Data
Título
Take
19.7.17
19.7.17

Dunkirk.jpg

… ou será antes Dunquerque?

 

É um bélico sem o sufixo de épico. Christopher Nolan recolhe os factos históricos que rodeiam a evacuação de mais de 300 mil militares aliados em 1940, nas praias de Dunquerque (França), um episódio crucial da Segunda Guerra Mundial que revelou ao mundo a ameaça ignorada que se o tornaram os alemães sob a ideologia nazi. Nessa recolha, Nolan assumiu-se preparado para retratar a batalha e a retirada, essa ferida no orgulho britânico, ao invés de personificar os idos do campo de guerra através de heróis patriotas, ou do maniqueísmo avassalador cujo tema suscita automaticamente.

 

Christopher-Nolans-Dunkirk-IMAX-poster-cropped.jpg

 

E se o realizador, de origem britânica a operar em Hollywood, isola um pedaço de "História morta" ao serviço da sua narrativa, novamente contada em três espaços temporais em constante colisão resultante num só quadro, é verdade que todo esse argumento de reconstituição tornam Dunkirk num ensaio dramaticamente vazio.

 

MV5BMjEzNjU3NTg5OF5BMl5BanBnXkFtZTgwNDcyNDY4MjI@._

 

Ao contrário de Titanic, de Cameron, em que a dita "História morta" entra em serviço do romanesco cinematográfico, neste bélico filme de jeito possante, a romantização está fora de alcance. Aliás, esta é a "nova" Hollywood idealizada por Nolan, numa cruel limpeza ao misticismo e ao simbolismo contraído nos putrefactos ventos saídos dos enésimos campos de batalha. Se fosse só isso, estaríamos calmos e serenos, esperando o reforço vindo da outra margem, mas não. Mesmo que as "vacas sejam sagradas" e "intocáveis", há que reconhecer que a megalomania tomou Nolan e a sua ambição de germinar um "espírito autoral" o atraiçoa, fazendo-o tropeçar nas suas próprias qualidades.

 

dunkirk.jpg

Se foi dito que o realizador é um artesão cuja emocionalidade é zero, eis a prova dessa inaptidão. Para contrariar, como trunfo na manga, surge a manipulação. Dunkirk arranca com a primeira nota de Hans Zimmer e é com ele que o espectador segue sem interrupções até à última da pauta. A ginástica cometida pelo compositor é tanta que chega a executar com mais exactidão o trabalho que estava encarregue a Nolan: o de adereçar às suas "personagens" as emoções necessárias, a tensão das ocorrências, aquela espera de um milagre que se faz hiperactivamente de forma a competir com a (im)paciência da audiência.

 

dunkirk-696x391.jpg

 

É um filme de guerra mirabolante, quer na sonoplastia ensurdecedora, quer na edição "salta-pocinhas" e sob promessa do "time delay". Contudo, é nessa dita edição que não devemos perdoar essa grandiloquência produtiva. Nolan falha na técnica, não reconhece as dificuldades com que se filma em alto mar, em enfrentar as instáveis condições climatéricas marítimas, da coloração que o mar porventura dispõe diariamente.

 

dunkirk-600x338.jpg

 

Não há com que perdoar, Dunkirk tem um orçamento milionário, um realizador com uma liberdade em Hollywood invejável e a tecnologia actual que funcionam como verdadeiros feitos e facilitismos (sem com isto insinuar que grandes produções deveriam estar restringidas a estúdios e a chroma keys). Ou seja, depois de The Dark Knight Rises, este é o novo desleixo de Nolan, para além de ser um filme à sua imagem. Tão subtil que nem um camião-TIR, um peso-pesado sem graciosidade, sem a violência, quer gráfica, quer sentimental, das imagens, ou o constante barulho que retira qualquer experiência sensorial.

 

maxresdefault.jpg

"The sweetest sound" clama Mark Rylance ao observar os caças aliados a sobrevoar sobre ele. Poderia ser o "som mais doce", mas Nolan impossibilita essa "audição", assim como é incapaz de nos oferecer o tão aguardado espectáculo que nos prometia. Longe da reflexão humana e social que Dunquerque possivelmente proporcionaria, Nolan atira-nos como epílogo um apelo ao "Novo Mundo" para resgatar este "Velho Mundo" em modo de ebulição. Parece que afinal a "História morta" acaba por ser "História morta"!

 

Real.: Christopher Nolan / Int.: Fionn Whitehead, Damien Bonnard, Aneurin Barnard, Mark Rylance, Tom Hardy, Barry Keoghan, Kenneth Branagh, James D'Arcy

dunkirk-trailer-harry-styles-2016-billboard-1548.j

4/10

publicado por Hugo Gomes às 01:23
link do post | comentar | ver comentários (9) | partilhar

21.12.14

Interstellar.jpg

Nolan, a odisseia do Espaço!

