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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

By the Hook: a memória de Candyman é a memória colectiva ...

Hugo Gomes, 04.02.26

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“With my hook for a hand, I'll split you from your groin to your gullet. I came for you.”, histórias de fantasmas e mitos urbanos reconfigurados ao serviço da crítica social [com a banda sonora de Philip Glass de fundo]: “Candyman”, inspirado no conto “Forbidden”, sob a pena de Clive Barker, é indiscutivelmente um dos filmes de terror mais singulares dos anos 90 da colheita americana. 

A enchente de assassinatos ocorridos num complexo habitacional seduz a antropóloga Helen (Virginia Madsen) a exercer a sua tese sobre a violência registada nos chamados Cabrini–Green Homes, projecto estatal de habitação onde as classes mais desfavorecidas coabitam com a degradação, e alinhá-la com segregação social e um folclore urbano enraizado, Candyman. A lenda citadina fala-nos de um suposto assassino, portador de um gancho no lugar da mão, condenado por um “hediondo” crime (sexo inter-racial), foi linchado, desmembrado, torturado e, por fim, incinerado. As paredes dos apartamentos (a lembrar um colmeia … não é fruto do acaso)  ainda sussurram esse acto grotesco. A sua assombração persiste na zona como uma maleita, um aviso: dizer o seu nome cinco vezes diante de um espelho, à maneira de “Bloody Mary”, o invoca, além da sua sombra, o seu rancor.

Helen mostra-se céptica perante os relatos fantasiosos dessa entidade vingadora, mas durante a sua pesquisa no terreno acaba por testemunhá-la … será uma alucinação? Talvez! Ou a reactivação de uma memória colectiva centenária? “Candyman”, de Bernard Rose, afasta-se deliberadamente do subgénero engavetado do slasher movie, é preciso nesse distanciamento e eficaz enquanto metáfora dos medos modernos, funcionando não apenas numa catarse à segregação social, mas também racial. A personagem icónica de Tony Todd, deambula pelos traumas, é uma espécie de anti-herói dos desmesurados, dos miseráveis, dos incompreendidos. Por isso, a sua lenda necessita de repetição, nem que seja como lembrete dos crimes cometidos pelas elites aqueles que se erguem contra os dogmas de uma sociedade castradora. A guetização (estratégia política, silenciosa, de abandono e ocultação das classes baixas) surge em nome de uma paisagem agradável ao olhar, uma higienização sociocultural. A pobreza é um infortúnio, mas também um incómodo visual.

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Candyman deposita o medo nas comunidades orbitais; é o alerta de que a miscigenação não constitui pecado nem crime, mas perigo aos olhos do poder (desbracejando por entre os outros mitos, aqueles que o cinema cumplicitou em promover no dubio do seu progresso, ver “The Birth of the Nation” de Griffith, onde o negro reclamando o seu lugar entre os brancos, sintoniza a destruição de um país). O sangue suja as mãos. 

Bernard Rose é claro no que afirma e astuto ao transformar o género numa manifestação política (o terror sempre o foi; não é de agora que aprendeu a pensar). Opera um volte-face constante: ora thriller psicológico de alto calibre, ora veículo de mensagens subliminares onde, uma vez mais, os monstros funcionam como alegorias. As abelhas também. Que animal poderia representar melhor a tentação aniquiladora e, simultaneamente, materializar o linchamento? Insectos ligados a uma comunidade em que o centro [a rainha] dita a vontade dos demais. Se é para picar, leia-se destronar o “inimigo”, então zumbem alto e preparem as ferroadas. Daí o gancho: este Candyman é todo uma rainha, nunca uma obreira.

Segundo Take: no espaço ninguém pode ver a tua versão!

Hugo Gomes, 25.05.25

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O António Araújo desafiou-me a falar sobre director's cuts ou outras versões alternativas de um mesmo filme. Pelos vistos, impressionei-o ao sugerir “Hellraiser: Bloodline”, o quarto capítulo de um franchise malparido à custa da ingenuidade de Clive Barker ao entrar na indústria. Neste filme, a vilania e o sadismo de Pinhead são “atirados” para o espaço, mas não sem antes atravessar duas outras camadas temporais. Tem o cunho de Harvey Weinstein e um realizador que, no fim, preferiu não assinar o produto final mantendo-o sob a “autoria” de Alan Smithee. Para ouvir (ou ver) no Segundo Take. Grato pelo convite.

No Inferno, a música é outra ...

Hugo Gomes, 11.10.22

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Save your breath … for screaming

Em tempos de reboots, reinvenções e atualizações, o terror e sobretudo os seus êxitos são subjugados à “tortura” dessas mesmas configurações, entre eles conta-se a mais recente “vitima”: “Hellraiser”. Uma remodelação do homónimo filme de culto de 1987, assinado pelo escritor Clive Barker (provavelmente o grande sucessor de H.P. Lovecraft no que revela a uma variação de um terror cósmico), conhece aqui uma nova roupagem em forma de compensá-lo dos anos a fio de fracassos e do aprisionamento na indústria low-budget e da distribuição limitada a home-vídeo, a realidade do qual as sequelas conheceram. 

