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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Listen: Há filmes que simplesmente precisam ser ouvidos com atenção

Hugo Gomes, 08.10.20

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Um filme-denúncia dissecado por Ken Loach e todos esses cantos e recantos do cinema social. “Listen”, que erradamente tem servido de arma instrumental para guerras antigas, é um objeto curioso das suas próprias desgraças, num desencanto abalável que contrai momentos de pura emoção (muitos deles sustentados pela melhor das melhores Lúcias Moniz). É simples, digamos, sem espinhas, mas apoiado por uma coluna vertebral frágil e mesmo assim seguro da sua força. Curioso para ver esta visão à inglesa aplicada mais vezes no nosso cinema, nem que seja o seu caráter ativista e sem rodeios, sem floreados e à sua vontade, cru. Há qualquer ‘coisa’ em Ana Rocha.

Porque acreditar na nossa mera existência ... é pouco!

Hugo Gomes, 25.09.20

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“No que vamos acreditar, se Deus não existir?”
“Sei lá eu, talvez na nossa existência?

O pombo descolou do seu ramo, migrou com promessas de uma primavera vizinha, deixando para trás a Humanidade debatendo sozinha com a sua mortalidade com tamanho absurdismo. Entre perdas de fé à tristeza embaraçosa ou somente a cobiça pelas conquistas dos outros que envergonham as nossas vivências, um “bando” (assumindo a semântica ornitóloga) de infelizes, e zombificados, condenados à tumba, que durante as ditas “férias da morte” promovem os seus problemas de primeiro “mundinho”.

Setes anos depois do seu consagrado filme – “A Pigeon Sat on a Branch Reflecting on Existence” – o sueco Roy Andersson traz até nós mais uma colheita de episódios de um humor mórbido, seco e tão familiar para com as nossas “diferentes” peles. Depois da pandemia e as ameaças de uma segunda vaga, este conjunto de quadro-vivos chamado “About Endlessness” resultou numa boa interação com o nosso bovarismo crónico.

Como odiar Antebellum?

Hugo Gomes, 23.09.20

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É possível odiar “Antebellum” sem seguir-se por ideologias políticas de ultra-direitas (para disfarçar o extremismo patético)? Obviamente que sim, até porque todo o filme joga com a abjeção de consciência perante as sequências de “horror” e pelo oportunismo da temática e consequentemente tecer um dispositivo quase demagógico. Porém, é nesse sentido que “Antebellum” consegue inverter a tendência e ser um objeto frágil mas confiante nos seus emotivos gestos (defendo a sua quebradiça postura de importunação). Agora, se odiamos o filme dentro dos quadrantes políticos, bem, isso entramos num território ético do qual não existe discussão possível.

Été 85: o verão de um "condenado" amoroso

Hugo Gomes, 11.09.20

MV5BOTM4ZTg5ZjItNzdhNy00M2E1LThkOTUtODAyMzdiZjJjMjFalou-se aqui de um “Call Me By Your Name” francês, sendo que a única coisa que tem de comum (para além do óbvio romance homossexual) é o saudosismo para com a época descrita, transformando músicas pirosas em marcos da nossa emotividade e paixonetas estivais por amores shakespearianos com a sua pitada de macabro. É um (pequeno) grande passo de Ozon após o certinho e igualmente deslavado “Grâce à Dieu”, evidenciando aqui um jeito algo tosco em salivar por velhos temas existenciais e eternos gestos autorais. É um filme com a sua personalidade, mesmo que por vezes seja levado pelas ondas ("como uma onda no mar", já dizia o 'outro')

O meu nome não é Ninguém! É Patrick!

Hugo Gomes, 23.07.20

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Depois da presença na secção competitiva da passada edição do Festival de San Sebastián, chega aos nossos cinemas a esperada longa-metragem inaugural de Gonçalo Waddington por detrás das câmaras - "Patrick". A história de um homónimo jovem (Hugo Fernandes) que é detido pela polícia parisiense, o qual descobrem tratar-se de uma criança portuguesa desaparecida há vários anos. O retorno é tudo menos pacífico, sendo Patrick atormentado pelas identidades e pelas memórias passadas. Que vida escolher?

