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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Bola Preta #10: “Procurar o cinema nos filmes”, para lá do conspirativo e da política de autores. Uma conversa com Ricardo Vieira Lisboa

Hugo Gomes, 05.12.25

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Megalopolis (Francis Ford Coppola, 2024)

Eis o décimo: a viagem pelas bolas pretas ainda agora começou, mas o Cinema continua, paralelamente, a ser desculpa para encontros e reencontros. Não apenas a “ida à sala” ou o filme da semana na Netflix, mas a cinefilia como cuspo que cola eremitas saídos das suas catacumbas. Não é preciso sair da gruta para topar com o centro da questão; para Ricardo Vieira Lisboa, crítico (um dos fundadores do site À Pala de Walsh) e programador da Cinemateca, bastou trazer um barrete. “Estou preparado para o frio.” E assim foi: para a esquina mais distante da esplanada, sob as luzes longínquas do bar e a protecção luminosa da livraria Linha de Sombra na outra ponta. O tempo era contado e a meteorologia estava longe de ser clemente (digamos que o Inverno espreita, aproximando-se sorrateiro), mas nada impediu o que vinha aí: autores, a sua política e o derrube da mesma; criar, implodir, reinventar, mais uma conversa sobre Cinema, ou melhor, sobre filmes. “Bardamerda para tudo e todos os que são incapazes de descobrir o cinema nos filmes e só procuram os filmes no cinema”, escreveu, certo dia, o nosso ilustre convidado.

 

Material de Apoio

Top À Pala de Walsh 2022, onde poderão encontrar a citação no manifesto de Ricardo Vieira Lisboa.

Texto mencionado no episódio - “O que é a crítica de cinema” - À Pala de Walsh.

 

Ouvir episódio completo aqui

 

Bola Preta #7: ‘Está à janela encantada com a tua cinefilia’, os blogs de cinema, o que fazer com as suas carcaças? Uma conversa com José Carlos Maltez.

Hugo Gomes, 13.11.25

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Under Capricorn (Alfred Hitchcock, 1949)

Um jantar (mais um!? Tradição neste programa? Talvez… não sei, andiamo). Um jantar de resistentes, após o vislumbre do “novo” filme de John Ford na CinematecaThe Scarlet  Drop” — achado mudo que contraria a extinção declarada destas metragens. História a ser feita, recontada ou apenas contemplada. Sim, aqueles exteriores remetem-nos sobretudo ao teor fordiano que remexemos e embutimos nos nossos textos. Os resistentes são, porém, outros, os bloggers, essa raça maldita, hoje em iminente extinção como os filmes desaparecidos, e, de igual modo, de vez em quando surgem, dão sinais de vida, prometem manifestar-se perante a História, ou, neste caso, na forma de ver e partilhar cinema. José Carlos Maltez é o último dos moicanos, e os treze anos do seu projecto, A Janela Encantada”, são prova viva dessa teimosia de existir num meio cada vez mais acelerado, imediato e efémero. Entre garfadas e tragos amargos de cevada, eis uma conversa (perdoem a minha voz constipada) de um tempo que não regressa …  para o bem e para o mal.

 

Material de Apoio

Comemoração 13 Anos de “A Janela Encantada”

Ciclo Alfred Hitchcock na “A Janela Encantada

Para adquirir o livro “O Cinema Expressionista Alemão” de José Carlos Maltez

 

Ouvir episódio completo aqui

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Arranca o 12º Olhares do Mediterrâneo: "no cinema feito por mulheres a utopia surge como consequência necessária da resistência"

Hugo Gomes, 27.10.25

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The Brink of Dreams (Nada Riyadh & Ayman El Amir, 2025)

Os Olhares do Mediterrâneo regressam a Lisboa com a oferenda da sua 12.ª edição, uma programação que faz jus à luta, atravessando o Mediterrâneo, esse mar que conecta três continentes e diversas culturas, unidas por uma só linguagem: a cinematográfica. É essa a batalha que se apresenta em jogo, a resistência de um Cinema sobre resistências, sobre choques e guarnições, tudo sob o signo feminino.

Mais uma vez, é o Cinema com autoria de mulheres a marcar passo no espaço, seja na projeção de filmes, seja no debate sobre o acesso às nossas plataformas de viabilidade, ou nas estéticas que se querem longe da enfermidade.

A acontecer no Cinema São Jorge, na Cinemateca Portuguesa e, esporadicamente, em eventos ou sessões especiais no Museu do Aljube, ISCTE-IUL e Casa do Comum, o 12.º Olhares do Mediterrâneo (de 28 de Outubro a 6 de Novembro) deseja esclarecer um mal-entendido que atravessa quase um século de existência cinematográfica: existe, sim, (e sublinha-se o axioma) Cinema entre as Mulheres … aliás, existe sim, Cinema, ponto.

Sílvia Di Marco, co-diretora do festival, foi novamente desafiada pelo Cinematograficamente Falando… a responder a este novo ano sob os Olhares Mediterrânicos.

O mote deste ano é “Semear Resistências, Cultivar Utopias”. Quando olha para a selecção dos 63 filmes, sente que a utopia ainda tem espaço no cinema feito por mulheres, ou é já uma forma de resistência em si mesma?

Penso que neste momento no cinema feito por mulheres a utopia surge como consequência necessária da resistência. Ou seja, em geral neste momento não se fazem muitos filmes que apresentem uma proposta utópica de vida ou sociedade, mas, pelo menos na nossa programação, há muitos filmes que mostram formas de resistência grandes ou pequenas, e assim convidam a pensar que as coisas não devem ser necessariamente assim, seja qual for a situação. Este é o primeiro passo para pensar a utopia, aquele lugar que (ainda) não existe. 

Mas de facto, numa das sessões de warm up, apresentamos um documentário sobre uma revolução utópica em curso. “Jînwar - Women’s Village”, da realizadora curda Nadya Derwis, dá-nos a conhecer a revolução do confederalismo democrático actualmente em curso no Nordeste da Síria (Rojava), uma revolução que desde o início tem colocado no seu centro a convivência inter-étnica e a libertação das mulheres. Agora que a fase da luta armada parece terminada, acompanhamos com enorme interesse o que está a acontecer naquela região e esperamos poder apresentar mais filmes sobre esta utopia em construção nos próximos anos.

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My Sweet Land (Sareen Hairabedian, 2024)

O festival cresce em duração e em número de salas — seis espaços lisboetas. Esta expansão é um gesto político, uma necessidade logística, ou um grito cultural contra o estreitamento dos lugares de encontro?

As três coisas juntas! Reclamar mais espaços de encontro é um gesto político, ocupar estes espaços com filmes que fazem pensar e convidam ao diálogo é um gesto político. Ter mais filmes e acolher as pessoas é um gesto muito concreto, que requer tempo – daí ter mais dias – e impõe necessidades logísticas, ocupando mais salas. 

As questões ambientais ganham este ano um destaque especial, com sessões dedicadas e um workshop provocador — “Can Cinema Help Save the Planet?”. O cinema pode realmente salvar o planeta, ou apenas documentar a sua ruína?

O cinema não salvará o planeta (nem consegue salvar-se a si próprio…), mas pode contribuir para construir imaginários diferentes sobre a relação entre os humanos e o planeta que habitam, e desta forma contribuir para escolher viver segundo lógicas menos extrativistas e destrutivas. A nossa aposta é esta: ajudar a pôr o proverbial grão de areia na engrenagem do pensamento hegemónico.

A secção Travessias continua a explorar migrações, colonialismos e racismo. Depois de 12 edições, o que mudou mais — o olhar do público, o modo de contar das realizadoras, ou o próprio entendimento de “mediterrâneo”?

O olhar do público, sem dúvida, e a urgência de alguns temas. Quando nasceu a secção Travessias estávamos no auge da “crise” dos refugiados sírios e dos barcos à deriva no Mediterrâneo. Sentíamos – nós, como programadoras, e as realizadoras enquanto “fazedoras” de filmes – uma grande urgência de documentar e denunciar o que se estava a passar nas rotas migratórias e nos campos de refugiados. Entretanto começou a ter mais força o discurso anti-colonialista e começamos a ligar os pontos que unem migrações forçadas, colonialismo e racismo. Há uma sensibilidade nova tanto entre as cineastas como no público sobre estes temas, e os Olhares do Mediterrâneo acompanham com atenção esta mudança. 

Ao mesmo tempo continuamos à procura do inesperado, o escondido, o de que ninguém fala. É por isso que para a sessão que precede o já tradicional “Debate Travessias” escolhemos um documentário sobre uma guerra esquecida e de baixa intensidade, a do Nagorno-Karabakh. No documentário “My Sweet Land”, a realizadora Sareen Hairabedian acompanha com enorme ternura um miúdo de 11 anos, Vrej, que sonhava ser dentista e que instintivamente recusa qualquer forma de violência, mas que uma guerra multigeracional obriga a viver como refugiado e, quando regressa a casa, a ter treino militar para proteger a sua cultura e identidade. Filmado de forma delicada e atenta, sem cenas de grande violência, o documentário convida a uma reflexão profunda sobre a vida em países militarizados e consegue transmitir de forma incrivelmente límpida o olhar de uma criança sobre o mundo.

Na programação das mostras de Jasmila Žbanić e Mirjana Karanović, revisitamos as feridas da Guerra da Jugoslávia. Porque é que regressar à guerra — e às suas sombras — continua a ser tão urgente em 2025?

