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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Sempre os mesmos?!

Hugo Gomes, 23.01.24

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Oppenheimer (Christopher Nolan, 2023)

Ontem foram anunciados os "premiados" da OFCS (Online Film Critics Society), na qual participo, e constatei que são exatamente os mesmos nas suas devidas categorias em relação a outra enxurrada de prémios e círculos de crítica. Hoje, confirma-se a "harmonia" com as nomeações aos Óscares, como se fosse um campeonato. O que mais entristece não são os prémios, mas sim como este círculo de críticos parece não sair daquele formato de "gosto". Deixou há muito de existir exigência, e sobretudo, pensamento. Temo que a Crítica de Cinema se transforme em algo meramente decorativo... e estrelado.

O atômico Nolan e o seu Dr. Estranho Amor

Hugo Gomes, 19.07.23

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Falemos de um génio que nem é bem um sábio, um homem de convicções fortes mesmo assim, cuja sua ciência culmina numa arma de destruição, “testada” enquanto “golpe de misericórdia” ao oponente de Guerra. Mais de 200 mil vidas, a soma de Hiroshima e Nagasaki, desvanecidas, o custo da tal invenção, esse ultimato ostentativo que segundo o seu criador é capaz de dilacerar o Mundo. Digamos que o “pai da bomba atómica” - legado amaldiçoado - J. Robert Oppenheimer é uma figura e tanto, o Prometeus do último século, da modernidade dele apresentada se forjou a Caixa de Pandora, e ao seu “mensageiro divino” o “esventramento”, o “sacrifício” em regozijo dos mortais que deleitam o seu “roubado fogo do Olimpo”. Este seria uma “personagem” a merecer justiça no leito cinematográfico, mas para isso bastaria alguém dedicado à sua psicologia, à sua consciência, delinear aquela culpa do tamanho do Mundo ou simplesmente desvendar o seu martírio, um realizador de Homens, um autor de sentimentos e relações, um observador do seu redor. 

Infelizmente ‘calhou-nos’ Christopher Nolan - o grandiloquente Nolan, o messianico Nolan, o sebastiânico Nolan - cuja megalomania produtiva “engole” um homem, uma personagem e os seus devidos atores. Abre-se as “Portas do Inferno”, a estrutura operática (e no sentido literal, obviamente, com o compositor Ludwig Göransson a demonstrar escola à lá Hans Zimmer), um espectáculo ambicioso, deixando à mercê uma esquemática de biopic a apontar para Oeste (para a estatueta para sermos mais certeiros). Sim, tudo convencional, apenas “embrulhado” numa sonoplastia mastodôntica e um visual aprumado, esmagando toda a intenção de aproximação à encarnação de Cillian Murphy que tudo tenta em atribuir dignidade ao seu “Destruidor de Mundos”, só que a aliança com Nolan é unilateral, a montagem propositadamente desorganizada, o “rally-tascas” para com as vinhetas históricas (elenco de luxo para meros “bonecos de cartão”), e pior que isso, sendo essa a grande fraqueza do realizador britânico, a desinteressada dedicação na direção de atores (resultado - anda tudo a trabalhar para a ilustração). 

Enfim, complicar o que não precisava de complicar, apenas fazer-se ouvir e ouvir o que “Oppenheimer” [o homem, como o filme] teria para dizer … até porque, tal como acontece nesta metragem, ninguém parece falar com ninguém, apenas debitar discursos sem direito a resposta. Radioativo, este Nolan, cada vez mais demonstrando a sua posse destruidora em prol de um espectáculo “enfarta-brutos”, um trailer de três horas, tendo em questão o seu ritmo “bicho-carpinteiro”, que nos faz questionar sobre a existência de Deuses no Cinema e nos confirmar a presença de Ceifeiros.

Now I am become Death, the destroyer of worlds

A crítica 5 estrelas!

Hugo Gomes, 18.07.23

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Oppenheimer (Christopher Nolan, 2023)

Sobre a crítica de cinema e a sua fusão para com o "marketing" do filme: as estrelas tornam-se o sedutor cruzar de pernas para o mercado, e com isto, nunca normalizou-se tanto o conceito de 5 estrelas (sim, numa altura que vai estrear um novo Nolan, este pensamento não é acidental) como agora. O estatuto "obra-prima" perdeu o seu encanto, ou exclusividade.

