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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Sozinhos com as moscas

Hugo Gomes, 10.09.25

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Existe necessidade de implementar uma entidade sobrenatural se o próprio conceito de “crianças sozinhas em casa” e a violência (física, verbal e psicológica) que poderá daí suscitar já falaria por si? Para Emilio Portes e o seu “No Dejes a los Niños Solos”, a resposta é afirmativa. Essa inserção abre duas vias que procuram atrair a grande audiência: a primeira, ser uma obra de género, navegando nessas mesmas águas — seja “catálogo de filme de terror”, seja outra variação; a segunda, essa fantasia nefasta acaba por desculpar a crueldade cometida entre irmãos, enfants que, sem a vigilância de um adulto, tentam erguer hierarquias quebradiças ou “um reino para lá de Nárnia”.

O filme de Portes tropeça nesse factor, ao preferir a desnecessidade de um elemento sobrenatural em vez de apostar num thriller mais terra-a-terra, com pertinências performativas e educativas (a construção de empatia em crianças é matéria de embalos científicos e filosóficos que o filme não procura seguir). Contudo, não lhe neguemos o ritmo: a condução que faz de cada sequência uma peça de dominó a encaminhar-se para o ‘grande’ twist; ou o humor leve, por vezes sarcástico, temperado com pitadas trocistas aqui e ali, em relação a todo este conceito de “crianças sozinhas perante a negligência dos pais”. Bem-haja também a presença de Ana Serradilla, a segurar o fio narrativo.

No Dejes a los Niños Solos” é diversas vezes comparado com um “Home Alone” sem larápios molhados [“wet bandits”], mas com o seu quê de paranormal, exageros e crueldade a valer. O esforço e as tropeções parecem ofuscar o resultado. 

Filme visualizado no 19º MOTELX: Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa

"Leonora in the Morning Light": a cinebiografia enquanto espanta-espíritos

Hugo Gomes, 21.06.25

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Leonora Carrington (1917–2011), vulto proeminente do movimento surrealista no início do século XX, parte para o México ao lado do escritor Renato Leduc, numa tentativa de fugir à Grande Guerra que assolava a Europa. À chegada ao Novo Mundo, Leonora é acolhida por velhas amizades e por admiradores ‘frescos’, mas é com a selva que o seu fascínio verdadeiramente se manifesta: os sons libertados pela vivência animalesca guiam-na para os cantos profundos da sua memória.

Dita como possuidora do dom de falar com animais (seres que lhe surgem por via de alusões e metáforas materializadas), encontra neles encanto e refúgio da realidade. Esses momentos preciosos captados em “Leonora in the Morning Light” levam-nos ao deslumbre, ao virtuosismo técnico e por outro lado à beleza quase plastificada nessa união da direção artística e da fotografia. É nesses instantes que a luz matinal assume o seu poder encantatório: o espectador sente-se aquecido por essa reluzente presença. Mas, como se diz nos encostos portugueses, trata-se de “sol de pouca dura”: breve, efémero, ou lá o que seja.

Este filme, assinado a quatro mãos (por Thor Klein e Lena Vurma, com base no bestseller de Elena Poniatowska), não faz jus à figura que retrata, cuja aura artística tantas vezes se comparou à de Frida Kahlo, a razão está num certo grau de academismo ou, talvez, num respeito excessivo pelas matrizes de um subgénero biográfico demasiado vulgarizado. Como se, na vida de outréns, o cinema encontrasse conforto em fórmulas e raramente o confronto. Ainda assim, não deixa de ser um filme com valor. Por meras pinceladas, reconhecem-se os seus méritos de produção, a destreza com que se orienta dentro das suas limitações, e o facto de não ser uma produção de altos voos hollywoodianos, ou o desempenho de Olivia Vinall enquanto Leonora, fazendo frente a um argumento serpenteante entre flashbacks atrás de flashbacks.

Queríamos acreditar numa revisão mais corajosa da cinebiografia, até porque a inspiração viria do próprio trabalho ou da óptica artística de Leonora, mas a tarefa soou mais pertinente para os seus autores, do que seguir as linhas-guias da produção. Há muito que “Gainsbourg (Vie Héroïque)”, de Joann Sfar, brincava, discretamente, com o ego do artista e a criação de falsas narrativas, já em “Leonora in the Morning Light”, ficamos vacinados contra tais devaneios. 

 

Filme visualizado no âmbito do Festival Internacional de Guadalajara

Consolidar um legado: Doclisboa arranca com nova direção e para novos rumos

Hugo Gomes, 17.10.24

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Entre as novidades desta 22ª edição do Doclisboa, a maior de todas é claramente a presença da mexicana Paula Astorga, ex-produtora e ex-diretora da Cinemateca do México a assumir a liderança do festival neste 2024, cheio de riscos, despedidas e comitivas de boas-vindas a frescos olhares e autores e os habitués. O Festival Internacional de Cinema Documental de Lisboa recorda o crítico e programador Augusto M. Seabra, voz e corpo da secção de Riscos, uma das mais badaladas da história do evento, e que semeou os rumos que vingariam no formato, a homenagem é sentida e garantida, e até mesmo Astorga, não o conhecendo pessoalmente, dirige-lhe com uma respeitosa vénia ao seu legado. 

