O que têm em comum aspiradores assombrados e João César Monteiro? Ratchapoom Boonbunchachoke explica em "A Useful Ghost".

Conquistou a Semana da Crítica com distinção, e o tailandês Ratchapoom Boonbunchachoke avança numa história de fantasmas, mas não na habitual narrativa de assombração a que as sensibilidades ocidentais estão acostumadas. Vemos uma sociedade onde os espectros coabitam naturalmente com os mortais; nada de novo vindo daquele cinema, excepto que o lado absurdo — frigoríficos e aspiradores possuídos, humanos em união de facto com estes espíritos, e a sua utilidade como bilhete de identidade — transforma este ensaio cómico num verdadeiro tratado político, entre subtilidades e sátiras fantasmagóricas. "A Useful Ghost" é uma primeira obra particular e estranha, no bom sentido, onde o realizador imprime e defende a sua marca conceptual: "pervert elegance".
Com estreia nacional no festival MOTELX, sob o pretexto do terror, o realizador aceitou o convite do Cinematograficamente Falando… para falar do seu gerado “filho”, os seus fantasmas e o cinema português como influência. Parece que estes aspiradores assombrados estão mais próximos de João César Monteiro do que de qualquer outra referência.
O seu filme é um verdadeiro cruzamento de géneros: combina o absurdo com uma dimensão política, chegando, por vezes, a parecer-nos quase bizarro sob o olhar ocidental. Mas antes de entrarmos diretamente na sua obra, permita-me uma questão mais abrangente e pessoal: acredita em fantasmas e no mundo espiritual?
Na verdade, não tenho esse “sexto sentido”, nunca vi um fantasma na minha vida [risos]. Mas conheço pessoas — amigos, conhecidos e até membros da equipa de rodagem — que afirmam já ter tido uma experiência dessa categoria, e até mesmo durante as filmagens, alguns técnicos afirmaram ter visto fantasmas. Eu cá não os vi! De certa forma, até agradeço não ter esse dom [risos]. Ainda assim, acredito neles, só que os vejo como uma figura artística do que como experiência pessoal. Para mim, os fantasmas são um veículo para explorar a história social, a memória colectiva. Não acredito em fantasmas aterradores, daqueles oriundos do terror, e sim nessa dimensão simbólica.
Perguntei isso porque, dos muitos filmes tailandeses que tive oportunidade de ver, ou pelo menos daqueles que habitualmente chegam até nós, quando se aborda o sobrenatural, percebe-se uma naturalidade na relação com os espíritos que difere bastante da que encontramos em muitas sociedades ocidentais. Penso, inevitavelmente, em vários trabalhos de Apichatpong Weerasethakul, por exemplo. Nesse sentido, considera-se um realizador espiritual?
Acho que a Tailândia é, de facto, uma sociedade muito espiritual, quase animista. Isso faz parte da vida quotidiana e das conversas do dia-a-dia. Mesmo que nunca tenham visto fantasmas, as pessoas falam deles, sobretudo fora de Bangkok. No interior do país, há uma relação ainda mais próxima, por exemplo, com os espíritos dos antepassados. Se alguém da família adoece, ou se não chove, há quem recorra a esses mesmos espíritos.
Já em Bangkok, os fantasmas são vistos mais como figuras assustadoras, ou até úteis apenas de forma muito limitada. Uma piada recorrente é a ideia de que os espíritos de familiares falecidos podem aparecer em sonhos para dar números da lotaria. É esse tipo de relação.

Fiquei particularmente fascinado com essa diferença cultural na forma de encarar o mundo espiritual, tão distinta da nossa perspetiva ocidental. No seu filme, por exemplo, há uma cena em que um aspirador possuído surge no hospital e, a pedido da rececionista, aguarda tranquilamente na sala de espera. Essa situação é apresentada com tamanha naturalidade, como se a presença de fantasmas fosse já parte integrante da rotina quotidiana.
Sim, essa cena não é propriamente comum, claro … mas o que quis foi imaginar novas formas de relação entre humanos e fantasmas. No cinema tailandês, normalmente, quando surge um fantasma, as pessoas fogem. Quis normalizar essa convivência. Até os fantasmas, no meu filme, precisam de lidar com a burocracia do país [risos]. Achei interessante explorar esse humor: como é que um fantasma interage com um funcionário público ou com a formalidade de um sistema. Isso reflete a própria experiência de viver na Tailândia, onde estamos constantemente a lidar com uma máquina burocrática que nos dá dores de cabeça.
Relativamente ao seu estilo, nas notas de intenção descreve o filme como uma forma de “perverted elegance”. Pode aprofundar o que entende por essa “elegância pervertida”? E considera que essa escolha estética é também, de certa forma, um gesto político no contexto do cinema tailandês contemporâneo?
