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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Na nossa "Vida Moderna", o Cinema é mais que necessário ... é urgente!

Hugo Gomes, 03.01.21

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Começar 2021 a rever Jacques Tati e o seu Playtime (1967), sátira citadina recheada de fait-divers, hoje uma produção impossível de replicar em toda a sua escala, é um dos exemplos que necessitava para priorizar, ainda mais, a experiência de cinema em sala. Já que enfrentamos um ano decisivo na preservação e subsistência desses mesmos espaços, esta nova passagem promete colocar a pratos limpos sobre o estado da projeção e a vitalidade dos cinemas. Nada melhor para relembrar, pelo menos, a minha necessidade da sala que espreitar um dos mais detalhados filmes da nossa modernidade, com o realizador, ator e “clown” Tati a conceber o mais rico não-lugar da História do Cinema - Tativille.
 
Playtime: Tempos Modernos é um exercícios de gags, de capacidades cénicas e figuristas e todo um olhar clínico ao nosso capitalismo fervoroso que bem abraçamos, e o progresso em marcha constante sem uma pausa que seja, porém, tudo isso é somente teoria para a profundidade com que esta obra nos guia. Num espaço de um ano, visitei Tativille pelo menos duas vezes, infelizmente num pequeno ecrã, nunca conseguindo totalmente absorver todos os seus pormenores. É um universo imenso que perde força na limitação da “tela”, cada vez mais pequenos, e como peixe fora de água, suplica pelo seu habitat natural – a Sala de Cinema!

Que crítico és tu?

Hugo Gomes, 28.12.20

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O papel do crítico é levar as pessoas ao cinema”.

Não! Não é.

A relevância, ou não, do crítico evidencia-se na sua capacidade de se fazer pensar sobre os filmes e com isso desvendando a sua relação com o Mundo. Obviamente que não existe definição concreta nem pragmática sobre o que é um crítico de cinema, e nem vamos por aqui discutir a cerne desses mesmos propósitos. Mas eis que entra a minha crença: na disposição deste, digamos, “pensador” perante o seu filme, o seu Cinema, a sua Arte, entra um gesto egoísta, ou até mais, umbiguista, associando a experiência “pessoal” com a sua, derradeira (nem tanto), perspetiva.

Num ano onde o Cinema comemora os seus 125 anos, falar de críticos e de críticas de cinema é uma postura inglória, desviante e aparentemente burlesca para com esses sonhos de grande tela. O que refiro é, que em tempos onde o Cinema é posicionado na corda bamba, a crítica atira-se para as suas respetivas trincheiras, por um lado, salvar a sala incentivando o público, por outro, incentivar a reflexão cinematográfica, mas ambos unem esforços para preservar a cinefilia (porém, não há equações infalíveis).

De que lado deverão estar?

Fenómenos ... da repetição

Hugo Gomes, 16.12.20

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A maneira como ele se repete é absurda”. Não sou eu que o afirmo, quem proclama é umas das personagens, numa espécie de desdém à “popularidade” de um autor, neste “The Woman who Ran” (“A Mulher que Foge”, inexplicável vencedor de um Prémio de Melhor Realização no último Festival de Berlim). Aproprio-me das suas palavras e as posiciono de frente a esta 24ª longa-metragem do sul-coreano e “falso-marginal” Hong Sang-soo, de forma a não empregar sentimentos muitos profundos do meu “ser”. Começo a desconfiar deste “fenómeno”, há aqui um radicalismo que já não se aguenta.

Das páginas ao ecrã, evidenciando cinema pela caneta de John Le Carré

Hugo Gomes, 14.12.20

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John Le Carré (1931 - 2020)

O célebre escritor, possivelmente o grande responsável pela redefinição do policial do século XX, encontrou no cinema, não a sua derradeira imortalização, mas um cúmplice para os seus "crimes". A imaginação de Carré aliou-se às imagens e nesse bando geraram filmes ... e muitos deles, que filmes! O autor deixou-nos ... maldito 2020 que não termina de jeito nenhum ... mas as suas histórias, essas, persistem nos diferentes formatos.

