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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Quem tem medo de Sério Fernandes?

Hugo Gomes, 12.01.21

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Nunca é ocultado o facto do realizador Rui Garrido ter sido, em tempos, aluno do tão atípico professor José Eugénio Sério Fernandes, docente da ESAP - Escola Superior Artística do Porto. Grato e ainda umbilicalmente agarrado a essa experiência, a sua primeira longa-metragem tem como objetivo assentar numa “passagem de testemunho”, onde o filme, creditado como tal, é tomado pelas forças algo espirituais de Fernandes.

A obra faz serventia dessa subtil, mas dominante, conquista, nunca desviando o documentário do “objeto-estudo”, e em certa forma, tendo como principal função com que a sua memória não caia no esquecimento (apoiando-se na velha máxima do cinema enquanto arquivo e de imagens anamnésticas para futuros incertos). E o “artefacto em exposição” não se resume à figura em si, ela é vista como uma terminada cinefilia ainda pregável nos cantos e recantos deste país, apenas sobrevivendo por entre as experiências angariadas pelos seus alunos e pelos nichos (muito) mais fechados.

Ora bem, O Mestre da Escola do Porto tem algo a seu favor o qual Garrido bem conhece e aproveita, o fascinante Sério Fernandes, desde a sua humanidade até ao discurso fervorosamente apaixonado, nunca vergando a sua aura de velha guarda cinéfila conduzida numa característica militância sobre a definição de Cinema a ser apregoado para posteridades. Tendo uma carreira longínqua onde se destaca as suas peças publicitárias [o qual fundou a Bei Film] e a longa-metragem de experiências sob experiências – O Chico Fininho (1982) – Sério Fernandes é um ser alienado e igualmente fiel ao seu próprio devaneio, narrando com tamanho ecstasy o seu papel na “instituição” denominada Cinema Português e ostentando um carinho inclassificável pelos seus animais (a sua ligação com os seus “patudos” são de uma sensibilidade transbordante).

O filme convida o espectador a conhecê-lo num registo do “eu”, deixando que Fernandes o domine praticamente, assim como toda esta jornada, Garrido passa para segundo plano na tentativa de acompanhar as indicações do seu mestre (como por exemplo, a rigidez com que a costumeira gaivota deve integrar na metragem). No fundo é uma Odisseia, emprestado título ao seu homónimo, megalómano e excêntrico projeto (cujas metade das bobines foram atiradas ao mar e que se previa que a outra porção fosse enterrada no Metro do Invicta, nunca chegando a acontecer) que facilmente extrai risos trocistas da nossa parte para que no final possamos redimir à sua abstrata “loucura”. Para Sério Fernandes, aquele determinado plano estático ou gesto de autoridade no autoral acarreta “toda a História do Cinema” (falta-nos mais esses tons quixotescos de quem olha para a imagem resumindo nela todo um universo cinematográfico).

E é isso, aquilo que estava previsto ser palco para o “cromo 101 da coleção de 100” transforma-se numa congratulação de aluno para o seu mestre. A condescendência ficou à porta, o amor pela arte entrou com convicção na preservação do último dos cinematograficamente românticos.  

O Cinema é ar puro do meio rural!

Hugo Gomes, 04.01.21

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Em 2019, em conversa sobre o seu filme sensorial e sensação – “Aquarela” – o cineasta russo Viktor Kosakovskiy abordou, sob algum suspense, o seu próximo projeto. Falou-nos de uma obra que prometia ao espectador a impossibilidade de desviar o olhar. Um apogeu de cinema, sem música, climax, personagens, apenas porcos, galinhas, vacas e uma quinta harmoniosa.
 
Esse filme chegou a nós no último Festival de Berlim, e tem como título – Gunda - um ensaio que poderíamos equiparar a um Bela Tarr animalesco, onde, genuinamente, demonstra-nos o Cinema na sua forma mais pura, e como nós, perante todos os adereços trazidos pelas indústrias, vanguardas ou parâmetros hoje confundidos como linhas-guias cinematográficas, esquecemos dessa mesma elegância. Contra tudo e contra todos, Gunda é Cinema, meio primitivo na sua conceção o que não impede de ser rico e sincero. Talvez seja isso que realmente falta ao Cinema de hoje em dia – a sinceridade e o seu concreto minimalismo!
 