"Gonçalo Waddington (que zelosamente foi um dos argumentistas de “Mosquito”, que também desconstrói campos sagrados da identidade portuguesa) avança desde o primeiro momento sorrateiramente à sua intriga, valendo num travelling ondulante, inicialmente rasteiro, que contorna o corpo de Patrick, estabelecendo o inaugural e cuidadoso contacto com o invólucro de carne e osso onde decorrerá a dita psicanálise. Como “comparsas” do “crime”, o ator, agora convertido a autor por inteiro, confia na fotografia do cada vez mais ascendente Vasco Viana (“Um Fim do Mundo”, “Montanha”) para criar um contraste visível entre a Paris luxuriosa e pecaminosa, e sobretudo moderna e “aberta”, para com a ruralidade portuguesa, sombria e “fechada” à mercê do seu constante receio às dúvidas existencialistas que serão impostas." Crítica no Cinema 7ª Arte.

"No seu todo, "Patrick" funciona como uma prolongada tese sobre maternidade e identidade, mas é também a afirmação de um possível autor que parece querer trazer ao nosso cinema um tom provocatório que estava a precisar." Crítica no Mag.Sapo.

"Depois de alguns anos, aconteceu o caso do Rui Pedro, do qual muitos filmes foram feitos a partir desse tema ou semelhante, como foi o caso de “Alice” [filme de Marco Martins, em 2005], em que participei e expunha o ponto de vista dos pais da criança desaparecida. Nessa altura já questionava o que poderia pensar o outro lado, o da criança. Que processos físicos e psicológicos esta passaria numa situação de sequestro/rapto? Mais do que isso, quais as consequências se tal estado fosse prolongado?" Entrevista com o realizador, argumentista e ator, Gonçalo Waddington, no Mag.Sapo.

"Pelo que me lembro, não existe nenhum filme do nosso panorama com esta abordagem. Por isso, acho que estamos bem encaminhados com a assinatura do Gonçalo. É sensível, claro que sim, mas é um tipo de filme que vale a pena vê-lo para o poder discutir. “Patrick” é rico em termos de discussões, argumentações e trocas de ideias. E gosto disso no cinema. Desafia-nos." Entrevista com a atriz Alba Baptista, no Mag.Sapo.

Três Realizadoras Portuguesas: o desconfinamento português faz-se no feminino

Hugo Gomes, 13.07.20

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Cães que Ladram aos Pássaros

 

Após uns sensíveis três meses de distância das salas de cinema, esta reaproximação, chamaremos assim, serviu como oportunidade para um lançamento corrente de muitas das obras portuguesas agendadas e outras, um tanto, “engavetadas”. São provas de desconfinamento, diriam muitos, uma das novas palavras de ordem ao nosso vocabulário quotidiano, uma servitude exercida pelo espectador de forma reaprender o seu lugar enquanto … isso mesmo ... espectador, ao mesmo tempo que se dedica a “memorizar” novos hábitos, provavelmente inseridos numa renovada e conquistadora normalidade.

 

Uma dessas estreias portuguesas, possivelmente das menos improváveis a comportar-se como chamariz desesperado fruto das distribuidoras e exibidoras às suas salas, é esta coligação de três curtas que auto-definem uma geração. Se o mundo pede mudanças e sobretudo vinda de divergentes vozes para alimentar as propostas audiovisuais, esta, intitulada aposta de Três Realizadoras Portuguesas, é além do mais um trabalho de curadoria, o da seleção e reunião de um trio de cineastas emergentes com vias de conquistar o páreo. E esta, digamos, cooperação igualitária, tem como intuito fazê-las [essas vozes] ouvir neste panorama atual de cinema restaurado, estrategicamente como uma só, e apontá-las neste confinamento como guias para essa fase reiniciada.

 

Das três, o nome mais expectável, visto já andarmos de olho nela, é o de Leonor Teles, realizadora que venceria o Urso de Ouro de Curtas de Berlim com A Balada de um Batráquio (2015), filme-ensaio misto de “prank” que refletia num preconceito entranhado na nossa sociedade, focando na relação tóxica entre os sapos de loiça e a comunidade cigana. Teles viria a conhecer o outro formato, o da longa, com Terra Franca (2018), em que acompanha e esquematizava um ano - quatro estações - na vida de Albertino Lobo, habitante de um comunidade piscatória nas margens do Tejo, e um resistente ao tempo e a austeridade insertada pela consistente falta de investimento no sector e as “politiquices” que a geraram.

