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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

São Pedros, São Pedrocas, São Peters, São Pierres e São Pietros

Hugo Gomes, 29.06.20

Hoje, dia de São Pedro, recordo alguns 10 Pedro(s) célebres do Cinema. E para vocês, qual "Pedro" destacaria na lista?

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Peter Sellers, ator de “Dr. Strangelove” e da saga “The Pink Panther

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"Pierrot, Le Fou" (Pedro, O Louco), filme de Jean-Luc Godard com Jean-Paul Belmondo e Anna Karina

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Peter Lorre, ator de "M", "Casablanca" e "The Man Who Knew Much"

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Peter O'Toole, ator de "Lawrence of the Arabia" e "Venus"

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Peter Weller, ator de "Robocop" e "Naked Lunch"

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Pedro Almodovar, cineasta de "Pain and Glory", "All About My Mother" e "Women on the Verge of a Nervous Breakdown"

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Pedro Costa, realizador de "Vitalina Varela" e "Quarto da Vanda"

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Peter Cushing, ator de "Star Wars" e vários títulos da Hammer

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Peter Weir, realizador de "The Mosquito Coast", "Truman Show" e "Picnic at Hanging Rock"

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Peter Bogdanovich, realizador de "The Last Picture Show" e "Paper Moon", um dos responsáveis pela conclusão de "The Other Side of the Wind", de Orson Welles

Uma eterna derrota chamada Cinema Português

Hugo Gomes, 25.05.20

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Quando um realizador de cinema tenta convencer um pugilista profissional a perder perante um ator de pelicula, eis um momento que, não só celebriza The Lovebirds, de Bruno de Almeida, mas como também resume a resistência prolongada do cinema português na sua longevidade. A soturnidade, o saudosismo e o nosso eterno fatalismo, elementos e vários que se aliam dando origem a uma utopia que se dá pelo nome de Portugal cinematográfico. Aqui, o realizador, de cigarro na mão e brandy na outra, é nada mais, nada menos que Fernando Lopes, um dos guerreiros da primeira frente do Cinema Novo e um experiente no que requer ao derrotismo enquanto signo de vivência.

There’s a certain beauty in defeat” – a tradução universal para todo um estado de alma que apenas o português conhece e bem. Gostamos de pensar na derrota porque é através dela que deparamos com a nossa (i) mortalidade.

Grândola, Vila Morena

Hugo Gomes, 25.04.20

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Uma das mais fortes e recentes menções sobre o 25 de Abril no Cinema Português, é aquela demonstrada em A Herdade, onde as personagens interpretadas por Albano Jerónimo (João) e Sandra Faleiro (Leonor) cada vez mais temendo pela preservação do seu paraíso embatem-se num inesperado “milagre” no escuro breu da noite, após saírem de um improvisado “refúgio das velhas tradições”. A rádio ligada transmite sonoridade o qual nunca tinham ouvido antes, ao mesmo tempo em que as chaimites “peregrinas” cruzam-se nos seus caminhos. A partir daqui, é história feita, nada seria como dantes, nem mesmo Portugal, país sufocado pelo seu estado de estagnação, regressaria à inicial forma.

Tiago Guedes abordou os fantasmas desse país em ruína, o seu interiorizado patriarcado presente na gestão de uma terreno alegórico às causas e devaneios sociopolíticos, girando envolto à decadência do seu rei no seu pequeno “castelo”, o senhor da ilha que o cerca do exterior antagónico e que o faz ser grande durante a sua verdadeira pequenez. A Herdade é um filme sobre essas cicatrizes que adquiram uma força de negação perante novos ventos populistas. Um conto do passado com ecos no nosso presente.

Filipe Duarte é Cinema. Cinema é Filipe Duarte.

Hugo Gomes, 17.04.20

O Cinema, televisão e teatro português acabaram de ficar repentinamente mais pobre. Muito se diz por aqui que Filipe Duarte era um dos melhores da sua geração, sem duvidas algumas, e acima disso, era um homem de uma humildade incrível e de simpatia de fazer inveja, como pude constatar diversas vezes.

E mais triste ainda era ainda a sua "tenra" idade. Too soon ...