Em inversão de marcha pelo resgate do espectáculo cinematográfico

Hugo Gomes, 25.08.20

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Tempos estranhos, aqueles que estamos a vivenciar. Do qual ficamos perplexos ao admirar multidões que se reúnem em óperas, lotando salas, como aquela que indiciamos nos primeiros minutos de “Tenet”. Pois bem, julgávamos nós que iríamos presenciar uma pequena amostra da performance da orquestra no palco, infelizmente (talvez os mais que habituados às iguais sinfonias), temos a alternativa dos rompantes trombones à lá Hans Zimmer (compositor que nas mãos de Christopher Nolan soa como um génio de um só acorde, aqui substituído por Ludwig Göransson), que dão entrada ao golpe, espaço tão familiar e comum no cinema do realizador. Mas não desviemos do objetivo, e novamente sublinhando o incomum da nossa disposição, é na empatia para com as máscaras vitais que o nosso protagonista e a sua trupe terão que recorrer num mundo, literalmente, ao “contrário”, ou seja, estranho mundo este em que identificamos com tais adereços.

Com isto, saliento, assim como muitos filmes que tem suscitado nas nossas salas de cinema após a nossa exposição de um confinamento longo acompanhado por um medo imposto pelos medias, redes sociais e não só, “Tenet” alterou-se perante o empírico da sua audiência. Porém, é também na vitalidade do cinema enquanto negócio que depositamos a fé em Nolan neste filme, até então, misterioso, mas que mesmo assim consumiu 200 milhões de dólares de orçamento. Como tal, adquire o seu quê de messiânico e comporta-se (isso mesmo) como a última “bolacha do pacote” em termos operáticos, sem com isto apercebermos que o realizador, aliás autor de uma indústria vincada, megalómana e destruidora, oferece-nos o mesmo joguete. Complicar o que não merece ser descomplicado, extraindo um enredo simples e por via de acupuntura, alfinetar com os diferentes atalhos de pseudociência (física quântica para a mesa quatro), daquela que Nolan nos habituara e que em certos casos funcionava às mil maravilhas (“Inception”, por exemplo, continua como o seu filme fundamental para entender a sua natureza de espectáculo).

Tenet” impõe-nos uma trama globalizada, algo que Ian Fleming se lembraria para induzir o seu amado James Bond em mais uma demanda ao serviço de sua Majestade, mas aqui, a espionagem física e brutalizada por um desencanto contagioso nas suas virtudes técnicas (a fotografia amarelada tão monótona como o próprio concreto que maioritariamente serve de cenário) é recolhido por um macguffin temporal, a desculpa servida em bandeja para a atração de cartaz deste mesmo circo.

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Sem surpresas (aliás porque os trailer assim o mostraram), a ação, muito afastada da pornografia CGI, é dependente da inversão, o fast forward para entendidos. Para sermos sinceros, nada impressiona nessas imagens de marcha-a-ré. A culpa? Essa, advém dos 120 anos de história cinematográfica, desde a invenção acidental dos irmãos Lumière que funcionou num artifício de espanto, quando o público deparou com um muro de pedra que ao invés de tombar, ergue-se “milagrosamente” dos seus próprios destroços ("Démolition d’un Mur”, 1896). E o que dizer das constantes acelerações da cómica série "Benny Hill” ou dos populares (hoje esquecidos no pó) “Gods Must Be Crazy”? Isto tudo para afirmar o óbvio, que mesmo sob o selo de espetacularidade embrulhadas nestas sequências de adrenalina sintética, o movimento não é um feito nem uma descoberta, é a reutilização de algo visto, revisto e reproduzido em incontáveis ocasiões. E basta ir fora do audiovisual tradicional, qualquer plataforma de vídeos tem ao seu lote de “brincadeiras temporais”.

Quanto ao filme propriamente dito, “Tenet” apoia-se na incapacidade acrescida de Nolan em criar personagens, recolher emoções sem a cumplicidade do seu compositor fetiche e com isso, dirigir os seus atores de forma transgressiva. O resultado está à vista, um John David Washington que soa mais enfadado que o próprio filme ou um Kenneth Branagh over the top em vestes de um traficante russo que condensa um dos mais esquecíveis vilões da galeria de Nolan. Enfim, apenas Elizabeth Debicki, mesmo com uma personagem chapa 5, consegue trazer charme a um "mastodonte" isento dele.