Para não esquecer. Para mostrar que a cegueira da “comunidade internacional” de hoje é igual à do passado e, por isso, ainda menos aceitável. Mas, por absurdo que pareça, a nossa escolha de programar os filmes de Jasmila Žbanić e Mirjana Karanović é um gesto de optimismo e confiança na potência do cinema. Jasmila Žbanić é bósnia. Mirjana Karanović é sérvia. Ambas viveram a guerra na sua pele e a guerra dizia que deviam ser inimigas. Mas escolheram não ser. Muitas vezes trabalham juntas. Mirjana Karanović, considerada uma das maiores actrizes sérvias de sempre, actua em vários filmes de Jasmila Žbanić, e esta tem produzido ou co-produzido as obras da colega. É isto, sobretudo, que queremos salientar nesta mostra. Mirjana Karanović estará presente e estamos muito impacientes por dialogar com ela.

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Quo Vadis, Aida? (Jasmila Žbanić, 2020)

Há 12 produções portuguesas em destaque, entre elas "Mulheres, Terra, Revolução" (Rita Calvário & Cecília Honório, 2025). É coincidência ou sinal de um novo fôlego do cinema português no feminino, mais comprometido com a memória e o território?

O novo cinema português no feminino é extremamente vital e comprometido com muitos temas diferentes, utilizando géneros e formatos diversos. O que nós apresentamos é uma amostra muito pequena do que as realizadoras em Portugal fazem hoje em dia. Por falta de tempo/espaço na programação, mas também por questões de coerência programática.

O festival afirma-se como um espaço de militância e de emoção, onde “há lugar para a denúncia, mas também para o riso e o optimismo”. Como é que se equilibra o cinema combativo com o prazer de ver e sentir?

Há prazer na luta! E agora fora de brincadeiras: o facto de um filme ser combativo ou engajado não o coloca em oposição nem à possibilidade de ser um filme “leve”, nem à de ser um objecto estético. Temos uma sessão de filmes experimentais na Casa do Comum, na noite de 29 de Outubro. Cada um deles é ao mesmo tempo um gesto estético e de denúncia ou reflexão. E o filme “Where the Wind Comes From”, de Amel Guellaty, da sessão de abertura oficial do Festival, é a demonstração de como é possível falar com humor e poesia do desamparo e raiva de uma geração.

Por fim, este é o mais antigo festival de cinema no feminino em Portugal. O que ainda falta conquistar? É mais difícil resistir à invisibilidade ou à institucionalização?

Respondo primeiro à segunda parte da pergunta: é mais difícil resistir à institucionalização. Que é uma forma sub-reptícia de invisibilização, porque define padrões de legitimidade que reproduzem, com pequenos ajustes, as dinâmicas de poder existentes, sem as pôr realmente em crise. Quanto a o que ainda falta conquistar: muito. Fizemos muito caminho, não há dúvida. As realizadoras têm hoje muita mais visibilidade do que há 13 anos, quando os Olhares do Mediterrâneo começaram. Mas há ainda muito trabalho a fazer sobre as condições de trabalho das mulheres no sector do audiovisual e a forma como as mulheres e as minorias são representadas no cinema. Este ano, juntamente com a MUTIM, organizamos um workshop de escrita e uma mesa redonda sobre a escrita e representação da intimidade. Penso que o futuro do Festival passa por dar mais peso à formação e à reflexão sobre todo o processo de criação de um filme e não só na sua exibição ao público. Temos um caminho longo e fascinante pela frente.

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Consultar toda a programação aqui

Bola Preta #5: Cinefilia, a abençoada anomalia … do obsessivo ao paranóico. Uma conversa com Luís Miguel Oliveira.

Hugo Gomes, 26.10.25

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Heaven's Gate (Michael Cimino, 1980)

Convite feito. Convite aceite. O crítico e programador da Cinemateca, Luís Miguel Oliveira, prepara a sua “Santa Trindade” como oferenda de uma paz cinéfila, e, ao mesmo tempo, sem harmonias nem consensos. Do meu lado, o cinema obsessivo a dar lugar ao cinema paranoico como resposta, dos autores à, realça o convidado, política dos autores (riscar autores se faz favor). Foi assim, naquela tarde rendida ao tempo chuvoso, no Bar 39 Degraus: um pé na boémia, o outro na Cinemateca. “Deveres chamam”, havia alertado Luís. O tempo era curto, mas não interessa, a conversa teria de nascer a qualquer custo. Não foi um combate de boxe, nem algo que valha. Foi, antes, um brinde com copos de imperial — “À decadência!” — porque, neste plano devastado, ou melhor, nas belíssimas ruínas que contemplamos, a cinefilia, a tal anomalia num mundo que nada presta à sua gerência, deve ser debatida, discutida e, muitas vezes, contestada. Contra a consensualidade. Contra o seriado dominante do quotidiano.

Material de Apoio

Por Entre Belíssimas Ruínas”, de Luís Miguel Oliveira, ler aqui

Crítica e Consenso”, da autoria de Filipe Furtado, no À Pala de Walsh

Ouvir episódio completo aqui

Bola Preta #4: Depois da Cinemateca, um jantar projectado com Vistavision. Uma conversa com Samuel Andrade

Hugo Gomes, 25.10.25

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Panic Room (David Fincher, 2002)

Após um dia de trabalho, Samuel Andrade sai da cabine de projecção da Cinemateca com um único objectivo: jantar. Porém, alguém estava no seu caminho. O encontro gerou outro encontro. “Aonde vamos jantar?” “Aqui, mesmo ao lado; nem é preciso andar muito e ainda ficamos no convívio dos fantasmas da Cinemateca.” Abancamos no fundo da cervejaria, na esperança do mais discreto e sossegado possível. Fomos, contudo, traídos pela compostura daquela noite quente. Depois de solicitarmos o menu, o nosso redor começou a encher-se: cacofonia, tilintar de loiça, brindes avulsos na celebração dos mais diversos tratos. Do nosso canto, o Cinema era parte do cardápio. Samuel havia escrito recentemente um Manifesto pela Salvação da Sala de Cinema, e foi a partir dele que agendamos uma pequena luta armada. Paul Thomas Anderson e o seu “One Battle After Another” serviram de pólvora para o embate. “O streaming não tem piada nenhuma!” Chegámos a um acordo mútuo, entre cavalheiros, cada um com o seu prato, opinando entre garfadas sobre o cinema que relembramos enquanto Cinema: o da sala, e, nos mínimos dos mínimos, o do home video, para destilar os desertores. Cheers.

Ler Manifesto aqui

Ouvir episódio completo aqui

Doclisboa '25: daqui consigo ver o mundo lá de fora. Uma conversa com Hélder Beja, sobre programação e imagens a (re)descobrir

Hugo Gomes, 15.10.25

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En la alcoba del sultán (Javier Rebollo, 2024)

O Doclisboa arranca não apenas sob a ideia de um cinema documental em desconstrução ou em permanente reinvenção sintática, mas como uma espécie de bola de cristal dos nossos tempos: dos movimentos que despontam às memórias que se preservam, passando pelos conflitos que se reconfiguram numa nova lavagem imagética, das “guerras infinitas” às múltiplas violências sociais. Tudo condensado em dez dias de cinema… sim, sobretudo Cinema.

Como sempre, o Festival Internacional de Cinema não se assume como uma mera mostra documental. Aliás, em tempos de streaming e de facilitismo de acesso, o género documental popularizou-se, e, com isso, formatizou-se, standardizou-se, em remessas de conteúdos que pouco têm de experimental ou transgressor. O Doclisboa tem batalhado para contrariar essa tendência: entrega-nos cinema para lá da “estética Netflix” e das suas pedagogias fáceis.

É uma janela para o mundo, esse cliché tantas vezes gasto pelo mercantilismo cinematográfico, que aqui faz pleno sentido. Porque nestes filmes não vemos “olhares de ninguém”, mas sempre um “olhar de alguém”. De William Greaves a Ross McElwee, da Palestina à Ucrânia, dos Riscos ao tão amado Heart Beat, em português ou noutra língua, o Doclisboa reafirma-se como um festival de classe.

O Cinematograficamente Falando… conversou com Hélder Beja (nesta que é a sua primeira edição como director e programado) para nos guiar pelo meio da programação: das sugestões às surpresas, das novidades aos imperdíveis. O documentário, aqui, não como género fechado, mas como abertura.

Em comparação com edições anteriores, este ano parece não haver uma temática unificadora, aliás existem variadíssimos temas que o festival quer intensamente abordar, tendo em conta que os vários filmes apoiam nessa teoria. Penso que isto se liga um pouco à minha primeira pergunta: ao fazerem a seleção de documentários, num tempo em que tudo parece cada vez mais difícil, quase com um certo fatalismo sobre o que nos pode acontecer, vocês pensam nesse ato de programação em criar uma espécie de “sintaxe”, um resumo da nossa contemporaneidade?

