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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

O indomável Maverick e aquilo que chamamos nostalgia

Hugo Gomes, 25.05.22

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Poderia aqui falar das sequências de ação, tomadas pelo gosto do risco, da fisicalidade, e do menor uso possível do CGI. Poderia referir o espéctaculo em sala, a exaltação dos costumes circenses ditados pela Hollywood, e sempre a Hollywood. Poderia citar o jogo de cintura executado por Tom Cruise, desafiando, para além da morte, o tempo, e com isso mantendo a ilusão do “star system" em épocas de famas efêmeras ou de estrelas “virtuais” e “conceptuais”. Poderia … mas mencionar só um momento deste “Top Gun: Maverick” é o equivalente da abordagem a todas estas temáticas. 

O que sabemos é que passaram 36 anos desde o sucesso do primeiro “Top Gun” - com a assinatura de Tony Scott e com uma estrela em ascensão de nome Cruise - e que o nosso protagonista, ainda detendo o seu talento volátil, contraria as ordens do seu superior hierárquico (Ed Harris novamente como o sisudo de eleição) em de não pilotar. Um ato de rebeldia que por pouco lhe custaria a sua reputação e carreira, mas que não evitou de lhe ser dirigido o sermão, realçando a extinção da sua "espécie" em um projetável futuro de máquinas dirigidas por máquinas e de pilotos encostados às boxes. Isto, logo antes de nos ser introduzido o macguffin da trama, mera irrelevância (até mesmo o filme aponta num inimigo sem pátria nem cultura, um não-lugar para se lançar em joguetes de stunts e sobressaindo o espírito do antecessor, aquele ambiente académico-militar), mas que reforça uma ideia de resistência, não somente de um modus operandis, como de um cinema deslocado das tendências atuais ou da imperatividade do streaming. 

Tom Cruise relatou em entrevistas várias, a recusa deste projeto estrear numa plataforma, conduzindo-a para um evento de sala, cuja capacidade de prevalecer depende da disposição dos espectadores em não aceitar o predestinado trilho da indústria hollywoodesca. O produtor Jerry Bruckheimer e o realizador Joseph Kosinski (de outras ressurreições como “Tron Legacy”, mas sublinhamos “Oblivion” como casa de partida para esta estância) também alinharam. “Top Gun: Maverick” não inventa a roda, apenas nos oferece um bilhete de ida e volta a um outro período, contudo, é no fascínio do mesmo e sempre com a motivação de Cruise e o seu cúmplice das últimas baladas [Christopher McQuarrie] para estender acima do mero exercício de revisitação, digamos, tal como a personagem, de superação. 

 

Highway to the Danger Zone

I'll take you right into the Danger Zone

 

Aprendizes à força

Hugo Gomes, 21.05.22

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A Clockwork Orange (Stanley Kubrick, 1971)
 
"Serge Daney referiu uma vez que, no dia em que tiver de forçar os alunos a verem um filme que lhes é oferecido, o melhor será deixar de ensinar cinema por completo. E acho que tinha razão. Não se pode forçar ninguém o que quer que seja se não existir o desejo de o aprender." Alain Bergala em conversa com Alejandro Bachmann.
 
Citação sobre outra citação que resume e traduz sobre cinema, cinefilia e a ideologia envolta desta que referi no passado mês de março [ler aqui].

Tarifa 3 para Nova Iorque ...

Hugo Gomes, 28.04.22

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A partir de hoje, é possível seguir à boleia “No Táxi do Jack”, um taxista à beira do retiro de Alhandra que relembra as áureas memórias do seu passado em Nova Iorque para as projetar em contraponto com o seu presente. O filme de Susana Nobre ("Tempo Comum") estreou nos cinemas portugueses após uma passagem na secção Fórum do Festival de Berlim [2021] e no Indielisboa do ano passado. 

Como tal recupero a minha entrevista à realizadora para o portal Sapo e uma crítica concebida para o site Cinema 7ª Arte.

