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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

"O Grande Irmão" está armado!

Hugo Gomes, 15.11.25

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O esperado salto na chamada grande produção: Edgar Wright encontra-se rodeado pela indústria na sua forma mais selvática e, nesse prisma, avança para uma das minas mais exploradas actualmente por este mercado, Stephen King. Parte de um romance distópico publicado em 1982 sob o pseudónimo Richard Bachman - “The Running Man” - , que em tempos [mais precisamente em 1987] dera origem a uma versão “à moda de Arnold Schwarzenegger” (no mesmo efeito do posterior “Total Recall”, o astro contamina plenamente a temática e a própria sapiência em prol de um arquétipo de “filme à Arnold”). Contudo, deixamos o musculado e gigante austríaco e seguimos por esta visão de um futuro que, na altura, parecia distante, hoje nem tanto: os EUA enquanto sociedade totalitária, renegando bens sociais tornados privilégios, sistemas de saúde inacessíveis e um universo laboral adverso à intervenção sindical, com regalias oferecidas ao corporativismo. 

“Coisas” que a literatura futurista sempre nos lançou como sinal premonitório do que aí vinha, e das quais Stephen King soube beber, apontando ao pequeno ecrã (a tal “caixinha mágica”) como perversa ilusão da saída da precariedade vigente. Concursos mórbidos, circos ou coliseus gladiatórios captam a violência e a baixeza em reality shows transvestidos. Entre esses, o programa a servir de título da metragem, “The Running Man”, onde indivíduos se sujeitam a ser perseguidos (sem delicadezas algumas) por um esquadrão de caçadores de recompensas, e sob a vigilância atenta das populações com remunerações à vista. Têm de resistir trinta dias, o máximo necessário para alcançar um prémio sedutor: o bilhete de ida para uma vida minimamente confortável, longe da miséria que os desespera. Ben Richards (Glenn Powell) é o mais recente, e promissor, candidato à montra final. As suas motivações são simples: a precariedade da vida familiar e o facto de a filha de dois anos necessitar de cuidados caros, impraticáveis para a sua classe (proles, sublinha-se), levam-no a participar neste concurso mortal. Cedo se torna um astro nesse universo, enquanto, dia após dia, se apercebe da sua condição e do sistema corrupto e autopreservador que o rodeia. A insurreição dentro do jogo fá-lo trilhar caminho como “símbolo de uma iminente revolução”.

A contradição deste filme, talvez sob o efeito de certa hipocrisia industrial, é que — tal como o livro — capitaliza a distopia para fazer o seu comentário político, e fá-lo através de um anarquismo institucionalizado, com o protagonista-heroi, esse actor ventríloquo, a debitar um discurso de revolta contra chefias e oligarquias (vemos aqui também um contexto tecnocrático, actualizado). O fervor é real, certa puerilidade também, e o cinismo diante do material é constante: cinismo perante o texto de origem e o embuste inerente ao gesto de adaptação. Essa hipocrisia revela-se, na prática, semelhante às adaptações de “The Hunger Games” ou “V for Vendetta”, aqui dois exemplos imediatos desse cinema de milhões que incita políticas de intervenção e, simultaneamente, conserva o seu lado de “símbolo de revolução”, ou a crença de que “a ideia não morre”. (“The Running Man” cita essa linhagem, tal como Hugo Weaving clamava “heroicamente”, em “V for Vendetta”, que “ideias são à prova de bala”.)

Podemos cair na ingenuidade: fruto de um desgaste politizado desses ares já algo nauseabundos, ou podemos revoltar-nos contra a própria ideia de um estúdio como a Paramount incitar ao “desliguem as vossas TVs”, “descubram quem manda”, empunhando a arma como Luigi Mangoni e o CEO, numa performance de revolta e violência política estilizada. Pois bem, Wright acerta no tom, na brincadeira doseada nessa seriedade, no elenco e na construção de mundo. Falha nos meios: recursos milionários para uma mensagem anti-milionária. Hollywood a ser contraditória, e nisso há um espectáculo excessivamente à americana a consagrar.