 

No sentido mais poético e aficionado pela Sétima Arte, o Cinema leva-nos até às mais vastas fronteiras do nosso ser, às mais longínquas galáxias e a mundos nunca antes imaginados. Interstellar, o mais recente filme de Christopher Nolan, numa fase em que o seu ego pretensioso é mais evidente, é a proposta de ida sem retorno a essa imensidão espacial, tal como é transmitido no titulo, inter-estrelar. Grandioso em termos visuais, Nolan conseguiu com isso e sob um jeito que demonstra astúcia reciclada às suas próprias marcas autorais, sim, porque o realizador da trilogia de The Dark Knight, já merece acima de tudo o seu titulo de autor, e os seus "blockbusters" a suas obras de arte.

 

Interstellar-znews.jpg

 

Inicialmente o que vemos aqui, neste futuro neo-primitivo, onde os recursos naturais se esgotam a uma velocidade extrema e que  planeta Terra, outrora uma arca de diversidade biológica, é consumido pela inospitalidade e pelo deserto desconhecido que avança. Este Mundo ficou pobre, a Humanidade é forçada a sobreviver ao invés de viver nos seus sonhos de conquista, aliás a agricultura é o único meio capaz de destinado aos homens deste futuro esquecido, enquanto que a ciência subvalorizada e remetida aos anais da Historia da Civilização. Esta distopia, que soa mais como uma pessimista previsão do nosso estado, é o ponto de partida para a aventura que se segue, Nolan demonstra a sua face mais conservadora, e refiro em linguagem "americanizada", onde salienta os feitos do povo americano além fronteiras e destrói à partida qualquer conspiração ou crítica nesse meio.

 

6a00d8341bfb1653ef01a511ba63de970c-christopher-nol

 

No caminho ainda somos surpreendidos à clandestinidade da NASA, a única organização, segundo Nolan, capaz de salvar a Humanidade. É obvio que o realizador foi pedir conselhos à organização e como condição a "boa conduta" da mesma deve estar representada. Porém, Interstellar não é um filme de distopias, nem imaginações frenéticas de mais um futuro distante, é sim um pretexto para agradar a comunidade cientifica com teorias de relatividade e do espaço desconhecido. Aliás comunidade essa, que sempre havia sentido aparte no território da ficção cientifica, visto que o entretenimento ou a fertilidade das ideias (o fascínio pelo impossível) sempre havia sido prioridade frente credibilidade e a possibilidade a foro cientifico. Nesse aspecto, Interstellar constitui um "must", mas só nesse termo.

 

interstellar.thm_.png

 

Contacto de Robert Zemeckis, o previsível e muitas vezes citado 2001: A Spacey Odyssey, de Kubrick e até mesmo traços do "populucho" Armageddon, de Michael Bay, referências essas, a que deparamos aqui. Ou seja, fora desses devaneios científicos e explicações merecedoras de registo, Interstellar é uma salada de frutas dos space operas, um tecnicamente fascinante filme de ficção cientifica que tem como principal objectivo, recorrer a umas boas teorias cientificas para desmantelar o misticismo do filme de Kubrick. Ao invés da metafísica explorada e teorizada até à exaustão no filme de 1968, é utilizado a relatividade e pensamentos de Isaac Newton ao serviço de um twist final que por si era previsível.

 

interstellar.JPG

 

Claramente, Christopher Nolan construiu aqui a sua homenagem ao género, mas o que soube realmente fazer foi um híbrido incógnito, um ensaio teorizado para provar que o realizador "is the smartest guy in the room". Ou seja Interstellar resulta no seu todo como uma bem feita demonstração de ego. Enquanto isso, o espaço exposto pelas avançadas técnicas de Hollywood perdeu dimensão desde a incursão espacial de Alfonso Cuarón e o seu excelente Gravity.

 

"Do not go gentle into that good night; Old age should burn and rave at close of day. Rage, rage against the dying of the light."

 

interstellar1.jpg

 

Ver Também

2001: A Space Odyssey (1968)

Gravity (2013)

Batman Begins (2005)

The Dark Knight (2008)

The Dark Knight Rises (2012)

Inception (2010)

5/10

publicado por Hugo Gomes às 01:17
link do post | comentar | ver comentários (1) | partilhar

21.8.12

O fim da trilogia do cruzado encapuçado!