 

Mas aqui, em Cães que Ladram aos Pássaros, a realizadora não aborda desconfinamentos, mas indicia-se também em readaptações, neste caso a de uma família portuense que defronta o fenómeno de gentrificação, onde as metrópoles “empurram” os seus habitantes mais economicamente desfavorecidos, para fora dos seus centros, explorando estes “vórtices” para fins turísticos ou em nome do progresso paisagístico. Sob uma fotografia “granulada” assinada pela própria autora, o pequeno filme segue os seus “condenados” em um misto de festa e tormento perante a situação que se instalam. Uma resistência silenciosa, algo desleixada quanto ao destino que se avizinha mas sob um olhar otimista no seio daquele caos iminente. Leonor Teles bebe daqui a realidade para o contorcer em prol de uma ficção à sua imagem, onde entramos na intimidade destes peões, sentindo a sua autenticidade como simultaneamente a sua exposta manipulação ao serviço (sempre) da narrativa.

 

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Dia de Festa

 

Porém, burla minha, comecei a narrar a viagem através da sua meta! Possivelmente o meu lapso temporal deriva do facto de já compreendemos Leonor Teles como uma consolidada cineasta, enquanto que as outras duas do “bunch” detém uma tarefa maior em ofuscar ou igualar um nome já por si atrativo pelos mais atentos cinéfilos. Felizmente para Mariana Gaivão e Sofia Bost, o desafio é superado com o melhor dos aproveitamentos, e a mais entusiasta faceta autoral que nos faz salivar pelo futuro garantida destas, até então, “maçaricas” de vanguarda.

 

Assim embarcamos no último nome e primeiro da sessão -Dia de Festa, de Bost (formada na London Film School) - o qual ostenta uma articulação para com o dito “storytelling”, este por vezes ignorado no panorama português. Nesta história, enxugada por um, sentimento constante de defraudação, o dispositivo-narrativo é uma comemoração que ressoa os alarmes da festividade, assumindo-se como vestes da insegurança vivida por uma progenitora sem “formação” para tal. Como diz a certa altura, uma das personagens, argumentando que se informou teoricamente num documentário qualquer, existem espalhadas na sociedade mães isentas de instintos maternais e, opostamente, contraídas por sentimentos de repugna para com os seus próprios rebentos (uma espécie de ódio irracional, o bode expiatório perfeito para a insatisfação existencial). Pois claro, Dia de Festa é um filme sobre amor maternal sem o amor maternal, é a laboração de um estatuto estabelecido imposto pela sociedade e não pela natureza. Sofia Bost compõe o membro mais inteligível desta trindade, mas não menosprezemos as acessibilidades neste campo, a curta é pragmática no seu diálogo para com o espectador, assim como a vida por vezes, e a destacar a subtileza de Rita Martins, atriz que traja a farsa das festa improvisada, a herdeira do legado sem afetividade e na confiança dos estranhos passageiros. É uma das confirmações deste tratado narrativo que faria furor em metragens de maior duração, mas por enquanto fiquemos com “aperitivo” … e que bem!

 

Já por último, o seu meio para dizer a verdade, Mariana Gaivão concentra-se em Ruby um enredo de resistência e consequentemente libertação por via do desapego afetivo. Filmado na região de Góis, local ardido e povoado por “estrangeiros” que fazem dessa terra de cinzas a sua casa. Nele, deparamos com a protagonista-título (Ruby Taylor), jovem que apercebe do desaparecimento do seu cão no meu desde dia que recebe a notícia de despedida da sua melhor amiga para Inglaterra. Há uma negação que advém com o corte de afinidades para fazer do seu horizonte sua nova morada. Gaivão demonstra a sua idoneidade em casar a desilusão com um misticismo (in)existencial, uma beleza artificial naquilo que o futuro nos reserva, demonstrando, como a sensorial sequência da rave cavernosa, que basta ceder-nos à experiência e deambularmos pela corrente do desconhecido. Aonde chegaremos, automaticamente o chamaremos de casa.

 

E foi Casa, a proclamação vinda destes três nomes ascendentes em relação ao Cinema, esperando que o espectador faça o mesmo nesse seu regresso.

 

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Ruby

Em Cuba, sê cubano ... ou qualquer outra coisa!

Hugo Gomes, 07.07.20

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A Netflix decidiu distribuir o mais recente (por enquanto) filme de Olivier Assayas, mas é como estivesse o produzido. Porque tal, como muitos produtos assinalados com “N” escarlate, chegou-nos um objeto anónimo, economizado até às costuras e despachado visualmente como fosse propício a todos os ecrãs.

