Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Curte a Curta: 2ª edição dos Prémios Curtas

Hugo Gomes, 10.04.24

DSC03003.jpg

Fotografia.: Ricardo Fangueiro

Após o seu nascimento e os primeiros passos, chegou a tão aguardada segunda edição dos Prémios Curtas, que teve lugar no Cine-Turim no passado dia 6 de abril, num sábado à noite em Lisboa, cidade com "400 e tal coisas para fazer", como citou o anfitrião da cerimónia, Rui Alves de Sousa. Apesar disso, a sala estava praticamente cheia. Sentia-se no ar o ambiente de premiação, mas acima de tudo um espírito de camaradagem cinematográfica entre produtores, realizadores, atores e outros técnicos, todos ansiosos pelos títulos conquistados e pela promessa de uma terceira edição (provável, mas quem sabe). Aceitei o convite de André Marques (o "outro", não o realizador) em integrar uma equipa de jurados* ainda na sua génese, sempre com o intuito de contribuir e opinar para a formação de um júri de excelência e referência. Já no final da primeira edição e perante uma segunda edição à vista, voltei a aceitar o convite, quanto à terceira, ainda espero por um pedido oficializado. Contudo, saindo do parênteses e voltando ao que “aconteceu”, poderemos encarar a adesão e o falatório (principalmente o gerado na comunicação social) como sinais de estarmos no caminho certo.

Quanto à premiação propriamente dita, apesar de “Monte Clérigo” de Luís Campos ter sido o vencedor da categoria de Melhor Curta de Ficção, foi a animação de Maria Hespanha, “A Rapariga de Olhos Grandes e o Rapaz de Pernas Compridas" que se autointitula de grande vencedor da noite. Foram quatro os prémios atribuídos; Animação, Argumento, Direção Artística e Banda Sonora [Pedro Marques]. Seguido pela também animação “Ana Morphose” de João Rodrigues (Som / Efeitos sonoros e Efeitos Visuais), “Maria José Maria” de Chico Noras (Montagem e Caracterização), “Natureza Humana” de Mónica Lima (Realização e Direção de Fotografia [Faraz Fesharaki]) e “Febre de Maria João” de Afonso e Bernardo Rapazote (Ator Secundário para António Mortágua e Guarda Roupa). Já os restantes, foram para a atriz Teresa Sobral pela sua interpretação em “Sagrada Família” de Diogo S. Figueira, Isac Graça como Ator em “Heitor Sem Nome” de Vasco Saltão, Maria Leite como Atriz Secundária por “Abafador” de Silvana Torricella, Gabriel Pêra vence Interpretação Infantil por “Capa de Honras, La Cuonta de L Garotico I L Bielho” de Rui Falcão, e “Défilement” de Francisca Miranda como Curta Documental.

DSC03349.jpg

Os premiados e os jurados / Fotografia.: Ricardo Fangueiro

DSC02606.jpg

Fotografia.: Ricardo Fangueiro

*Bruno Gascon (realizador), Inês Sá Frias (atriz e radialista), Edgar Morais (ator), Inês Moreira Santos (crítica e blogger), Teresa Vieira (curadora, crítica e radialista da Antena 3), Bernardo Freire (crítico), André Pereira (videografo e editor de vídeo), Filipa Amaro (realizadora), Carolina Serranito (programadora), Hugo Azevedo (diretor de fotografia), Bruno Bizarro (compositor).

Para lá da eternidade, a música e a Ordem

Hugo Gomes, 28.03.24

n001_OPUS_still_20240201185559.jpg

Assinala-se um ano de ausência, e é através da sala de cinema que nos reunimos para "comemorar" a missa. Ryuichi Sakamoto morreu, todos sabemos disso, porém, não o sabia - talvez sentindo uma espécie de premonição através do gesto - o seu filho, Neo Sora, que filmou o seu pai, mais do que isso, o artista perante ele. Um concerto íntimo, transformando aquele estúdio, no lugar mais solitário, apenas ele, Sakamoto, e o seu piano de cauda Yamaha, em tons cinzentos numa invejável valsa entre luz e escuridão. Nós, espectadores, assistimos em jeito fúnebre à sua performance derradeira, vislumbrando o seu legado e, pontuadamente, à sua Ordem (leia-se "Opus").