Sim. Desde que estou na equipa (e isso desde 2023) sinto sempre, e também este ano, que apesar de existirem algumas linhas orientadoras, o festival nunca foi muito temático. Agora, o que disseste no final é exatamente isso: o Doclisboa é uma espécie de cápsula do nosso tempo. É isso que tentamos fazer, às vezes com melhor resultado, outras vezes com menos bom, mas é esse o objetivo. Este ano, a programação é especialmente extensa, o que também é uma característica do festival pela sua natureza e pela dimensão que foi ganhando ao longo dos anos. O Doclisboa quer ir para lá do dogma do cinema documental, e isso nota-se bastante (particularmente este ano). Há o que já se chama o “género híbrido”, e até para lá disso: o festival tem várias ficções na programação, e nós gostamos disso. Apesar de termos “doc” no nome, o festival acaba por acolher muitas ficções.

Mas também porque o mundo é um lugar cada vez mais complicado, mais difícil de ler. Se tivesse de apontar alguns fios condutores nesta programação, diria que há um esforço para falar do que está a acontecer sem mostrar exactamente o que está a acontecer. Temos muito poucos filmes gráficos — se pensarmos, por exemplo, nas guerras, nos conflitos, em toda a histeria e destruição que vai pelo mundo, o festival tem muito poucas imagens explícitas. O que está fora de campo é tão importante, ou quase tão importante, quanto o que está em campo. Essa foi uma nota importante para nós. Por outro lado, quisemos também dar espaço a filmes que abrandam, que não se compadecem com a voragem do nosso tempo e deste consumo imediato. Há muitos filmes, incluindo portugueses, em que esse respiro se sente. Penso que todos nós temos essa necessidade: de parar, pensar, observar e perceber o que andamos aqui a fazer.

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With Hasan in Gaza (Kamal Aljafari, 2025)

Pegando nessa ideia — dessa convulsão moderna que estamos a viver — e também nesse ponto de que programar um festival é um acto político: o facto de abrirem o Doclisboa com um filme sobre a Palestina também é um gesto político, uma espécie de alerta para o mundo. Hoje em dia fala-se cada vez mais da Palestina, já não em modo sussurrante, mas em forma de grito.

Sim, acho que chegámos a esse ponto … Do ponto de vista da consciência global, o mundo percebeu finalmente que era preciso falar disto a toda a hora, até que acabe. Esperemos que esteja prestes a cessar. O que foi feito não é apagável, mas que termine seria muito importante. Mas, sinceramente, há uns meses não era nada líquido que, ao chegarmos agora ao Doclisboa, este conflito estivesse já na boca de toda a gente. Fomos vendo festivais, cá dentro e lá fora, acontecerem com algum espanto, sem grande posicionamento em relação aos grandes temas. Este é, claramente, o grande tema, a grande mancha da Humanidade neste tempo: o que está a acontecer em Gaza.

Falámos muito sobre isso ao longo dos meses. A equipa (sobretudo o comité de selecção) estava muito alinhada em que não se podia perder uma característica essencial do festival: o seu posicionamento político. Tanto nas questões ligadas ao cinema em si, como nas questões globais que nos tocam a todos. Sabíamos que, num momento tão grave como este, não podíamos deixar que essa dimensão desaparecesse. É verdade que, entretanto, a realidade aconteceu. Felizmente, como dizia, há agora uma consciência, mesmo que às vezes soe um pouco hipócrita da parte de governos ou instituições, de que é preciso travar esta chacina em Gaza, e foi já há poucos meses, antes do festival, que encontrámos o filme do Kamal Aljafari [“With Hasan in Gaza”].

Não estávamos à procura de um filme sobre a Palestina e isso é importante referir. Tivemos muitas outras hipóteses em mente, pensámos noutros filmes para a sessão de abertura, com conotações diferentes, mas também sabíamos que não queríamos um filme “cool”, só porque sim. Não queríamos apenas um filme com pinta, que enchesse a sala e pronto. Este filme foi escolhido por duas razões. A primeira, e mais importante, é que cinematograficamente é um belo filme, um gesto cinematográfico muito bonito, de um realizador com uma carreira interessante e já relativamente conhecido em Portugal. É um filme cheio de vida e de esperança.

Não é um filme sobre a Gaza que existe (ou deixa de existir) hoje. É sobre uma Gaza de há mais de 20 anos, já então um lugar complexo, difícil, sitiado, ocupado, mas ainda assim um lugar de vida, não de morte. E isso é muito bonito. Além disso, o filme chega a ser divertido: é um road movie em que o Kamal regressa para tentar reencontrar um homem com quem filmou no passado, e acaba por criar uma relação com o condutor que o leva pelos territórios de Gaza. Portanto, a primeira razão foi o valor cinematográfico. A segunda, claro, é o gesto político. Estamos muito contentes por poder fazê-lo e esperamos que, no dia 16, o São Jorge esteja cheio. Não é um filme fácil de atrair público à primeira, porque as pessoas estão muito saturadas deste tema.

Mas deixo mesmo essa mensagem: é um filme cheio de vida, não de morte. Não vai assolar as pessoas. É um filme de memória e de resistência.

Os filmes que falam, de certa forma, sobre alguns conflitos que estamos a viver neste momento… Vou citar um exemplo que vi na altura da Berlinale: “When the Lightning Strikes Over the Sea”, da Eva Neymann, sobre a Ucrânia. Ela filma de uma forma muito distante da linguagem televisiva habitual. Quando programam este tipo de filmes, que, directa ou indirectamente, falam destes conflitos ou destas guerras, muitas delas quase infinitas, também procuram fugir ao formato visível e às imagens já cansadas, ou acrescentaria também pornográficas, que o público tem desses mesmos conflitos?

Sim, sem dúvida. Por um lado, há esse cuidado. Por outro, e talvez relacionado com isso, há a ideia de que a repetição do mesmo pacote visual, aquele mesmo grupo de imagens que circula em todo o lado, acaba por se tornar amiga da indiferença. Acreditamos que um filme como o da Eva Neyman, com a carga humanista que tem, consegue quebrar isso. Há logo nos primeiros minutos um rapaz que vagueia pelas ruas, aparentemente normais, mas onde se veem alguns prédios destruídos de Odessa. É muito impressionante. Estou aqui a falar disto e arrepio-me, porque atinge-nos de uma forma que já não sentimos ao ver, por exemplo, um prédio em ruínas no telejornal. Já estamos tão habituados a essa pornografia televisiva — como lhe chamaste — que deixámos de ser tocados. Por isso acreditamos que, através de histórias mais ligadas às pessoas e à vida, porque a vida continua, mesmo em meio à carnificina, conseguimos gerar debate, pensamento crítico e reflexão sobre estes conflitos sem recorrer a imagens gráficas. Essa foi precisamente a ideia de programar o filme da Eva, que é um dos filmes de que mais gostamos este ano. Também o vimos em Berlim e ficou logo connosco.

When Lightning Flashes Over the Sea (Eva Neymann, 2025)

Sobre a competição portuguesa, a nacional, acho que há aqui um grande esforço em reunir uma seleção coesa, e, como falava há pouco sobre o docudrama e o género híbrido, que estão cada vez mais presentes, pergunto: há uma certa disputa com o IndieLisboa, já que também programa vários documentários portugueses? Não há o receio de que alguns filmes se “percam” antes de chegar ao Doclisboa?

Sim, claro. Os calendários dos festivais, sendo diferentes, têm os seus benefícios e também os seus desafios. Há vantagens em realizarmos o festival em Outubro, por exemplo, acontece depois de Veneza, o que permite, às vezes, conseguir filmes grandes que reforçam a programação. Mas também há desvantagens: é já tarde no ano, e alguns filmes, por várias razões, preferem estrear mais cedo. Depois há factores mais práticos - o clima, por exemplo. Fazer um festival em Maio é mais agradável do que em Outubro [risos]. Mas pronto, esperamos que este ano corra bem.

No fundo, acho que há espaço para todos. Lisboa tem a sorte de ter dois festivais muito importantes e muito diferentes — o Doclisboa e o IndieLisboa —, e até o LEFFEST logo a seguir, que também acaba por partilhar alguns filmes. No caso do LEFFEST, a natureza é bastante distinta, mais eclética, e com outra capacidade de apoiar os filmes do ponto de vista da distribuição, por exemplo. De modo geral, não temos tido grandes dores de cabeça com isso. Acho que o trabalho que o festival tem feito, e que tentámos reforçar este ano, foi o de uma aproximação ainda maior às produtoras e aos realizadores portugueses. Não lhe chamaria “reaproximação”, porque o Doclisboa sempre esteve perto do cinema português, mas quisemos aprofundar esse diálogo.

Pessoalmente, tive a oportunidade de me encontrar com muitos produtores ao longo do ano (até porque este é o meu primeiro ano como diretor do Doclisboa), e, embora já conhecesse boa parte deles, foi importante conversar e perceber o que estavam a preparar, o que lhes interessava ou não. A verdade é que, por isso e por outras razões, conseguimos uma competição portuguesa de que estamos mesmo muito orgulhosos. Temos sete filmes em estreia mundial, talvez o número mais alto dos últimos anos. Não é que estejamos obcecados com as estreias mundiais, mas é um sinal de confiança: os realizadores e produtores confiam no festival para lançar os seus filmes.

Além disso, temos cineastas muito diferentes, em fases muito distintas das suas carreiras, desde a Rita Azevedo Gomes até ao Duarte Coimbra, por exemplo. Essa diversidade, entre alguém mais sénior e alguém mais jovem, é o lugar onde queremos estar. Também temos bons representantes desse registo híbrido, do docudrama, como o novo filme do Carlos Conceição, “Baía dos Tigres”, “Andar com Fé” do Coimbra, o “Explode São Paulo, Gil”, de Maria Clara Escobar, todos eles a explorar esse território que não é apenas documental, mas que tem os seus próprios passos e ritmo, e isso é muito estimulante.