Torcemos para que Gunda tenha presença nas nossas salas em 2021. Merece e merece muito mais.

Quando o cinzentismo de Garrel trava a sua criatividade

Hugo Gomes, 23.12.20

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A este ponto, até eu [exausto] repito-me … de Philippe Garrel, nada de verdadeiramente (re)vitalizante parece vir dele desde o momento em que o seu coração assombrou-se pela sua espectral autobiografia (“Coração Fantasmas”, 1996).

A partir disto, o sonambulismo o domou, condenando-o, como Prometeu, a ser desventrado uma e outras vezes até ao fim da sua existência. Canso-me de argumentar perante um cineasta, igualmente … isso … cansado, deveras fatigado no seu recurso formal como também discursivo. Para um homem que lutou e que jurou lutar pela dignidade do proletariado (ou assim discursava) não arreda pé do seu próprio estatuto de privilegiado (o cognome autoral que o mesmo exibe para lhe dar a devida impunidade crítica). Não com isto afirmando, deter o absolutismo da palavra, e sim confessando a minha angustia pelas variadas colagens a frio entre prosas com a frieza das imagens naturalistas nestes últimos Garrel(s). É como se procurássemos as respostas do mundo na sua filmografia.

“O Sal das Lágrimas” (“Le Sel des Larmes”) é possivelmente o seu trabalho menos objetivo, à deriva nos diferentes sentimentos e geografias que o próprio realizador nos habituara nestes seus tempos adormecidos. A fotografia de Renato Berta (novamente) presta-se a pintar esta Paris salgada, melancolizada e monótona … mas já vimos estas cores, já “saboreamos” estes tons, é puramente redundante a esta altura do campeonato tecer elogios para aquilo que não é mais criativo, apenas transpassado.

Todavia, deixemos a coloração de lado, o filme avança com uma paragem de autocarro, uma rua e dois passeios separados por uma via de alcatrão, onde em cada uma das “margens” encontram-se dois desconhecidos que cruzam acidentalmente os seus olhares. Daqui, nasce, aquela que continua a ser a melhor de todas as histórias, “a boy meet a girl” (“um rapaz conhece uma rapariga”). A timidez destes futuros amantes rapidamente concedem a linha narrativa principal (segundo muitos admiradores da obra), esta seria a história a acompanhar (novamente apoiando-se nessa perspetiva). Mas estamos numa história garreleana, há traição nestes sentimentos e cobardia enquanto forças motoras.

O nosso protagonista, Luc (Logann Antuofermo), regressa à sua “terra natal”, nos conselhos e conforto que o seu velho e carpinteiro pai guarda e, bondosamente, entrega em cada necessidade. Nasce a cumplicidade aos olhos do espectador, nem que seja pelo carisma resiliente de André Wilms (uma das faces do muito cinema de Aki Kaurismäki). Garrel procura encontrar naquela figura a sua entidade paternal, os seus afetos perdidos e apenas permanecidos na sua memória, mas esta autognose o atinge, ele já não é mais filho do pai (o que poderia exercer o papel oposto nos seus filmes), e a importância disto é que o filme continua direcionado no tratamento da juventude, aliás a sua visão romântica daquilo que pensa ser a juventude “do agora”.

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O autor não acompanha estas andanças à modernidade, confunde a sua posição libertária com um moralismo castrador, ora, por exemplo, o trio amoroso (ou como dizem os franceses e muito bem … ménage à trois). Este é o teor dos seus últimos filmes, entregar-nos de bandeja um certo hedonismo ou refresco para no final pregar o seu sermão, agarrando à figura paternal, nunca ela devidamente presente, para servir de justificação dos seus atos.