 

Oitos anos passaram-se desde a morte de Harvey Dent (Aaron Eckhart) e do desaparecimento de Batman. Gotham City vive momentos de paz enquanto se faz respeitar uma nova ordem que facilita a prisão de criminosos. Durante este período, Bruce Wayne acolhe uma vida de eremita na sua própria mansão, uma demonstração de desgosto pela trágica morte de Rachel (Maggie Gylenhaal). Todavia esta “paz” é abalada com a chegada de um terrorista de nome Bane (Tom Hardy), um homem misterioso, que de certa maneira encontra-se ligado ao passado de Wayne, com a promessa de reduzir Gotham a cinzas.

 

 

Um dos mais antecipados filmes de 2012, The Dark Knight Rises fecha a trilogia criada por Christopher Nolan envolto da personagem gerada pela mente de Bob Kane e de Bill Finger. O realizador que surpreendeu tudo e todos em 2008 com The Dark Knights  (aquele que é para muitos uma das "queridas" adaptações de um super-herói de BD) promete condenar o seu Batman a um desfecho impróprio para a comercialização dos eventuais seguimentos, terminando assim um legado cobiçado por muitos estúdios. Ao contrário do seu antecessor de grande êxito, que emanou um estilo neo-noir próprio do cinema de Michael Mann, The Dark Knight Rises é contagiado por um sintoma apocalíptico e bigger than life possível, com isso Christopher Nolan se afirma como um cineasta que há muito não se via para os lados de Hollywood, convertendo um dos prováveis blockbusters de Verão numa produção de grande escala equiparado aos colossais épicos fôlego interminável da Era Dourada do cinema norte-americano.

 

 

Nolan filma longas sequências em IMAX, garante figurinos suficiente para as mais elaboradas cenas e evita a todo o custo o CGI, fruto disso temos pirotecnia gratuita e acção a rolos para os verdadeiros apreciadores da arte da acção "old school". Como ensaio de acção, The Dark Knight Rises revela-se com génio, arquitectando os maiores desafios de que Batman alguma vez enfrentara e apresentando a nós um vilão carismático e terrivelmente cruel que promete fazer de Joker de Heath Ledger num “menino de coro”. Porém, é traído pela própria forma, enfraquecendo constantemente com a passagem da narrativa.

 

 

Todavia, longe do seu hype e das escolhas ousadas e de “homem” por parte de Nolan, The Dark Knight Rises é um projecto em mão, feito com nervosismo de não desiludir uma massa motivada pelo filme-evento de 2008. Nota-se um calculismo cuidado quanto à sua produção, porém, a infelicidade surge quando nos deparamos com um filme desequilibrado, mesmo sob o catálogo de “must see” da temporada, não escondendo os seus contornos de proto-fascismo, esses já sugeridos durante o decorrer da narrativa. A começar pelo argumento da autoria do cineasta, em conjunto com seu irmão mais novo, Jonathan Nolan, tão pretensioso que se esquece de completar os "buracos de lógica" que vão sido invocados ou de conseguir fluir a narrativa, constantemente encarada com absoluta seriedade, e sem travão para tal. Existem ainda inúmeras personagens descartáveis que vão condicionando o enredo e uma apagada Marion Cottilard a operar como algo supostamente inútil que adquire uma relevância desastrosa, prejudicando o próprio argumento e a "denegrir" a credibilidade deste projecto.

 

 

A ousadia e o atrevimento desse mesmo argumento é, porém, uma das razões de que The Dark Knight Rises consegue ser tão distinto. Christopher Nolan invoca os fantasmas do terrorismo, o verdadeiro medo do século XXI, e transcreve ideologias escondidas nos propósitos das personagens encarregadas de transmitir um conservacionismo moral pouco transposto. Assim, ao assistirmos atentados na Bolsa, às tomada de posse do povo ao poder, sequências de confronto entre manifestantes e forças policiais, cenas, essas, que vem demais culminar a paranóia terrorista e figurar Batman como um defensor da sociedade regularizada. Ideais ou doutrinas, conforme o que quiserem chamar, analisados num futuro próximo por outra geração de espectadores e interpretados na sua possibilidade como um fascismo envolto ao herói que todos "devem" respeitar. Enquanto que Bane sobre um discurso de Revolução Francesa, o dito antagonista, a merecer ser convertido numa potencial e incompreendida figura heróica. Ou seja, os grandes defeitos de The Dark Knight Rises são as suas ideologias escondidas e não ocultadas, assim como um argumento, no seu todo, disfuncional. Porque tirando isso temos um espectáculo à moda antiga, pipoqueira e bem ensaiada como homenagem a um dos melhores super-heróis de banda desenhada de sempre. 