Agora, passando talvez a um grande regresso no vosso festival — que esteve em Veneza e estará também presente no Doclisboa —, falo do Ross McElwee. Não só o regresso dele ao ativo, com o filme “Remake”, mas também aos circuitos dos festivais.

Sim, sem dúvida. O Ross McElwee é um autor muito querido do Doclisboa. Eu não estava no festival no ano em que lhe foi dedicada uma retrospectiva, mas já me contaram muitas histórias sobre essa passagem dele por Lisboa.

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Remake (Ross McElwee, 2025)

O Ross McElwee esteve vários anos sem filmar, e, embora isso não seja o mais importante, vale a pena referir que esteve afastado por razões pessoais muito duras, que estão, de certa forma, ligadas ao novo filme. Agora regressa ao ativo, passou já por alguns festivais importantes, como Veneza, e vem também ao Doclisboa, que, claro, é o seu espaço natural.

Enquanto Veneza foi a estreia, o Doclisboa é o segundo festival por onde o filme passa?

Não acompanhámos o percurso exacto. Quando não temos a estreia mundial ou internacional de um filme, não nos preocupamos tanto em seguir o circuito dele antes de vir até nós. Claro que, quando queremos garantir uma estreia mundial, isso é discutido diretamente com a produtora. Mas no caso de estreias internacionais, às vezes há dúvidas e é preciso confirmar se o filme não vai passar antes noutro país. De qualquer forma, creio que o filme já pode ter passado em mais alguns festivais.

O certo é que o próprio Ross, de forma muito honesta, anunciou em Veneza, numa conversa ao Público, que viria cá, e quisemos preparar tudo com cuidado para o receber bem. Ele ficou muito entusiasmado com a ideia de regressar a Lisboa. Vem acompanhado pela esposa e traz este filme muito pessoal, em que retrata a relação com o filho — entretanto já falecido. Obviamente, é uma dor que quase nenhum de nós consegue imaginar, mas podemos supor o que significa ter um filho e deixá-lo de ter. É uma das experiências mais duras da vida.

O Ross McElwee vem, portanto, não só mostrar o novo filme e retomar o contacto com os festivais, mas também participar num momento simbólico: uma conversa entre ele e a Cíntia Gil [dia 19 de outubro], que, como sabes, foi diretora do Doclisboa durante muitos anos e é agora programadora associada. Ela teve um papel fundamental neste desenho de programação que apresentamos este ano. E, além disso, já estava no festival na altura em que o Ross veio pela primeira vez, por isso vai ser um reencontro muito especial.

Aproveito para dizer que essa conversa com o Ross McElwee vai acontecer no Fórum de Debates da Culturgest. Criámos este ano um novo espaço de conversas com realizadores, algo que, pessoalmente, sentia que fazia falta. Muitas vezes, quando acompanhava o festival como parte da equipa, percebia que tínhamos convidados muito importantes a passar por aqui, mas, tirando os poucos minutos de Q&A depois das sessões (que muitas pessoas até evitam porque já estão cansadas), não havia um verdadeiro momento de diálogo. Então decidimos organizar seis conversas com realizadores este ano: quatro com cineastas internacionais e duas com realizadores portugueses. Entre as portuguesas, teremos o Eugène Green, com “A Árvore do Conhecimento”, e o Pedro Pinho, com “Riso e a Faca”. Entre os realizadores estrangeiros, teremos: Ana Negri, com “Toni, Meu Pai” (“Tonio, My Father”), e Deni Côté, realizador de “Paul”, que vai conversar com o Boris Nelepo, um dos nossos chefes de programação (a outra é a Cecilia Barrionuevo). E claro, entre essas conversas, está também a do Ross McElwee, que vem mostrar o seu novo filme, fará depois uma masterclass no Porto, na Universidade Católica, na Escola das Artes, e participa nesta conversa pública em Lisboa.

Acho que vai ser um regresso muito bonito e cheio de significado. Esperamos mesmo que o público apareça para ver este novo filme de um cineasta fundamental.

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Duran Duran: Unstaged (David Lynch, 2011)

Deixa-me só tocar num ponto … senão começam a bater em mim! [risos] … há uma secção muito querida aqui no Doclisboa. Refiro-me, obviamente, ao Heart Beat. Gostava que me falasse um pouco dela, nem que fosse um pequeno tour pela secção.

Sem dúvida, o Heart Beat é uma das secções favoritas do público. É uma secção que vai muito para lá da música, e por vezes as pessoas têm aquela ideia de que é “a secção de filmes sobre música”, mas na verdade é sobre expressões artísticas no seu sentido mais amplo, são filmes que nascem dessa relação entre o cinema e outras artes, e este ano isso é particularmente visível, desde logo nas três homenagens que organizámos: Uma delas é ao Robert Wilson, recentemente falecido, alguém muito conhecido do público português, do teatro, da performance, dos palcos. Temos um filme sobre a obra dele, uma recuperação de um filme dos anos 80, “Robert Wilson & the Civil warS" (Howard Brookner, 1986) e depois dois filmes mais experimentais realizados pelo próprio Wilson. Acho que vai ser uma das secções mais especiais deste ano.

Depois, celebramos também o centenário do Luciano Berio, figura incontornável da música contemporânea, e trazemos dois filmes à volta da sua obra. Há ainda dois filmes ligados ao David Lynch“Welcome to Lynchland”, em estreia portuguesa, e uma reposição de “Duran Duran: Unstaged”, um concerto filmado por Lynch, que já não passava em sala há imenso tempo. O Heart Beat também serve para isso: revisitar coisas que têm uma energia única e que vale a pena voltar a ver em grande ecrã.

Mas a secção também olha para o cinema português, e isso interessa-nos muito, sobretudo porque é uma secção mais festiva, mais celebratória. O festival, no seu todo, tem essa dimensão de celebração, mas o Heart Beat tem-na de forma ainda mais marcada. Por exemplo, vamos ter um filme da Solveig Nordlund sobre o Teatro da Cornucópia (“Memórias do Teatro da Cornucópia); um filme muito inesperado do Diogo Varela Silva, “Soco a Soco”, sobre o Orlando Jesus, um ex-boxeur que ainda dá aulas; e ainda um filme da Aline Belfort sobre o trabalho do João Fiadeiro, que passa aqui na Culturgest. É um filme que vai surpreender muita gente, navega entre várias expressões artísticas e reflete muito o espírito da secção.

Mas há outro momento que queria destacar, porque representa algo que o festival quer reforçar neste novo ciclo: a convocação de outras expressões artísticas para dentro da programação. Sempre com o cinema no centro, claro, mas abrindo espaço ao teatro, à literatura, à música e às artes visuais. Um bom exemplo é o filme da Joana Botelho, “Estava Escuro na Barriga do Lobo”, acompanhado por uma performance da Sara Carinhas, cuja prática artística o filme acompanha. Durante a projeção, a própria Sara vai intervir ao vivo, aqui na Culturgest.

Depois há momentos absolutamente imperdíveis: o novo filme do Pippo Delbono, “Bobò”, que é belíssimo; e “Cast of Shadows”, sobre a família Flaherty, uma homenagem aos primórdios do cinema. O último filme a entrar na programação, já mesmo no fecho, foi o “Megadoc” de Mike Figgis sobre a rodagem de “Megalopolis”, do Francis Ford Coppola. Foi uma verdadeira corrida contra o tempo para o conseguirmos ter, e só vai passar uma única vez, não é o filme de encerramento, mas será uma das últimas projeções, no dia 26, aqui na Culturgest. Achámos que terminar o festival com um filme de um mestre como o Coppola fazia todo o sentido.

 

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Megadoc (Mike Figgis, 2025)

Ainda por cima, cheio de dramas de bastidores! E em relação aos Riscos? A secção que adquiriu uma aura especial no ano passado, com a despedida do Augusto M. Seabra.

Sem dúvida. Os Riscos são, por excelência, a secção de curadoria do festival. Enquanto a Da Terra à Lua é quase uma panorâmica do que se faz no mundo, com filmes de autor, mas também alguns de maior público, os Riscos dão total liberdade criativa a quem programa. Pensamos a programação como um acto político, mas também como um ato criativo e essa secção traduz isso na perfeição. Os Riscos são programados sobretudo pela Cíntia Gil, embora haja contributos de várias pessoas do comité de seleção. Há também colaborações especiais e programas paralelos.

Por exemplo, temos artistas convidados muito interessantes este ano. Um deles é Trương Minh Quý, realizador vietnamita pouco conhecido em Portugal, de quem mostramos três ou quatro filmes e recomendo começar por “Hair, Paper, Water …” (2025). Do Egipto, chega a Hala El-Khoussi, uma realizadora que para mim foi uma verdadeira descoberta. Há nela algo de felliniano — mistura teatro, cinema, palavra, tudo. Os filmes têm uma energia incrível e ela vai estar connosco no festival. Depois há um programa de que gosto particularmente, Shadowboxing, feito em parceria entre a Cíntia e o Jean-Pierre Rehm, que foi durante muitos anos diretor do Festival de Marselha e estará também presente em Lisboa. O ponto de partida é o filme “Two Meters of This Land”, do palestiniano Ahmad Natche, já falecido, e a partir daí criaram um jogo dialético de sessões que se respondem entre si. É um dos momentos mais especiais da programação, vale mesmo a pena seguir.