"Acho que ouvir e observar são duas ferramentas ou qualidades muito importantes para fazer cinema. E talvez tenha tentado justapor nos meus planos essa experiência, recolocando o espectador nesse lugar de ouvinte e observador, como se estivesse ali com aquelas pessoas na mesma sala. No “Tempo Comum” procurei fazer isso até um certo limite, e noutros filmes também. Acredito que a ação de um filme pode ser dada pela palavra. Acho que o centro deste filme é a palavra pela voz do Joaquim. Grande parte dos textos são dele, alguns escritos por mim mas a partir das nossas conversas. E depois, um ou outro tirado ao José Rodrigues Miguéis, mas podia ter sido o Joaquim a dizê-los também." Ler entrevista completa aqui

"Diversas vezes, Jack faz uso das comparações rocambolescas entre a cidade que o acolheu enquanto emigrante e a cidade que o “abraçou” enquanto repatriado, dessa conexão nasce um filme que mantêm um pé no passado e outro no angustiante presente, manejando o tempo como um só veio, o que resulta em flashbacks diluídos na ação, com os seus quê de voluntária artificialidade e na recusa da representação exata (há uma convergência para com o recente filme de Spike Lee – “Da 5 Bloods: Irmãos de Armas” – ambos renegando esse truque de rejuvenescimento cinematográfico). Por outras palavras, o nosso Jack mantêm-se intacto na deriva das suas memórias e na espera do seu digno fim." Ler crítica completa aqui. 

 

Por uma chapada apenas ...

Hugo Gomes, 25.04.22

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I'm for the Hipopotamus / Io sto con gli ippopotami (Italo Zingarelli, 1979)

Que fácil seria se tudo resolvesse por via de uma mera chapada. Não de luva branca mas de dedos calejados. Uma chapada apenas, que não deixasse marcas, o remédio de todos os santos perante os malfeitores, seja eles bandidos, larápios ou de colarinho branco, megalomaníacos dignos de uma enésima missão de Bond, delinquentes arruaceiros ou até mesmo caçadores furtivos de ecossistemas selvagens. Todo esse rol cedido a uma palma em colisão, produzindo um efeito proustiano aos tempos dos severos castigos atribuídos pelos progenitores. Tão simples, “dolor”, porém simples. Mas no “mundo real” (entre aspas para cairmos em absolutismos em definições exatas e incontestáveis), o processo triunfal estes males, grande ou pequenos, deve-se mais a um efeito de construir uma impenetrável  “parede”, uma defesa enriquecida para que o nosso “agressor” não trespasse. 

Contente pela vitória de Macron, um “mal menor” acima de uma eventual ameaça pela democracia liberal e do dito projeto europeu, sem falar das artimanhas, muitas delas inconstitucionais (como fez relembrar o atual e reeleito Presidente francês no anterior debate, com cerca de três horas, com a sua adversária) e fora do campo ético e humanista. Assim se ganha, como igualmente se perde, 42 % nunca poderá ser um bom presságio, as velhas políticas parecem não encontrar mais lugar nesta atualidade, o radicalismo viabiliza-se como o caminho mais direto à emocionalidade dos seus eleitores. 

Contudo, fantasio o quão rápido que seria neste mundo se tudo fosse resolvido por via da bofetada, infelizmente, foi com esse clímax que o cinema da minha infância “ensinou”, tendo como professores a dupla “clownescaBud Spencer e Terence Hill. Os, deliciosamente, maus exemplos, fazendo-me crer da simplicidade que seria uma resolução com cinco dedos, ao invés disso, acordei para a pluralidade, racionalidade e a tentativa de compreensão de um ato que seja para o motivo que cada um persiste. Nada é simples e nada é fácil por estas bandas, e nem mesmo o Cinema se quer fácil para retratar o nosso mundo.

 

Nós Viemos do nada para o nada

Hugo Gomes, 21.04.22

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Nós Viemos / Nous Sommes Venus (José Vieira, 2021)

Texto escrito a propósito da sessão especial 6.doc (entre 21 e 27 de Abril, no Cinema Ideal).