 

 

Tom Hardy atribui ao seu Bane doses generosas de vilania, Christian Bale controla o seu alter-ego e recria uma das melhores reencarnações do seu personagem, Gary Oldman continua o senhor que é, Michael Cane merece elogios quando tenta incutir emoção no seu Alfred Pennyworth e por fim o maior risco do filme, Anne Hathaway compõe graciosamente uma Catwoman tão simbiótica com este Gotham visionado por Christopher Nolan. Falando em algo épico, não poderíamos deixar de referir Hans Zimmer, um habitual colaborador de Christopher Nolan (principalmente nesta trilogia do O Cavaleiro das Trevas), cuja sua composta banda sonora transcreve a fita para um lado mais ambicioso, tornando-o num mimo técnico invejável.  

 

 

Em suma, não possuindo a mesma genialidade e influência de The Dark Knight, eis na sua possibilidade o menos conseguido filme da filmografia de Nolan, até à data. Mas contra todos os ventos e marés, este event movie consegue ser mesmo assim um dos indicadores de que o cinema-pipoca evoluiu bastante desde aquele trunfo do realizador. Não fecha a trilogia com chave de ouro, e é pena ...

 

“We will destroy Gotham and then, when it is done and Gotham is ashes, then you have my permission to die”

 

Real.: Christopher Nolan / Int.: Christian Bale, Joseph Gordon-Levitt, Michael Caine, Anne Hathaway, Gary Oldman, Tom Hardy, Marion Cotillard, Morgan Freeman, Matthew Modine, Liam Neeson

 

 

Ver Também

Batman Begins (2005)

The Dark Knight (2008)

Batman: Gotham Knight (2008)

6/10

publicado por Hugo Gomes às 23:29
link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

24.7.10

Nolan e o seu mundo onírico!

 

Depois de ter injectado uma dose de neo-noir digno de qualquer filme de Michael Mann no predilecto herói de banda desenhada da DC Comic - Batman, no êxito de 2008, The Dark Knight, Christopher Nolan regressa em mais uma incursão de alto risco, desta vez depositando no tão batido cinema heist, um dosagem de onírico e surrealismo. Inception faz adivinhar, como já é referência nas obras recentes de Nolan, uma noção de espectáculo hollywoodesca de faro aguçado, porém é na engenhosa forma com que a fita não deixa de fora parte a massa cinzenta que guia o nosso espectador, tornando-o algo íngreme e provavelmente único naquilo que foi ultimamente produzido no cinema mainstream de grandes proporções orçamentais.

 

 

A Origem, o título português tão mal traduzido, é carregado por uma básica intriga de golpe liderada por um Leonardo DiCaprio, que após Shutter Island de Martin Scorsese, tem ganhado gosto pelas intrigas labirínticas. Ele é Dom Cobb, um especialista na extracção de segredos através dos sonhos, que reúne uma equipa all-star para “implementar” um devaneio que resultará numa ideia a um herdeiro de uma empresa milionária de recursos energéticos. Porém tão embaraçoso para as audiências de Verão, mas deveras perfilado pelos toques de blockbuster que se fazem sentir pelos paradoxais efeitos visuais ao serviço da criação destes cenários oníricos, Inception aposta na sofisticação das “mesmas cartas” que sustentam o subgénero. Podendo afirmar que custa mesmo acreditar que Hollywood realmente apostou pesado neste projecto, onde o nível de risco era demasiado, principalmente em relação à complexidade do seu argumento e pior, da sua narrativa que define o suposto do filme, labiríntica.

 

 

Todavia o novo filme de Nolan, mesmo criado sobre o hype envolto do material divulgado na sua concepção como trailers e posters, consegue contornar os supostos fracassos que se faziam adivinhar em tão melindrosa fita. Inception é puro êxtase cerebral, o filme-entretenimento que combina acção, um poderoso argumento (não caindo nas comparações com The Cell de Tarsem Singh) e um elenco competente sendo em principal destaque Ken Watanabe, Marion Cottilard (a ascender cada vez mais em Hollywood) e Tom Hardy. Ellen Page tem em princípio o seu papel de catapulta para as grandes produções (em X-Men – The Last Stand, a rapariga pouco se desuniu), o mesmo se pode dizer a Joseph Gordon-Levitt (que provavelmente voltará a trabalhar com Christopher Nolan no terceiro Batman) e Leonardo DiCaprio, a provar cada vez que é uma estrela cinematográfica com excelente escolha nos seus papéis. Contudo, tal como em Shutter Island de Scorsese, o protagonista volta a desempenhar o papel de um homem abalado pela trágica morte de sua mulher.