E, claro, há muitas outras descobertas: destaco, por exemplo, “As Aventuras de Gabriel Veyre pelo Mundo”, sobre uma figura fascinante do cinema primitivo, e “Na Alcova do Sultão” (“En la alcoba del sultán”), do espanhol Javier Rebollo, que dialoga com esse mesmo universo. Portanto, um breve sobrevoo pelos Riscos, que estão cheios de coisas incríveis para descobrir.

Queria que falássemos sobre o William Greaves, a retrospectiva. Até porque a informação que tenho, já agora, de um dos responsáveis pelo ciclo, Luís Mendonça, que afirma que Greaves é bastante desconhecido, até mesmo nos Estados Unidos.

O William Greaves surgiu dessas conversas sempre muito frutíferas que temos com a Cinemateca. Costumamos “bater bola” até chegarmos a um consenso, e gostamos mesmo que seja um consenso entre o festival e a Cinemateca, no que toca à retrospectiva. O Doclisboa chegou a ter duas retrospectivas por edição, mas percebemos que fazia mais sentido dar espaço a pequenos focos e concentrar esforços. Duas retrospectivas exigem muita energia, e achámos que não era produtivo.

A relação com a Cinemateca já dura há muitos anos e é muito equilibrada para ambas as partes. Este ano, tivemos um verdadeiro final feliz — chegámos ao nome do Greaves. Alguns de nós conheciam-no vagamente, outros nem isso, e fomos todos mergulhar no trabalho dele. Foi uma grande descoberta! Percebemos logo duas coisas muito rapidamente: primeiro, nunca houve uma retrospectiva completa do William Greaves, nem nos Estados Unidos nem fora. E, ao mesmo tempo, ele tem um seguimento quase de culto — há muitos textos de críticos norte-americanos influentes sobre a obra dele, pequenos programas em que se mostravam um ou dois filmes, e títulos de culto como “Symbiopsychotaxiplasm: Take One” (1968) e “Symbiopsychotaxiplasm: Take 2 ½ ” (2006).

E o curioso é que, quando a maior parte de nós esperava encontrar um cineasta afro-americano que tratasse sobretudo de questões raciais ou da luta de classes e dos direitos civis, o que encontramos foi um artista incrivelmente experimental. Claro que esses temas estão presentes, mas o que mais se destaca na obra dele são os gestos de maior rasgo artístico: a invenção formal, a ousadia, o olhar criativo sobre o real. Há filmes belíssimos sobre o conflito social e racial, sim, mas o que impressiona mesmo no Greaves é o facto de ele ser um artista completo, quase um homem renascentista, como dizia o Luís Mendonça numa conversa. Ele escreveu canções, foi actor (e vamos mostrar vários filmes em que ele atua), realizou documentários e experimentou formatos que, ainda hoje, parecem modernos.

Por isso, esta retrospectiva é muito especial. Fizemos um investimento maior do que o habitual, não só na programação, mas também para trazer a família do Greaves: o filho, David Greaves, e a neta, Liani Greaves, vão estar cá em Lisboa. Curiosamente, sem sabermos no início, acabámos por antecipar um grande programa internacional de homenagens, porque, ao que tudo indica, o próximo ano marca o centenário do nascimento do William Greaves, ou, pelo menos, uma data redonda (se não forem cem, serão noventa anos). Portanto, o Doclisboa, de certa forma, está a abrir esse ciclo de redescoberta.

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Frederick Douglass: An American Life (William Greaves, 1985)

Acho que o festival vai ter um papel importante nessa redescoberta do Greaves, tanto em Portugal como lá fora. É uma obra singular, de uma liberdade e modernidade impressionantes. O trabalho de curadoria feito pelo Luís Mendonça e pelo Scott MacDonald, que convidámos para ser o programador associado desta retrospectiva, foi excepcional e contou também com o apoio da equipa toda do festival. Tenho mesmo a certeza de que quem se der ao trabalho de acompanhar esta retrospectiva vai descobrir um cineasta absolutamente surpreendente.

Para último tópico. O Tribeca apareceu no ano passado, decorreu em simultâneo e, digamos, quase roubou o foco ao Doclisboa. Mas Paula Astorga, directora do Doclisboa no ano passado, em algumas entrevistas, desvalorizou o evento e insistiu sempre que o Doclisboa era o único festival de cinema a acontecer naquela altura. Tendo em conta que este ano o Tribeca cresceu, e parece querer afirmar-se como festival de cinema, para apaziguar o flop no ano passado, este cruzamento não vai interferir com o Doclisboa, nem em termos de fundos?

Começando pelo ano passado, acho que foi um ano infeliz para a Câmara Municipal. Terem decidido lançar um evento como o Tribeca sem olhar para o calendário foi, acima de tudo, uma falta de atenção. Não creio que tenha sido propositado, mas isso não o torna menos grave. Aliás, é até mais preocupante: ninguém pareceu reparar que as datas coincidiam com o primeiro fim de semana do Doclisboa.

Foi, de facto, uma decisão infeliz. A APORDOC fez questão de o assinalar imediatamente junto da Câmara, e a verdade é que este ano não voltaram a cometer o mesmo erro. A Câmara reconheceu o problema, desculpou-se formalmente com o festival, o que, a meu ver, é o gesto correto. Agora, olhando para o presente e o futuro: a decisão da Câmara foi continuar com o evento, e não lhe chamo “festival” porque, sinceramente, não me parece que seja um festival de cinema, é outra coisa.

Claro que, quando vemos os valores que foram atribuídos ao Tribeca e os comparamos com aquilo que o Doclisboa recebe, é inevitável sentir que há algo que não está certo. Mesmo assim, o Doclisboa do ano passado manteve-se forte: não acho que o Tribeca tenha conseguido roubar-nos o foco. Tivemos mais de 20 mil espectadores, um número semelhante aos anos anteriores. Mas não deixou de ser um episódio desagradável, um erro infeliz da Câmara, como disse.

Quanto aos fundos — já o disse há pouco tempo ao Público, num artigo sobre os atrasos nos apoios a alguns festivais —, o Doclisboa já recebeu o valor atribuído pela Câmara Municipal para este ano, e esse valor aumentou 15%. Não era atualizado há bastante tempo. No ano passado, o presidente da Câmara chegou a dizer que o financiamento ao Tribeca tinha sido compensado com um aumento aos outros festivais, o que não era verdade, e nós desmentimos isso publicamente. Este ano, sim, houve finalmente uma atualização real.

E é um sinal positivo. Ainda assim, acho que o Doclisboa — e também outros festivais sérios da cidade — merecem um investimento maior. Porque o Doclisboa tem uma escala e um impacto indesmentíveis. Estamos a falar de centenas de convidados internacionais, não de 20 ou 30 pessoas. Isso significa ocupação hoteleira, movimento cultural e económico na cidade durante várias semanas. Mesmo que esse não seja o nosso foco principal, o festival tem um peso concreto na vida cultural e social de Lisboa.

Mas, mais do que números, o que nos importa é fazer o festival bem: tratar bem os filmes, os cineastas e o público. São esses os três vetores que nos guiam, e não a obsessão com quantidades. Ainda assim, é importante reconhecer o que o Doclisboa representa: é o único festival português com uma competição internacional de cinema, com estreias mundiais e internacionais, o que é um trabalho árduo e muito desafiante.

Por isso, sim, acho que o Doclisboa merece ser tratado com carinho e respeito pelos agentes políticos e culturais da cidade. O sinal deste ano foi bom, mas veremos o que acontece a seguir, até porque teremos eleições antes do festival. Quanto ao Tribeca, a Câmara tomou as suas decisões e decidiu continuar com o evento, apesar do que aconteceu no ano passado. Mas, sinceramente, o Tribeca tem muito pouco a ver com cinema, e ainda menos com o cinema que nós defendemos no Doclisboa.

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Confira toda a programação do Doclisboa '25 aqui

“Um festival com filmes que mudam o mundo". CineEco arranca com 31ª edição sob o mote da urgência, educação e ambição

Hugo Gomes, 09.10.25

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A New Kind of Wilderness (Silje Evensmo Jacobsen, 2024)

Não é nenhum “31”, apenas a 31ª edição do CineEco Seia - Festival Internacional de Cinema Ambiental, a decorrer na referido município da Serra da Estrela (de 10 a 18 de Outubro), por entre o selvagem, por entre a lembrança de um ecossistema a merecer preservação, com a máxima urgência. Mas é no cinema que nos debruçamos, ou melhor o festival debruça sempre com olhar para o horizonte da sua temática, e nesta 31ª mostra, com claras atenções à emergência climática, e com foco no debate, na educação, formação e na construção de novos públicos que coexistem com a cinematografia e a ecologia. 

Tiago Alves, programador e crítico, avançou-se para responder pelo festival ao Cinematograficamente Falando …, da longevidade, do legado, do futuro, do presente em construção e ainda sobre a memória. CineEco, que ao 31º ano de existência, renova os seus votos de festival único, mas não exclusivo, neste panorama nacional e … como também internacional. 

