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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Capitão América e a Guerra Televisiva

Hugo Gomes, 22.09.24

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‘Apanhado’ num desses canais por cabo, e deixado no ar como “música de fundo”, dou por mim maravilhado ao rever partes e partes de “Captain America: Civil War” no pequeno ecrã enquanto desfrutava de uma ceia, ou melhor, de um jantar a horas indecentes. E nesse vislumbre, deslumbrei-me com a seguinte ideia, há muito decretada, mas comprovada: tudo aquilo que via não se distinguia em nada dos enésimos seriados policiais ou de salvamento que transbordam as grelhas destes mesmos canais. A planificação, muito fechada, a sonoridade tão desinspirada, e até aqueles momentos explicativos do “plot”, com inúmeras reações do recetor da conversa, e além disso, a ação que perdeu a sua grandiosidade (ou se calhar nunca a teve), são características que não fazem avançar o filme do seu propósito de seriado. Recordo Nuno Markl numa das suas intervenções, sempre apaziguadoras e cheias de cultura pop, a defender este universo cinematográfico como “é a minha novela!”. Agora, dou-lhe razão: estes filmes não foram concebidos para o grande ecrã, mas sim para uso doméstico. Ou melhor, Martin Scorsese estava certo e simplesmente tudo aquilo não é Cinema. Até fui para a cama “contente”, recordando na altura da sua estreia o quão fui “massacrado” pelos geeks insaciáveis e proclamadores disto ser cinema “moderno”(?): sempre fora sofrível televisão, sabia-o desde o início. Isso e a Disney não dar a mínima para ambiguidades. A sua “política” (as aspas são importantes para a diferenciação) envelheceu muito mal!

Beyond the Canon 2024: participação

Hugo Gomes, 20.04.24

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Aus dem Leben der Marionetten / From the Life of the Marionettes (Ingmar Bergman, 1980)

Como um suplemento à "polémica" lista da “Sight & Sound”, a "They Shoot Pictures, Don't They?" selecionou vários profissionais da área do cinema, incluindo alguns críticos (fui um dos convidados, fazendo parte da "seleção oficial") para participar no "Beyond the Canon", uma enumeração de alguns dos melhores filmes que estiveram de fora das escolhas da igualmente canónica lista que deu vitória a "Jeanne Dielman, 23 quai du Commerce, 1080 Bruxelles", de Chantal Akerman.

Aqui está a lista aqui, e aqui as minhas escolhas pessoais (com uma ressalva: não votei em "Before I Go" de Chris Evans, e sim em "Before We Go" de Jorge Leon, mas não foram primeiros nem serão, certamente, os últimos a cometer tal lapso).

200 Milhões de dólares para o "boneco"

Hugo Gomes, 27.07.22

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Num cenário de destruição e de pirotecnia variada ocorrida numa praça de Praga, a personagem de Ryan Gosling [o nosso “herói”, ou será antes “anti-herói”?], algemado a um banco, tenta se abrigar e esquivar (com êxito) da “chuva de munição” que aquela mesma sequência proporciona. Longe do alcance daquele espectáculo anormal, mas observado todos os passos por via de um elaborado sistema de vigilância, Chris Evans [aqui definido, e sem sombra de dúvida, como vilão] esperneia furiosamente pelo facto, e que passo livremente a citar, de ninguém conseguir atingir em naquele “fulano” acorrentado. 

Aqui, é de invocar um dos badalados mandamentos da lógica batida do filme-espectáculo, hoje estabelecidos como clichés em modo auto-paródia: a má pontaria dos antagonistas perante o herói do enredo, a outra subjacente, é a sua evidente sorte para escapar “ileso” aos proporcionados obstáculos. “The Gray Man”, dos irmãos Russo (“The Avengers: Endgame”), não inventa nada nesse sentido, nem mesmo é apontado como o último da sua espécie, mas é surpreendente (talvez seja a minha ingenuidade a manifestar-se) que a Netflix tenha apostado 200 milhões de dólares (até à data o seu filme mais caro) para conduzir-se em lugares-comuns em contracurva com outros lugares-comuns numa ação globalizada, visto e revisto nos anos 90 e em início do novo século. Hoje em dia, essas vertentes instalaram-se (ou antes "acomodaram-se"), ora em franchises duradouros (“007”, "Fast and Furious”), ora nos atributos e nos "cojones" da fisicalidade de Tom Cruise (“Mission: Impossible”). 