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A Costa dos Murmúrios (Margarida Cardoso, 2004)

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Tejo (Henrique Pina, 2011)

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A Outra Margem (Luís Filipe Rocha, 2007)

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Mosquito (João Nuno Pinto, 2020)

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Variações (João Maia, 2019)

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A Vida Invisível (Vítor Gonçalves, 2013)

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Cinzento e Negro (Luís Filipe Rocha, 2015)

"O Recado" deixado ao cinema português pelo seu mais novo sangue

Hugo Gomes, 07.04.20

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Perguntei porque tinha voltado. Não respondeu. Ficou calado a olhar para a janela. Nesse momento percebi muita coisa: o Francisco voltou por estar perdido por ti, pelos amigos, por isto … isto. Para trás ninguém volta e de nós fica o que fizermos. Mas em imagem disso ... ele quis voltar atrás, mas estava errado. Era uma ideia, assim, umas imagens que acendem e apagam logo a seguir. O resto foram pretextos.” “Maldevivre” (João Viana)

 

Se José Fonseca e Costa ouvisse os conselhos das suas próprias personagens, teria permanecido no seu cobiçado “estágio” em Itália, ao lado do sempre incontornável Michelangelo Antonioni e o seu eclipsar romântico (“Eclipse”, 1962). Curiosamente, o na altura aspirante a cineasta regressou à sua Pátria com o dever (contrariando as indicações dos seus pais que impuseram o termino do curso de Direito) de envergar no cinema que tanto apaixonou, inaugurando atividade nos chamados “filmes de fundo”, trechos de poucos minutos que preenchiam espaços nas projeções com fins comerciais. Mas porquê voltar? Se em Itália, melhor leque e indústria tinha à sua mercê? Talvez por teimosia ou simplesmente, enquanto jovem, pela ambição de trazer um pouco de “cinema do mundo” a um país, não somente de tamanho, mas socialmente e economicamente a rés.

Mas foram os “filmes de fundo” que serviram como sua escola à portuguesa, ou o teste para se movimentar nas réstias industriais e no universo artístico que conhecera gradualmente (realçando a sua amizade com o músico Carlos Paredes ou o poeta Miguel Torga, que curiosamente, trabalhara com ambos em “A Cidade”, 1968). Mas a sua total emancipação aconteceu por vias dos fundos de cinema da Gulbenkian, uma espécie de Estado dentro de um Estado, que lhe garantiu o maneio para arrancar com “O Recado” (1972), a sua primeira longa-metragem, uma coprodução espanhola que contava com os “cordelinhos” do produtor Henrique Espírito Santo.

O argumento, da autoria do próprio Fonseca e Costa, coloca a protagonista Luísa – interpretada por Maria Cabral (saída do êxito de António da Cunha Telles, “O Cerco”) em perfeita sintonia com o seu criador. Uma mulher dividida entre o presente confortável e o passado romantizado que vai auferindo contornos saudosistas (uma paixão antiga reaparece e que lhe deixa um “recado” para um possível reencontro) é tema de um filme que subversivamente aponta o dedo a um sistema político-social opressivo que agrava a desigualdade nos diferentes hemisférios do país. Há que entender que a militância de Fonseca e Costa já lhe custara algumas visitas à PIDE e um constante cadastro anti-regime, em “O Recado”, um realizador nos seus “verdes anos” tomas as diferentes vestes para conduzir num romance metaforizado e crítico para com um dos pontos fracos do Estado Novo: o constante distanciamento da ruralidade para com as grandes metrópoles.

Nisso, é possível verificar nos precisos e primeiros minutos da longa-metragem: o campestre tradicional, mergulhado nas tradições religiosas e os loucos “de aldeia” - como manda as peças de Gil Vicente – que proferem primários e percetíveis moralismos (e com um certo paternalismo à mistura), enquanto que a cidade, o genuíno ecossistema de Luísa, é refinada com os prazeres burgueses, com as iguarias da cultura importada e das reflexões de primeiro mundo. Aqui, o qual somos introduzidos numa festa onde a nossa protagonista não esconde o seu aborrecimento, um convívio alienado de estranhas criaturas tão “fellinianas” que o filme assume essa invocação através de um reparo de Maria Cabral (“Parece a filha de Saraghina”, de seguida explicando a referência vinda de “8 1/2”).

Estas festividades, e bebedeiras de “novos ricos” ou “vampiros culturais” tomam um passo importante para as duas vertentes da jornada emancipadora de Luísa, a começar pelo contraste de dois mundo, um excêntrico e outro inóspito e rochoso que funcionará como roda desse prolongado dilema. Enquanto o outro ponto, que adquire importância no seu anti-climax, é a transformação intrínseca por vias de uma cuidadosa seleção e destruição de objetos, adornos, bibelô e escritos. Através de uma improvisada fogueira que incinera, acima de mero inventário, memórias, surge o renascimento de uma fénix. Luísa perante esse passado revisitado forçadamente, regressa ao seu habitat natural como uma nova mulher, determinada em atropelar o passado com direção ao incógnito futuro, assim como Fonseca e Costa que depois do “O Recado” abandona o formalismo imposto pelo Cinema Novo em vias de evaporação.

