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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Estará Shyamalan fora de tempo?

Hugo Gomes, 26.07.21

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M. Night Shyamalan perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem e a resposta alcançada é esta série B que não assume totalmente a sua natureza absurdista. Inspirado na BD “Sandcastle” [Pierre-Oscar Lévy e Frederick Peeters], “Old” é uma construção arenosa que se apoia na incoerência e nos pesadelos comuns e coletivos como uma suposta metáfora visual. Contudo, o vento e as marés derrubam castelos e outros edifícios moldados pela areia humedecida (há mão de produtor aqui, assim acreditamos), porque se senão fosse isso a invocação se manteria até ao fim. Não podemos negar que é um filme à lá Shyamalan … sem dúvida! Agora se era o idealizado, bem, isso é outra história e em outro tempo.

Eu sou titânico!

Hugo Gomes, 14.07.21

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"Titane" de Julia Ducournau: filha bastarda de "Crash", um body horror cronenbergueano incómodo, estilístico e bruto. Não será certamente amado por quem ainda acredita no cinema de género como universo conformista e fechado, mas promete repensar-nos na teoria de "male gaze" com alguma ambiguidade.

Bem bom que seria ...

Hugo Gomes, 08.07.21

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“A televisão pode ser a cores, mas quem opina, ainda opina a preto-e-branco"

A realizadora Patrícia Sequeira tem-se disponibilizado como uma porta-voz de cinema feminino nas nossas instâncias nacionais, tendo como particularidade uma direção propícia para o chamado e por vezes cobiçado grande público. Começou nestas andanças com o cerco estabilizado de "Jogo de Damas" ("fechando" quatro mulheres numa remota habitação, todas elas motivadas por conflitos pendentes), passando para "Snu", biografia de uma personalidade tangente da nossa política e por fim, encontrando na cinebiografia de uma das primeiras girl bands europeias - As Doces - como uma desconstrução à indústria musical, especialmente na criação de estrelas femininas, com "farpas" lançadas ao conservadorismo imperativo em Portugal nos anos 80. 

O olhar faz-se pela própria limitação, gerada pela insuficiente reconstituição histórica, condicionando o filme a voos curtos e a uma certa miopia formal. Contudo, é nestes espaços, ou melhor, a falta deles, que Patrícia Sequeira cria uma antítese à objetificação da mulher na ala do entretenimento, recorrendo às mesmas direções desse olhar para tecer tais críticas ferozes. Mas mesmo assim, as palavras solicitam a sua dimensão e é então que deparamos com um terceiro ato completamente desprovido de subtileza e guiado por ativismos de campanha, com isso transportando o filme para objetivos primários, deixando nos bastidores a sugestão bem-sucedida até então fomentada. 

Que pena, "Bem Bom", durante as suas primeiras performances, demonstra ritmo para dar e vender, e ousadia temática para sair da mera esquematização cinematográfica de que as ditas biopics musicais estabeleceram, só que a conformidade assumiu o seu controlo, aliás a sua rebeldia reformou para ceder ao exemplo “correcto”. Por sua vez, o quarteto é um primor (Bárbara Branco, Lia Carvalho, Carolina Carvalho e Ana Maria Ferreira), ostenta dinamismo e química, e é com elas que o tempo é partilhado com maior agrado.

Uma Víuva (nada) Alegre!

Hugo Gomes, 30.06.21

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Num momento em que os fãs estão enviuvados da personagem Natasha Romanoff (Scarlett Johansson), que tal mal tratada foi durante este longo franchise, ‘cai-nos’ uma aventura-a-solo meio caricatural (russos e mais os associados estereótipos pregados em Hollywood) meio negra (aliás o mais sombrio desta indústria disnesca) da tardia emancipação desta “action woman”. “Black Widow” entrega-nos aquilo que nos foi prometido e ainda deposita-nos alguma esperança quanto à linha de montagem criada pela Marvel Studios. Não vos vou mentir, possivelmente é dos melhores capítulos deste universo partilhado, o mais independente quanto à forçada continuidade, o mais solido no seu enredo e acima de tudo, a mais concebida heroína deste mesmo universo. Depois há a versátil Florence Pugh e o seu sarcasmo semi-adolescente e aquilo que considero, automaticamente, das melhores ‘coisas’ que vi nesta marvelesca saga (que já dura 13 anos) … um arrepiante e energético genérico ao som de Smell Like Teen Spirit …. Obrigado Cate Shortland!

O Movimento das Coisas: requisição a Caronte para um Paraíso Perdido

Hugo Gomes, 23.06.21

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Na mitologia grega, mais tarde metamorfoseada no imaginário de Dante Alighieri, Caronte oferecia boleia às almas perdidas na sua barca, para que estas atravessassem o rio Estige ao encontro do círculo do Inferno que mais condizia. Em oposição, somos em “O Movimento das Coisas” levados, em travessia pelo Rio Lima, a um território mais térreo ainda povoado por mortais. A neblina adensa-se nas suas beiras, não augurando regressos sebastianos, e sim, vindas do mundo do amanhã, desta forma vendido, com promessas de progresso e prosperidade, nunca instalando, e sim substituindo o quotidiano anterior.