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The Tailor of Panama (John Boorman, 2001)

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Tinker Tailor Soldier Spy (Tomas Alfredson, 2011)

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The Spy Who Came in From the Cold (Martin Ritt, 1965)

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The Constant Gardener (Fernando Meirelles, 2005)

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The Deadly Affair (Sidney Lumet, 1967)

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A Most Wanted Man (Anton Corbijn, 2014)

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The Russian House (Fred Schepisi, 1990)

Em 2020 as estações desvanecem rápido ... um adeus a Kim Ki-Duk

Hugo Gomes, 11.12.20

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Morreu um dos grandes impulsionadores do cinema sul-coreano no início do novo século, pelo menos o que a História ocidental nos conta. De Kim Ki-Duk guardo sentimentos, memórias e sobretudo imagens, desde o meu primeiro contacto, algo febril, com "The Isle" ("Seoma") - o anzol que me perseguiu até hoje - passando pelos incontornáveis e poeticamente belos "Spring, Summer, Fall, Winter... and Spring" e "3-Iron". O homem pode ter sucumbido, mas a obra, essa, mantém-se com a promessa de criar novos cinéfilos.
 
Hoje desapareceu um dos grandes!
 

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Spring, Summer, Fall, Winter... and Spring (2003)

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3-Iron (2004)

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The Isle (2000)

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Pieta (2012)

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Wild Animals (1997)

Mais que nunca o Dia do Cinema deve ser “celebrado”!

Hugo Gomes, 05.11.20

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Voyage to the Moon (Georges Méliès, 1902)

Este ano, para muitos, atípico, para outros o início de uma nova fase da civilização moderna, poderão levar o cinema para caminhos de torturante subsistência, enquanto translada para o conforto das nossas casas assimilando cada vez à vontade do freguês e não como a resposta aos nossos dias. Não faço aqui juízos de valores sobre o que é cinema ou o que não é cinema, ou o velho sermão de que o Cinema só deve ser visto em sala como uma experiência partilhável, o que refiro é que chegamos a um momento crucial em que a Sétima Arte precisa de nós, para a iluminarmos e manter viva as suas memórias. É História preservada em pelicula, são ideias, gestos, paixões e arte. É como alguém disse e muito bem, perdendo-se na corrente das citações anonimizadas - Cinema é Vida!

O Cinema (ainda) não morreu, nem que o Godard tussa.

Ser ou não ser Sean Connery

Hugo Gomes, 31.10.20

Hoje morreu um dos meus heróis de ação, uma das grandes estrelas de cinema da minha contemporaneidade. Tinha 90 anos, eu sei, idade o qual já se perdoa a morte, mas não deixa ser uma perda das minhas, mais que percurso cinéfilo, memórias de infância. Sean Connery era uma lenda viva, um sinal de persistência no seu modo de interpretação, recusando alterar o seu sotaque escocês ferrenho e fugindo da indústria dececionado com o rumo desta. Grato pela tua existência, Sir.

 

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Apesar do fato ridículo, Zardoz (John Boorman, 1974) tornou-se um delicioso filme de culto

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O fracasso de The League of Extraordinary Gentlemen (Stephen Norrington, 2003) foi a gota de água que motivou o seu "divórcio" para com a indústria

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The Untouchables (Brian De Palma, 1987) o levou ao seu primeiro e único Óscar.

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O bélico The Hill (1965), foi uma das suas colaborações com o cineasta Sidney Lumet.

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Uma pausa durante as filmagens de Highlander (Russell Mulcahy, 1986).