Um cinema eclético que “dá beijinhos nos braços” à cinefilia presente (desde as comparações de Greta Garbo a Maria Cabral até ao cameo especial do lendário diretor da Cinemateca, João Bérnard da Costa), e que coloca em cheque o realizador com as tendenciosas façanhas de primeira longa-metragem, uma afirmação de peito cheio para proclamar o seu devido lugar. E para tal há toda uma consideração íntima para com o seu universo cinematográfico (a sua experiência em “Eclipse” de Antonioni o levou a manufaturar o seu próprio “eclipse passional”), como também do seu território político e pessoal, projetado na contemporânea diva do grande ecrã lusitano … sim Maria Cabral sob este seu heterónimo, Luísa.

Para tal, apenas foi preciso Fonseca e Costa ignorar os conselhos das suas próprias personagens e voltar atrás, contra tudo, contra todos.

 

Até parece que não temos nada a dizer um ao outro

 

 

#Neverforget

Hugo Gomes, 28.01.20

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Ontem, dia 27 de janeiro, comemorou-se os 75 anos da libertação do campo de concentração de Auschwitz.

Um dia para relembrar e nunca esquecer que experienciamos o Holocausto, hoje cada vez mais fomentando como uma “mera opinião politica” alicerçado a uma certa ideologia que se infiltra nas sociedades ocidentais. Mas não seguiremos por esse caminho tenebroso, a memória é aqui a nossa moral. O “Shoah”, essa palavra sem tradução atribuída de forma a assinalar e distinguir, assume-se como a garantia de que tais trevas não se repetirão. Infelizmente, o “andar da carruagem” segue em direção desses mesmos erros passados.

No cinema, a memória mantêm-se viva, quer no registo documental, quer na ficção, de forma a garantir o “Never Forget” (nunca esquecer).

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Nuit et brouillard (Alain Resnais, 1956)

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Kapô (Gillo Pontecorvo, 1960)

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German Concentration Camps Factual Survey (Sidney Bernstein & Alfred Hitchcock, 2014) 

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La vita è bella (Roberto Benigni, 1997)

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Shoah (Claude Lanzmann, 1985)

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Treblinka (Sérgio Tréfaut, 2016)

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Denial (Mick Jackson, 2016)

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The Boy in the Striped Pyjamas (Mark Herman, 2008)

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The Schindler's List (Steven Spielberg, 1993)

Os Melhores Filmes de 2019, segundo o Cinematograficamente Falando ...

Hugo Gomes, 02.01.20

O ano 2019 foi marcado por uma disputa mais renhida entre a distribuição tradicional e os lançamentos de streaming. Nesse último ponto, dando o exemplo da megalómana plataforma Netflix, houve uma forte aposta nos autores que se encontravam (devido a questões criativas, orçamentais e até logísticas) ausentes nas majors hollywoodescas como é o caso de Martin Scorsese e o seu épico gangster The Irishman ou o intimismo de Marriage Story, um dos melhores trabalhos do nova-iorquino Noah Baumbach. Enquanto isso, o cinema fora EUA continua a dar as suas cartas em relação a histórias universais e motivadoras para estas gerações de sofá. E mais uma vez … o cinema português lidera o pódio deste estaminé.

 

#10) Leto

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Sem romances escandalosos, as biografias de cantores de rock seriam inúteis", ouve-se a certa altura nesta não convencional cinebiografia sobre a criação da banda de rock soviético Kino. Do dissidente russo Kiril Serebrennikov, eis um filme intrinsecamente poético (são bandas de Leninegrado que tocam rock que não é rock, mas que pretende ser rock) e expostamente revoltado sobre a resistência jovial e punk perante uma ideologia em queda no gradual contacto com o acidente.

 

#09) Marriage Story

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Embora ele o negue, há quem diga que Noah Baumbach se baseou no seu processo de divórcio para este filme emocionalmente cortante sobre o desgaste amoroso e as eternas batalhas judiciais e sentimentais de uma separação. Desempenhos impactantes e cuidadosamente explosivos fazem deste drama (e produção Netflix) um dos mais certeiros filmes sobre o tema do divórcio no panorama norte-americano, onde a distância é, por si, um alvo de foco.

 

#08) Joker

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Uma génesis anti-canónica embrulhada em maneirismos e referências do cinema de Scorsese. Um fenomenal Joaquin Phoenix e Todd Phillips compõem uma obra cruel que dialoga com a atualidade, dos movimentos populistas até à marginalização das minorias e dos incapacitados numa sociedade que cada vez mais os despreza. Um filme ambíguo que nos faz temer pela sua capacidade e recusa de empatia. Uma das mais interessantes e sólidas incursões do cinema de super-heróis.