O Movimento das Coisas”, a única realização de Manuela Serra, anteriormente tida como assistente de Rui Simões no “Bom Povo Português” (1981), chegou ao nosso circuito comercial após uma ausência de 36 anos, nesse período, acumulado prémios e menções em festivais, preencheu o imaginário de muitos cinéfilos e futuros cineastas portugueses, alimentando um fascínio deste mesmo cinema pela nossa ruralidade. O que levou Serra a abandonar o meio e romper radicalmente com o cinema na sua vida é ainda discutível, as entrevistas que tem dado à imprensa apontam desde “forças políticas” até a um “mundo imperativamente governado por homens”, passado pelo simples “desinteresse”. Por qual tenha sido o motivo, este foi definitivamente o filme que Portugal, obscuramente, nunca esqueceu, e os seus aficionados falam por si.

Antes de “O Movimento das Coisas”, o meio rural já mantinha ligação com o nosso cinema, encontrando marco estratégico nas aventuras de António Reis e Margarida Cordeiro pelos Trás-os-Montes (o filme data o ano 1976) (e porque não a raridade hoje preservada por Manoel de Oliveira em o “Acto da Primavera” em 1963, e por aí adiante, exemplos são muitos). Mas o que Manuela Serra realmente captou na aldeia de Lanheses (perto de Viana do Castelo) foi a urgência de filmar e registar um quotidiano ameaçado pelo avanço da indústria furtiva (nesta cópia restaurada tal é realçado através da inserção de um novo plano final, o ponto final necessário para a transmissão da sua mensagem). O que conseguiu (passados quase quatro décadas e sob um novo olhar confirma-se tal) foi o efeito de “cápsula do tempo”, uma montra de trabalhos de campo, desfolhadas festivas, dedicações religiosa e os seus ditos rituais centenários, e a modéstia de quem tudo faz / fez para manter estes temas vivos (pelo menos durante o seu prazo de validade), nomeadamente as mulheres, forças hercúleas no dia-a-dia.

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Porém, não posso deixar de notar a capacidade de Serra em conjugar esse prisma num riquíssimo e dialogado esforço de montagem, em cumplicidade com uma planificação pormenorizada, digo isto, tendo em conta o legado criado por estas ‘Coisas’, hoje abundante em inúmeros festivais portugueses, onde nota-se sobretudo uma condescendência, não apenas para com os habitantes dos povoados escolhidos, mas para com o material e a forma como este se manifestará em filme. São poucos os que ainda preservam essa veia cinematográfica na ruralidade, ao invés de ceder ao facilitismo formal, diversas vezes elogiado por elites de pensamento crítico cinematográfico. E é por isto, e não só, que “O Movimento das Coisas” é um filme crucial na nossa História, um modelo ora acidentado, ora poetizado sem bucolismos latentes.

Afirmo sem receio de apedrejamentos, que duvido, até à data, que haja mais belo filme sobre o campo que este filho único de Serra. Tão único como a porcelana pintada à mão do qual a anciã consome a sua “sopa tinta improvisada”.

 

Em anexo, a minha entrevista com a realizadora aqui.

F9: com velocidade e fúria, Hollywood não deixa os seus êxitos para trás

Hugo Gomes, 16.06.21

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Justin Lin, o homem que salvou o franchise e que nele transformou um êxito global (afastando-o do nicho do tunning), está de volta ao volante num nono filme que compete pela imaginação e do ridículo dos capítulos anteriores. Neste mundo, intitulado de “Velocidade Furiosa”, a morte é ‘coisa’ que ultrapassa, a família é escadaria divina e os mais ‘broncos’ são todos, sem exceção, convertidos a superespiões, em busca do enésimo macguffin cataclástico. É fórmula vencedora, sem dúvida, mas esta altura da “corrida” até os mais fiéis sentem-se presos à pista circular. Nada avança, curvas e contracurvas são que nos realmente espera, para que no final - à sua boa maneira - celebrar os feitos de 2h25 com um churrasco, Coronas frescas e a beatice que nos valha (são os banquetes de Asterix replicados na lente da Hollywood egocêntrica e sem meios para os gastos). É um filme de Cannes, por isso deixa ser, mas é também o memorando de que o espetáculo à lá Hollywood não morrerá tão facilmente.

PS: se é para persistir na Charlize Theron como a repetente vilã, não me importo de assinar o certificado de aprovação.

Wrath of Man: a vingança requer paciência ... e estimulo

Hugo Gomes, 14.05.21

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Jason Statham, action man como bem conhecemos revisita o velho “bastard” Guy Ritchie, supostamente amadurecido, resultando num típico filme de vingança de proporções desejosamente bíblicos. Estilizado e virtuoso tecnicamente, eis o conto de violência citadina, continuamente rude e másculo, que se disfarça de mero ensaio de ação para ambicionar os “céus”. Pena, que por dentro dessa sua modesta proposta exista uma intenção de confundir o espectador, e inconsequentemente, tornando-se quase condescendente para com este. Fora isso, é capaz de ser a melhor ‘coisa’ que Ritchie tocou em valentes anos.   

