filme – “Tenet” – não era o herói que necessitávamos, nem o que acabaríamos eventualmente por pedir, arrecadando mais de 300 milhões em todo o mundo, uma quantia insuficiente tendo em conta os custos da sua produção.

Esta receção levou com que outros estúdios adiassem, ainda mais, as suas apostas milionárias e noutros casos, como a Disney, “espetassem” as suas antecipadas produções nas plataformas de streaming. Perante a “má figura” feita por “Tenet”, a Warner Bros tomou uma decisão pecaminosa de estrear os seus blockbusters num modelo simultâneo, em sala e streaming [HBO Max], um pacote que incluiria as chamativas adaptações da DC, a nova autoria de Clint Eastwood [“Cry Macho”] e um combate colossal em CGI intitulado de “Godzilla Vs. Kong”.

Ironicamente seria a “macacada total” do “rematch” de 1963 (“King Kong vs. Godzilla”, de Ishirô Honda e Tom Montgomery) a colocar alguma esperança no retorno das salas de projeção, somando até à data mais de 415 milhões dólares em todo o Mundo (incluindo um valor agradável em território chinês o que por si só deixou executivos de Hollywood felizes). Se é certo que o trabalho de tarefeiro de Adam Wingard (realizador o qual tecíamos alguma atenção desde os seus bem esgalhados ensaios de género - “You’re Next” e “The Guest”) oferece-nos somente aquilo que nos havia prometido – o mundo como ringue de boxe para duas criaturas tecnológicas – é de temer que seja objetos primários como estes a reconquistar o público na sua retoma aos cinemas em resiliência.

Será que o cinema-espetáculo está confinado à anorexia CGI, onde um símio gigantesco detém mais Humanidade do que as suas passageiras personagens humanas e de um guião, que apesar de ter sido escrito por mais que dois argumentistas, é de uma infantilidade atroz? Para muitos, a resposta concentra-se na somente definição de “blockbuster”, o divertimento para massas que em certa parte toma a crítica como refém (há que cativar a indústria ao invés de refletir sobre as mudanças de “consumo” do qual estamos a testemunhar). Mas essas desculpas baratas e padronizadas não são suficientes.

Se em época de streamings e as suas respetivas produções em massa, o espectador caseiro tem-se tornado cada vez mais exigente e paliativo, porquê em grande tela restringirmos ao efeito visual, ao pirotécnico e à linguagem básica que envergonha qualquer guionista? “Godzilla vs. Kong” pode ser um sucesso improvável em momentos necessários, mas nós merecemos mais e melhor.

25 de Abril: "É para o senhor falar o que quiser"

Hugo Gomes, 25.04.21

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Sobre o 25 de Abril e a sua representação no audiovisual (de forma a expandir do território cinematográfico), existe um momento que sempre me faz palpitar o meu coração. Aconteceu no documentário “As Armas e o Povo”, do coletivo cinematográfico em 1975, um registo do célebre dia de 1974 até à concretização do primeiro 1º Maio no ano seguinte.

Aí, um dos representantes desse grupo - o cineasta brasileiro Glauber Rocha - corria pela festiva população lançando questões triviais de forma a despoletar sinceridades nos seus entrevistados. Um deles foi um ancião, emocionado com os festejos e ainda mais quando Rocha lhe dirige com o microfone na mão e o incentivo - “é para falar o que o senhor quiser”. Naquele momento, o dito senhor poucas ou nenhumas palavras consegue articular, cai numa candura, num silêncio imperativo, não pelo facto de não ter nada para dizer, mas porque nunca lhe foi solicitado a palavra, muito mais no que lhe bem apetecer. “Está muito emocionado o senhor”, ouve-se atrás dele, uma tentativa de lhe tomar a tal oportunidade, até que o idoso de bandeira na mão rompe esse mesma autocensura para “disparar” o seguinte discurso: “A mim parece inverosímil que após 50 anos de opressão e de falta de liberdade, o povo se tenha libertado dessa mesma opressão e que sinta hoje, nos últimos dias, uma alegria que é verdadeiramente indescritível.” No final, possivelmente influenciado pelo sotaque de Rocha, lança um cumprimento caloroso ao Brasil: “Saudades dos meus irmãos brasileiros, o qual estamos ligados pelo coração e pelo espirito …

Momento bonito, e eu que tenho um enorme pavor em usar tal “simplório” adjetivo, mas é em cenas captadas como estas que me transportam à mais sincera essência do 25 de Abril. Não um somente feriado, ou um data histórica do Portugal moderno, mas a destruição de certas e profundas amarras, simples, das quais hoje damos por garantidas, ou que nem sequer percebemos … por outro lado, tendo em conta o crescimento desinformado que por aí anda, nem um esforçamos fazemos para entender essa sensação. Aquilo que o referido senhor sentiu no preciso instante em que foi abordado pelo cineasta, disfarçado de repórter, nunca o senti, e espero, felizmente, nunca o sentir.

Ó Tempo ... espero que reconheças Monte Hellman, o Livre!

Hugo Gomes, 22.04.21

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Monte Hellman e a atriz Shannyn Sossamon na rodagem de "Road to Nowhere" (2010)

Confio no tempo para resgatar e preservar Monte Hellman (1929 - 2021), que até então era visto somente como um escasso “fóssil vivo”. Do cineasta, a liberdade foi um dos seus cartões-de-visita, não somente a liberdade formal e temática dos seus projetos, mas também nas suas escolhas, porque para além de road-movies para nenhures (“Two-Lane Blacktop” a “Road to Nowhere” a distância é uma viagem atribulada), Hellman apostou em “westerns” bastardos (“The Shooting”, “Ride in the Whirlwind”), em lutas de galos (“Cockfighter”), em tiranos desfigurados (“Iguana”) e até no horror direct-to-video com o terceiro filme da saga “Silent Night, Deadly Night”, onde revelaria Laura Harring para os mais desatentos e, quem sabe, a David Lynch (que mais tarde a colocaria no centro do seu “Mulholland Drive”). Um currículo não extenso, e si longevo e diversificado.

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Two-Lane Blacktop (1971)

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The Shooting (1966)

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Road to Nowhere (2010)

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Silent Night, Deadly Night 3: Better Watch Out (1989)