 

 

Um David Lynch era capaz de criar um clima menos lúcido e mais surrealista ao mundo onírico representado, mas sendo sincero, só Nolan foi capaz de oferecer a esse próprio legado o seu estatuto de blockbuster, favorável às grandes massas. Inception é poderoso, é puro produto da imaginação do autor como também fiel às linhagens do cinema norte-americano, e dentro do seu género como daquilo que fora produzido no país nos últimos anos é do mais excitante que se poderia produzir. Para terminar ainda há espaço para a fotografia de Wally Pfister (predilecto de Nolan) e sempre imponente Hans Zimmer na secção de banda sonora.

 

inception-trailer-movie-leonardo-de-caprio.jpg

Só é pena que o universo de sonho imposto pelo realizador seja menos delirante que a própria natureza onírica e apresenta uma rigidez formal, demasiado anexado à realidade regulamentar. Mas nada que realmente prejudique um dos mais entusiasmantes entretenimentos dos últimos anos.  

 

“We create the world of a dream. We bring a subject into that dream and they fill it with their secrets.”

 

Real.: Christopher Nolan / Int.: Leonardo DiCaprio, Marion Cottilard, Ellen Page, Joseph Gordon-Levitt, Ken Watanabe, Cillian Murphy, Tom Hardy, Lukas Haas, Michael Caine, Tom Berenger

 

 

Ver Também

Shutter Island (2010)

The Dark Knight (2008)

Christopher Nolan

8/10

publicado por Hugo Gomes às 02:52
link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

9.8.08

Os “arrufos” entre um morcego e um palhaço!

 

The night is darkeste just before the dawn” são frases como esta que fazem antever a negrura de um dos blockbusters mais esperados de sempre (se não o mais esperado do ano) – The Dark Knight de Christopher Nolan. Para quem desconhece, Nolan não é praticamente um homem de blockbusters, não senhor, o realizador aclamado de Memento é um “fazedor de filmes”, conseguindo combinar o talento artístico numa fluidez que poderemos considerar simbiótica para com as grandes audiências. Memento (2000)  foi a sua entrada no estrelato, com uma finalidade do perplexo mundo ao contrário acessível à maior parte dos espectadores e com um dos argumentos mais entusiasmantes do final do século, seguiu-se então Insomnia (2002), em que o realizador conseguiu provocar em Al Pacino, pesadelos psicológicos memoráveis e Batman Begins, o início de tudo, uma reinvenção realista do herói de capa preta, por vezes maltratado no cinema. Nesse filme de 2005Nolan com auxílio do argumentista David S. Goyer explora as origens do “homem-morcego” e a sua lavagem realista de influências a Frank Miller torna-o num must see do universo dos super-heróis, a sua qualidade foi discutida pelos mais cépticos e comparada com o Batman de Tim Burton, que mesmo passados cerca de 20 anos continua como uma melhores adaptações da DC Comics. Depois de ter pausado em The Prestige – O Terceiro Passo, regressa ao “escuro mundo” do Batman naquele que já é consideravelmente o auge da sua figura –  The Dark Knight.

 

 

O que poderemos encontrar neste The Dark Knight – O Cavaleiro Das Trevas? Muita, mas muitas razões para vê-lo. Nesta memorável aventura do herói criado por Bob Kane e Frank Foster em 1932, ficou marcado por uma extensiva campanha de “gente adulta”, desde posters arrebatadores a publicidade viral, como também e infelizmente utilizado, a aclamação do último papel completo do falecido actor, Heath Ledger, devido a isso e não só, o seu desempenho como o vilão Joker se antevia com uma nomeação ao Óscar e um legado que irá perdurar nos próximos e longos anos. The Dark Knight de Christopher Nolan é a exploração do conceito de herói, numa metafórica filosofia embalada com o entretenimento mais entusiasmante dos últimos anos, e melhor, as suas sequências de acção são maioritariamente desprovidas de CGI, fazendo com que esta incursão de “veia realista” de Batman seja tão credível e sem a artificialidade comum neste tipo de produções. Parece que Nolan fez mesmo um filme “à moda antiga”, de carácter mainstream, mas interessante o suficiente como um épico citadino. Como realizador há dar o mérito à sua capacidade de criar uma Gotham City viva e não fantasiosa e quase “caroleana” como a dos filmes de Burton, trata-se de uma cidade como muitas outras, com os problemas de qualquer uma e até Batman soa como herói limitado mas sobretudo humano, e é nesse termo que o faz superar os outros heróis da DC Comics, nomeadamente o “grande” e “invencível” Superman. Toda esta realidade crível submete a Batman numa categoria a par com outros contos de violência como The Departed ou Heat, modulando o melhor de Mann e suas outras influências. Apetece-me gritar que estamos perante um filme de descendência neo-noir pura.