O CineEco celebra 31 edições, um número notável. Qual considera ser o segredo da sua longevidade e que principais desafios surgiram na concretização desta 31.ª edição?

Penso que um dos segredos para a longevidade do CineEco é a presença do Lauro António. Pensando um pouco, é a consistência de programação, que se deve, obviamente, à forma como o Lauro António consolidou o festival durante grande parte do seu tempo de existência, mas também ao Mário Branquinho, que foi programador no CineEco durante 24 ou 25 edições, reforçando o espírito do festival, posicionando-o num lugar bem distinto, com relevância internacional, do ponto de vista destes eventos que se dedicam às programações ambientais.

Nesse sentido, o CineEco foi pioneiro, e é pioneiro, em Portugal. Ninguém retira a um festival de cinema documental, com essa característica temática, esse lugar. Mas deu também muita atenção internacional, e isso se sente hoje, quando nós fazemos o nosso trabalho de programação. Continuamos a receber muitas propostas de realizadores que estiveram presentes, como também de produtores e distribuidores que conhecem o festival, mas, sobretudo, de uma rede de contactos que se estabelece a partir desses fóruns, desse espaço, e também de outros festivais que não têm a mesma antiguidade, que surgiram noutros países depois do CineEco e até com inspiração nele, e hoje continuam ligados ao festival.

Não é uma rede evidente. Os filmes produzidos com uma especificidade ambiental, ou com uma preocupação relacionada com o ambiente, não fazem forçosamente o circuito dos festivais principais. Muitos deles encontram dificuldades de exibição, porque podem ser feitos em condições muito precárias, do ponto de vista produtivo. Enfim, alguns encontrarão esse espaço em festivais mais generalistas de cinema documental, mas há, verdadeiramente, um circuito de festivais com temática ambiental e o CineEco, aí, tem um peso muito específico.

O que temos feito, em anos recentes, para prolongar, dar longevidade ao CineEco, enquanto programadores que chegámos ao festival e, de certa forma, recebemos esta herança do Lauro António e do Mário Branquinho, é, obviamente, manter essa ligação. Sobretudo, procurar afirmar, através da programação, o espaço do CineEco no panorama dos festivais nacionais. Torná-lo mais relevante para o público em Seia primeiro, mas também para o público além de Seia (um público interessado em cinema, profissionais do próprio cinema) e encontrar aqui algumas opções de programação que posicionem o CineEco no contexto dos festivais nacionais.

Olhando para outros festivais mais generalistas de cinema documental, olhando para o CineEco e, em simultâneo, para esses festivais, procurando que o CineEco tenha uma relevância maior na relação com os seus congéneres que acontecem sobretudo em Lisboa e no Porto. Mas há também outros exemplos de festivais de cinema documental, ou até com preocupação ambiental, a acontecer fora das duas grandes cidades.

A presença de alunos das escolas de Seia é sublinhada como essencial nestes debates. Tendo conhecimento da expansão de movimentos negacionistas climáticas, inclusive a sua popularidade em camadas mais jovens, com associações de certas frentes políticas, que impacto terá estes debates ou formações na conscientização ambiental e até cívicas? Ou, de uma forma mais abstracta e pertinente, o cinema deve deter um papel formador ou pedagógico?

O cinema tem uma relação muito forte com o público escolar. Ou seja, com os professores do agrupamento de Seia, mas sobretudo com os jovens, de todas as faixas etárias, de todas as idades. Enfim, começando pelos mais novos: nós temos, durante o próprio festival, uma programação de curtas-metragens de imagem animada, com uma diversidade de propostas do ponto de vista estético-visual, mas também temático e narrativo, que os envolve. Durante a semana do festival, nas manhãs, organizamos sessões em que os alunos vão ao cinema — saem da escola e vão ao cinema — os mais novos, para acompanhar a nossa programação de curtinhas.

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After the Snowmelt (Yi-Shan Lo, 2024)

O termo “de estudo” pode até não parecer adequado, porque estamos a falar de filmes de animação, mas depois podem ser trabalhados (isso já depende dos professores, claro) em contexto educativo, em sala de aula, nos meses seguintes. É óptimo, porque o festival acontece no início do ano letivo, o que permite esse prolongamento pedagógico. Alargamos também essa programação, tentando promover hábitos de frequência de cinema: criar momentos que sejam satisfatórios, do ponto de vista da ida ao cinema. Expandimos aos alunos mais velhos, do básico e do secundário, portanto além do ensino primário e pré-escolar, com uma programação que podemos considerar, obviamente, mais adulta.

Nesse eixo, não fazemos apenas exibição de filmes com uma proposta ambiental, procuramos enriquecer as sessões com a presença de convidados. Tentamos todos os anos que as temáticas sejam relevantes, com um foco nacional, mas também trazendo uma ou outra proposta que introduza um olhar mais amplo sobre problemáticas noutros territórios. Neste ano, essa programação está até mais bem estruturada do que em anos anteriores. Por vezes o que acontecia era o envolvimento dos alunos em sessões integradas na programação competitiva principal, promovendo o encontro com o realizador convidado. 

A programação está mais definida: nos dias úteis da primeira semana do festival (de segunda a sexta-feira) vamos propor quatro documentários que integram o “Cinema em Debate”. São quatro filmes que, do nosso ponto de vista, têm qualidade cinematográfica e são inéditos em Portugal, mas que não foram incluídos na competição, nem na de língua portuguesa, nem na internacional de longas-metragens, e permitem encontrar realizadores que, no último ano, abordaram temáticas ambientais que nos parecem relevantes. Esse ciclo “Cinema em Debate” está estruturado com perspectivas muito diferentes: temos uma dimensão etnográfica (muito habitual no cinema documental exibido no CineEco) mas também abordagens mais dirigidas para a restauração dos ecossistemas, para questões hídricas, energéticas, ou seja, utilização, preservação e gestão sustentável dos recursos. Essas são as quatro grandes temáticas que vamos apresentar.

Curiosamente, não sentimos, indo à tua observação, que o pensamento negacionista seja algo presente, ou que esteja em crescimento. Não é, de todo, dominante. Encontramos aqui um público que, pela vivência num espaço natural como é a Serra da Estrela, e também pela própria cidade de Seia, possui uma sensibilidade particular para estes temas. Quase já estão “convencidos”, digamos assim [risos]. Os filmes apresentam-se sempre, claro, mas não sentimos que nos debates haja surpresa face ao que os filmes propõem. É um público sensibilizado … diria até esclarecido … e que muitas vezes faz caminho ao lado do CineEco.

Porque, se pensarmos que estamos a trabalhar com turmas que têm alunos que vão crescendo, transitando de ano, e que no seguinte voltam ao CineEco, percebemos que são claramente espectadores do futuro. São espectadores que ganham essa consciência, dando verdadeiro sentido ao nosso lema de ser “um festival com filmes que mudam o mundo.”

A exibição de “Terra de Pão, Terra de Luta” (José Nascimento, 1977) e “Linha Vermelha” (José Filipe Costa, 2012) convoca a Reforma Agrária e a memória coletiva do pós-25 de Abril. É um gesto de resistência à amnésia cultural ou um sintoma de nostalgia que recorre ao arquivo sempre que o presente se revela demasiado complexo para ser lido no imediato?

Começando pela curiosidade do arquivo. Sim. Em anos recentes, a Cinemateca e o ANIM, o Arquivo Nacional das Imagens em Movimento, criaram condições, técnicas e humanas, para restaurar mais cinema português. Isso é conhecido, pelo menos, no meio do cinema. Esse processo foi desenvolvido através de um projeto de financiamento estruturado pelo FILMar, que entretanto terminou, mas que nos deixou um importante conjunto de filmes restaurados em dois ou três anos. Sobretudo, deixou um processo em andamento, todos os anos a Cinemateca vai entregando mais cinema “reencontrado”. Gosto muito desta expressão, que vem de um festival italiano de cinema clássico [Il Cinema Ritrovato, em Bolonha], talvez o mais relevante no mundo dedicado ao cinema restaurado.

Portanto, sim, há essa relação com o cinema reencontrado, redescoberto, e uma relação que o CineEco criou com a Cinemateca Portuguesa nos últimos anos. É uma opção de programação afirmada por esta equipa de formas diferentes. Já fizemos, há três anos, sessões de abertura com cinema clássico, ainda no contexto do FILMar. Temos procurado, dentro da nossa programação, criar momentos, sejam curtas, longas, ou sessões duplas, que relacionem filmes de tempos diferentes: um mais antigo, mais clássico, e outro contemporâneo que o complemente. Fizemos isso nos últimos dois anos, e é o que voltamos a fazer agora.

Portanto, há aqui uma atenção ao trabalho da Cinemateca, mas também, como dizias e muito bem, um gesto de resistência: uma programação que resiste, que olha para o território, para o que foi preservado, para o que se manteve positivo ao longo do tempo. Tentamos perceber o que determinados filmes nos dizem sobre o passado, e que relevância isso tem para o nosso presente e para o futuro. É um gesto de resistência, não no sentido de dizer que precisamos de uma nova reforma agrária, como a de há 50 anos, em vários latifúndios e territórios, feita de forma quase armada, com os próprios instrumentos agrícolas como ferramentas de luta. E sim para lembrar que “isto aconteceu”. Em boa verdade, a reforma agrária teve o seu epílogo, no contexto político, social, económico e ambiental da época. Não produziu todos os efeitos esperados, mas teve virtudes. É isso que queremos revisitar: perceber, através dessa memória, que virtudes e que lições ficaram.