Empatia!! Somente histórias de empatia!

Hugo Gomes, 11.02.25

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We here to become human again, to put on nice clothes and dance around and enjoy the things that is not in our reality."

Histórias de empatia! Por entre galões de um lado da mesa e imperiais do outro, no bar da Cinemateca falou-se de trivialidades, assuntos privados ou opiniões avulsas. Entre um gole e um bitaite fresco, a empatia surge inesperadamente como tema. Daí para sensibilidades, emoções ou “fraquezas” (como quiserem chamar), a conversa converge para um único ponto: um filme, para sermos concretos — “Sing Sing”, de Greg Kwedar.

Filme de Óscar sem presença na crucial eleição dos 10 finalistas: culpa-se o calendário da temporada de prémios ou a lógica do lobby como persuasão, mas a verdade é que Colman Domingo lá está representado com a interpretação (além de mais duas nomeações, argumento adaptado e canção), até porque ele é o ator no meio de não-atores, um peixe em correntes imprevisíveis que nada numa fluidez danada. Já os restantes — os chamados "não-atores" (ou atores não-profissionais, como alguns preferem dizer, recuperando a velha máxima de que qualquer um pode atuar) — são farpas aguçadas no coração deste filme anti-cárcere, são autenticidade que desfazem qualquer fantasia imposta nessas latitudes.

Construído com base dessas experiências, empíricas até (daí o argumento adaptado], e focando no programa de reabilitação por via das artes performativas, teatro lê-se e vê-se, “Sing Sing” é todo ele uma entrega à arte como segunda oportunidade — um molde para homens clandestinos ou aprisionados na sua própria violência, que encontram libertação no escapismo curador deste voluntarismo. Domingo, por sua vez, voluntaria-se para entrar na prisão (na sua essência e não somente a sua geografia) com estes ex-reclusos (no filme encenam as suas vidas passadas entre grandes na dita prisão de alta segurança que aufere título à película) e encaixa-se nessa visão cercada sem induzir e preencher o filme nos rodriguinhos do seu subgénero de cativeiro, a agressividade, essa fica-se na sugestão dos relatos, nos olhares de perdão ou até no “faz-de-conta” da peça dentro da peça - mixórdia de temáticas com viagem temporais e mil e um géneros a dar conta (e Hamlet no meio).

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Greg Kwedar, realizador ainda discreto, homem invulgar para estabelecer esse vínculo para com a emoção bruta trazida, e por vezes ocultada destes agentes da pacificação espiritual, exerce um filme como igualmente um exercício performativo, indiciando no seu experimento a sua capacidade de cura. De um cinema independente que fala a língua dos Homens sem recorrer à fabulação insuflada (celebra-se a aproximação ao docudrama), nem ao conforto de uma narrativa massajada de um público-expandido. Funciona, por vezes, contra si mesmo, por ser uma história profundamente masculina, carregada de semiótica e gíria desse universo, podendo intuitivamente afastar os que clamam por igualdade nos gazes (olhares). Mas por não seguir essas ordens / diretrizes de mercado, o torna - e os últimos momentos são prova de uma riqueza pura de fragrâncias autenticadas -, “Sing Sing” em algo à parte das habituais promessas desse cinema adulto americano. Numa secura fingida, mexe no coração — a qual América de hoje carece disso. Empatia!

Brindamos de forma desigual os copos — lácteo de um lado da fronteira, cevada na oposição — mas o acordo estava traçado. A empatia uniu aquela mesa, àquele filme, precioso e pequeno filme sublinho por baixo …

 

One faith but you don't see

Search for peace but no one speaks

Burn a bridge to light my way

Climb the tree before I called you the victim

Heaven and evil, caught in the middle

Someone set me free, be wind beneath my wings

  • “Like a Bird”, Adrian Quesada e Abraham Alexander (música da banda-sonora “Sing Sing”, nomeado ao Óscar de Melhor Canção Original)