Não tenho a certeza… Para mim, “pervert elegance” ou “elegant perverse” significa tentar fazer um filme tão belo quanto possível, mas deixando transparecer algo de perverso por baixo dessa superfície. Em parte, é também uma forma de desconstruir a ideia de “filme premiável”, aquele cinema sério, digno de festivais, que fala de grandes temas. Como espectador, gosto desse tipo de cinema, mas como realizador procuro outras maneiras de abordar assuntos sérios. Confesso que fui muito influenciado por realizadores portugueses, como João César Monteiro e Manoel de Oliveira.
Lembro-me de uma cena em "Recordações da Casa Amarela", do Monteiro: no início vemos imagens belíssimas de Lisboa, com o rio, a sua arquitetura, e de repente entra a voz feminina, … quase um tom poético, como estivessemos a ver “Hiroshima Mon Amour” de Alain Resnais … só que a falar de piolhos nos pelos púbicos! [risos] Esse contraste entre imagens sublimes e um conteúdo tão cru achei refrescante e novo. Também me marcou ler que Monteiro, por vezes, quando o director de fotografia montava um plano demasiado “cinematográfico”, ele sabotava tudo para o tornar “não-cinematográfico”. Essa atitude impressionou-me muito e está próxima da minha vontade de desconstruir o cinema demasiado correcto, demasiado premiável.
No fundo, gosto dessa dinâmica de atrair o público através de imagens elegantes e depois empurrá-lo para fora com a tolice ou o ridículo. Esse movimento de puxar e afastar é algo que procuro no meu cinema.
Gosto particularmente da ligação ao cinema português, até porque já tinha preparado algumas perguntas nesse sentido. Quando comentei com um colega jornalista que iria entrevistá-lo, a sua reação imediata foi: “Pergunta-lhe sobre Monteiro e Oliveira, ele fala muito deles.” [risos] Diria então que é, de facto, um profundo conhecedor do nosso cinema?
Conheço o que consigo ver com legendas em inglês [risos]. Gosto muito de Oliveira e de Monteiro, claro, como também admiro Miguel Gomes, e dos mais recentes João Pedro Rodrigues. Sinto que o cinema português tem um certo encanto, uma estranheza muito própria, diferente de qualquer outro cinema europeu. Mas não sei explicar exatamente porquê.
Talvez porque o nosso cinema é considerado “pobre”, feito sob poucos recursos. Isso leva-nos a inventar, a serem criativos, a sugerir mais do que a mostrar. Monteiro era mestre nisso.
Sim, faz sentido. Muitas vezes quando leio críticas ao meu trabalho, falam-me de Wes Anderson ou Yorgos Lanthimos. Na verdade, as minhas maiores influências vêm mais de Oliveira e Monteiro, acho que herdei mais deles do que de Lanthimos. Gosto muito, por exemplo, de “Francisca” (1981).

Recordações da Casa Amarela (João César Monteiro, 1989)
Entrando agora diretamente no filme em si. Já abordou esta questão em parte, mas gostaria de lhe perguntar: por que motivo escolheu aspiradores, frigoríficos e outros objetos do quotidiano para serem possuídos por fantasmas?
No início, a ideia era apenas de um fantasma num aspirador. Nos primeiros esboços, imaginei o fantasma como uma figura humana — maquilhada, pele pálida, talvez acinzentada. Mas sempre que falava disso, as pessoas respondiam que era pouco original, que parecia apenas um zombie. Então percebi que precisava de encontrar algo diferente.
Fiz alguma pesquisa sobre como o cinema representou fantasmas ao longo da história. Nos filmes mudos, por exemplo, apareciam translúcidos, ou a flutuar, ou com maquilhagem a simular cabeças a meio… Depois olhei para o cinema americano dos anos 80, onde os fantasmas eram muitas vezes invisíveis e comunicavam através de objetos da casa, abrir janelas, ligar a televisão, coisas assim… Achei interessante a possibilidade de possuírem aparelhos domésticos.
Como a personagem morre de intoxicação por pó, fez sentido que regressasse sob a forma de aspirador. Era também uma metáfora: um humano reduzido a objeto, tratado como instrumento para cumprir uma função. Daí desenvolvi a ideia de que, no universo do filme, os fantasmas só poderiam regressar incorporados em objetos, e sempre me divertiu imaginar cenas absurdas, como aspiradores possuídos a lutar contra frigoríficos. É ridículo, mas quis torná-lo real no ecrã.
Gostei particularmente da expressão de que os humanos são reduzidos a objetos. Essa ideia remete-nos diretamente para o título e para o tema central do filme: a utilidade dos fantasmas. Interpretei aí também um comentário à sociedade capitalista e materialista, onde, em última análise, morremos e acabamos transformados em coisas. Mas o filme vai mais longe, ao questionar se os próprios fantasmas são, de facto, úteis ou não para a sociedade. E isso levanta uma questão muito atual e pertinente: afinal, quem decide se somos úteis ou inúteis?