Por cada tecla acionada, a sua cabeça balança, há nisso um respeito permanente, uma vénia para cada nota, para a melodia, para a composição, e num salto ao eixo a luz do projetor eclipsada pela sua cabeça, uma aura ali manufaturada, uma santidade que mesmo gracejando com o cântico dos Deuses demonstra-se humilde perante a sua moralidade. Um engano surge, cadência errada, "vamos recomeçar" declara em modo de auto-confissão, a sua rigidez para com a sua própria arte, para com o seu próprio percurso, não deparamos com um amador, nem sequer com um veterano, ou antes, um santo no seu piano (pedestal).

Uma hora e quarenta, tempo necessário, curto e igualmente longo para lidar com as evadidas lágrimas que deslizam pela nossa face. Enxugamos-as com vergonha de as exibir como prova sentimental, Sakamoto não pretendia essa manifestação, a sua dedicação solicita um contemplamento, uma Ordem própria. O artista e a sua arte, que melhor casamento para acenar a uma despedida! Neo Sora promove esse Adeus com uma coletânea de planos-detalhes; os dedos que pressionam, opondo-se ao reflexo na tampa do teclado, os pés em simbiótica coreografia no pedal de sustentação, os contornos delicados do seu instrumento enquanto é orquestrado (vivido e fortalecido), as cordas dançantes o qual podemos maravilhar (espíritos invocados talvez), a respiração de Sakamoto forte e arrastado em sincronizada para com a extraída melodia, um corpo ali, sacrificado à Música.

De "Aqua" a "Last Emperor", passando por "The Sheltering Sky", e soando réquiem, a partitura que o catapultou ao seu merecido estatuto: "Merry Christmas Mr. Lawrence", tema da obra de Nagisa Oshima, o qual o próprio compositor contracenou ao lado de David Bowie (até ao fim dos seus dias arrependendo de não ter tido "melhor relação"), que por sua vez, contou com uma despedida coincidente, em forma de álbum, "Black Star", provando a música divina que os moribundos produzem no seu aproximar com o Fim. No caso de Sakamoto, a Ordem é a estrutura da sua arte, e com esse estandarte musicado lançamos-nos a uma última performance, os créditos finais, mesmo que necessários, poluem a tela, aquela figura que toca a música que nos acompanhará até à saída da sala. 

A “missa” terminou, agora o seu espírito pertence a um outro terreno. Quem sabe, talvez haja recitais onde ele estiver, e que esteja na companhia com que bem entender? Escutando a maravilhosa sonoridade que existe para lá da tumba.

Avista-se amadurecimento ...

Hugo Gomes, 18.03.24

MV5BMmE5MzZiZDktOGIwMC00ZTcyLWE0NDktNWYyN2MzMWNlZD

Ryusuke Hamaguchi a não desiludir, demonstra-se "bicho-carpinteiro", a não dar o dito pelo dito, nem se vergar por uma única fórmula. Um realizador que me chegou com elogios exagerados com doppelgangers e “horas felizes” tem amadurecido, os louvores ornamentam-lhe a cabeça desde que girou uma certa "Roda Fortuna", agora, com este passeio silvestre e místico onde  natureza humana manifesta-se mas não cede a bicolores, saímos encantados com algo simples, mas igualmente complexo ... portanto, façam uma boa viagem!

Oscars 2024: depois das legislativas, o atómico

Hugo Gomes, 11.03.24

lcimg-4d78941b-0375-4b97-b7f0-1af69e903342.jpeg

Como costumo dizer no final de cada cerimónia - "Acabaram-se os Óscares, que regressa o Cinema" - este ano, simplesmente, não aconteceu... E não me refiro aos vencedores, obviamente, a gala de prémios foi a mais previsível desde que "Coda" (quem?) abocanhou a estatueta de Melhor Filme numa noite quente marcada à bofetada. Não, o motivo foram as eleições legislativas altamente disputadas que tiraram o sono a qualquer português. Depois disto, qual o interesse de ver "Oppenheimer", o "mais importante filme do século", como vozes em uníssono declararam antes da produção estrear, levar um punhado de "homens dourados" (com alguns bem discutíveis, "Montagem? Por favor", outros bem merecidos como Robert Downey Jr. enquanto ator secundário)? Contudo, como é tradição aqui no espaço, um comentário - meio ácido, aviso desde já - da noite que se fez para lá de Los Angeles a marcar a manhã de uma ressacada segunda-feira. Portanto, cá vai:

Como tinha afirmado, Nolan é o esperadíssimo vencedor, antevendo um circuito altamente previsível e homogéneo. Cillian Murphy sai sorridente em oposição de um "Maestro" tristonho e vazio (para um filme com uma realização daquelas merecia mais, mas nada neste mundo é justo). Emma Stone, a frankensteiniana criatura de "Poor Things" de Yorgos Lanthimos, faz uma rasteira a Lily Gladstone na categoria de Melhor Atriz, e na mais disputada categoria, a de atriz secundária, Da'Vine Joy Randolph de "The Holdovers" acena às derrotadas America Ferrara e Danielle Brooks. Outra categoria digna de nota é a de Filme Internacional, com o britânico falado em alemão "Zone of Interest" a sobrepor-se a "Perfect Days" e "The Teacher's Lounge", sacudindo alguns fantasmas do Holocausto e incomodando, como se percebeu no discurso de Glazer, o conflito israelo-palestiniano. E por fim, digno de nota, o nipónico e "underdog" "Godzilla Minus One" a triunfar na competição dos efeitos visuais, deixando para trás candidatos com potencial como "The Creator" e o terceiro "Guardians of the Galaxy", e (confesso, o prémio que mais felicidade me trouxe), a animação para "The Boy and the Heron" do nosso mestre Hayao Miyazaki.

E pronto, é isto. "Acabaram-se os Óscares, que regressa o Cinema"!

António-Pedro Vasconcelos (1939 - 2024): o senhor do grande público em Portugal

Hugo Gomes, 06.03.24

1024.jpg

Sinto que será uma figura sobre a qual iremos debater nos próximos tempos com uma maior exatidão e menos reação, mas fora isso, para o bem e para o mal, António-Pedro Vasconcelos fazia parte deste círculo reduzido e conflituoso que é o Cinema Português. Muitas vezes expressei o quanto gostava de ouvi-lo falar sobre cinema, mesmo que discordasse inteiramente da sua visão e, claro, da sua maneira de fazer filmes. No entanto, é neste diálogo que a cinefilia parece ter se perdido, na passarela de egos, na falta de escuta do outro e na defesa da pluralidade de pensamentos.

Quanto aos filmes, é triste que a sua despedida tenha sido com o telenovelesco "Km 224", mas há alguns momentos na sua cinematografia que guardo com carinho (deixo de lado os seus trabalhos de consagração, “Oxalá” e “Um Lugar do Morto”), nem que seja pelo desempenho mais do que feliz de Nicolau Breyner em "Os Imortais", personagem que se tornou num meme vivo - "Está tudo preso, meus cabrões". Ou, como sempre defendi, pelo lado B do cinema americano que "Call Girl" proporcionou. "Deus não existe, porque se existisse era um incompetente", dizia Joaquim De Almeida à sua protegée e isco humano Soraia Chaves "disposta a tudo", ou do malconceituado "A Bela e o Paparazzo", comédia romântica que piscava o olho a um legado iconográfico hollywoodiano. Não que tenha sido a oitava maravilha do cinema português, mas entre isto e os muitos atentados que se praticam em nome do "cinema para o grande público", até ficamos bem servidos com os singelos e até humildes "contos de coração partido" narrados por Nuno Markl.

Houve um tempo em que Paulo Branco jogava poker em "Perdidos por Cem", filme de referências e brindes, ou o encanto do Porto ao som de Rui Veloso em "Jaime", e não podemos esquecer "Amor Impossível", um romance jovial autodestrutivo que chegou a (re)conquistar alguns céticos. Ficamos então sem António-Pedro Vasconcelos, despedimo-nos de um homem cuja visão do seu cinema o relegava a uma certa marginalidade.

Dois cinéfilos, um diretor de fotografia e Mário Soares entram num snack-bar ...

Hugo Gomes, 21.02.24

veka3bdp5ois_

"Soares é Fixe" (2024)

"Cumpliciamo-nos com a ideia de que o cinema português é dividido por duas grandes trincheiras: a de autor e a comercial, vulgo popular. O que me incomoda com tudo isto é: por que razão esses filmes que apelam às massas são visualmente ‘feios'?” 