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Um dos seus filmes mais populares nos anos 90, The Hunt for Red October (John McTiernan, 1990)

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Ao lado de Michael Caine na adaptação de Rudyard Kipling, The Man Who Would be King (John Huston, 1975)

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Durante as rodagens de Marnie (Alfred Hitchcock, 1964)

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Foi o primeiro 007 no cinema! Interpretou James Bond em 6 filmes e um tributo intitulado de Never Say Never Again (Irvin Kershner, 1983)

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A outra colaboração com o cineasta Sidney Lumet - The Offence (1973)

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Em Finding Forrester (Gus Van Sant, 2000) conseguiu uma das suas interpretações mais elogiadas

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Ao lado de um jovem Christian Slater no The Name of the Rose (Jean-Jacques Annaud, 1986), uma adaptação (ou será mais interpretação) do livro de Umberto Eco

 

 

O Desejo mata, destrói e corrompe-nos ...

Hugo Gomes, 11.10.20

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Neste novo “choque” com A Idade de Ouro de Luis Buñuel apercebi - possivelmente influenciado pela sonoridade da banda Black Bombaim e eletrónica de Luís Fernandes num cine-concerto na Casa de Artes de Famalicão (âmbito do Close-Up: Observatório de Cinema) - que o coração deste devaneio surrealista, dirão alguns, é o Desejo.

 

Mas antes de condensar tudo numa palavra cada vez mais comum e alicerçada aos mais diferentes campos, saliento que este desejo é particular … é um desejo que nos faz salivar pela destruição das ‘coisas’ ao nosso redor que dão origem à nossa índole. O pretexto de um amor platónico, magnético e insaciável de dois amantes que antes disso chafurdavam na lama onde quatro entidades papais (possivelmente a equivalência somada dos quatro cavaleiros do Apocalipse) permaneciam no seu descanso eterno. Aí, perante a violência a seres animalescos, nasceria uma “civilização” sobre o signo apaziguador dessa natureza apelativa ao fim de tudo alguma vez criado - ao armagedão.

 

O reencontro dos “apaixonados” complementa-se com um inevitável senso de mutilação, suicídio e autodestruição quer do corpo carnal, quer do espírito. A Idade de Ouro resgata o desejo dos confins infernais o qual a Religião o aprisiona, para depois servir de olhar inquisidor a essas mesmas “morais” doutrinadas. Porém, o desejo, novamente ele, emancipado torna-se num vetor de pulsão e impulsão, a entropia em todo este universo sem o seu devido nexo. E a partir do Desejo que nasce essas novas … religiosidades e as sua respetivas pregações.

Porque acreditar na nossa mera existência ... é pouco!

Hugo Gomes, 25.09.20

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“No que vamos acreditar, se Deus não existir?”
“Sei lá eu, talvez na nossa existência?

O pombo descolou do seu ramo, migrou com promessas de uma primavera vizinha, deixando para trás a Humanidade debatendo sozinha com a sua mortalidade com tamanho absurdismo. Entre perdas de fé à tristeza embaraçosa ou somente a cobiça pelas conquistas dos outros que envergonham as nossas vivências, um “bando” (assumindo a semântica ornitóloga) de infelizes, e zombificados, condenados à tumba, que durante as ditas “férias da morte” promovem os seus problemas de primeiro “mundinho”.

Setes anos depois do seu consagrado filme – “A Pigeon Sat on a Branch Reflecting on Existence” – o sueco Roy Andersson traz até nós mais uma colheita de episódios de um humor mórbido, seco e tão familiar para com as nossas “diferentes” peles. Depois da pandemia e as ameaças de uma segunda vaga, este conjunto de quadro-vivos chamado “About Endlessness” resultou numa boa interação com o nosso bovarismo crónico.

Como odiar Antebellum?

Hugo Gomes, 23.09.20

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É possível odiar “Antebellum” sem seguir-se por ideologias políticas de ultra-direitas (para disfarçar o extremismo patético)? Obviamente que sim, até porque todo o filme joga com a abjeção de consciência perante as sequências de “horror” e pelo oportunismo da temática e consequentemente tecer um dispositivo quase demagógico. Porém, é nesse sentido que “Antebellum” consegue inverter a tendência e ser um objeto frágil mas confiante nos seus emotivos gestos (defendo a sua quebradiça postura de importunação). Agora, se odiamos o filme dentro dos quadrantes políticos, bem, isso entramos num território ético do qual não existe discussão possível.