Vindo do mesmo homem que nos trouxe Carlos, e posteriormente filmes como Clouds of Sils Maria, Summer Hours e (porque não) Personal Shopper, esperávamos mais do que uma mistela de factos históricos sem tomar partido algum (a imparcialidade é um gesto inexistente e despersonalizado) em prolongada espionagem para consigo próprio. Wasp Network soaria melhor em formato documental … pelo menos

Stage Fright: "Diz que me amas, Sir Hitchcock"

Hugo Gomes, 05.07.20

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Automaticamente, se tivéssemos que mencionar filmes da torrente carreira de Alfred Hitchcock, nunca passaria pelas nossas cabeças referir Stage Fright. É um dos seus “filmes menores” (Paul Duncan na edição Taschen o chamou de “policial fraco”), perpetuamente esquecido perante muitas das produções posteriores, essa escalada que tornaria, por fim, o britânico no grande “mestre do suspense” (obviamente que tal cognome seria totalmente apreciado tardiamente sob o proposição dos cinéfilos e críticos do Velho Mundo … mas essa não é a história).

Antes da altura do seu lançamento, o que evidenciávamos era um Hitchocock a adaptar-se aos ambientes megalómanos e acelerados da indústria hollywoodesca, desde os tempos de “protégé” do produtor David O. Selznick (Rebecca, Paradine Case) ou dos fracassos cometidos pelos seus “filhos bastardos” como The Rope (1948) e Under Capricorn (1949). Obviamente que resumir a sua estadia norte-americana por esses dois pontos é de uma ingratidão “plus” ignorância, sem esquecer dos felizes exercícios do seu thriller à casa (como o sucesso de Notorious em 1946) que emancipou pouco a pouco, tendo, por fim, o seu nome reconhecido e convertido num selo de qualidade. Mas com Stage Fright, possivelmente, estreado num crucial 1950, cinco anos após o final da Guerra, cinco anos fora dos anteriores bodes expiatórios e de cabeça voltada para novos terrores, desencadearia um dos seus episódios mais recauchutados do seu estilo e composição narrativa.

Não há como negar que Stage Fright não seja um filme à Hitchcock, com todos os seus “rodriguinhos” de historieta; crimes, “macguffins”, falsos-culpados e investigações por conta própria. Tudo lá, embrulhado sobre um aprumo técnico e de claras impressões que nos guiarão para um twist final (a reviravolta que não é mais do que a "cereja do topo do bolo"), por sua vez, engatado na pequena sofisticação de Hitchcock (o “falso” flashback, ou o flashback traiçoeiro, como o quiserem chamar). Aí, há um caminho andado para o seu culminar (dez anos depois com Psycho), através da introdução de um conceito tão inevitavelmente censurado no cinema hitchcockiano. A palavra não é dita … a nossa heroína (Jane Wyman), cala-se a tempo de o invocar perante a loucura revelada do seu “falso-culpado”. O espectador contemporâneo possivelmente não o irá decifrar, será preciso um tempo-teste, umas quantas barreiras trespassadas e um assassinato acontecido num chuveiro que imortalizaria para todo o sempre, para que fosse possível, automaticamente, concluir esse raciocínio. Por enquanto, a mudez é a ambígua resposta à prolongada tese da culpa no cinema de Hitchcock.

Já o cineasta declarava que Stage Fright era o seu crítico exame à arte da atuação, colocando-o perto a perto com outra arte que o tanto fascina, a do crime. Depois dos desejos de impregnar o homicídio como a oitava arte em The Rope, a busca pelo crime perfeito e sem culpas em Strangers on a Train, o qual iria embarcar um ano depois, este seu “filme menor” instalava-se na teatralidade como uma das armas reconhecidas para essa ideia de assassinato concretizado, e nesse aspeto, os atores como os mais perigosos do ramo devido à sua iniludível capacidade.

Porém, o encenador aqui é outro, Alfred Hitchcock, que expõe a anatomia do crime através de um delicado humor e fascínio (muitas vezes transladados às suas personagens, ao amador detetivesco Alastair Sim) pela óbvia morbidez. Digamos que ele é o verdadeiro patife de todo este rol de criminosos, vitimas e culpados, usufruindo constantemente da sua posição de poder. O cineasta está a uns valentes passos acima do espectador, e tal é demonstrado na introdução da madame Marlene Dietrich a este universo, encarregue de nos apresentar o distintivo macguffin, a desculpa para o nosso embate policial. Tal como a personagem aflita que pede auxilio para remediar um dos seus atos impensáveis, Stage Fright solicita o nosso amor enquanto cinéfilo - “Say that you love me. You do love me, don't you?”.