A “miúda” da paragem (Oulaya Amamra), aquela lufada de ar fresco no cinema bafiento do cineasta é um oásis esquecido na gaveta para depois ser “resgatado” no reencontro mais patético entre ex-amantes, mas o que importa não é a natureza desta relação de mãos dadas aos diálogos redundantes e primários (só de imaginar que foram veteranos que escreveram aquele “engate de café”, lido e obtido na fixação racial, dá-nos um aperto), o relevante, para Garrel, é o seu uso para satisfazer a ideia de perdição, ora pecaminosa, do nosso protagonista.

Não querendo aproveitar o mais célebre diálogo de Wilms, mas já que estamos aqui – “Em questão de mobília, já tudo foi inventado” – passemos para “Em questão de Cinema, já tudo foi inventado”. Ou seja, pedir a Garrel a invenção da roda ou reinvenção do Cinema é uma impossibilidade, contudo, não é o solicitado. Para o nosso cineasta de velha guarda é pedido a reinvenção do seu cinema ao invés de se pregar pela cantiga do arco-da-velha – “o mesmo filme e sempre o mesmo filme”. Os convertidos à sua mimica continuarão a ser súbitos, não venho com isto alterar o curso dessa existência, é somente cinema confortável e cinema confortável todos têm (eu inclusive, mea culpa).

A grande questão no Garrel contemporâneo e sobretudo este filme em particular, é a relação deste com o exterior, e não refiro só o papel da crítica ou cinefilia, mas sim a do próprio realizador perante o mundo que o rodeia. Por instantes recordo a sua proclamação de feminismo para a imprensa para acompanhar o seu anterior “A Sombra das Mulheres” (“L'ombre des Femmes” [ler texto]), deslocado para aquilo que o filme realmente refletia. Ou seja, tal como qualquer “velhote”, Garrel é desbocado, fala sobre tudo e sobre nada, só que o seu recente cinema e é demasiado fechado, em constante observação do seu interior ao invés daquilo que realmente se insere.

Parou no tempo, mas ao contrário dele, o tempo prossegue vertiginosamente para a próxima mudança. Aliás, basta ver 2020, esse ano mais que atípico. 

Confissões de uma mente espacial em desejo de prémios

Hugo Gomes, 09.12.20

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Não há estrelas no céu que iluminam o caminho de George Clooney nesta sua nova incursão na realização. Um vazio de ideias o qual forçadamente tenta comparar-se com “Gravity” de Cuarón ou “The Revenant” de Iñarritu (palavras do próprio), esquecendo-se que por vezes os propósitos estéticos ou exercícios de género motivam filmes e não apenas gestos de pura mimetização. “The Midnight Sky” é um pastelão lamechas que faz usos dos mais vários requintes tecnológicos de uma Hollywood / Netflix a pensar em prémios com a maior das confianças. Mais um para se perder na vastidão do espaço.

No Zodíaco dos Génios

Hugo Gomes, 30.11.20

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Herman J. Mankiewicz ou Orson Welles? Não vamos para aqui discutir quem é o verdadeiro génio por detrás de Citizen Kane, mas um facto é certo, os 79 anos a separar esta incursão de David Fincher com a obra-prima cinematográfica dão espaço para a desconstrução de uma Hollywood em peso, e para isso há que se servir dos mais comuns elementos do academismo atual. Eis o trabalho mais profundamente desinspirado de um realizador positivamente arruaceiro no formalismo hollywodesco, mais concentrado em dissecar a genialidade do que propriamente entendê-la e com isso, leva aos trambolhões a sua dita Hollywood. É “bem feito” dirão muitos … só que não chega.

Born in the USA

Hugo Gomes, 24.11.20

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“Nomadland” ilude-nos à partida, é um retrato da América (essa frase cliché). Mas a questão é saber qual América? Através de uma Frances McDormand despida de qualquer manto ficcional percorremos o profundo do país dos “Pais Fundadores”, escutando relatos de desespero ou de propostas alternativas à escravatura capitalista e observando paisagens inóspitas, outras por vezes abandonadas, em busca de um lugar a quem se possa chamar Lar, esse Império (=Empire) transformado em não-lugar. Esta América, esta mesmo, que caminhamos sem eira nem beira, por trabalhos temporários, na subsistência e dependência da solidariedade dos outros, é a América de Obama. Revelando aqui, subversivamente, o que antecedeu ao triunfo de Trump em 2016. O que fez seguir até o radicalismo. Só que soluções nem vê-las, nem mesmo tal pode acontecer, até por que a postura nómada da personagem de McDormand é uma liberdade insuflada, uma ilusão vendida para crentes.