Certamente, não é este o futuro ou a dependência do cinema, mas é, à sua maneira, um filme adequado para estes tempos distorcidos e … estranhos. Cinema espetáculo que ondula nas mazelas da sua própria indústria.

Quantos Nolans cabem em Tenet?

Hugo Gomes, 24.08.20

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À espera de Nolan … assim estão algumas cadeias de cinema que olham para este blockbuster de quase 200 milhões de dólares de orçamento como a salvação de um negócio em ruínas. E quanto a nós, espectadores? O que podemos esperar de Nolan e o seu Tenet? Fácil, o cinema equacional, simples mas distorcido num quebra-cabeças chapado só para nos dar o seu ar de pseudo-intelectual. Pesado enfarta-brutos dramático com ação como se última de ponta fosse. Nolan a ser Nolan e a esquecer que é preciso menos Nolan para aguentar esta quantidade de Nolan.

 

10 Anos depois ... Nolan sonhou, a obra concretizou

Hugo Gomes, 12.08.20

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A regressar aos cinemas antes da estreia do novo "Tenet", o primeiro "blockbuster" da era COVID-19, “Inception” (“A Origem”) parte da extensão de um certo gesto autoral vindo do realizador Christopher Nolan, que dentro de um sistema industrial megalómano tem vindo a demonstrar um toque pessoal conciso na ressurreição da grande produção "hollywoodesca", que vem da trilogia “The Dark Knight”.

Estamos a referir-nos à sua temática de tempo & memória, aqui evidentemente esboçada no contexto dos sonhos servidos de objetivo a um mímico "filme de golpe". E assim começamos com o plano engendrado num elenco de luxo (Leonardo DiCaprio, Cillian Murphy, Marion Cotillard, Ellen Page, Michael Caine, Tom Hardy, Joseph Gordon-Levitt, Ken Watanabe), que funciona no seu coletivo enquanto Nolan trabalha para lhes conceder um cenário de ação física e hiperativa, jogando igualmente com as equações matemáticas que se difundem na narrativa.

Passados 10 anos, “A Origem” continua a demonstrar a força convicta de uma produção arriscada, de um uso generoso de efeitos visuais (nunca cedendo à artificialidade computadorizada) e da banda sonora de fulgor épico-pop, como parece ser habitual vindo da assinatura de Hans Zimmer. Não nos enganemos: esta megaprodução opera os lugares cobiçados do cinema espetáculo a grande escala, mas assume essa grandeza sem nunca perder um norte.

Há uma década, vimos em “A Origem” um tipo de ensaio operático que não se testemunhava há “séculos” na Sétima Arte. Chegou no preciso momento em que o facilitismo entrou porta adentro na cadeia produtiva (sublinhamos a “pornografia” CGI, mas também a exploração do filão 3D pós-"Avatar"), com os autores no cinema, estivessem ou não sincronizados com as tendências de público, a serem esmagados pelos ditames do marketing planeado por comités anónimos. Nesse sentido, é fácil de encontrar o ponto de fascínio deste tremendo "blockbuster" que é "A Origem": nunca ceder à padronização do espectador e tentar, mesmo dentro dos acordes do que encaramos como espetáculo, criar um exercício de engenho pronto a ser interpretado ou encriptado.

O seu dúbio final continua a suscitar debates, teorias e fórmulas para o tentar decifrar. Ao fim destes anos, não tenhamos dúvidas que o filme mantém o seu impacto, nos espectadores e na indústria, uma raridade que se destaca entre as cada vez mais débeis produções de grande escala das "majors" de Hollywood. Sem negar a importância de “A Origem” no rumo do cinema atual (na conceção circense ou meramente na moldável natureza da indústria, além da estética de epopeia agora cobiçada até à sua exaustão), como aconteceu com o "Jaws" de Spielberg há 45 anos, Christopher Nolan revolucionou uma forma de se fazer e vender filmes para massas, sem nunca desprezar o seu intelecto.

Essa tem sido a sua grande obra, mesmo que o ego tenha caído para a exibição pura nas posteriores “escapadelas” por diferentes géneros, da ficção espacial de “Interstellar” ao bélico frenético de “Dunkirk”. No balanço, “A Origem” continua a ser um dos belíssimos "blockbusters" do século XXI.