Num jantar de puro acaso, numa sexta-feira, tendo um snack-bar/cervejaria à moda franchisada como escolha rápida, dois amigos reencontram-se, a conversa entre ambos vai ao encontro das suas experiências nos últimas dias, com paragens intermitentes no Cinema, o coração de tudo, o pensamento de todos. Entre imperiais, “lambretas” e "príncipes" (termo pelo qual o empregado foi questionado, para garantir que não fosse pedido por engano algo que não satisfizesse a sede por cevada a temperaturas polares), um cachorro do outro , uma francesinha de um lado com batatas fritas à parte- "Se quiseres, podes tirar batatas?" "Não, deixa estar, obrigado" - expondo-se em certo momento esta preocupação, uma discussão retórica, que vale o que vale. 

"E mais, se de um lado tens Acácio de Almeida, Rui Poças, João Ribeiro, Jorge Quintela..."

"Não te esqueças do Leonardo Simões."

"Como poderia esquecer? Já agora, adiciono a Leonor Teles... Mas do outro lado, na vertente 'popular', não tens ninguém que realmente se destaque; é como se esses filmes fossem tão homogéneos, televisivamente falando, e por isso, tão 'feios', nada cinematográficos." 

"E isto vem a propósito de..." 

"Vi 'Soares é Fixe', e para além dos seus defeitos... que não são poucos, um dos aspectos que me incomodou foi a sua fotografia. Não vi cuidado na luz, nem sequer coerência estética ao longo do filme, para além de uma falta de profundidade. Soou-me tudo tão enevoado. Não sei, talvez esteja a ser mesquinho. Procurei nos créditos, Miguel Manso, colaborador frequente do universo de Sérgio Graciano. Ele até pode ser 'bom', percebes? Mas não vejo qualidade neste tipo de trabalhos, o que havia demonstrado e acabou por o fazer neste, foi um tom que não o separa da qualidade televisiva. Facilmente olha-se para "Soares é Fixe" e encontramos uma sensação de conforto num pequeno ecrã

Aqui seria importante contextualizar o dia. Esta saída improvável ocorreu após uma sessão categorizada como warm-up [“Janela para o Arquivo”], aperitivo para a próxima edição do CINENOVA: Festival Interuniversitário de Cinema, na FCSH [Faculdade de Ciências Sociais Humanas, em Lisboa]. Uma sessão integrada por três filmes-escolas, oriundos de ante-câmaras para personalidades como hoje reconhecemos como a realizadora Susana Nobre ou o músico Manuel Fúria, a primeira numa aproximação performativa de um drag-queen [“Transformistas”, 1995 - 1996], o segundo mostrando uma aptidão para distopias numa Lisboa imaginada [“Os Bons Alunos”, 2004 / “Arquivo Geral”, 2006]. A partir daí, discutiu-se o processo, e mais do que isso, as equipas improvisadas e as alianças aí forjadas. Contextualizo porque é aí que o 'parceiro do crime' argumenta: 

"Como pudeste ver na sessão, muitas dessas alianças nascem dos tempos de escola, e para além disso, podem ser cumplicidades criadas ao longo da carreira. Orson Welles dizia que preferia trabalhar com amigos do que com os melhores atores da contemporaneidade, e o mesmo se deve aplicar a este aspeto. Uma questão de comparsas." 

"Sim, tens razão. Porém, estamos a falar de indústria, coloco aspas para não vender uma mentira. E será que nessa indústria, um produtor ou algo do género, não tem uma indicação ou requisito dos melhores no mercado? Por exemplo, nenhuma dessas produções contrata um Rui Poças?"

"Talvez o Poças prefira outros voos?" 

"Sim, e belos voos, o 'Zama' da Lucrecia [Martel] é um postal vivo. Aquela cena nas pampas com palmeiras ao fundo e uma cavalgada lenta tornou-se no papel de parede do computador." 

"Sim, concordo, parece um postal. E o João Ribeiro com o Ivo M. Ferreira?"

"Falas do 'Cartas da Guerra'?" 

"Sim, esse." 

"Não é bem cinema comercial dentro dos padrões convencionais." 

"Possivelmente... mas pronto, o que quero dizer é que este é um meio tão pequeno, os projetos são poucos e, no caso dos diretores de fotografia que mencionaste, possivelmente preferem trabalhar com o seu conforto ou, como integram um cinema que facilmente se estende a território internacional, são mais facilmente contratados por produções estrangeiras. O país é pequeno para a ambição de muitos."

"Faz lembrar o Eduardo Serra.

"Aí está! Fernando Lopes... belíssimo 'Delfim', a sensualidade de Alexandre Lencastre ali captada numa espécie de veludo estético... Luís Filipe Rocha, José Fonseca e Costa e depois, Carlos Saura, Patrice Leconte, Winterbottom e umas voltas em Hollywood." 