Desde o início tive o título “A Useful Ghost”, mas nas primeiras versões o papel dela era apenas combater outros fantasmas. Achei simplista e quis aprofundar. Na Tailândia, existe a crença de que os mortos nos podem visitar em sonhos. Foi algo que me fascinou: o sonho é íntimo, pessoal, inconsciente, portanto, imaginei então fantasmas usados pelo poder para espiar a mente das pessoas. Quando escrevia, em 2020-2021, havia muitos protestos e as autoridades usavam mensagens privadas do Facebook como prova contra ativistas. Essa ideia de vigilância ligou-se à metáfora do fantasma que entra no sonho.
Daí surge a utilidade dos fantasmas no filme: serem instrumentos de controlo e de vigilância. Gostei de relacionar isso também com imagens de fábricas — trabalhadores a registar a impressão digital, câmaras térmicas a medir febres — corpos reduzidos a dados para gestão pelo poder. É essa a reflexão: se somos úteis, se somos ameaça, ou se somos apenas números.
E é precisamente aí que regressa a ideia de “perverted elegance”. No filme, os fantasmas parecem estar abertos a múltiplas interpretações, permitindo que cada espectador os percepcione de forma diferente. Essa abertura interpretativa era, de facto, a sua intenção?
Sim. O fantasma pode ser qualquer coisa. É alguém que regressa, que insiste em voltar. Pode simbolizar resistência, protesto. Mas também pode ser visto como um ser “sub-humano”: parece humano, mas não é tratado como tal, e por isso é vulnerável à manipulação. Não tem plenos direitos e, portanto, é facilmente explorado.
Outra dimensão do filme é o casamento entre um humano e um fantasma, algo que provoca um choque evidente na sociedade retratada. Considera essa relação também como uma metáfora de outras realidades sociais, como os casamentos inter-raciais ou as uniões LGBT?
Sim, desde o início pensei na relação humano-fantasma como uma metáfora queer. No filme, há também um irmão da personagem principal que se casa com outro homem. Inicialmente, os pais não aceitavam. Mas, como o genro ajudou a família a encontrar mercado na Austrália, de repente passou a ser aceite. Ou seja, ser gay só se torna aceitável quando é útil ou quando gera lucro. Essa lógica transfere-se para a relação com o fantasma.

O seu filme estreia em Portugal no festival de terror MOTELX. Considera que "A Useful Ghost" se enquadra plenamente no género de terror, ou prefere que seja visto de outra forma?
Não. Tem fantasmas, tem elementos fantásticos, algum humor e até momentos assustadores. Mas não é terror. Para mim, o desafio foi: se os fantasmas não servirem para assustar, o que podem fazer no ecrã? No cinema tailandês, o fantasma é quase sempre ligado ao género de terror. Quis explorar outra via: um filme de fantasmas, sim, mas não de terror.
Curiosamente, também no cinema português existem muitos fantasmas, Manoel de Oliveira, por exemplo, recorreu a eles com frequência, e nunca num contexto de terror. Talvez possamos dizer que, de certa forma, o nosso cinema é fantasmagórico. Mas estamos a chegar ao fim da conversa: depois de ter vencido a Semana da Crítica em Cannes e de ter percorrido o mundo com este filme, já tem algum projeto em mente para o próximo trabalho?
Sim. Este demorou sete ou oito anos a concretizar, por isso já tenho uma nova ideia na cabeça. Quero que o próximo seja um filme de aventura. Ainda não escrevi, porque tenho andado em festivais sem tempo para me sentar a trabalhar, mas vou desenvolvendo a ideia mentalmente.
Para concluir, quando se fala de cinema tailandês no Ocidente, o nome que surge quase sempre é o de Apichatpong Weerasethakul. Mas, olhando de dentro, como vê o panorama do cinema na Tailândia atualmente?
Penso que temos dois segmentos: o mainstream, produzido por estúdios, e o independente, feito com produtores mais pequenos e co-produções internacionais. Nos últimos anos, os filmes tailandeses até tiveram algum sucesso de bilheteira, mas este ano já não tanto. O público local ainda é um pouco preconceituoso em relação ao cinema do seu próprio país, muitos dizem: “Não vejo filmes tailandeses.” Isso fragiliza o sector. Ainda assim, produzem-se muitos filmes, sobretudo de terror e comédia, no lado mais comercial. Do lado independente, talvez três ou quatro por ano. São menos, mas dão diversidade ao cinema tailandês.
