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Contudo, o original mantém-se como um dos mais icónicos exemplares do género na década de 80, transfigurando o conceito slasher movie entretanto popularizada e banalizada, onde é salteado com aromas lovecraftianos e faustianos (nunca cedendo ao simples ato de “facaria”), e a juntar a isso um memorável monstro comumente apelidado de Pinhead (interpretado por Doug Bradley em 8 produções). Esta criatura, habitante entre o Inferno e o Purgatório (“Angels for some, demons for others”, diria em ‘87), proveniente de uma dimensão “algures” apenas alcançado após a conclusão de uma caixa-de-puzzle, a recompensa para quem o abrir “corretamente” e cuja sua invocação dará “asas” a negociações mefistofélicas, no limiar do prazer e da dor (esse reino diluído e sensorial). Vestido de cabedal, peça escolhida não ao acaso, visto que Barker idealizou trazer o sadomasoquismo ao público mais mainstream atribuindo-lhe uma causa exquisite e incompreendida, e de face picotada e apática (“Pain has a face. Allow me to show it to you", frase retirada da infame continuação de 1994 - "Bloodline" - a última presenteada com estreia em sala), Pinhead converteu-se num ícone, uma imagem reconhecível do terror norte-americano, diversas vezes evocado, parodiado ou até mesmo referenciado (recordar aquela anomalidade "faz-de-conta" em "Cabin in the Woods" de Drew Goddard) até ser finalmente enfraquecido por exaustão. 

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O medo desvaneceu, e a saga arrastou-se por produções desinspiradas ("Deader" e "Hellworld" bateram fundo na estância "canónica" [as aspas representam a continuidade incoerente que o franchise atingiu]) e algumas tentativas de reboot a roçar o amadorismo ("Revelations" e "Judgment" , em 2011 e 2018 respetivamente). Até Doug Bradley desinteressou-se pela personagem  (salientamos que Pinhead foi, e talvez seja, o ponto mais alto da sua carreira), solicitado cada vez mais aos produtores para que colocassem um fim à sua angústia. Como tal, não teve problemas em dispensar a "máscara de agulhas" e "abençoando" a atriz transgénero Jamie Clayton (da série “Sense 8”) como sua herdeira. Sem Clive Barker na direção (aliás, afastado desse cargo desde a infeliz experiência em "Nightbreed", esse hipotético épico de terror que curiosamente contava com David Cronenberg como antagonista), mas com David Bruckner, que agraciado desde “The Night House” (2020) tentaria quebrar a maldição de um franchise para lá de morto. O resultado não é totalmente bem-sucedido, digamos, até porque uma das malfeitas que persegue o "legado" não conseguiu ser revertida … sim, refiro à ausência de estreia em sala. 

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Ou seja, este novo “Hellraiser” é um produto pensado em integrar o catálogo de uma plataforma de streaming (neste caso a Hulu, com, curiosamente, ligações à Disney), dando a entender o de ainda existir preconceito em tentar devolver o grande ecrã à franquia, sendo assim, Bruckner não desejou fidelidade à saga que introduziu Pinhead ao mundo, antes disso teve como intenção reproduzir a anterior ambiência imposta por Clive Barker nos originais escritos “The Hellbound Heart” (o livro que deu luz ao filme de 1987). Portanto, gerando uma fábula gótica, sem invocações bondages nem sadomasoquistas, alinhado aos conceitos dantescos e, como havia mencionado, aos elementos faustianos que assumem controlo total. 

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Sugestões que fortalecem as aparentes fragilidades deste “Hellraiser”, que vão desde o seu arranque narrativamente preguiçoso (personagens “quebradas” e investigações domésticas como manda a “sapatilha”), até á amenização da violência gráfica (o “gore” imaginativo de ‘87 não verga mais vigas nesta realidade simbioticamente tecnológica). O argumento, não sendo de todo imaginativo, limita-se, maioritariamente, a um só espaço (o que também favorece a sua atmosfera com algum afinco), ostentando uma simplicidade, o que por sua vez nos leva a aproximar destas destas personagens [as humanas, é claro] e conceder-nos um senso de consequência preciso à “moral” deste "círculo infernal”. Bruckner consegue, antes de mais, um competente trabalho em nunca sombrear, nem “escravizar” a sua reimaginação em relação ao legado, sendo que os ditos “easter eggs” (parte fundamental da indústria atual) são calculadamente posicionados. Entre esses brindes, o mais notório, é a compostura musical de Ben Lovett, que repesca os temas de Christopher Young ("I hear bells"), e os insere de forma certeira e não exaustiva (por vezes menos é mais, e “Hellraiser” necessita ser um introvertido nesse sentido, enquanto precisa de abraçar o exagero do seu "body horror”).

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Quanto a esses “exageros do horror corporal”, sentimos que o filme de David Bruckner poderia (e deveria) ir mais longe no conceito. Por vezes, os "nossos" desejos mórbidos são apenas fetichismos de natureza duvidosa e sádica, para mais num filme que aposta uma detalhada estética na composição dos seus “monstros”, fertilizante para pesadelos, e como "estrela", um(a) apático e draculesco Pinhead a inspirar vilanias à lá Bela Lugosi (acreditamos ouvir - “Listen to them. Children of the night. What music they make.” - ao invés da pregação aos condenados - “And what it'd feel like? A joyful note? Without change, without end? Heaven? There's no music in that.”). Hellraiser” poderá não ser terror para nos “quebrar a alma” (os conhecedores da saga entenderão a referência), mas há nele um apetite excêntrico em criar uma mitologia própria. E acreditem, isso vale bastante a esta altura do campeonato.

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