"Esteve por detrás de um dos Harry Potter, o do Cuarón, um dos mais interessantes do ponto de vista visual. Sabes, tenho um amigo que diz que ter um bom diretor de fotografia é meio caminho andado." 

"Talvez, conseguirias imaginar o duo do Canijo sem Leonor Teles? Mas mudemos de assunto, como foi o 'Soares é Fixe'?" 

"Há um senso de oportunismo neste filme, além do seu tom puramente televisivo. Já anunciaram uma segunda parte, sobre o Álvaro Cunhal." 

"É uma tentativa de fazer filme político em Portugal?" 

"É demasiado apolítico para isso, apenas descreve as turbulentas eleições de 1986, Mário Soares contra Freitas do Amaral, em termos simbólicos esquerda contra direita, de uma forma esquemática, quase como um fraco manual de História." 

"Para ser cinema político, tem de posicionar-se mais, claramente."

miguel-mateus3.jpg

"Soares é Fixe" (2024)

"Exato! Não se posiciona em nada, não digo explicar quem foi o Mário Soares a quem nasceu ontem, mas sim acreditar no filme e na sua consciência. Em vez disso, limita-se a apresentar factos e episódios, sem grande esforço para construir um cenário sociopolítico da época em que pudéssemos acreditar. É o mesmo problema que teve em 'Salgueiro Maia: O Implicado', apesar de este ter tentado ser um biopic nos termos mais convencionais e com a intenção de ser explorado como uma série televisiva. Aliás, Graciano tem demasiados vícios da sua carreira em televisão." 

"Não sei como continuas a acompanhar, eu desisti no 'Linhas de Sangue'..." 

"O 'Assim Assim' não era mau, tinha ideias e, acima de tudo, humildade, e no 'Njinga, Rainha de Angola', há uma sequência tão antoniana que me apeteceu perdoar o filme pelos seus pecados originais... agora, 'Linhas de Sangue' é outra história... Vejo, porque faz parte, quer se goste ou não do Cinema Português e da sua história, como também tenho o perverso desejo de ser apanhado de surpresa um dia destes." 

"Achas que ele te vai surpreender de alguma forma?" 

"Tu próprio já usaste o caso Todd Phillips como exemplo, dizendo que é um realizador pouco interessante e, no entanto, certo dia pariu um 'Joker'. E dou-te o exemplo de Richard Kelly, 'Donnie Darko' foi um ‘one hit wonder’, por que não acreditar no oposto?" 

"Sim, mas..." 

"'Soares é Fixe' é um desperdício de oportunidade, é um facto. Tenho fé de que, num futuro próximo, Sérgio Graciano nos dará um bom filme. Quem sabe se será 'Os Papéis do Inglês'..." 

"Esse é o que terá produção do Paulo Branco?" 

"Sim, esse."

A noite prolongou-se com mais um par de cervejas até se perceber que só restava estas duas almas no estabelecimento, para além dos seus funcionários que lançavam olhares reprovadores - “quando é que pensam ir embora, estes” - devem ter pensado enquanto rogavam ‘pragas’. Uma espreitadela no relógio. A mínimos minutos para a meia-noite, a indireta de que deveriam seguir para as suas respectivas casas.. Algumas últimas notas sobre o quotidiano, planos futuros e promessas para uma próxima vez. Uber solicitado. A chegada ao ponto de recolher acompanhado com a devida despedida. “Deixa o ‘Soares é Fixe’ de lado, não vale a pena escrever sobre ele.” disse à medida que abria a porta do Tesla preto que o aguardava. “Olhe que não, olhe que não”, respondeu acenando o amigo.

(... e porque ninguém 'gosta' de críticos)

Hugo Gomes, 12.02.24

416197711_896096168976305_3409762203180583957_n.jp

Sou um pessimista em relação ao amanhã da Crítica de Cinema... Acredito que a única sobrevivência reside no seu praticado romantismo; o resto é negligência atrás de negligência, seja pela sociedade que, para o bem e para o mal, decidiu democratizá-la, tornando-a somente numa questão de gostos e, com isso, convertendo-a numa "arte" ao nível de qualquer um - ser crítico basta acreditar que se é. É com esta mensagem que nos deparamos na solução da fórmula, mas o que observamos é a sua extinção, adquire-se o "gosto" e o "não-gosto", Rotten Tomatoes e hipérboles adjetivas para descrever o inclassificável, e voilà, mata-se um ofício em prol de uma acessibilidade primordial (reduzindo-se a uma 'opinião').