Se existe uma razão válida (e nada saudosista) para invocar o passado, está no seu uso como diálogo ao presente e “Nós Viemos", a mais recente obra de José Vieira (“A Fotografia Rasgada”), documentarista português radicado na França, é um exemplo dessa “jigajoga” temporal e cautelosamente posicionada. Uma aposta arriscada digamos, essa, de contrariar as inúmeras vertentes populistas e delinear uma convergência experiencial entre os emigrantes portugueses dos anos 60 - muitos deles forçados a exilar para a França, deixando para trás um Portugal cada vez fechado, lançando-se à incerteza do território “estrangeiro” - para com os fluxos migratórios contemporâneos, principalmente provenientes da África e do Médio Oriente, pessoas vistas com “maus olhos” pelas fasquias mais conservadoras.  

“Escavando” e integrando imagens de arquivo (se uma imagem vale mil palavras, eis a prova irrefutável à chamada “Fantasia Lusitana” do Estado Novo) e recolhendo relatos, ao jeito do seu modus operandis (sabendo que o mote da sua carreira encontra-se na sua experiência pessoal, também ele emigrante), Vieira montou uma história coletiva, atada nas suas pontas por uma sinceridade e humildade para com essas memórias e com essas “vidas” (a dignidade que muita delas ostentaram durante os seus períodos de desumanização). Nesse diálogo para com o passado, o documentarista intervém, ou, sem seguir pela via pejorativa do termo, “invade” tais confidências com a atualidade e com os “novos invasores”, através das histórias que desmistificam o mito do sucesso lusitano em terras francesas (a relembrar o seu polémico “Weekend en Tosmanie”, em 1985, cuja “realidade” era negada), encontramos o ponto-comum para com as vivências contemporâneas.  

Refugiados, a condição hoje envergada em “embrulhos nefastos”, instrumentalizados pelo extremismo político, foi em tempos anexado à massa migratória portuguesa, ou seja, só quem viveu nessa pele pode por fim entender o que está em jogo. José Vieira traz com “Nós Viemos”, um exercício de empatia através do identificável. É o que realmente falta, não apenas aos dias de hoje, como também ao nosso olhar distante para com a História.  

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Jamaika (José Sarmento Matos, 2021)

E falando nessa empatia em causas sociais, “Jamaika”, filme de estreia do fotógrafo José Sarmento Matos (a fotografia mantém-se na coluna vertebral deste projeto), recorre a essa aproximação através do "vislumbre" arquitetónico do infame Bairro da Jamaica, no Seixal. Contextualizando os tempos de pandemia, onde o confinamento tornou-se na lei, somos remetidos àquelas pessoas "condenadas" às condições dos seus meios. Um bairro que em “praça pública” é de difícil emanação empática, caindo nas “armadilhas” da dita instrumentalização política. “Jamaika” não esconde a sua intenção de conscientização, mas as suas ferramentas não se ficam pelo uso pornográfico do miserabilismo, e sim da mostra miserabilista para indiciar no mais simples e direto para esta época altamente visual - as imagens acima do seu valor estético, como  também de valor sentimental.

"Pai, se possível, afasta de mim este cálice"

Hugo Gomes, 19.04.22

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Neste preciso momento não consigo abordar “Il Vangelo Secondo Matteo" (1964) sem começar por o referir, em modo de provocação, como “carta de trunfo” a um (outro) filme que me impôs um nó na minha garganta, nos últimos dias. 

Numa semana em que uma tríptica produção de Joaquim Pinto e Nuno Leonel chegava às salas (ou sala, para ser mais preciso), o célebre filme de Pier Paolo Pasolini era reposto no circuito de projeção. Se por um lado, a dupla portuguesa expunha um cristianismo inabalado, martirológico, e com isso, sem releitura para além das interpretações milenares das escrituras, pregadas e pregadas até se estabelecerem em senso comum, na pedra basilar do nosso mundo ocidental (e anglo-saxónico). Esse medo da morte, e dependência do nosso destino (como da nossa Humanidade) nas "mãos" de um ente divino, embatem no “Cavalo de Tróia” construído por Pasolini, uma adaptação fiel ao evangelho mais que decorado, e por sua vez uma reinterpretação aos escritos, ressaltando a veia marxista e ativista de Jesus Cristo, aqui interpretado pelo estudante espanhol Enrique Irazoqui (que na altura estudava Economia em Itália), liderando um elenco de não-atores. 