Contemplando o Espaço Desconhecido

Hugo Gomes, 20.04.20

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First Man (Damien Chazelle, 2018)

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Ad Astra (James Gray, 2019)

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Interstellar (Christopher Nolan, 2015)

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Gravity (Alfonso Cuarón, 2014)

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Solaris (Steven Soderbergh, 2002)

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 Star Trek: The Motion Picture (Robert Wise, 1979)

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2001: A Space Odyssey (Stanley Kubrick, 1969)

O não-ativismo de "Dunkirk" contra o ativismo do Mundo

Hugo Gomes, 04.08.17

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O mais recente filme de Christopher Nolan [ler crítica], pode ser tudo, desde a magnificência com que tem sido descrito pela imprensa mais imparcial até à maior “nojeira” das história do cinema bélico pela outra quota, e quem escreve estas palavras é um assumido opositor a “Dunkirk”, mas desta vez saio… e contrariando as hipóteses… em defesa da obra. Sim, leram bem, não de forma a reconhecer a sua “majestosidade” (até ao final do texto continuo a prevalecer na ideia de um filme desorganizado e manipulador), mas devido às acusações que “Dunkirk” tem disso submetido nos últimos dias. Até porque os tempos evocam uma resposta da diversidade cultural e de género, e sucessivamente a sua representação em meios que outrora os ignoravam. Porém, há que separar o “trigo do joio”. Existe sim, uma distinta vertente política correcta que cada vez mais se distingue com esse “senso de justiça”.

O que vos trago é a panóplia de notícias que tendem a provar uma negligência por parte de Nolan à importância do outro lado do Império Britânico neste seu retrato à maior das evacuações militares. Segundo o colunista indiano, Mihir Sharma (Bloomberg View), tendo como base um artigo da The Times of India, a Índia, na altura colónia inglesa, obteve um papel relevantíssimo na Segunda Guerra Mundial, nessa defesa da Coroa Britânica contra a ameaça nazi. O mesmo colunista em conformidade com outras provas históricas e afirmações de historiadores, clama que o episódio de Dunquerque foi igualmente representado pelas tropas coloniais indianas e paquistanesas. As mesmas informações levam a acusações de que Nolan ignorou os factos por diversos motivos, quase todos ligados ao chamado “privilégio branco” ou até mesmo a um cego patriotismo, e não, na maior das hipóteses, à educação escolar que se vive nas escolas britânicas, fruto dessa imagem de “bom Império”. Um pouco à imagem da nossa que continua a vender-nos a ideia que os “portugueses sempre foram bons colonizadores”. Assim sendo, será Christopher Nolan uma vítima do ensino britânico, ou o privilegiado que se vende?

Se é ou não, a questão não serve de todo como um martelo-pneumático para demolir aquilo que o realizador construiu, uma reconstituição longe do romantismo a uma das grandes manchas do historial das Forças Armadas Britânica, e… também, o injetar de uma certa glória na derrota, quase como statment nacionalista. Esta última, servido de acha para outra fogueira, a da metaforização do Brexit, muito em consideração às declarações do conservador político Nigel Farage (um dos “cabecilhas” da saída do Reino Unido da União Europeia), que veio a público expor a sua admiração pelo filme. Neste caso, é como se o gosto de um indivíduo direcionasse todo um filme para um vertente política e ideológica à sua imagem. Como se, nesse sentido, o fascínio de Adolf Hitler a “Metropolis”, de Fritz Lang, o conduzisse a uma ideologia nazista nos seus frames (se existir ou não, como tem sido constantemente teorizado o papel do Expressionismo Alemão na conceção dos ideais do nazismo, nenhum dos casos motiva a queda de um filme como uma peça rica da História cinematográfica).

Porém, tirando estas criminações, do outro lado do Oceano, num país que elegeu Trump como presidente, continua-se a derramar tinta em discursos político-sociais da escassez de representações culturais no retrato de Nolan, até mesmo incriminações de misoginia, pela igual ausência da Mulher em todo este enredo. Perpetua-se a valorização do ativismo, por vezes forçado, frente aos propósitos de um filme. E voltando ao início, Dunkirk poderá ser um trabalho impaciente, desleixado e demasiado egocêntrico para se posicionar entre os melhores do seu género, mas posicioná-lo no contexto atual sabendo que a “História está morta” era a proposta encarada pelo realizador… uma afronta a um Mundo cada vez mais sedento por exemplaridades coletivas no Cinema e na propagação de um conceito de um “mundo ideal”. Para ser sincero, tudo soa mais histerismo que qualquer outra coisa.