Isto tudo para afirmar, que mesmo na sua esquecida posição, não saindo da sua menosprezada etiqueta de “obra menor”, Stage Fright foi o importante arranque para a mais consagrada década da carreira de Hitchcock. Depois disto, o rol é incontornável!

Da 5 Bloods: Farewell, Vietnam!

Hugo Gomes, 14.06.20

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Há uma América que grita revoltosamente. Há uma América que sangra desalmadamente. E há uma América que não é uma América de todo. Spike Lee é sempre contemporâneo e simultaneamente prega os sermões do arco-da-velho até porque a América que ele fala não é mais do que a América que muitos lhe impõem. Não é a sua América de todo.

Da 5 Bloods caminha em jeito de desconstrução de subgéneros enraizados num imaginário importado. A Guerra nunca foi santa, nem pincelada em somente tons de branco e preto. A Guerra, essa, é um estado alternado que invade e entranha-se em nós até ao nosso último suspiro. E até mesmo ela não trata os homens por igual, ostracizando-os nas suas desigualdades, nas hierarquias vincadas e nas discriminações estruturadas.

Da 5 Bloods é isso, exposto para nunca mais esquecer, com Lee a exorcizar o passado como prosa da nossa atualidade. Convenhamos aqui abordar um bélico de homens feitos, com a masculinidade em último reduto e a camaradagem como via do fragilizado estado de alma. Aquilo, que falhou redondamente em Miracle at St. Anna (2008), é atingido [bullseye] com a sua agressividade característica, até porque em Spike Lee nada é deixado ao acaso. Tal como o escritor norte-americano, Philip Roth, tudo é político. Então porque Da 5 Blood não iria ser? Mais precisamente, que filme de guerra não o seria, de todo, enquanto ensaio político?

Como fizera em muitos “joints” anteriores, o cineasta recolhe as imagens sacras de um cinema estabelecido e ensinado à exaustão … lembram-se das indiretas a The Godfather em She Hate Me (2004)? Pois bem, preparem-se para a resposta trocista a Marlon Brando e o seu eternizado “The horror... the horror...” em Apocalypse Now (1979), através de “madness ... oh madness”. Aliás, a Loucura é o sintoma pré-morte dos velhos guerreiros, o devaneio que os leva à rendição ou à condenação, por meio, aqui levado ao extremo, de um preciso e febril Delroy Lindo.

A reunião de quatro veteranos na caça de um tesouro residido na selva vietnamita ao lado dos restos do seu nunca esquecido camarada (um “santo padroeiro” vivido em flashbacks reduzidos aos 16mm e sob um artificialismo como statement anti-rejuvenescimento à lá Scorsese), é um ataque desesperante em todas as frentes por parte de um Spike Lee de punho fechado proclamando #blacklivesmatter.

É a Guerra, dirão alguns, a fim de justificar a revolta injetada nesta satirização de um género, só que a batalha é longe do tropicalismo do Vietname, hoje refém do seu estatuto de resort turístico para velhos combatentes. O palco … esse - os EUA - a América que diz ser de todos, mas o qual Spike Lee e o seu leque nunca fizeram, realmente, parte.

"O Recado" deixado ao cinema português pelo seu mais novo sangue

Hugo Gomes, 07.04.20

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Perguntei porque tinha voltado. Não respondeu. Ficou calado a olhar para a janela. Nesse momento percebi muita coisa: o Francisco voltou por estar perdido por ti, pelos amigos, por isto … isto. Para trás ninguém volta e de nós fica o que fizermos. Mas em imagem disso ... ele quis voltar atrás, mas estava errado. Era uma ideia, assim, umas imagens que acendem e apagam logo a seguir. O resto foram pretextos.” “Maldevivre” (João Viana)

 

Se José Fonseca e Costa ouvisse os conselhos das suas próprias personagens, teria permanecido no seu cobiçado “estágio” em Itália, ao lado do sempre incontornável Michelangelo Antonioni e o seu eclipsar romântico (“Eclipse”, 1962). Curiosamente, o na altura aspirante a cineasta regressou à sua Pátria com o dever (contrariando as indicações dos seus pais que impuseram o termino do curso de Direito) de envergar no cinema que tanto apaixonou, inaugurando atividade nos chamados “filmes de fundo”, trechos de poucos minutos que preenchiam espaços nas projeções com fins comerciais. Mas porquê voltar? Se em Itália, melhor leque e indústria tinha à sua mercê? Talvez por teimosia ou simplesmente, enquanto jovem, pela ambição de trazer um pouco de “cinema do mundo” a um país, não somente de tamanho, mas socialmente e economicamente a rés.