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Terra de Pão, Terra de Luta (José Nascimento, 1977)

Se calhar, em 50 anos, a reforma agrária não cumpriu totalmente a sua promessa: a de uma agricultura mais sustentável, mais ligada às pessoas. Tal leva-nos, naturalmente, a reflectir o agronegócio. Num país como Portugal, o agronegócio não tem a dimensão quase “diabólica” que se vê no Brasil, nos Estados Unidos ou na Ucrânia — grandes produtores agrícolas — mas ainda assim temos hoje grande parte do território agrícola em regime de monocultura. É um problema que, ano após ano, se reflete na programação do CineEco. Eu diria que há dois temas recorrentes: os direitos dos povos indígenas sobre o seu território e a forma como preservam a natureza e os habitats, nomeadamente na Amazónia , e a questão do agronegócio, que está muito ligada a essa vivência e à relação das comunidades com o território.

Esta programação, para além do gesto político de lembrar os 50 anos da reforma agrária, que também coincide com os 50 anos do 25 de Abril e do próprio ciclo democrático, é também uma forma de dizer que há hoje um “cansar-se” da prática agrícola atual. É isso que nós pretendemos mostrar.

Sendo o único festival português exclusivamente dedicado ao cinema ambiental, não teme o CineEco ficar preso a uma bolha temática, quando as questões ecológicas hoje atravessam praticamente todas as áreas do cinema contemporâneo?

É uma boa questão, sabe? Porque nós sentimos que o CineEco pode, de facto, ficar nesse lugar mais fechado, digamos assim, do ponto de vista temático, mas, curiosamente, não deve abdicar de o fazer, porque foi um festival pioneiro — o primeiro a colocar na sala de cinema filmes que refletem sobre as nossas preocupações ambientais — e, de repente, tornou-se… ou seja, foi um festival à frente do seu tempo, e continua a procurar acompanhar este tempo. Muitas vezes, encontramos no cinema ambiental as melhores respostas para as nossas preocupações. Mesmo não estando hoje “à frente do tempo” (porque este é um tempo em que todos nos preocupamos com a extinção das espécies, ou vivemos com essas preocupações), o festival continua a apresentar propostas que estão muito à frente daquilo que vemos no cinema que não tem esta temática ou agenda ambiental.

Portanto, sim, estamos dentro de uma bolha (para usar a tua expressão) mas é uma bolha que cada vez mais reflete problemáticas, histórias e narrativas que vão além da agenda climática. Exemplos disso encontramos, por exemplo, na nossa programação deste ano. Há uma presença muito humana nos dez filmes que vamos estrear na competição internacional. Só para olhar para esses dez: há um filme chamado “A New Kind of Wilderness” (2024), um filme norueguês de Silje Evensmo Jacobsen, que acompanha uma família que procura romper com uma vivência mais urbana e encontrar uma existência mais livre e selvagem.

Julgo que a maior parte das pessoas nem imagina que, em certos pontos da Europa, sobretudo no Norte, as raposas são usadas como animais domésticos e é isso que vemos num thriller, “Pet Farm” (Finn Walther & Martin A. Walther, 2025). Mas há também um filme surpreendente na programação, que nos remete para uma dimensão eco-ansiosa, chama-se “Climate in Therapy” (Nathan Grossman, Olof Berglind & Malin Olofsson, 2024), que coloca sete cientistas do clima em sessões de terapia, onde procuram lidar com as suas emoções. Ou seja, percebem que têm as respostas para os problemas ambientais do planeta, mas que ninguém as aplica devidamente, e isso gera uma “eco-ansiedade”.

Portanto, sim, estamos dentro de uma bolha, mas é uma que se expande, porque reflete cada vez mais sobre o mundo, as pessoas, as emoções, e não apenas sobre o clima em si. O festival não pode sair desse lugar, mas temos procurado, nos últimos anos, encontrar caminhos que retirem o CineEco dessa bolha, ou, melhor dizendo, que a façam crescer. Dou-te um exemplo: há sempre filmes que nos colocam nesse lugar de dúvida, em que de repente nos perguntamos “qual é a relevância ambiental deste filme?”.

Este ano, na sessão da meia-noite, decidimos estrear em Seia — fora de competição — o “Sirât”, de Oliver Laxe. Simbolicamente, porque o Oliver Laxe foi premiado aqui em 2018, com “O Que Arde”, em competição internacional. O filme já tinha estreado em Portugal, por isso não o poderíamos apresentar como estreia nacional, mas ainda assim decidimos integrá-lo fora de competição, nesta nova linha de programação: a sessão da meia-noite, algo inédito no CineEco. Normalmente, quem vê “Sirât”, ou mesmo “O Que Arde”, pode não identificar imediatamente a sua dimensão ambiental. Mas ela está lá, é uma dimensão de apocalipse, que passa pela nossa ação e pela nossa relação com o território e o lugar onde vivemos. É uma proposta não ambiental no sentido estrito, mas que nos permite refletir sobre o colapso e o apocalipse ambiental.

Sim, acredito muito que a ecologia tem mais a ver com a preservação da nossa espécie do que propriamente da Terra, porque a Terra já nos deu sinais de que é capaz de recuperar de toda uma extinção em massa, nem que precise milhões de anos para o fazer. Já uma espécie, depois da extinção …

Exactamente. Só para concluir … Ou seja, a nossa programação tem procurado encontrar caminhos, através de algumas propostas, que retirem o cinema que apresentamos dessa bolha que referiu, ou da possível existência de uma bolha.

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Sirât (Oliver Laxe, 2025)

Que caminhos o CineEco poderá desbravar nas futuras edições? Quais os objectivos ou projecções?

Um dos desafios que o festival enfrenta, e isto, obviamente, diz mais respeito à Câmara Municipal, enquanto entidade organizadora, mas, do meu ponto de vista, enquanto elemento da programação, e alguém que já acompanha o festival há alguns anos, posso afirmá-lo publicamente, mesmo sem ter essa responsabilidade direta: é tornar mais densas as extensões, chegar a mais cidades.

Nós temos dez filmes em estreia na competição internacional. Vamos estrear em Portugal Linha de Água”, de Rui Simões, um filme sobre o artista Vítor Gama, que vai dar também um concerto na noite de abertura. Este é um cinema que pode — e deve — ser programado em qualquer cidade, porque desperta o interesse de qualquer público. Se há um gesto de urgência na nossa programação, ele deve ser levado mais longe. Os filmes são suficientemente interessantes para chegar a um público muito mais vasto. Muitos deles não estreiam depois da exibição no CineEco, deixam de ser visíveis. Alguns ainda estreiam noutros contextos, mas há um número considerável de filmes muito interessantes que, simplesmente, não chegam às salas nacionais.

Outro objetivo, que também reforça a programação e a relação com o público (especialmente o mais especializado) é o Mercado de Cinema, que lançámos na 30.ª edição, há um ano. Vamos agora promover a segunda edição, no dia de abertura. É um espaço de encontro entre jovens criadores, profissionais, alunos das academias e escolas superiores de cinema, que apresentam os seus projetos a um painel de convidados com experiência na área, sobretudo na distribuição e produção.

É um encontro que permite, a partir dos filmes já concretizados ou ainda em desenvolvimento, trocar impressões e contribuir para que estes alunos e jovens realizadores saiam dali mais preparados, mais confiantes, e com vontade de continuar a criar. Fazer uma reflexão que não é maioritariamente ambiental mas que pode obviamente passar por esse tema nos filmes que procuramos apresentar nesse espaço mais fechado de mercado. Mas é sobretudo um espaço para estes jovens estudantes de cinema em Seia, e uma oportunidade para se encontrarem e debaterem com profissionais do nosso cinema, como é o caso deste ano de Rui Simões, que dá-nos o prazer da sua presença e de Pedro Fernandes, dois produtores diferentes. Curiosamente um deles é um dos antigos na área documental em Portugal [Simões] e o outro, um jovem [Fernandes] que tem a sua produtora, A Primeira Ideia, com uma visão bem enquadrada no território e na paisagem. É um brilhante painel, a servir de reforço para os alunos presentes, oriundos de três escolas de cinema: UBI, Lusófona e ISMAT.   

Toda a programação poderá ser consultada aqui

Eduardo Serra (1943 - 2025): pintando telas em tom de pérola

Hugo Gomes, 22.08.25

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Girl with a Pearl Earring (Peter Webber, 2003)

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O Delfim (Fernando Lopes, 2002)

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Unbreakable (M. Night Shyamalan, 2000)

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A Promise (Patrice Leconte, 2013)

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A Mulher do Próximo (José Fonseca e Costa, 1988)

Fados (Carlos Saura, 2007)

 

Um dos nossos nomes mais internacionais deixou-nos, após uma homenageada “Carta Branca” e ciclo na Cinemateca. O fantasma da sua ausência fazia-se sentir nos corredores e nas salas de projeção, até que alguém disse: “Está doente, é uma pena… era muito talentoso.” O derradeiro chegou e, com ele, a força das manchetes. O que dirão perante obra afiada e olhar aguçado? Valorizarão apenas o facto de ter ido para Hollywood e de ter assinado um dos “Harry Potter”? Já esse ciclo continha uma mensagem clara: há sempre mais por onde olhar no cinema de Eduardo Serra. A sua internacionalização não deve ser desmedida para os puristas; a sua sensibilidade fotogénica enche telas … e se as enche!