Paul Leduc (1942-2020), o cineasta mexicano e experimental nas diferentes vias cinematograficas, que tem uma das raras retrospectivas fora do México, e o brilho dos olhos na diretora ao referir a sua obra é por si só uma conquista, os habituais cantos da casa; Heart Beat, da Terra à Lua, Competição Nacional e Internacional, Verdes Anos e Harmony Korine com o bizarro “Agro Dr1ft”, o futuro do cinema? Enquanto oportunidade única. 

Paula Astorga recebeu o Cinematograficamente Falando … no “quartel general “ do festival na Culturgest, numa longa conversa sobre filmes, secções, autores e beleza cinematográfica. As seguintes vinhetas são extractos desse mesmo encontro, para alimentar o apetite nestes próximos 10 dias de janelas para o Mundo. Aquele que é de facto um dos mais importantes festivais de cinema da nossa praça.  

GS400377_post-scaled.jpgPaula Astorga

A Tocha … depois de Seabra

Esta não é a primeira vez que dirijo um Festival, e no fundo, adoro o conceito de Festival de Cinema que são espaços necessários que articula, cada vez mais pertinentes e integrados naquilo que encaramos como o ecossistema da vida dos filmes. 

Para mim receber o Doclisboa foi com grande prazer, porque é um festival de uma identidade bastante definida. São 22 edições e é um momento maravilhoso, porque ainda é um evento jovem mas com este número de edições já requer uma certa responsabilidade, um jovem adulto que sabe o que é e o que deseja ser. Um festival com uma audiência construída e claramente sabe o que quer dizer. 

Nestes 22 anos, o Doclisboa atravessou e testemunhou imensas mudanças, seja da indústria, de uma pandemia que vivenciamos recentemente, ou geracional. Nisto vemos um festival que pede renovação frente às abordagens frescas incentivadas pelas redes sociais, com as plataformas e com o surgimento de novas linguagens cinematográficas, sempre mantendo o rigor da programação que sempre nos habituou. É isso que significa ser um festival adulto.

Um festival que proponha Cinema, que fale-nos de política, do social, do Mundo em nosso redor, mas que não tenha medo do poético, que crê na beleza, no cinema enquanto arte. Isso são pontos intocáveis no Doclisboa

Portanto, receber o legado deste festival é também uma grande responsabilidade, e como tal devo manter e proteger os seus valores. A minha chegada deu-se com a despedida de Augusto M. Seabra, uma  voz predominante neste festival e fundador da secção Riscos, o qual sem essa secção não haveria Doclisboa. Nunca tive a oportunidade de conhecê-lo, mas parece-me que o seu pensamento crítico e a sua aposta nas equipas de programação tornaram esta despedida muito contundente para as estruturas do festival.  

Como tal, chego numa altura em que se solicitava novos rumos, novas ideias sem nunca perder a sua personalidade tão vincada. O meu papel é consolidar a ideia de um legado. 

Reed.-Insurgent-Mexico.jpgReed, México insurgente (Paul Leduc, 1970)

Paul Leduc, "nuevas miradas"

Quando estávamos a discutir a retrospetiva deste ano, pareceu-me evidente, e em certa parte um statment politico e não só, apresentar um cineasta mexicano. Mas mais do que ser mexicano, Paul Leduc a condizer com esta nova ideia de festival, porque não só experimentou os mais diferentes cantos, quer documentais, quer ficcionais - e até animação ["Los Animales", 1994]! - como também era um homem de esquerda, bastante político, sem nunca descartar o seu lado artístico. 

Foi autor de um dos primeiros retratos da artista plástica mais importante do México com "Frida, naturaleza viva" (1984), demonstrou as revoluções sócio-culturais, o seu latino-americanismo, o seu pensamento político e artístico, a geografia e a etnografia como foi o caso de "Etnocidio. Notas sobre la región del Mezquital" (1976), em que segue para território indígena. Em "Historias prohibidas de Pulgarcito" (1980), aborda a guerra civil de São Salvador sob o olhar do poeta Roque Dalton e do seu homónimo livro, ou por outro lado, na ficção, adaptaria os contos do escritor brasileiro Rubem Fonseca com "Cobrador: In God We Trust" (2007), com o ator Peter Fonda, que estreou no Festival de Veneza

O meu papel seria traduzir o que transmitia o Doclisboa, quer no seu pensamento político, papel social, estético, um festival que celebra autores e memórias, por exemplo, há uns anos tivemos uma retrospectiva do colombiano Luis Ospina o qual consolidava todas essas ideias, Leduc não estava longe disso, aliás dialogava com todos esses pontos. A Cinemateca após ter recebido a proposta deste ciclo - um dos mais completos do autor e e a primeira a ser realizada na Europa, com cópias restauradas - reagiram com bastante agrado. 