Mas foram os “filmes de fundo” que serviram como sua escola à portuguesa, ou o teste para se movimentar nas réstias industriais e no universo artístico que conhecera gradualmente (realçando a sua amizade com o músico Carlos Paredes ou o poeta Miguel Torga, que curiosamente, trabalhara com ambos em “A Cidade”, 1968). Mas a sua total emancipação aconteceu por vias dos fundos de cinema da Gulbenkian, uma espécie de Estado dentro de um Estado, que lhe garantiu o maneio para arrancar com “O Recado” (1972), a sua primeira longa-metragem, uma coprodução espanhola que contava com os “cordelinhos” do produtor Henrique Espírito Santo.

O argumento, da autoria do próprio Fonseca e Costa, coloca a protagonista Luísa – interpretada por Maria Cabral (saída do êxito de António da Cunha Telles, “O Cerco”) em perfeita sintonia com o seu criador. Uma mulher dividida entre o presente confortável e o passado romantizado que vai auferindo contornos saudosistas (uma paixão antiga reaparece e que lhe deixa um “recado” para um possível reencontro) é tema de um filme que subversivamente aponta o dedo a um sistema político-social opressivo que agrava a desigualdade nos diferentes hemisférios do país. Há que entender que a militância de Fonseca e Costa já lhe custara algumas visitas à PIDE e um constante cadastro anti-regime, em “O Recado”, um realizador nos seus “verdes anos” tomas as diferentes vestes para conduzir num romance metaforizado e crítico para com um dos pontos fracos do Estado Novo: o constante distanciamento da ruralidade para com as grandes metrópoles.

Nisso, é possível verificar nos precisos e primeiros minutos da longa-metragem: o campestre tradicional, mergulhado nas tradições religiosas e os loucos “de aldeia” - como manda as peças de Gil Vicente – que proferem primários e percetíveis moralismos (e com um certo paternalismo à mistura), enquanto que a cidade, o genuíno ecossistema de Luísa, é refinada com os prazeres burgueses, com as iguarias da cultura importada e das reflexões de primeiro mundo. Aqui, o qual somos introduzidos numa festa onde a nossa protagonista não esconde o seu aborrecimento, um convívio alienado de estranhas criaturas tão “fellinianas” que o filme assume essa invocação através de um reparo de Maria Cabral (“Parece a filha de Saraghina”, de seguida explicando a referência vinda de “8 1/2”).

Estas festividades, e bebedeiras de “novos ricos” ou “vampiros culturais” tomam um passo importante para as duas vertentes da jornada emancipadora de Luísa, a começar pelo contraste de dois mundo, um excêntrico e outro inóspito e rochoso que funcionará como roda desse prolongado dilema. Enquanto o outro ponto, que adquire importância no seu anti-climax, é a transformação intrínseca por vias de uma cuidadosa seleção e destruição de objetos, adornos, bibelô e escritos. Através de uma improvisada fogueira que incinera, acima de mero inventário, memórias, surge o renascimento de uma fénix. Luísa perante esse passado revisitado forçadamente, regressa ao seu habitat natural como uma nova mulher, determinada em atropelar o passado com direção ao incógnito futuro, assim como Fonseca e Costa que depois do “O Recado” abandona o formalismo imposto pelo Cinema Novo em vias de evaporação.

Um cinema eclético que “dá beijinhos nos braços” à cinefilia presente (desde as comparações de Greta Garbo a Maria Cabral até ao cameo especial do lendário diretor da Cinemateca, João Bérnard da Costa), e que coloca em cheque o realizador com as tendenciosas façanhas de primeira longa-metragem, uma afirmação de peito cheio para proclamar o seu devido lugar. E para tal há toda uma consideração íntima para com o seu universo cinematográfico (a sua experiência em “Eclipse” de Antonioni o levou a manufaturar o seu próprio “eclipse passional”), como também do seu território político e pessoal, projetado na contemporânea diva do grande ecrã lusitano … sim Maria Cabral sob este seu heterónimo, Luísa.

Para tal, apenas foi preciso Fonseca e Costa ignorar os conselhos das suas próprias personagens e voltar atrás, contra tudo, contra todos.

 

Até parece que não temos nada a dizer um ao outro