Listen: Há filmes que simplesmente precisam ser ouvidos com atenção

Hugo Gomes, 08.10.20

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Um filme-denúncia dissecado por Ken Loach e todos esses cantos e recantos do cinema social. “Listen”, que erradamente tem servido de arma instrumental para guerras antigas, é um objeto curioso das suas próprias desgraças, num desencanto abalável que contrai momentos de pura emoção (muitos deles sustentados pela melhor das melhores Lúcias Moniz). É simples, digamos, sem espinhas, mas apoiado por uma coluna vertebral frágil e mesmo assim seguro da sua força. Curioso para ver esta visão à inglesa aplicada mais vezes no nosso cinema, nem que seja o seu caráter ativista e sem rodeios, sem floreados e à sua vontade, cru. Há qualquer ‘coisa’ em Ana Rocha.

Porque acreditar na nossa mera existência ... é pouco!

Hugo Gomes, 25.09.20

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“No que vamos acreditar, se Deus não existir?”
“Sei lá eu, talvez na nossa existência?

O pombo descolou do seu ramo, migrou com promessas de uma primavera vizinha, deixando para trás a Humanidade debatendo sozinha com a sua mortalidade com tamanho absurdismo. Entre perdas de fé à tristeza embaraçosa ou somente a cobiça pelas conquistas dos outros que envergonham as nossas vivências, um “bando” (assumindo a semântica ornitóloga) de infelizes, e zombificados, condenados à tumba, que durante as ditas “férias da morte” promovem os seus problemas de primeiro “mundinho”.

Setes anos depois do seu consagrado filme – “A Pigeon Sat on a Branch Reflecting on Existence” – o sueco Roy Andersson traz até nós mais uma colheita de episódios de um humor mórbido, seco e tão familiar para com as nossas “diferentes” peles. Depois da pandemia e as ameaças de uma segunda vaga, este conjunto de quadro-vivos chamado “About Endlessness” resultou numa boa interação com o nosso bovarismo crónico.

Como odiar Antebellum?

Hugo Gomes, 23.09.20

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É possível odiar “Antebellum” sem seguir-se por ideologias políticas de ultra-direitas (para disfarçar o extremismo patético)? Obviamente que sim, até porque todo o filme joga com a abjeção de consciência perante as sequências de “horror” e pelo oportunismo da temática e consequentemente tecer um dispositivo quase demagógico. Porém, é nesse sentido que “Antebellum” consegue inverter a tendência e ser um objeto frágil mas confiante nos seus emotivos gestos (defendo a sua quebradiça postura de importunação). Agora, se odiamos o filme dentro dos quadrantes políticos, bem, isso entramos num território ético do qual não existe discussão possível.

Été 85: o verão de um "condenado" amoroso

Hugo Gomes, 11.09.20

MV5BOTM4ZTg5ZjItNzdhNy00M2E1LThkOTUtODAyMzdiZjJjMjFalou-se aqui de um “Call Me By Your Name” francês, sendo que a única coisa que tem de comum (para além do óbvio romance homossexual) é o saudosismo para com a época descrita, transformando músicas pirosas em marcos da nossa emotividade e paixonetas estivais por amores shakespearianos com a sua pitada de macabro. É um (pequeno) grande passo de Ozon após o certinho e igualmente deslavado “Grâce à Dieu”, evidenciando aqui um jeito algo tosco em salivar por velhos temas existenciais e eternos gestos autorais. É um filme com a sua personalidade, mesmo que por vezes seja levado pelas ondas ("como uma onda no mar", já dizia o 'outro')