Posso garantir que é um ciclo alucinante, Paul Leduc era um autor ecléctico e prolífico no contexto completamente adverso para o cinema mexicano. Julgo que não haveria espaço melhor para honrar a sua memória do que o Doclisboa.

66fb0c5b85b6e.jpgSempre (Luciana Fina, 2024)

Competições, diálogo ao invés de concorrência … a cinematografia portuguesa como parte do Mundo

Em relação à Competição Internacional posso, antes de mais, revelar a minha surpresa e gratidão com a equipa de programação e artístico do Doclisboa. Este anos contamos com Cíntia Gil e Justin Jaeckle enquanto programadores associados, mas a Competição Internacional passou por todo nós, e foi uma seleção difícil de ser consolidada, porque o festival tem um sentido muito particular de encontrar quais os filmes que integrar o espírito do nosso espaço, fugimos do temático e do manipulador, e construímos pontes com a beleza, com as possibilidades de Cinema. 

Quando olho para esta selecção vejo isso, um cinema contemporâneo que persegue os horrores, os cantos tenebrosos, mas que mesmo assim encontra beleza na maneira de transmitir as suas histórias, mesmo sob cargas dolorosas, e o nosso ponto era ter uma linha de filmes que celebram, mais que tudo, o Cinema e com alguns autores não estranhos por este festival. Esforçamos para entregar aos espectadores uma seleção que dialoga entre eles, que vale a pena descobrir. 

Em relação à Nacional, enquanto mexicana os meus anteriores contactos com o cinema português foram em curadorias minhas, digo minha mas obviamente tive uma equipa de programadores associado, a retrospectiva de Miguel Gomes na Cinemateca Nacional ou o ciclo de Pedro Costa quando dirigia Festival Internacional de Cinema Contemporâneo da Cidade do México, distribui o "Tabu" de Miguel Gomes com a minha empresa e mais tarde o seu "Mil e uma Noites". Mas o meu relacionamento com o cinema português, o qual ia entendendo através dos grandes importados, tem um lado mais íntimo que para mim foi um prazer em descobrir. Na Competição Nacional temos seis co-produções, o que para mim é um sinal importante, porque demonstra um cinema que está a relacionar com o restante Mundo, e que está pactuando com uma visão global.

Já fora da Competição, gostaria de referir "Sempre" de Luciana Fina [Filme de abertura] e a minha experiência enquanto mexicana. O que é a História de Portugal Contemporânea a ser recontada de uma maneira que me faz querer saber mais. Vejo uma sociedade com os problemas do Mundo, os feminismos, as revoluções, os ideais, e vindo de uma país latino-americano como o México, essas imagens é como experienciar um parte da minha própria História, mas como não é realmente é aí que alimenta a minha curiosidade a partir da própria ideia do cinema numa investigação que quanto a mim, é impecável. E no ato consolidador para com novas visões, revisitando a sua História, apropriando-as e contextualizando-as, portanto, as suas memórias recentes, é algo que vibra com a razão do Mundo e que tem uma coerência maravilhosa. 

MV5BNTViYTI5YjEtOTgzMS00YjM1LTllNWEtMTg4M2EzNzYyMDAgro Dr1ft (Harmony Korine, 2023)

“Agro Dr1ft”, Harmony Korine (ar)riscado …

Esse é o futuro! Sim, tem uma linguagem videogame, é a desconstrução do código da violência nesta contemporaneidade e sem filtros, e falando em nome do Doclisboa, estamos inteiramente satisfeitos com a possibilidade de o projetarmos em sala de cinema. “Agro Dr1ft” é toda uma experiência visual, evidentemente, não necessariamente gratuita, porque infiltra-se em ti e a tela grande é literalmente uma oportunidade para o experienciar. Acredito que é uma obra que conflui, digamos, de todas as distorções da ideia da pós-verdade, da pós-violência, dos tratamentos e da intervenção da imagem até à última consequência. Além do mais, o Doclisboa tem uma relação com o cinema de Harmony Korine, portanto, seria imprudente deixar escapar esta secção especial.