Quanto aos “outros”, chuviscos que a Netflix anseia capitalizar. Experienciamos tal com um formatado “Red Notice” (Rawson Marshall Thurber, 2021), uma reunião estrelar que antecede a este “The Gray Man”, que por si só piscar para uma futura saga. Ambos os exemplos situa-nos num impasse quanto à sua criatividade e engenhosidade na execução, por outras palavras, não existe Cruise e os seus arriscados stunts - como se fosse um espectáculo a merecer o bilhete - que salve, ou dos backgrounds definidos dos seus protagonistas (um “007” não necessita introduções elaborados, o espectador sabe para o que vem), resultando num joguete de ação “bombista” (explosões atrás de explosões sem um mínimo de consequência) ou dos chavões emocionais, intervenientes numa aparente narrativa que se pretendia fluída  - papas para alimentar um espectador menos atento [a inserção de uma “sobrinha” como motor sentimental e humanista do “herói”]. Coloca-se um macguffin, acelera-se na edição (o travão é território interdito), o mesmo acontece na interação entre personagens e até mesmo numa câmara que teima em não fixar num ponto sequer (mesmo no estático há que dar movimento, não vá o público aborrecer pela "inércia", segunda a sua lógica), enfim, inúmeras parcelas para estabelecer uma fórmula. 

E pronto, é isto, 200 milhões (era mesmo preciso?) para lubricar cinema algorítmico, e que tendo em conta as recentes notícias, o “feito” resulta … vem aí mais “The Gray Man”! 

No fio da navalha ...

Hugo Gomes, 27.11.19

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Após Kenneth Branagh ficar preso na plasticização da adaptação do romance crucial de Agatha Christie (“Murder on the Orient Express”), a grande mais valia de "Knives Out: Todos São Suspeitos" é a revitalização do chamado "whoddunit", a cadência de "thriller" que se apoia principalmente na revelação do assassino. O realizador Rian Johnson é o cabecilha deste misterioso crime - a morte de um romancista milionário e a suspeita de um homicida entre a afortunada e vil família - ingredientes perfeitos para fazer esquecer os fãs irados com a sua odisseia no espaço infinito (“Star Wars: The Last Jedi”) e investir numa nova saga detectivesca.

Por entre as luxuosas assoalhadas da mansão Thrombey, como um jogo Cluedo, “Knives Out: Todos São Suspeitos” joga-o com a segurança de nunca transgredir da sua linha, minando a trama com reviravoltas atrás de reviravoltas com o objetivo de surpreender o poder de dedução do espectador. Com um elenco de luxo: Daniel Craig, Chris Evans, Ana de Armas, Jamie Lee Curtis, Michael Shannon, Don Johnson, Toni Collette e Christopher Plummer. Trata-se de um exercício de entretenimento passageiro e perspicazmente virtuoso, ainda que este divertimento não seja sinónimo de cinema e ao filme de Rian Johnson falte sobretudo a ousadia de cometer o crime e não ser apanhado em pleno delito. É tudo correto, formalmente previsível (não confundir com o argumento que tantas voltas dá) e demasiado acanhado e acalcado nos seus “rodriguinhos”. Ou seja, é aquilo que esperávamos numa produção deste calibre e natureza.

Contudo, é no território que outros antes dele cruzaram que “Knives Out: Todos São Suspeitos” se vinga oportunamente como um disciplinado cidadão exemplar e, frisando mais uma vez, é no guião que encontramos o toque de matador.  Isso e na desconstrução de James Bond levada a cabo por Daniel Craig (a despedir-se a todo o custo da personagem que o tornou na estrela que é hoje em dia) que se dá pelo nome de Benoit Blanc… e com um sotaque sulista a condizer.

Tudo bons "fanboys" ...

Hugo Gomes, 25.04.19

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Fugindo do conceito de super-heróis e consequentemente do Universo Cinematográfico Marvel (MCU) abraçado pelo produtor e presidente dos estúdios Kevin Feige, deveremos referir-nos a "The Avengers: Endgame" como uma afirmação dos chamados "filmes-evento". Algo que Hollywood fazia com frequência na sua época de ouro e entretanto se tornou escasso (só filmes como "The Lord of the Rings", “Avatar”, “Jurassic World” e “Star Wars: Force Awaken” podem ser inseridos neste grupo no século XXI).

Nesses termos, os Vingadores (e companhia) contrariaram a tendência da queda de espectadores, levando milhões às salas e perpetuando um legado que se torna num círculo íntimo para quem o vive com tamanha dedicação: a chamada "base de fãs". E podemos apontar para uma geração "marvelesca", que atende a cada episódio como um ritual religioso.