 

#07) L'Empire de la Perfection

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Julien Faraut arranca com um texto do crítico Serge Daney em que comparava o Cinema com o desporto, nomeadamente o ténis, para partir numa busca pela perfeição nas posturas e gestos destes jogadores. Nesta sua investigação, esbarra no improvável, em John McEnroe e os seus movimentos desengonçados, na postura imprópria e no seu feitio que motivavam constantes paragens da partida. Através da imperfeição, tenta-se decifrar a perfeição.

 

#06) Once Upon Time in Hollywood

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Deambulamos pelas avenidas solarengas de Los Angeles, ou passeamos por um rancho cercado pelo culto Manson, trilhos e esperas que nos levam a um cinema dotado de paciência, mas percorrido com o amor à Sétima Arte, esse, oriundo de um dos seus entusiastas. Absolutamente "tarantinesco" e longe dos quadrantes do politicamente correto, um filme que é um espelho da nossa realidade e condição social, refletidas numa permanente fábula.

 

#05) Dolor y Gloria

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Após algumas revisitações falhadas, Almodóvar regressa ao passado, fonte de inspiração de algumas das suas melhores obras, para exorcizar as suas memórias num retrato de vitórias e derrotas. O “Pedrito” tem aqui o seu grande pseudónimo na pele de António Banderas, aquele que é possivelmente a seu papel mais rigoroso. Certamente sereno, consciente do seu percurso e sabiamente maduro, o filme é o melhor de dois mundos, a sensibilidade e a maturidade.

 

#04) Mektoub, My Love: Canto Uno

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Para as acusações de misoginia e de voyeurismo, respondemos com uma espécie de efeito proustiano no preciso momento em que Abdellatif Kechiche revisita as suas memórias de juventude numa distorção ficcional. A câmara assume diversa vezes o olhar de um jovem propício à descoberta sexual e emocional, e o filme acompanha essa libertação como um mero turista por entre praias, ruralidade e noites enfrascadas em álcool.

 

#03) Glass

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Nesta secretamente trabalhada trilogia do realizador de “O Sexto Sentido” e “O Protegido”, eis uma analogia ao nosso mundo, dominado pelo universo dos "comics" e super-heróis, desafiando a formatação cinematográfica a partir de uma impingida desconstrução. Mesmo sendo disperso na mensagem, M. Night Shyamalan nunca pretendeu fazer o mesmo que outros com materiais familiares, mas sim olhar à volta e repensar essa mesma paisagem. Será fruto de reavaliações no futuro.

 

#02) Parasite

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O sul-coreano Bong Joon-ho sempre requisitou a luta entre classes, seja de forma evidente ou subliminar, durante a sua carreira. Aqui segue uma família que sobrevive à conta de esquemas e subsídios e tenta infiltrar-se num seio mais avantajado. A sua obra narrativamente e tematicamente mais convencional, mas nem por isso inferior, pelo contrário: é a sua acessibilidade comunicacional que o torna universal e igualmente pontuado de pormenores deliciosos e fraturantes sobre as pirâmides hierarquizadas das nossas sociedades (ocidental ou oriental).

 

#01) Vitalina Varela

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Premiado com a distinção máxima no Festival de Locarno, mais o prémio de atriz, eis mais um feito do cineasta português Pedro Costa no seu percurso de constante reinvenção artística. Uma jornada por entre fantasmas e viúvas numa Lisboa soturna e condenada à marginalização onde, pelo meio, há todo um investimento estético que proclama o filme como um livro de ilustrações aberto para cada um de nós apreciar (nota ao diretor de fotografia Leonardo Simões). Uma experiência sensorial.

 

Menção honrosa: Ash is the Purest White, If Beale Street Could Talk, Los Pájaros de Verano, Alice et le Maire, 3 Faces

A Década '10 traduzido a Cinema Português

Hugo Gomes, 19.12.19

O que reter numa década de cinema português? Um desafio difícil e um pouco ingrato, esse de deixar de fora uma produção que tem lutado contra anos zeros, faltas de apoios, público e por vezes falta de ideias. Mas este é o cinema que amo com todos os seus defeitos e virtudes (alguns dos filmes mais belos são sem dúvidas portugueses). Como tal, eis os 10 selecionados para marcar 10 anos de arte à portuguesa.

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A Batalha de Tabatô (João Viana, 2013)

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Verão Danado (Pedro Cabeleira, 2017)

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A Fábrica do Nada (Pedro Pinho, 2018)

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Cartas da Guerra (Ivo M. Ferreira, 2016)

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Tabu (Miguel Gomes, 2012)

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Vitalina Varela (Pedro Costa, 2019)

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Mudar de Vida - José Mário Branco, a vida e a obra (Pedro Fidalgo e Nelson Guerreiro, 2014)

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Ama-San (Cláudia Varejão, 2016)

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O Gebo e a Sombra (Manoel de Oliveira, 2012)

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As Mil e uma Noites (Miguel Gomes, 2015)