 

 

The Dark Knight introduz a um mundo pós-11 de SetembroJoker  (Heath Ledger), um misterioso e bizarro homem que promete causar o caos na cidade de Gotham, este dito palhaço assassino fora contratado pelo crime organizado local para impedir a crescente onda de sensibilização que paira sobre a cidade com influências das acções de Batman, o justiceiro que surgiu, também ele misteriosamente, para apoiar a lei e a confraternidade entre os habitantes. Devido a isso, Gotham City conhece outro herói, desta vez sem mascaras, nem gadgets e o seu combate ao crime é um pouco mais seguido pelos regulamentos, trata-se de Harvey Dent  (Aaron Eckhart), o promotor público, um homem de grande futuro para Gotham, como Gotham um grande futuro com este homem. Bruce Wayne  (Christian Bale), alter-ego Batman, vê nesse homem o seu descendente e decide protege-lo a todo o custo e é partir daí que entra Joker, com planos opostos ao do nosso herói. Eis o clássico embate entre duas figuras tão misteriosas como capazes. Será que Batman terá que descer ao seu nível para vencer uma mente tão anárquica e negra como a de Joker?

 

 

Christian Bale veste mais uma vez a pele do milionário Wayne, ou seja Batman, a sua popularidade cresceu alargadamente desde o ultimo filme do “homem-morcego”, o actor predilecto de Nolan bem se esforça, mas o protagonismo cai facilmente em direcção a Heath Ledger, naquele o qual volto a referir, seu último papel completo, Joker. Há quem acuse que a fama desta interpretação teve como efeito da morte prematura do actor, considero tal facto, mas é neste Joker, fruto de grande trabalho de Ledger, que se consegue destacar mesmo com o seu alto hype. Relembro que Ledger trabalhou bastante na negra composição deste vil, seguindo os filmes de Clockwork Orange de Stanley Kubrick, uma verificável fonte, e nos livros mais negros desta personagem e pronto uma “pitadinha” da ascendência gore à lá Saw para situar a “antiga” personagem na moda. Quanto á disputa da melhor encenação da mesma personagem, falo obviamente do embate que tem gerado discussão, Nicholson  e Ledger, o primeiro que vestiu a pele do carismático “bad guy” em Batman de Tim Burton, e segundo do que se ouve, o falecido actor provou ser superior em tudo em relação ao celebre actor de Shining também ele de Stanley Kubrick, em relação a esse ponto só tenho uma coisa a declarar, ambas as incursões são da mesma personagem mas ao mesmo tempo diferentes. Nicholson encenou a variante mais clássica, o seu papel era simbiótica para a caracterização de Gotham através de Burton, Batman e Joker completavam-se, tal como Ledger cita em The Dark Knight “you are just a freak … like me!”. Quanto a Heath Ledger, o seu Joker é uma imagem mais fiel ao mundo em que vivemos, um mundo abalado pelo terrorismo, pelo idealismo radical e neste caso pelo anarquismo, melhor adjectivo na sombria figura de Joker de The Dark Knight. Conclusão; Heath encontra-se perfeito num papel assombroso e carismático, e mesmo sendo muito cedo aclamá-lo como uma dos melhores vilões recentes do cinema, a par com Hannibal Lecter de Anthony Hopkins e o incontornável Dark Vader da saga Star Wars.

 

 

Todavia não é só Heath Ledger e o seu Joker que tomam conta do filme, Aaron Eckhart consegue arrepiar pela sua versatilidade e a composição de um Harvey Dent trágico e a certa altura alucinando. O seu Two Faces  (Duas Caras), alter-ego de Dent, é um vilão assustador e enigmático, decerto não possuirá o mesmo protagonismo de Joker de Ledger neste filme, mas tendo em conta que o argumento de The Dark Knight gira envolto da personagem de Eckhart, o actor de Thank You For Smoking consegue captar o requisitado e muito mais, provando ser um talento subestimado nos das de hoje. Gary Oldman e Morgan Freeman são dois actores que se encontram como é de esperar num filme, quer no carregamento de presença, quer a sua popularidade atractiva; Freeman é igual a si próprio, ou seja comodo e quanto a Oldman, devido a importância do seu personagem, o actor consegue segurar o seu papel sem falhas aparentes. Outro actor de presença quase imprescindível, transmitido a veia mais moralista e filosófica de BatmanMichael Caine na pele do fiel mordomo Alfred. Enquanto na antologia do herói, era normalmente apresentado como uma personagem semi-decorativa, em The Dark Knight, tal como em Batman BeginsAlfred é de composição mais influente e afirmativa, trata-se de uma parte da alma do “homem-morcego”. Um dos factores mais positivos nesta continuação é porém a mudança de Katie Holmes por Maggie Gylenhaal, a actriz compensa em melhoria a má interpretação da actriz anterior e mesmo sendo ofuscada nesta obra, a sua presença num blockbuster desta envergadura poderá abrir novas portas para esta, já que se encontrava bastante limitada ao circuito de filmes indies. Apenas em baixa, encontra-se Christian Bale como Bruce Wayne, de presença mais reduzida (Heath Ledger parece roubar qualquer plano que entra), o actor entra num modo automático à deriva desta orquestrada narrativa. Falando em orquestras, não poderei deixar de referir a banda sonora composta pelo luxuoso mas sempre “bem” Hans Zimmer, a transmitir um fulgor épico merecido.