Doclisboa arranca hoje (17/10), prosseguindo até dia 27, na Culturgest, Cinema São Jorge, Cinema Ideal e Cinemateca, a programação completa poderá ser consultada aqui

"Memory": pára-me de repente o pensamento

Hugo Gomes, 29.07.24

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O homem que não se lembra e a mulher que não se esquece, par insólito, quase embrulhado numa negrura anedótica, aqui tomando forma nos corpos de Peter Sarsgaard e de Jessica Chastain. E falamos dessa entrega corporal, porque de mente, quer um, quer de outro, instalam-se numa câmara de eco, tão simbiótico para o estilo retalhista e crónico proveniente de Michel Franco

Depois de “despachar” Tim Roth no seu “Sundown” (2021), o realizador mexicano recita os seus temas-fetiches, intensificados pela sua experiência enquanto cuidador, que fomentaram em 2015 o premiado “Chronic” (2015), mais que o tributo a quem exerce essa nobre e desrespeitada função de cuidar do próximo, é uma aproximação à morte, e a conscientização da mesma que vem a contagiar a restante filmografia. Tendo uma paragem atípica com Nuevo Orden” (2020), sobre uma revolução de castas que só vem clarificar o fracasso de um sistema que não altera as suas estruturas, regressa na pele de cuidadores, doenças crónicas e a morte ao virar da esquina com bandeiras içadas para se lançar no palco mais generalista, sem com isto perder a sua consistente marca. Os atores abrem caminho para essa relação que poderia obter tanto de metafórico como de poético, mas fica-se na mundana das suas atitudes, engrossando como um desafio às pontuadas demarcações narrativas que esse tal mandatório storytelling hoje em dia possui. 

Portanto, esta história de uma relação gerada entre uma cuidadora, ex-alcoólica e com tufos trágicos no seu ascendente, e um homem aprisionado à sua mente fragmentada, à demência que o vai reduzido num mero farrapo existencial, é um objeto que encontra razão nesse ying yang de personagens, mas perde-se na sua fraqueza motora, desde uma entrega risível do background de ambos até à habitual e depurada estética de Franco, que nunca acha a sua devida ênfase dramática.

Espírito animal

Hugo Gomes, 25.06.23

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O charme de "Tótem", a segunda obra de Lila Avilés ("La Camarista"), provém da sua (aparente) inércia - os preparativos para uma festa aniversário com a mesma energia de um ritual fúnebre - e no centro desse turbilhão humano, onde os estresses relacionados aos avanços dessa cerimónia se fundem com as emoções contidas (voluntariamente ocultas para não ferir susceptibilidades), reside Sol (Naíma Sentíes), uma menina de sete anos cujo pai (o motivo deste frenesim), encontra-se debilitado por uma doença cancerígena.

Desde o início do filme, deparamo-nos com a pequena protagonista em convívio com a sua progenitora (Iazua Larios), uma mulher de contagiante vitalidade (contrastando com o outro progenitor, de abraços com a morte), pressentimos um certo encobrimento, sorrisos amarelos, forçados como máscaras sociais. A celebração que parece nunca "descolar" do seu planeamento resume-se a uma interminável tortura (pessoalmente) dirigida a esta criança, mantida na ignorância do seu redor, suspeitando das suas adversas características. 

Avilés cria um filme de ambientes, de conflitos aligeirados para serem sentidos por "enfants", aliás, é nesse olhar, algo infantil e confuso, que "Tótem" presta serviço quanto à sua formalidade. Sol, "ilumina-nos", entre esconderijos (refúgios improvisados) e a vontade de ver o seu pai, erudito no seu quarto, no seu túmulo guardado pelos totens animalescos. Essas forças místicas (e bem vivas) não deixam o filme em aconchegos. O corvo marca a morte predatória, os anciãos pressentem com clareza os sinais da sua vinda, tentando contrariar o fim abrupto e previamente anunciado com a manutenção (humanamente) possível da vida - o "bonsai" - esse símbolo de prosperidade (com paciência à mistura), é ali mesmo, o combate contra esses alados antagónicos de mau agoiro. 

Na sequência final, de rosto iluminado pelas velas do enfim bolo de aniversário, Sol transmite algo mais do que mera inocência infantil, o seu olhar trespassa a quarta parede, por minutos foca-nos [a audiência]. O mistério ali orquestrado foi em vão, Sol sabe e muito bem do “crime” ali ocorrido. Inocência termina, o conflito já se encontrava persuadido na sua mente, como uma Virginia Woolf que em espaços pequenos deambula pelos seus íntimos e perigosos pensamentos.

Novos olhares, o Cinema de sempre! Vem aí o 19º FEST - New Directors New Films Festival.

Hugo Gomes, 18.06.23

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Mais um ano, mais um FEST, automaticamente, mais descobertas cinematográficas a caminho do nosso cardápio. De 19 a 26 de junho, todos os ‘mirones’ do Cinema em Portugal estarão apontados à cidade de Espinho, onde concretizará a 19ª edição do Festival de Novos Realizadores, uma congregação de algumas das primeiras e segundas obras mais badaladas do ano, uma mostra lado-a-lado com um centro de pitching, hubs e masterclasses, para aliciar experiências e motivar novos cineastas.

Novamente com Fernando Vasquez, diretor e programador do evento, aceitou o convite do Cinematograficamente Falando … para nos resumir as novidades e as recomendações destes próximos sete dias, recheados de Cinema. 