O anterior poeta, crítico, e até então, realizador celebrado, premiado e constantemente sublinhando a sua veia provocatória (anteriormente havia realizado a curta “La Ricotta”, irando as comunidades religiosas com um desconstrução aos simbolismos cristãos), pretendia um ensaio contrastado com as grandes produções, aliás, apropriações hollywoodescas dos Evangelhos, nesse aspecto, arquiteta uma aproximação ao neorrealismo italiano, filmando uma obra na sua naturalidade; paisagens naturais, pessoas genuínas (a realçar a própria mãe como Maria em alturas de crucificação) e artifícios engenhosos e criativos de recriação dos milagres em tons artesanais.  

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Il Vangelo Secondo Matteo" responde ao apelo que as muitas obras de cariz religioso não fazem, e como Pasolini assumiu-se ateu, mas culturalmente católico, mais impressionante se torna a sua viragem e tratamento nesta “maior história de todos os tempos” (entre aspas como menção a um ambicioso projeto norte-americano que estreava no ano seguinte), fruto do seu fascínio pelo Verbo, ou a poesia escondida (ocultada pelo obscurantismo religioso que prevaleceu) no Evangelho. Novamente frisando, é na sua fidelidade, citando copiosamente a obra-base, que o realizador encontra e enfatiza o tom emprazado nas escrituras. Cristo, não representado aqui como um somente e “mero” Messias, é uma figura politizada que prega a religião das religiões na sua crua forma, ostentando punhos fechados contra burguesias e defendendo o proletariado com tamanha fé e sabedoria, e raramente sem resposta á sua altura. 

Marxista, acusado por muitos, e mais fundamentalizado tendo Karl Marx como um dos ídolos de Pasolini, “Il Vangelo Secondo Mateo” funcionaria na perfeição como uma obra desse campo, algo propagandístico (segundo as más línguas do outro lado da barricada), resgatando o lado franciscano e igualmente preservando a misticidade sem a utilização gráfica implicada à conjugação do misticismo. É num verdadeiro “faz-de-conta”, em paisagens áridas da Calábria (mimetizando a Palestina), com o apoio de planos gerais, conjuntivos, “abraçando” multidões e escadarias em encostas íngremes como se uma pintura babilónica de Pieter Bruegel se tratasse, composição por vezes desafiada por grandes planos dos seus atores, nomeadamente a de Jesus, de olhos fixos e determinados, numa inexpressividade contrariada à grandiloquência musical integrada por Bach, Mozart e cânticos religiosos.  

É um filme atípico, certamente, e o é num sagrado sacrilégio (mesmo que incompreendido pelo seu acompanhamento, erradamente tido passivo, da matéria-prima), tendo reavido o amor, sentimento contrariado pela Igreja ao longo dos tempos, deturpando os ensinamentos do Nazareno em prol da sua sobrevivência institucional. É este tipo de tratamento, acima do mero lisonjeamento, que separa a “religiosidade” existencial de Pasolini com a religiosidade epifânica de Pinto e Leonel. Pasolini não se fixa, interpreta e constrói a sua realidade (“o cinema ao natural”, como dissera uma vez), e nesse seu quadro nasce um dos retratos mais emblemáticos - do Nascimento à Ressurreição - de Cristo no Cinema.  

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PS: sobre a postura algo rebelde de Jesus na obra de Pasolini, é bom recordar (ou descobrir) o polémico “As Horas de Maria” de António Macedo (1977), que se alimenta dos ecos desse tratamento, porém, elevando o seu tom provocatório ao nível de uma denúncia herética. Mas no fundo, é um dos filmes mais impressionantes e acidamente fracturantes da nossa filmografia.   

O grito que desce da Terra

Hugo Gomes, 16.04.22

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É nos seus imundos aposentos, isolado e possivelmente inconsolado, que Deus comete o seu suicídio, esquartejando-se, arrancando pedaço a pedaço da sua carne, aquilo que todo o Homem cobiça como Santo Graal é matéria desperdiçada, aliás descartada como uma mera inutilidade até se esvaziar em sangue. Uma maldição de quem tomou a Criação como garantida e que se despede desse mundo habitado por mortais, não com dignidade, mas com a maior das sujidades.  