Godzilla vs . Kong: O lamento do espétaculo em sala

Hugo Gomes, 07.05.21

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Quando a Pandemia ameaçou as salas de cinema, espalhando o pânico e o medo de regressar à sua devida “normalidade” (rituais quotidianos era substituídos por outros), a grande indústria – Hollywood – depositava crença em Christopher Nolan, o seu São Sebastião, para demover os espectadores a “migrar” para o seu habitat natural. O filme – “Tenet” – não era o herói que necessitávamos, nem o que acabaríamos eventualmente por pedir, arrecadando mais de 300 milhões em todo o mundo, uma quantia insuficiente tendo em conta os custos da sua produção.

Esta receção levou com que outros estúdios adiassem, ainda mais, as suas apostas milionárias e noutros casos, como a Disney, “espetassem” as suas antecipadas produções nas plataformas de streaming. Perante a “má figura” feita por “Tenet”, a Warner Bros tomou uma decisão pecaminosa de estrear os seus blockbusters num modelo simultâneo, em sala e streaming [HBO Max], um pacote que incluiria as chamativas adaptações da DC, a nova autoria de Clint Eastwood [“Cry Macho”] e um combate colossal em CGI intitulado de “Godzilla Vs. Kong”.

Ironicamente seria a “macacada total” do “rematch” de 1963 (“King Kong vs. Godzilla”, de Ishirô Honda e Tom Montgomery) a colocar alguma esperança no retorno das salas de projeção, somando até à data mais de 415 milhões dólares em todo o Mundo (incluindo um valor agradável em território chinês o que por si só deixou executivos de Hollywood felizes). Se é certo que o trabalho de tarefeiro de Adam Wingard (realizador o qual tecíamos alguma atenção desde os seus bem esgalhados ensaios de género - “You’re Next” e “The Guest”) oferece-nos somente aquilo que nos havia prometido – o mundo como ringue de boxe para duas criaturas tecnológicas – é de temer que seja objetos primários como estes a reconquistar o público na sua retoma aos cinemas em resiliência.

Será que o cinema-espetáculo está confinado à anorexia CGI, onde um símio gigantesco detém mais Humanidade do que as suas passageiras personagens humanas e de um guião, que apesar de ter sido escrito por mais que dois argumentistas, é de uma infantilidade atroz? Para muitos, a resposta concentra-se na somente definição de “blockbuster”, o divertimento para massas que em certa parte toma a crítica como refém (há que cativar a indústria ao invés de refletir sobre as mudanças de “consumo” do qual estamos a testemunhar). Mas essas desculpas baratas e padronizadas não são suficientes.

Se em época de streamings e as suas respetivas produções em massa, o espectador caseiro tem-se tornado cada vez mais exigente e paliativo, porquê em grande tela restringirmos ao efeito visual, ao pirotécnico e à linguagem básica que envergonha qualquer guionista? “Godzilla vs. Kong” pode ser um sucesso improvável em momentos necessários, mas nós merecemos mais e melhor.

Celebramos a Vida como o Cinema e celebramos o Cinema como a Vida …

Hugo Gomes, 16.04.21

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Eis a maior das ironias, surgir entre nós um filme como “Druk” (“Another Round”), um fantasma da nossa boémia abandonada por um bem maior por entre constantes vai-e-vens de confinamentos e desconfinamentos. Ah, que tempos! Eramos tão felizes e nem sequer sabíamos! Contudo, Vinterberg traz-nos a dita celebração com todos os seus cinzentismos, é como a tal vibrante melodia de Scarlet Pleasure que toca como entrave dos créditos finais - “Que vida, que noite, que bela, bela viagem”. Rimos, choramos, bebemos, comemos e sobretudo vivemos, não haveria filme melhor para encantar o nosso suposto regresso à “normalidade”.

A Liga pela Justiça de Zack Snyder

Hugo Gomes, 17.03.21

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Quatro horas prezando os termos e condições de muitas séries e minisséries em abundância nessas plataformas de streaming, “Zack Snyder’s Justice League” poderá ser o mesmo filme que aquela estreia de 2017 (a nível argumentativo e narrativo), porém, é um objeto à imagem do seu criador. E se isso vale alguma coisa na industrialização frenética desta Hollywood tecnológica. Contudo, não há premonição de quem até à data rejeitou o estilo, o aceite (desta vez) de braços abertos, mas não há que negar que exista aqui espírito e carinho por estas personagens (até mesmo o embaraçoso vilão da versão cinematográfica recebeu um upgrade de personalidade), paciência no enredo (não refiro apenas à duração, e sim à sua postura ocasionalmente contemplativa) e um gesto autoral sempre presente em todo este percurso. Por vezes, sentimos o peso da ruminação da trama (nomeadamente o epilogo criado) … meros caprichos … porque este “Justice League” é sobretudo a dominância da estética … uma estética bem familiar.