Com isto, digo, repito e insisto (quem não quiser "ouvir" não é obrigado a estar na minha companhia): a crítica não pode ser servida como aliada ao mercado (ninguém enriquecerá a ser um, e a ingratidão será sempre a “merecida” recompensa); deve-se, ao invés, emancipar-se, apresentar ideias acima da mera catalogação, debater para além do preto e branco, o dito cinzentismo, e não reduzir-se a pragmatismos sem frutos, é uma das vias que manifesta-se como salvação, o Deus Ex Machina para vivências sem futuro. Recordo-me de alguém ter-me apontado o dedo furtivamente após as minhas “queixas” acerca da subsistência desta comunidade, acusando-me: "tens a mania que és o embaixador da crítica de cinema"... Não sei se sou ou se estou apenas a achar, mas é claro que não me limito a seguir para o Batalha e apresentar-me numa bolha protecionista quanto ao meu privilégio, ao menos isso. Nesse sentido, se os críticos que cá estão não conseguem defender a sua própria classe, então "andor", retirem-se e deixem lugar para outros.

A crítica de cinema tem que Viver, nem que para isso tenha que morrer antes, e em efeito Lázaro, ressurgir mais forte e independente. Até porque, como vemos na foto, eles não precisam de nós.

Apollo antes de Rocky e depois de Rocky

Hugo Gomes, 02.02.24

creed.webp

Em “Rocky” (John G. Avildsen, 1976), ao contrário do que se vende e da imagem que perdurou, existem duas faces da mesma moeda; um “underdog” ítalo-americano, ou melhor “garanhão italiano”, que cresceu nas ruas de Filadélfia com o “coração de campeão” e de uma vontade algo-infantil (leia-se sonhador, apesar da teimosia que sublinha imaturidade) - sim, o Grande Rocky Balboa (Sylvester Stallone) - e do outro lado, um campeão de ambições fortes, por direito, Apollo Creed (Carl Weathers), o ex-”underdog” que certo dia, perante a fraca concorrência, decide apontar holofote a um “Zé Ninguém”, entendendo-o, é claro, dando a mão para uma eventual catapulta social. O resto, é confronto de ringue, homem contra homem, soco a soco, até ao último K.O. Como sabem, Rocky perdeu esse combate, não estava destinado a fantasias maiores que ele próprio, Apollo era melhor pugilista, e mais, experiente, e igualmente detentor desse “olhar de tigre”, dessa garra em conquistar um lugar previamente proibido à sua existência.

Rocky Balboa é para mim uma espécie de figura paternal, um modelo, um guia que aspira nos momentos árduos que só a Vida proporciona numa cantiga de injustiça, e desse jeito não o consigo separar de Sylvester Stallone, mas em Apollo Creed encontro a outra fase, a consagração, o espírito de preservação, o lutador em repouso após tremendos assaltos, o por fim, descanso merecedor, o K.O. à vida maldita e trafulha. Rocky caminha para Apollo, até porque Apollo já foi Rocky, um não existe sem o outro, e o outro não existiria sem ele. Assumo que Carl Weathers fez muito mais para além de “Rocky”, é verdade, mas se existe personagem o qual detive tamanha estima, essa é definitivamente Apollo Creed, o bom americano, aliás o Tio Sam que deu certo! 

Na vida, Rocky aspira ser Apollo! Na vida, Apollo inspira Rocky!

 

Carl Weathers (1942 - 2024)

Sempre os mesmos?!

Hugo Gomes, 23.01.24

oppenheimer_alamos.jpg

Oppenheimer (Christopher Nolan, 2023)

Ontem foram anunciados os "premiados" da OFCS (Online Film Critics Society), na qual participo, e constatei que são exatamente os mesmos nas suas devidas categorias em relação a outra enxurrada de prémios e círculos de crítica. Hoje, confirma-se a "harmonia" com as nomeações aos Óscares, como se fosse um campeonato. O que mais entristece não são os prémios, mas sim como este círculo de críticos parece não sair daquele formato de "gosto". Deixou há muito de existir exigência, e sobretudo, pensamento. Temo que a Crítica de Cinema se transforme em algo meramente decorativo... e estrelado.