Mais um ano, mais um FEST. Começo com a, possível, grande novidade desta edição que é a reunião musical intitulada de “FEST – Music Walk With Me”. Como surgiu esta iniciativa? Os critérios para a seleção de artistas e que espera conseguir com esta fresca “secção” (chamaremos assim)?

A ideia surgiu no seguimento de uma iniciativa que já tínhamos começado no ano passado, a criação do FEST – Sound & Music Hub, um conjunto de debates e palestras sobre o trabalho de som em cinema. Foi uma forma que encontramos de valorizar e salientar a importância do som no Cinema e como é perigoso negligenciar esses processos. É curioso, mas na minha opinião a revolução digital não teve um impacto muito positivo no que toca ao som. É frequente encontrar filmes ou obras audiovisuais em que os diálogos são imperceptíveis, enquanto os efeitos sonoros estão frequentemente desequilibrados em relação ao resto dos trabalhos. Esse é também o feedback que recebemos de alguns peritos na matéria que passaram pelo FEST em anos anteriores. Sinceramente já se trabalhou muito melhor esta questão. Em parte isso acontece porque a temática do som não tem muito espaço de debate e troca de perspectivas, praticamente que não se toca no tema, por isso é natural que o crescimento na área seja mais lento. Nesse contexto, uma iniciativa desta natureza só poderia enriquecer o mundo do cinema. 

Obviamente que esse evento já contemplava espaço de debate sobre produção musical para cinema, mas pareceu-nos que podíamos e devíamos ir mais longe. A composição musical para cinema precisava do seu próprio espaço. E assim nasceu o FEST – Music Walk With Me, um conjunto de performances musicais e encontros que criam uma nova ponte entre o mundo da música e o mundo do cinema. A seleção foi feita por um painel que para além de incluir membros da nossa equipa, incluiu também a Academia de Música de Espinho, que é uma instituição de referência a nível nacional, e o colectivo Salitre, que pretende desenvolver a cultura musical underground na região. Abrimos uma chamada internacional para músicos interessados em mostrar o seu talento a produtores e cineastas, e os resultados superaram em muito as nossas expectativas.

Como entretanto criamos o Music Walk With Me, o Sound & Music Hub será mais curto este ano e com um foco maior na produção e mistura de som daqui para a frente. Temos já confirmados formadores como Eddy Joseph, uma figura lendária na área, que trabalhou muito com o Tim Burton, o Alan Parker e os próprios Pink Floyd; a canadiana Kle Savidge, que tem tido um percurso notável na área; e profissionais como Tristin Norwell e John Rogerson.

Sobre os convidados deste ano? O que pode dizer sobre eles?

Voltamos a ter um conjunto de convidados eclético e de grande peso, e igualmente importante, nunca tivemos tantas mulheres em destaque no nosso programa. É inevitável destacar a presença de quatro realizadores de peso. O Carlos Reygadas era já um objetivo há muito tempo, afinal de contas é um dos autores de culto mais relevantes da nossa era. Pessoalmente fico muito contente com a presença da peruana Claudia Llosa, que não só estará em Espinho para dar uma masterclass, como ainda vamos fazer uma retrospectiva do seu trabalho. Ela é uma figura fundamental da cena latino-americana contemporânea, e foi uma das pioneiras no que toca à representação da mulher indígena no cinema, por isso este é o momento ideal para oferecer todo o destaque possível a esta autora. E temos ainda a presença de Lone Scherfig, autora de uma das últimas obras do movimento Dogma 95, o “Italian for Beginners"; e algo inédito na história do FEST, uma animadora, Brenda Chapman, a primeira mulher a realizar uma longa-metragem de animação num grande estúdio de Hollywood, “The Prince of Egypt”

Voltamos a dar grande destaque ao mundo dos atores, através da presença da grande Noomi Rapace, a atriz sueca que rapidamente se tornou numa das figuras mais enigmáticas dos últimos anos, e claro está, o nosso Nuno Lopes; para além das Diretoras de Casting Nancy Bishop, Jo Monteiro e Caprice Crawford. Na área da pós-produção há um cruzamento com o ano passado. Após a presença de Gaspar Noé em 2022, este ano contamos com um dos seus mais fiéis e relevantes colaboradores, Marc Boucrot. Mas temos ainda a Melody London, editora muito conotada com o trabalho de Jim Jarmusch, em filmes como o “Down by Law”; e o grego Yorgos Mavropsaridis, uma das mentes por detrás do enorme sucesso e influência da chamada Greek Weird Wave, já que editou a grande maioria das obras que associamos ao movimento, incluindo o filme que começou tudo: “Canino” de Yorgos Lanthimos.  

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Past Lives (Celine Song, 2023)

Passeando pela Competição, o que destacaria este ano?