 

 

Além do elenco, ainda podemos contar com um argumento inteligente, complexo e tratado com a seriedade que merece, muito mas muito longe da indigente qualidade de filmes do mesmo tipo. Christopher Nolan tem a virtude de cumprir aquilo que tem vindo a prometer, uma arrebatadora obra de acção, um thriller negro o qual o seu sucesso não é descabido de todo. Não é o melhor filme do mundo, nem nada parecido, mas é sim o entretenimento mais completo dos últimos 3 anos. Um invejável blockbuster a marcar o melhor deste Verão de 2008 e o melhor filme de Batman alguma vez feito (palavra!).

 

Let’s put a “smile” on that face

 

Real.: Christopher Nolan / Int.: Christian Bale, Heath Ledger, Michael Caine, Aaron Eckhart, Gary Oldman, Morgan Freeman, Maggie Gylenhaal, Cillian Murphy

 


 

O melhor –  Um filme comercial que cumpre aos mais diferentes níveis

O pior –  Ser aclamado como o melhor filme de todos os tempos, o que é exagerado

 

The Dark Knight” – 10 estrelas “Depois há um senhor chamado Christopher Nolan que resolveu, a par do seu irmão, escrever um dos mais brilhantes argumentos que já visualizei em película.(…) The Dark Knight" é simplesmente obrigatório. Eu irei vê-lo uma segunda vez ao cinema e, quem sabe, uma terceira. Não se estão a rir?? "Why so serious??' Cinema is My Life

The Dark Knight – 10 Estrelas- " "The Dark Knight" não é um mero blockbuster, é muito mais que isso. É não só um dos grandes filmes dos últimos anos, como também um dos melhores alguma vez feito sobre o universo dos super heróis. " Ante-Cinema

 

9/10

publicado por Hugo Gomes às 17:03
link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar

11.8.07

 

O regressar às trevas do Homem-Morcego!

 

Traumatizado com o assassínio dos seus pais, Bruce Wayne  (Christian Bale), o herdeiro de um património incontável de Gotham City, percorre meio mundo em busca da sua identidade perdida ou em todos os casos a vingança que sempre havia pretendido. Wayne vai ao encontro da temível Liga Das Sombras, uma organização semi-terrorista em defensa da justiça e na luta da corrupção, com intuito de se tornar num homem mais forte e capaz de enfrentar os seus próprios medos. Alguns anos depois, o herdeiro perdido regressa à cidade natal, trazendo consigo inspirações e ideias na luta de tudo aquilo que tornou Gotham numa cidade suja e corrupta.  Batman foi o resultado desses mesmos ideais.

 

 

Quando falamos de Batman no cinema, logo referimos a duas versões distintas e caracterizadas por tons singulares, a primeira é uma comédia camp com Adam West num travestido homem-morcego numa versão de 1966, a segundo surgiu em 1989 com Tim Burton a provar o Mundo que as adaptações dos “heróis aos quadradinhos” são mais do que meros filmes familiares, mas no seu caso podendo bem ser obras de acção com criatividade cénica e atmosférica. Na pele do “cavaleiro das trevas” encontramos um Michael Keaton sombrio que se repetiu numa sequela em 1992, novamente dirigida por Burton. A visão gótica do herói da DC Comics foi seguida por duas sequelas que de certa forma levaram Batman para os seus “dias mais negros”, ele são Batman Forever (1995) e o “horrendoBatman & Robin (1997), a “gota de água” de um franchising que até somou êxitos. Ambos dirigidos por Joel Schumacher, cuja carreira não foi a mesma desde o triste episódios de 1997, onde confundiu criatividade com exaustão de neons, luz e muita core, uma narrativa “empapada” com excesso de informação e as acusações de fetichismo gay que advém de pormenores inúteis como um fato com mamilos utilizado por Batman e um igualmente apertado no seu sidekick Robin (interpretado por Chris O'Donnell), até “close-ups” duvidosos a fita continha. Batman & Robin acabou por se tornar num fiasco em consideração de um prejudicial “passa-palavra”, chegando a difamar a própria série e o herói em questão no cinema, salvo apenas através da originalidade trazida pelos na Banda Desenhada.