Porém, nem tudo são “rosas” neste panorama. Existe um agravamento de monocultura, desde a corrida aos bilhetes que deixam outras propostas sem receção (os multiplexes acabaram por preferir estes filmes com receitas garantidas), à generalização de uma produção industrial que se baseia (e baseará) nos moldes vencedores deste franchise, condensando as fórmulas vencidas. Sim, o Universo Marvel tem tanto de virtuoso como de perigoso para a diversidade e difusão cinematográfica. Mas neste momento, o leitor, que provavelmente acompanha este universo desde o "Iron Man" em 2008, pergunta com algum desprezo “o que é que isso me interessa?”. Até porque o presente tem que ser vivido e como tal, cumprindo a cultura do “no-spoiler” (que não é dos tempos atuais, visto que em 1960, para “Psycho” de Alfred Hitchcock, também existiam normas especiais), aqui vai uma tacada neste encerramento de uma fase que prolongou por 11 anos e 22 filmes.

A verdade é o que tornará para muitos “The Avengers: Endgame” numa “obra-prima” é essa afinidade e acompanhamento por parte do seu público fiel. Os super-heróis deixam de ser meras personagens, são agora família. Os conflitos ultrapassam a narrativa e tornam-se seus. Vivem, choram e riem com eles. Tudo isto atribui um senso de exclusividade a estes fãs... que se sentem especiais nestes seus mundos. Obviamente que em torno deste carinho pelos filmes existe uma tendência de proclamar o cinema como uma só hélice - a oleada máquina (aliás, bem-sucedida) que a MCU conquistou nos últimos anos, principalmente a partir de "The Avengers" (2012). E este “Endgame” tinha todas as razões para contradizer a formatação dessa máquina, por ser o anunciado fim de um ciclo, sem deixar igualmente de ser fiel à sua tradição, o que consegue através de calculadas jogadas para completar o seu “grandioso” puzzle, num malabarismo temporal que nos guia por ondas antológicas e nostálgicas em relação a toda a saga.

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Nesse equilíbrio criativo nada original, “Endgame” funciona como um evento por si só. Infelizmente, a sua pausada postura, que se saúda e beneficia claramente algumas personagens e relações (Chris Hemsworth é triunfal como um Thor que ganha tragicomédia a olhos vistos), é abandonada, como aconteceu noutros filmes do Universo, com a chegada de um terceiro ato.

Um pecaminoso terceiro tomo que nos revela as fraquezas deste género. Desde o “fan-service” que espezinha qualquer subtileza no seu clímax (por vezes as batalhas cruciais são as menos épicas e isso é lição que a Marvel nunca estudou) à mudança brusca das motivações do vilão Thanos (o seu “ativismo” era o motor de engrenagem de Infinity War), que nos levam a um aborrecido e pouco subtil (ou original) festim de efeitos visuais, ao nível dos mais sofisticados videojogos.

Por fim, uma elipse que alimenta ainda mais do saudosismo, essa sensação que começa a tomar conta do espectador que também é fã: a despedida é amarga, por vezes doce e tende a assumir-se como uma lamechice embirrenta, como a de uma criança que não deseja partilhar o seu brinquedo predileto. Mas “Endgame” encerra um ciclo, possivelmente um reinado, e é capaz de fazê-lo de uma maneira honesta, dentro do pretensiosismo capitalista da sua megalómana produção.

Neste "embrulho", que cada vez mais anuncia a saturação dos seus modelos (“Captain Marvel” foi a premonição), os irmãos Anthony e Joe Russo contornam o automatismo e constroem um espetáculo previsível, mas também sincero para com as expectativas destes milhões de “fanboys”. E isso... é o que mais interessa neste momento. O cinema, esse, discute-se depois...

O desejo megalómano do crossover cinematográfico

Hugo Gomes, 25.04.18

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Em 2012, a Marvel Studios conquistaria o seu grande objetivo até então, consolidar os seus universos num filme só – “The Avengers” – entretenimento corriqueiro que conflituaria o seu lado camp (direto da alma de Joss Whedon) e da “lubrificação” produtiva que o estúdio estaria a promover. A manobra foi um sucesso global, 1500 milhões de dólares rendidos para ser exato, o que levaria a Marvel a preparar uma outra visão. “Make it bigger” alguém terá dito ao produtor executivo Kevin Feige de modo a preparar com muita antemão este “Infinity War”, o totalizado crossover dos sucessos garantidos deste universo.