A morte de um Deus tem algo de simbólico, e quiçá Nietzschiano, uma realidade sem autoridades divinas que nos possa comandar … porventura, será desta forma que os humanos serão livres, ficando somente com as suas convicções? Porém, é no seu “corpo”, defunto que reparte e gera a sua companheira - “Mãe Terra” - que aproveita os despojos mortais do seu criador para fecundar nova vida, quem sabe uma nova entidade que os sub-endeusados possam venerar. Dessa gestação difícil surge-nos o rebento defeituoso a quem chamaremos “Filho da Terra”, um ente deficiente cuja respiração soa-nos suplício, pedido agonizante para que a sua vida seja retirada, o merecedor descanso, o fim daquela aflição a quem chamam de “viver”. Grotescamente, é a Humanidade a o fazer, a cometer o golpe misericordioso, destruindo, despedaçando, até não restar nada desta Terra, desta Religião, destes intérpretes.  

Contrariando as vozes que me avisaram com antecedência - “não procures interpretação em 'Begotten''' - procurei lê-lo à luz do crepúsculo vindo da ala do projecionista. E como qualquer escritura, ou religiosidade que sobrevive nestes milénios, é a nossa interpretação que orienta como a sua “lanterna”, dela nasce as nossas vontades, aliás, a nossa condição para com este Mundo. Em “Begotten”, obra experimental, que em seu jeito, ou melhor, desajeitado, evidencia-nos uma experiência no limite da sua loucura infernal. Segundo consta, foi em 1989, vindo da Escola de Cinema de Nova Iorque, que o na altura jovem de 26 anos, Edmund E. Mehige, estreava com este ensaio underground orquestrado por um grupo de teatro amador [TheatreofMaterial], o que sairia daqui fascinou nomes de respeito como o crítico Scott MacDonald ou a filósofa e ensaísta Susan Sontag, a sua maior defensora, cujo ávido acompanhamento levou o realizador a responder com uma seguinte homenagem (“Din of Celestial Birds”, 2006).  

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De Mehige, sinceramente, nada de notável brotou na sua carreira (o seu título mais vistoso, "The Shadow of the Vampire”, releitura da rodagem de “Nosferatu”, de Murnau, gozou de temporária bênção), mas é com “Begotten”, o de aventurar nele com prévios avisos de uma perturbadora experiência em sala, um filme que gesticula uma aberrante forma de viver. Até mesmo a sua "apresentação" naquela tela, possui algo de perturbador e de não-natural, um achado arqueológico “desenterrado” por mero acidente, cujo contacto com o presente o desintegra a olhos vistos. O som minimalista de Evan Albam, mimetizando o respirar ofegante e arrastado da “criatura” abatida, no qual revemos como o espelho da nossa ignorante crueldade, que de “mão dada” com a sua imagem deteriorada (voluntariamente dando a sensação de objeto reavivado) paira como uma atmosfera que só graças à nossa mórbida curiosidade nos faz penetrar na sua bizarra tortura.  

Homens contra entidades sobrehumana, ou o natural vencido pela incompreensão dos Homens? O que é certo, que por detrás da sensorial “trip”, inclassificável produto das mais deturpadas imaginações, esconde uma declaração de guerra, não aos Deuses, mas ao nosso rumo enquanto Humanidade dividida, refugiada no obscurantismo dos nossos atos. Sim, como qualquer “filho” do criacionismo (ora Eva e o fruto proibido, ora Pandora e a caixa das desgraças, ora Prometheus e o fogo ensinado aos Homens) desafiei os avisos e atribui um significado a essa performance do grotesco. Atrocidades encenadas, como no Inferno, como no Paraíso, como na Terra. 

Pathos Ethos Logos: o Cinema Português quis uma Capela Sistina ...

Hugo Gomes, 12.04.22

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Pode-se viver com o absurdo no coração, mas mais tarde ou mais cedo o coração deixa de viver.