Este ano, entre as 10 longas de ficção de documentário em competição, é inevitável destacar 3 obras que competiram em Berlim em fevereiro passado. O “Disco Boy” do italiano Giacomo Abbruzzese é um dos filmes fundamentais do ano e uma experiência sensorial inesquecível. É uma espécie de trip psicadélica e surreal que funde os mundos da Legião Estrangeira e de guerrilheiros anti-exploração petrolífera no Delta do Níger, tudo regado por uma banda sonora original de Vitalic que ainda vai dar muito que falar. Outro é a segunda longa-metragem da mexicana Lila Avilés, “Totem”, que acabou por vencer o prémio do Júri Ecuménico em Berlim, e é um filme profundamente tocante, e que nos apresenta a uma família que faz de tudo para evitar lidar com uma tragédia iminente. E temos ainda “Past Lives” de Celine Song, uma das obras mais badaladas na última edição dos festivais de Sundance e Berlim.

Porquê de não vermos produções portuguesas a competir pelo Lince de Ouro?

Já aconteceu várias vezes no passado, com filmes como “Irmãos” do Pedro Magano, ou a primeira longa’ do Pedro Pinho, “Um Fim do Mundo". Temos vários exemplos, mas são bastante menos frequentes do que queiramos. Existe um conjunto de razões que não são muito favoráveis para que isso aconteça. Por um lado existe uma pressão para termos estreias nacionais dos filmes em competição. Infelizmente, por questões de financiamento, essa pressão não pode ser ignorada. E existe uma tradição na nossa indústria que leva a que os filmes portugueses que estreiam em festivais acabem a estrear sempre nos mesmos sítios. Ao mesmo tempo, o contexto de apoios à produção e distribuição de cinema português também não ajuda nesse processo, ao não contabilizar as exibições em festivais para os dados oficiais de audiência, o que significa que exibir filmes com contratos de distribuição em festivais é demasiado arriscado para as distribuidoras. E os fundos Europeus agora dificultam também a quantidade de obras nacionais que podemos exibir, porque têm como objetivo pô-las em circulação pela Europa fora em detrimento dos mercados nacionais, o que a longo prazo é bom para a nossa cinematografia. 

E este ano temos uma enorme presença de filmes nacionais no nosso Grande Prémio Nacional, com 23 obras no total, incluindo várias estreias de peso, o que limitou as possibilidades de filmes portugueses estarem presentes na competição do Lince de Ouro. Dito isto tudo, o nosso comprometimento com a cinematografia portuguesa é muito significativo, e o crescimento do Grande Prémio Nacional é a prova disso. Acontece porque temos feito um trabalho árduo nesse sentido. Acreditamos que cada vez mais os novos cineastas portugueses olham para o FEST como uma das suas casas naturais e uma paragem relevante para os seus trabalhos. Em breve esperamos que ele dará frutos também na competição de longas.

O que o futuro reserva? Quanto às extensões por Lisboa e Porto? Foram abandonadas?

Como estamos a dias do início desta 19ª edição é difícil estar a falar do futuro, seria sempre prematuro. O FEST vai fazer 20 anos em 2024, o universo do cinema está muito diferente do que era, e há condicionantes que estamos inevitavelmente a avaliar, e que continuaremos a estudar no final desta edição. Por isso ainda não é o momento oportuno para falar disso. Mas é garantido que haverá muitas novidades, diria até algumas muito surpreendentes. As extensões em Lisboa e Porto que fizemos em 2020 e 2021 foram resultado da pandemia e da inevitável necessidade de levar o evento à audiência, que estava muito restrita a nível de mobilidade, já para não falar na limitação da lotação das salas. Dito isso acreditamos na importância de continuar a fazer neste mundo pós-pandemia. E até ia mais longe, igualmente importante seria fazê-las noutros pontos do país.

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Veja a programação completa e mais informações aqui.

Takes Roterdão 2022 (1): as diferentes condições humanas

Hugo Gomes, 29.01.22

A Human Position

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Vai ficar tudo bem”. Quem não se recorda dos arcos-íris e das mensagens positivas nos momentos em que boa parte do Mundo confinou-se no medo de uma pandemia diversas vezes anunciada?

A Human Position” do noruguês Anders Emblem, não é de todo um filme pandémico nem contextualizado no confinamento, mas sim uma heresia perante ao positivismo crónico trazido por uma sociedade que faz “vista grossa” à nossa condição psicológica. São “desgraças de primeiro Mundo”, dirão muitos, capsuladas num tédio embelezado e planeado até ao último pormenor, Emblem resolveu enfeitar um filme com um artificialismo solarengo e virtuoso, uma aparente harmonia onde o silêncio, as palavras nunca proferidas convertem-se em patologias no estado emocional de Asta (Amalie Ibsen Jensen), jovem mal-amparada numa profissão acima da precariedade e vivendo uma relação (novamente surge-nos o “aparentemente”) feliz com a sua parceira.