Pedro Almodóvar entre sexo e cirurgia!

Hugo Gomes, 09.08.25

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Tão diferente e, no entanto, inconfundivelmente Almodóvar. Em “La piel que habito” há, quase, um regresso à ironia e às envolvências trash dos primeiros passos do cineasta, hoje, porém, definido como autor melodramático, e cujo tom se impregnou e maturou nas obras seguintes (Dolor y gloria”, “The Room Next Door). Contudo, o risco aqui foi outro para além de um mero intervalo na sua progressão criativa, um aceno a um território pouco habitual: o terror. Não no sentido da “parafernália dos medos e dos sobressaltos” [excerto da entrevista à Positif], mas sim do lírico - um terror de pele, literal e metafórico -, o corpo como superfície e como segredo, e é através dessa epiderme, um objeto fílmico à parte.

Mas voltando à pele, o maior órgão do corpo humano, protagonista e testemunha de um desconforto estético (e também de desconcertância), ela reflete-se num contido body horror oleado no camp e num queer formalmente seco, mas nunca transparente. António Banderas é o eixo trágico: um cirurgião consumido por uma tragédia que prepara uma perversa vingança, num gesto que respira mais Frankenstein do que romance almodovariano. É o regresso do actor aos braços do cineasta (passados 22 anos para sermos exactos, desde “Átame”, para sermos claros), compondo uma personagem onde obsessão, loucura e desejo se misturam numa ambivalência cruel. O grotesco está nas suas práticas e não no seu exibicionismo, transformando-a num exercício visual de provocação e incómodo, o primeiro ao estabelecido, o segundo à sugestão.

E quanto a Elena Anaya? A “boneca” da máscara facial? Uma revelação merecida. Entre a inocência e o espectro, ela é o coração saltitante do filme, na fragilidade envidraçada de uma inocência embusteira com a perversão acidental. Aliás, o elenco todo partilha uma coesão inquietante que ajuda a transformar o conto num dispositivo quase cronenberguiano (sem o excesso explícito, grotesco e filosófico, convém sublinhar), onde as transmutações corporais, identidade e poder — temas caros a Almodóvar — são reconfigurados e injetados num melodrama “troiana” em clínica do horror.

O mise-en-scène mantém a impressão digital do autor: cor, composição, obsessão pelo detalhe, mas há uma mudança de registo: menos florido, mais cirúrgico, e vez em vez uma quantas piscadelas ao delírio plástico de outrora (o “tigre” e a sua vítima, malabarismo da absurdidade e da comédia negra e violenta). Planos que se cortam como bisturis; silêncios que pesam; um jogo de perspectivas que desmonta a empatia do espectador. O filme é, em muitos momentos, uma experiência emulada num desconforto calculado. Pergunta-se: até que ponto o cinema pode, ou deve, explorar a fronteira da amoralidade sem se transformar em mero espectáculo de choque? Ou melhor, o género é algo mais, ou menos (conforme a perspectiva), de peles habitadas? Os "nómadas" existiram nesse universo?

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Baseado em Tarantula” (livro do escritor francês Thierry Jonquet), o filme é uma quimera na filmografia de Almodóvar: híbrido entre o seu universo temático (desejo, culpa, identidade) e um cinema de invenção sombria. Não é um regresso ao maneirismo antigo na sua mais genuina forma (não há retrocesso algum) nem uma traição ao seu estilo corrente (as pontes são feitas, da sua habitual salada de frutas ao “queer mainstream” no qual popularizou). É, antes, uma transposição: uma ampliação do vocabulário emocional para um campo menos complacente, uma espontaneidade que acaba por transfigurar a previsibilidade da sua trajectória.

Mas claro que há um fantasma por estes ateliers. Para quem quiser mapear filiações e ecos, pode muito bem (re)visitar George Franju e o seu “Les yeux sans visage” (1960) — obra gótica que dialoga com a ideia da pele como máscara e ferida. Ah, a máscara… impossível fugir a essa referência! E, na genealogia, pensar também em Frankenstein, Cronenberg, Waters, Aranda, melodrama ibérico ["almodrama"]: parentes incómodos, todos sentados à mesma mesa (mais tarde, Walter Hill entraria no jogo, muito menos consensual, ao transformar Michelle Rodriguez num igual corpo de vingança em “The Assignment”).

Disse-o em tempos, e persigo a afirmação como ninguém: é um dos [meus] filmes da década de 2010–2019. Mesmo que referencial, é sintoma comum desta viragem de século. Quem sabe se o cinema não se reinventa com as suas referências, podendo modernizar-se com a sua reverência. Hoje, olhando para trás, “La piel que habito” é a criação de um melodramático sardónico que deseja experimentar, como ar fresco tomado de uma janela aberta.

A marca distinta do Massacre!

Hugo Gomes, 01.08.25

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Nunca o som de uma motosserra foi tão aterrador! No início dos anos 60, Alfred Hitchcock trouxe ao cinema uma figura até então pouco explorada (sugerida, mas nunca assumida), mas que, com o tempo, se tornaria peça central na ficção: o psicopata. “Psycho (1960), uma das suas obras-primas do suspense à lá Hitchcock, apresentaria Norman Bates (Anthony Perkins), um assassino travestido, assombrado pelos fantasmas de um passado opressivo e moldado por uma educação castradora. Inspirado, ainda que livremente, no infame assassino do Wisconsin, Ed Gein (1906 - 1984), Norman foi apenas o formalmente “primeiro” de muitos. A história de Gein serviria de base não só para Hannibal Lecter, a criação literária de Thomas Harris, mas também para a criação de um dos ícones mais perturbadores do terror moderno: Leatherface, o “rosto” macabro de “The Texas Chainsaw Massacre” (1974), de Tobe Hooper.

Ainda hoje um das obras de terror mais influentes de sempre, “O Massacre no Texas” (título traduzido) foi pioneiro na violência gráfica, elevando o terror a um novo patamar. Produzido de forma independente com um orçamento reduzido de apenas 15 mil dólares, chocou uma geração e redefiniu o género, consolidando o subgénero do road trip horror movie. Mesmo hoje, continua a ser uma referência incessantemente imitada. O filme de Hooper é um verdadeiro pesadelo capturado em película, a sua estética crua e de baixo custo reforça a sensação de realismo e degradação, nasty até, enquanto a narrativa fareja os arquétipos do documental, tudo em nome da credibilidade possível, conduzindo o espectador a uma experiência exaustiva e opressiva. Mais do que um mero exercício de terror, “The Texas Chainsaw Massacre" funciona como uma incursão à mente de um psicopata, expondo uma loucura descontrolada e visceral, sem nunca subestimar a disfuncionalidade familiar nas caudas dos devaneios violentamente glorificados.

No coração desta história está uma família de maníacos consanguíneos, de sotaque cerrado e completamente insanos e para piorar o retrato, canibais. Dentro deste lar desestruturado, emerge Leatherface (Gunnar Hansen), o grande psicopata / assassino do filme, uma evolução das arestas afiadas por Hitchcock. Munido da sua icónica serra elétrica e oculto por uma máscara contrafaturado por pele humana, Leatherface tornou-se uma das imagens mais aterradoras da história do terror moderno. Inspirado no caso real de Ed Gein, ele é o pior pesadelo dos cinco jovens que, numa simples viagem de carrinha pelo Texas, se deparam com armadilhas mortais e cadáveres profanados, expostos como grotescos espantalhos. Ponto curioso da narrativa: segundo a lei texana, o facto destes jovens “invadirem” propriedade privada, não ilegaliza de modo nenhum, as obscenidades e morbidez lhes infligida pelos antagonistas [os habitantes]. 

The Texas Chainsaw Massacre” rapidamente conquistou o estatuto de culto e foi até homenageado na "Quinzena dos Realizadores" do Festival de Cannes. Com uma receita superior a 100 milhões de dólares a nível mundial, manteve-se durante anos como o filme independente mais rentável da história. Mas o seu maior legado não está nos números: Tobe Hooper inscreveu-se nos anais do cinema ao transformar radicalmente o género, hoje deparamos “Texas Chainsaw Massacre” nas mais inevitáveis homenagens, sequelas, remakes (o de 2003 sob a batuta de Marcus Nispel tem o seu valor, mas também a sua inutilidade), variações ou imitações, das mais certeiras talvez Rob Zombie, convicto fã e nisso nota-se nos seu “House of 1000 Corpses” (2003) e da fuga originária em continuações tão ou menos bem-sucedidas.

Quanto a Hooper, ainda voltou ao universo com uma sequela hilariante (1986), em contrapondo com o ambiente da sua criação original, não rendendo os meus resultados, tentou outros ares, trabalhou com Spielberg em “Poltergeist”, com alguns conflitos pelo meio, e desde o fim dos seus dias operou com produtos menores, por vezes reavaliados na sua sombra autoral. Mas inevitavelmente foi com “Texas Chainsaw Massacre” que levou para a tumba, bem “agarradinho” e com bastante afecto. Sendo quase impossível imaginar o horror moderno sem este ensaio brutal sobre o medo. O do desconhecido, o do rural e o da marginalidade.