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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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"The Lies of the Victors": o jornalismo de investigação em debate

Hugo Gomes, 28.01.16

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Fabian Groys (Florian David Fitz) é um promissor jornalista de uma revista política bastante influente na Alemanha. O seu último trabalho consiste em investigar um suposto escândalo que envolve as Forças Armadas e a forma como lidam com militares incapacitados. O chefe de Groys tenta impingir-lhe uma assistente para que possam formar uma equipa, mas egocêntrico como é, Groys faz de tudo para se livrar dela. Como tal, envia-a no trilho de uma notícia que o próprio considera insignificante. Sem saber, essa mesma reportagem, banal e sem interesse, tem ligações ao caso das Forças Armadas que investiga, sendo aos poucos desvendada uma complexa teia de conspirações, propícia a um artigo jornalístico de exceção.

“As Mentiras dos Vencedores” (“Die Lügen der Sieger”/”The Lies of the Victors”) possui uma temática pertinente e bem atual que merece um prolongado debate após o seu visionamento. Tratando-se da enésima obra a reafirmar o papel crucial dos Media na opinião pública (o chamado estatuto de Quarto Poder), e das fragilidades deles perante a manipulação dos lobbies, o novo filme de Christoph Hochhäusler reflete na célebre frase do poeta Lawrence Ferlinghetti (“A História é feita com as mentiras dos vencedores“) um trabalho de pesquisa ocasionalmente frontal. Esta mesma frontalidade, que embate das Forças Armadas Alemãs como principal alvo, limita toda a crítica social, até aqui construída apenas como uma “análise interna”.

Mas vamos por partes, a condução do tema, seja de que natureza for, deve sim, possuir a emergência do nosso olhar. Porém, e como thriller, este “As Mentiras dos Vencedores" não sabe transpor na narrativa uma forma de atacar o seu alvo. Nessa narrativa, vincada na senda de outros filmes provocantes como “All the President's Men” e até mesmo o recente “Spotlight”, Hochhäusler demonstra uma incapacidade em impor a sua voz de revolta, o que é sublinhado na (falta de) motivação das personagens, como se a sua construção fosse demasiado encarecida de maniqueismos pueris ou de moralidades subjacentes (a evidenciar na forma como o protagonista é caracterizada; um arrogante misógino com vício no jogo).

Ainda na sua natureza de thriller, é interessante ver os códigos “hitchcockianos” que o realizador constantemente cita, entre os quais um clima de mistério nas tensas sequências, mais do que uma preocupação na concepção do próprio twist. Aliás, a dispensa dessa reviravolta evidencia a forma como este thriller é conduzido, nunca se assumindo no território do subgénero, mas sim usando esses elementos na sua noção crítica. E é nessa crítica que Hochhäusler interessa-se plenamente, nem que para isso prejudique a narrativa. Um dos casos mais flagrantes é a seleção de sequências desfragmentadas com a imprecisão do raccord, um exercício que nos indica o quão interessado está o autor no tema, mais do que propriamente no filme.