A Human Position” fala-nos da saúde mental por via de uma sinalização estética, guiando-nos a uma  anomalia no colorido do filme, ou no “poker face” da protagonista e as distrações constantes trazidas pelo seu “bichano”. A mensagem é perceptível, a viagem, essa, demora a desempacar. Entre subidas e descidas nas ruas familiarizadas que explicitam uma rotina martirológica, Emblem construiu um filme o qual desejamos abraçar, mas de difícil comunicação. Contextualizado ou não, esse é sim, o seu “calcanhar”.

Secção: Bright Future

 

Yamabuki

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Segundo a lenda, quando deixadas na montanha, as moedas de ouro transformam-se numa flor de cor amarelada denominadas de “yamabuki” (que significa em bom japonês de “brisa da montanha”). Quanto ao homónimo filme, seguimos a história de um antigo jóquei olímpico sul-coreano que vive como manobrador de máquinas numa pedreira ao largo da pequena cidade de Maniwa (a oeste do Japão), e é nele que a mitologia é apropriada, ora através do macguffin do "dinheiro esquecido” o qual o protagonista encontra acidentalmente, ou da sua nacionalidade fluida e contestada.

Juichiro Yamasaki dirige e escreve um inconclusivo filme-mosaico de uma abordagem simples à condição do imigrante em terras japonesas, porém, é de notar um terrível medo da convencionalidade e com isso, uma requisição de embarque à sensibilidade perceptiva quanto a uma narrativa voluntariamente fragmentada. É uma obra que conserva potencialidades, seja através das temáticas, seja visualmente (uma fotografia granulada que nos remete ao conforto dos imperfeitos filmes caseiros) ou na emocionalidade invocada. Coração não lhe falta, o que falta é mesmo rígida estrutura para sustentar tais sentimentos.  

Secção: Tiger Competition

 

A Criança

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Com os sucessos de “A Herdade” (Tiago Guedes, 2019) e Mosquito (João Nuno Pinto, 2020), era de esperar maior ambição por parte de Paulo Branco e a sua façanha enquanto produtor. Infelizmente voltamos à estaca zero com esta longa-metragem da jovem dupla Marguerite de Hillerin e Félix Dutilloy-Liégeois, livremente inspirado no livro “Der Findling” de  Heinrich von Kleist. Aqui o espectador é automaticamente cavalitado para um enredo do século XVI, uma espera desesperante em cenários decadentes e filmado com uma miopia disfarçada.

Todavia, o mais decepcionante é encarar uma narrativa propícia a fantasias e desejos ardentes quase edipianos, mas que nada disso parece-se traduzir em imagens. É que para além da sua falta de identidade fílmica, é lhe acrescida uma ausência de lascividade que pudesse transportar esta história para mais longe do que o mero “faz-de-conta”.

Secção: Tiger Competition

 

Madrugada

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Um filme de transformações de quem a vida parece já não lhe pertencer. Leonor Noivo tem sido apontada como um dos nomes emergentes do cinema docuficcional português (“Tudo o que Imagino”, em 2017, é um exemplo a ter em conta) e em “Madrugada” leva-nos novamente à experimentação desses diferentes veículos em conformidade a um só tom. Para muitos, a realizadora integra uma tendência de uma certa autoralidade portuguesa, mas convém sublinhar a destreza quase arquitetónica de Noivo em montar um filme na consciência dos seus mundos enraizados (palavra que não é convocada em vão), memorialista, surrealista e metafórico (uma sintonizada metamorfose).

Pegando no seu anterior Raposa” (2019), eis a continuação do estudo e da apropriação dos corpos, das suas capacidades e das suas conquistas. Sim, é um gesto contínuo, mas por vezes é isso mesmo que define um autor.  

Secção: Ammodo Tiger Short Competition 

 

Malintzin 17

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Depois da morte do seu irmão documentarista Eugenio (falecido em 2017), Mara Polgovsky assumiu o seu espólio e a produtora Tecolote Films. Nessa herança, encontra e adquire filmagens pessoais do mesmo com a filha (na altura com cinco anos) e transforma-as num filme. Com este conhecimento, somos envolvidos a um véu de intimidade e tributo neste cerco com vista para o exterior. A criança que debate o seu olhar em desenvolvimento com a percepção experiente do seu pai, lecionar e sendo lecionado, e sobretudo expondo a sua relação para com o mundo que os rodeia. “Malintzin 17” é um exercício de tempo e de aprendizagem do mesmo, figuramente depositados no pássaro que aninhou-se a poucos metros da janela, ou na rua movimentada e aprisionada à sua própria rotina e (ecos)sistema.

Esculpindo o espaço físico e temporal, obviamente num gesto inconsciente e posteriormente transformado pela sua irmã (co-realizadora que abdica da sua assinatura para induzir um póstumo e derradeiro filme-homenagem), somos questionados a entender o que é o Cinema e como o relacionar. Esta obra levou-me a recordar Béla Tarr (um encontro que aocnteceu 2016 na esplanada da Cinemateca Portuguesa) que questionado com a questão das questões  - “O que é o Cinema?” -  de jeito sisudo e apontando para a mesa do lado, ocupada por jovens que tagarelavam uns com os outros, responde asperamente (bem ao seu jeito digamos), “Aquilo ali é Cinema”. Em “Malintzin 17” há um momento que se aproxima, Eugenio pergunta ao seu “rebento” - “O que é filmar para ti?”. A voz off da menina é reveladora. “Para mim … é copiar algo.