 

 

Foram precisos oito anos para que um dos mais famosos e incontornáveis figuras de banda desenhada conseguisse ignorar os “incidentes” e regressar ao grande ecrã, e verdade seja dita, o fez da melhor maneira possível. Christopher Nolan (Memento, Insomnia) é o responsável por este reboot que devolve as “trevas” a Batman, que em conjunto com David S. Goyer reuniram as mais interessantes histórias do seu legado de banda desenhada dos últimos anos, nomeadamente o aclamado The Dark Knight de Frank Miller, que redefiniu a série literária. Nolaninjectou” neste herói o realismo, as influências do neo-noir e acima de tudo a credibilidade, resultando num ambiente surpreendentemente simbiótico para um personagem de BD no cinema. Assim, Batman de “orgulho ferido” poderá finalmente erguer das trevas como era pretendido.

 

 

Um filme de acção vibrante e de uma força única que capta o melhor ambiente do cinema policial à moda antiga, mais do que o suposto “pastiche” da banda desenhada. Nolan reuniu um elenco de luxo na transposição dos conhecidos personagens de sempre, tendo o mutável Christian Bale na pele de Bruce Wayne e o alter-ego Batman (não é o melhor cavaleiro encapuçado mas confessa-se, é capaz de transmitir o seu lado mais negro e violento, contudo comporta-se como melhor Bruce Wayne, um dos objectivos a ser “rompidos” aqui). Para além da revelação de American Psycho (2000) e The Machinist (2004), Batman Begins presenteia-nos actores de calibre como Michael Caine (melhor Alfred não há!), Morgan Freeman (uma espécie de Q dos filmes do James Bond), Tom Wilkinson, Liam Neeson, Gary Oldman, um desperdiçado Ken Watanabe, um flexível Cillian Murphy como o vilão Scarecrow (O Espantalho na língua de Camões) e uma quase ruinosa Katie Holmes apresentando-se como um par romântico fraco envolvido com uma interpretação deslocada.

 

 

Engenhoso e sedutoramente negro, Batman – O Inicio (titulo traduzido)  é uma das mais sólidas adaptações da BD, e por mais que me custe dizer isto, é na minha opinião o melhor Batman feito para o cinema (perdoe-me fãs de Tim Burton). Nolan consegue ressuscitar um herói tão mal tratado pela indústria cinematográfica e atribuir-lhe um porto de abrigo, todavia nota-se que o realizador não possui a mesma visão de Gotham que de Tim Burton, apresentando-a como uma previsível cidade ausente de misticismo. Nota final para a pomposa banda sonora de Hans Zimmer. Para finalmente esquecermos dos dois desastres de Schumacher e os seus “fatos com mamilos”.

 

“You must become more than just a man in the mind of your opponent.”

 

Real.: Christopher Nolan / Int.: Christian Bale, Michael Caine, Liam Neeson, Katie Holmes, Gary Oldman, Cillian Murphy, Tom Wilkinson, Rutger Hauer, Ken Watanabe, Mark Boone Junior, Linus Roache, Morgan Freeman, Larry Holden

 


8/10

publicado por Hugo Gomes às 16:51
link do post | comentar | partilhar


sobre mim
pesquisar
 
arquivos
2018:

 J F M A M J J A S O N D


2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


recentemente

Dunkirk (2017)

Interstellar (2014)

The Dark Knight Rises (20...

Inception (2010)

The Dark Knight (2008)

Batman Begins (2005)

últ. comentários
Tomb Raider: 4*Este é um blockbuster bem conseguid...
Mas, sendo este caso Woody Allen já tão antigo, po...
Filme muito bom. Um tratado de sociologia/psicolog...
Notícia triste, mais um talento do qual nos desped...
Ridículo. Não são os únicos posters desta "naturez...
Takes
10/10 - Magnífico
9/10 - Imprescindível
8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
5/10 - Medíocre
4/10 - Muito Fraco
3/10 - Mau
2/10 - Péssimo
1/10 - De Fugir
0/10 - Nulidade
stats counter
HTML Hit Counter
counter
links
mais comentados
9 comentários
2 comentários
1 comentário
12511335_1084470088250815_732384524_o
subscrever feeds
SAPO Blogs