Após as quase 11 horas de duração, isolei-me e refleti sobre o propósito a ter em conta na existência de um filme. Na minha mente recorri às etiquetas básicas alicerçadas a esse “sentido”; narrativa, estética, mensagem ou simplesmente experimentalidade, apontei num bloco como pistas para decifrar este enigma que acabei de testemunhar. Desta forma, codifiquei esta trilogia megalómana, idealizada desde 2014, com a palavra-chave residida numa categoria ausente da minha inicial lista - sensibilidade - fazendo ecoar numa das minhas citações prediletas de Jacques Rancière (“O cinema é a arte do sensível”). 

“Pathos”, “Ethos” e “Logos”, da dupla Joaquim Pinto e Nuno Leonel, ostenta-se como um ensaio dessa mesma sensibilidade (nem que seja a sensibilidade para a sua economia de tempo), porém, é uma sensibilidade hermética, apenas focado numa só, na deles, não havendo intenção de partilhá-la com o espectador, pavoneando esse espaço de criação e remontagem como recompensa nesta viagem pelas respetivas “flores da pele”. Futuro distópico pós-apocalíptico com os seus ares tarkovskianos alternativos, é bem verdade que a sucessão de imagens e de ditos e feitos aqui reunidos seja sinal da liberdade criativa e artística dada aos seus autores, apesar dos obstáculos que ambos trespassaram para o conceber, mas até que ponto essa liberdade não descortinou também um ego centrado e magnetizado? Ego foi “sintoma” que Pinto não escondeu no anterior “E Agora? Lembra-me” (vencedor do Prémio Especial de Júri do Festival de Locarno), a sua luta, aliás resistência, à Hepatite C, motivo que bastou para construir um filme pessoal em jeito diarista que o próprio é incapaz de responder se tal registo integrar algures o campo da “ficção” ou o território do “real”. 

Não se espera, porém, igual entusiasmo nesta nova demanda (espiritual, religiosa, ou lá o que seja), a meta das 11 horas são desafiantes (e chegam mesmo a ser repulsivos) nos seus estratégicos pontos de comercialização, distribuição, exibição e de publicitação. Nesta última, espera-se, previsivelmente, que a crítica tenha um papel de “vender”, dialogando diretamente com as suas “massas”, lubrificando a trilogia como uma “next big thing” do nosso panorama, visto que o filme é um quebra-cabeças para qualquer sala de cinema o programar (e uma passagem em sessão especial em Locarno fez com que saísse da Suíça sem um prémio que pudesse vangloriar como “atrativo” de marketing).

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Deste lado preferi seguir o caminho da reflexão para o que acabei de ver, as imagens-sacra e religiosas em embate com o documental farsolas respirando através de uma estética de polarização. Por detrás dos protótipos a que chamamos enredos (três mulheres de diferentes gerações e de diferentes períodos, assim como manda a premissa divulgada, um “manual de instruções” que Truffaut referiu ser crucial para tantos filmes “inteligentes”, as aspas são herdadas da fonte original), que preenchem um retrato absoluto de epifanias, esconde um apoio dependente à sua beatificação, uma religiosidade saturada que amarra as “asas” a esta obra, projetada como “criatura de pensamento”. 

No fundo, “Pathos”, “Ethos” e “Logos” (a terceira parte roça ocasionalmente um amadorismo liceal ao nível de projetos-escolas, mas que tais caracterizações são tabus perante o carinho com que Pinto tem neste círculo de “amigos”) procura a dimensão humana, recitando a Bíblia e outras doutrinas teológicas, culpando o nosso Apocalipse pelo desfasamento para com a entidade divina (Manoel de Oliveira havia tentado tal "tese" no final rompante do seu incalculável "Acto da Primavera", em 1973). Em outras andanças, isto seria selado com a designação de “faith based”, com o intuito de converter os não-convertidos, mas em Portugal é confundido com intelectualização, filme fundamentalista sem fundamento (em pleno século XXI esperávamos maior senso crítico à Igreja e as suas bases deste mesmo nicho) que nos castiga como uma clara alusão ao estatuto de mártir, pedra basilar do Cristianismo. 