Secção - Tiger Competition

Quando as revoluções falham, o que sobra?

Hugo Gomes, 28.09.21

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Não sou o maior defensor de “Nova Ordem” de Michel Franco, há algo que se esgota e que facilmente distorce a dita distopia para uma realidade comum e reconhecível (e por vezes pastiche), mas é uma tese emborcada que confronta o nosso reacionarismo. E é óbvio, tendo em conta a reação obtida, de que somos apegados à sensação de permanente conforto, essa que é destabilizada num filme como este, apelando aos pólos extremistas e à ausência empática que temos contraindo em relação às causas.

Toda a estrutura de “Nova Ordem” é baseada numa simplista questão sociopolítica, o filme a esconde por vias de uma jornada martirológica. Um mártir, um sacrifício ou simples vaivém para essa torturante demanda, um pretexto para Franco denunciar a romantização por detrás da ideia de Revolução, esquecendo de um prolongado exemplo histórico de que elas partem das meras ilusões, chegando a um ponto de se tornar somente uma alternância dos dominantes e dos dominados. Não é um filme de esquerda, nem de direita, é um filme que reage aos extremismos desfazendo essa mesma romantização, suplicando pelo nosso empirismo.

O desafio está no seguinte: aos privilegiados são lhe dados um motivo, uma relação, um holofote, preocupamos com eles … caímos assim no engodo … pelo que o filme desfoca os “invisíveis”, os esmagados e os escorraçados. Eles são o mal, a patologia, e dessa forma “Nova Ordem” nos engana em fazer-nos acreditar em tal crença. Aliás, é nas crenças que nascem as revoluções. Será que elas realmente se concretizam? Ou caem por terra como a enxada de “Torre Bela”?

As questões vêm com uma certeza, por mais que se tente, o capitalismo sempre será o vencedor convicto. Ou como diz recorrentemente Slavoj Žižek“É mais fácil imaginar o fim do Mundo do que o fim do Capitalismo.”

"Ya No Estoy Aqui": outra odisseia de Ulisses ...

Hugo Gomes, 26.01.21

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O candidato do México ao próximo Óscar de Filme Internacional é apenas mais um a confirmar a tendência (para não falarmos de vaga) de um cinema latino-americano (sobretudo mexicano) para retratar manifestações de contra-cultura ou que, à sua maneira, resiste a uma sociedade que agrava as desigualdades sociais e premeia a violência. Esta (outra) forma de luta encontra-se neste filme de Fernando Frias representada por uma designação – Terkos – que se vai materializando para diferentes interpretações, seja a do nome de um bando de jovens delinquentes para o seu atípico gangue ou o próprio mojo, em constante anarquia com o que é socialmente aceite ou automatizado.

"Ya No Estoy Aqui" segue o seu protagonista pseudo-moicano Ulisses (Juan Daniel Garcia Treviño) na sua própria odisséia por uns EUA que está a receber os migrantes de forma pouco acolhedora. O motivo para passar a fronteira está relacionado com a violência do seu meio, impiedoso e não-clemente, que o obriga a se separar da sua família e procurar novas vivências num país de "gringos". Frias filma uma Nova Iorque distante, desconectada, onde o inglês é, por sua vez, uma língua estrangeira. Aqui, nenhum “sonho americano” se encontra ao alcance de Ulisses, apenas a subsistência e a subserviência com que o jovem sempre se revoltou no seu país de origem.

Como acontece com grande parte dos filmes envolvidos numa contracultura, há uma tendência de priorizar a sua estética e exaltar a sua ideologia, mesmo que sejam incoerentes. É o que volta a acontecer com “Ya No Estoy Aqui”, um olhar exótico (a certa altura com alusões ao tropicalismo xamânico) aos problemas dos costumes a que muito cinema mexicano está a ir repescar. Nota-se uma determinação em Frias ao narrar esta história, mas para a sua infelicidade, existe nesta relação intérprete/espectador uma distância emocional, que parte do próprio desinteresse de Ulisses em se ligar com o mundo que o rodeia, sem ser com a sua música de nicho. Entendemos o conceito, mas … e como há sempre o "mas", o espectador sente-se na obrigação de observá-lo como um pássaro raro, o que torna a sua jornada nada mais que um “entretenimento”.

"Ya No Estoy Aqui" é uma obra esteticamente competente, desenvolvida na própria credibilidade e filmada com não-atores, que se expõe não no seu próprio olhar, mas na pluralidade de quem o vai ver. Mas certamente que existem filmes mais desafiantes para a corrida aos Óscares.