Vindo de responsáveis por maravilhas do nosso Cinema como “Uma Pedra no Bolso” (1988), um dos “coming-to-age” por excelência do nosso património, e hoje reavivado por debates atuais “Rabo de Peixe” (2015), esta trilogia serve como um teste de tempo, guiando-nos de maneira alguma, por outra propriedade sem ser o ego dos seus autores. Mencionando uma das frases de “E Agora? Lembra-me” - “o Cinema não é democracia, é tropa, com sargentos e generais" – (re)aproveito para salientar a por vezes necessidade de um “sargento” nessa peregrinação espiritual. Falta de um produtor que diga “ora bem, corta aqui, ali e … não mexe mais”.

Serão Danado ... e há fotos que o comprovem!

Hugo Gomes, 10.04.22

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“Sou eu e a puta da shotgun”

Lembro como se tivesse sido ontem … Foi na projeção de imprensa de “Verão Danado”, na sede do ICA, pronto para ver uma prometida “primeira longa-metragem”, "saidinha do forno” para se “enfiar” em Locarno. Benzi-me inicialmente mesmo não sendo religioso, possivelmente tratei daquele ato como um ato de superstição (ou de preconceito), e como previsto (julgava eu), as imagens começaram a rolar … ou em modo de trocadilho manhoso - “rural”. “Mais um relato de fascínio pela nossa ‘portugalidade’”, revirei os olhos após os primeiros minutos, contudo, e como havia insinuado, “lembro como se tivesse sido ontem”, esse momento, esse filme e esse realizador [ler crítica e entrevista no site C7nema].

Francisco (Pedro Marujo) pode muito bem ser um jovem do interior, mas é em Lisboa, essa cidade-perdição (não se via tal desde “O Sangue” de Pedro Costa), que a sua viagem começa, e como grande parte delas, o trajeto revela-se mais entusiasmante do que a sua derradeira paragem. Já nos seus vinte, o protagonista mal-amparado, de precariedade mas desinteressado na estabilidade, vive o dia como fosse noite e a noite como fosse dia. Ou seja, o que parecia mais um nos relatos abundantes, converteu-se num retrato de uma juventude alimentada pelas últimas luzes da sua “imortalidade” e, mesmo assim, à deriva do seu limbo criado e socialmente gerado. Pedro Cabeleira, o realizador do qual “tivesse sido ontem”, nos enganou bem. Felizmente nos enganou!  

Com “By Flávio" (a sua nova curta-metragem, que estreou no Festival de Berlim), o engodo também acontece, desta feita na forma da atriz Ana Vilaça, aqui Márcia, uma jovem mãe solteira cujas suas decisões parecem remeter-nos a um caminho predestinado, de extrações moralistas ou reflexivo conforme seria a previsão de uma geração refém das redes sociais e das suas ditaduras estéticas. Contudo, retém-se a segunda - ditaduras estéticas - para sermos embalados num filme estetizado sobre a estética que desejamos definir para nós próprios. Por outras palavras, e apoiando-se no primeiro momento da curta, onde aquela foto destinada ao Instagram é cuidadosamente seleccionada, mas sem nunca descartar dos seus devidos retoques (requisitadas manipulações), centra-se na imagem de como nos vemos e como desejamos que os outros nos vejam. A rede social, esse idealizado avatar, converteu-se na nossa identidade priorizada, cuja nossa existência deve-se ser manuseada e comprovada com fotografias ou “pegadas tecnológicas”. 

By Flávio" é em pouco de meia-hora de peripécias um caderno de rascunhos passageiros sem nunca instalar-se, e por um lado, funcionando na “mouche” em nunca persistir nem perseguir os temas (Cabelereira é tudo menos realizador de “filmes-de-tema” e mais autor de "filmes com vida", talvez sangue na guelra seja a palavra adequada). Foi o que aconteceu com “Verão Danado”, os tópicos estão lá para consumo rápido, mas não de jeito efémero, ao invés disso, nómada. O engano, feliz golpe, é já a sua marca. Danado do rapaz!