Até à chegada desta Guerra Infinita, muito a Marvel experimentou (sem sair dos parâmetros estabelecidos do estúdio). Aí nesse espaço decorreu de tudo, desde os altos (“Guardians of the Galaxy”, “Thor: Ragnarok” e “Black Panther”) a pontos baixos (“Thor: Dark World”, “Captain America: Civil War”), não apenas forma a expandir um universo partilhado (a definição literal de world building cinematográfico), mas como encontrar um realizador capaz de segurar tão ambicioso projeto. Com o despacho de Whedon num segundo e tremelico “The Avengers”, a Marvel arranjou, não um, mas dois realizadores pronto a abordar a mais arriscada missão dos “mightiest heroes of earth”, e eles são os irmãos Russo. Infelizmente, essa dupla, a nível dos artesãos que passaram pelas “garras” desta megalómana casa, são de facto os mais despersonalizados e desinteressantes. Resultado, operar todo um filme na concordância dos seus apetites tecnológicos (relembrando que James Gunn conseguiu lidar com o frenesim visual através da trabalhada química dos seus atores).

“Infinity War” é aquilo que se esperava nos cantos interestelares do estúdio, um longo (sublinho, longo) episódio a servir de coletânea ao ainda tão fresco legado do grande ecrã. Pensando nos Russos e toda a equipa por detrás do projeto como os “verdadeiros super-heróis”, encaramos a seguinte missão: como colocar em duas horas e meia toda a “bonecada” deixada pelos 18 filmes anteriores, narrar uma intriga formulaica e ainda desenvolver o vilão que andou 10 anos sentado numa cadeira sem qualquer preocupação nessa composição?

Não é impossível, é sim extremamente inconsequente juntar tudo no mesmo fosso. Em suma, um filme em constante resistência com as suas afinidades mercantis, informação intensa e exaustiva que dilui ao nada. Sim, existe muito a acontecer, há um clímax suspenso ao longo de duas horas como se fosse o director’s cut de um terceiro ato (malditos terceiros atos) da aristotélica distorção em Hollywood. Todos os diálogos, ora afrontam-se na emergência (temos que salvar o Mundo, temos que recuperar as pedras, temos que destruir a luva … temos … temos), ora deixam-se levar em falsas elipses para injetar no espectador as habituais graçolas marvelescas (poderemos incluir isso como uma nova definição de humor?).

Aliás, querendo resumir “Infinity War” numa palavra, esta seria: fórmula. É simples e concretamente uma fórmula aplicada, porém, tal já se sabia de antemão. O que não se previa era que a Marvel, consumida pela sua grande ambição, revelasse um Universo Partilhado insustentável (e atenção, apesar de tudo é o estúdio que conseguiu aplicar bem-sucessivamente tal plataforma numa saga). É uma boleia pela Galáxia, personagens a interagirem com as outras e easter eggs minados, elementos que encaixam uma nas outras como peças de um puzzle cuja concretização ilustrada encontra-se no anterior modelo a seguir.

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Thanos, o novo Hitler alienígena, é acorrentado a um extremo síntese de caracter, confundindo isso com complexidade. Todavia, este Infinity War difere dos outros capítulos por centralizar na sua força antagónica, ao invés nos heroicos vingadores, o resultado dessa mudança de olhar poderá fascinar os fãs que tem nos últimos tempos desiludidos nesse ramo. Mas a tragédia invocada nesta personificação digital de Josh Brolin é puro engodo (para além do “boneco”, em conjunto com o congénere de “Justice League”, são medonhamente artificiais), um arrasto, ou antes, uma desculpa para as inúmeras batalhas “apocalípticas” que pontuam em todo o seu esplendor nesta narrativa saturada. Porém, a tragédia acaba por ser outra, e nesse termo há que dar uma vénia ao trabalho de composição que Chris Hemsworth tem atribuído ao seu personagem Thor, cada vez sob cadências mais negras.

Mas se este episódio tem as aspirações, ao seu modo, da perfeita Tragédia Grega, é certo que no cair do pano apercebemos que já vimos este filme sob iguais conjunturas. Aliás, George Lucas havia feito em 2005 - “Revenge of the Sith” - a queda de um império, de uma ideologia, de um modo, revelando o ascensão do Lado Negro e a humilhante derrota da Força (“O mal triunfa quando os homens de bem nada fazem para o impedir”, Edmund Burke). Contudo, o resultado está longe da epopeia, e os sinais demonstrados são de cansaço, o mero e pesaroso cansaço.

Uma guerra de collants

Hugo Gomes, 29.04.16

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Steve Rogers (ou melhor Capitão América) reencontra o seu amigo de infância, agora inimigo da SHIELD e da “ordem mundial”, Bucky Barnes, num apartamento em Berlim. Neste secreto encontro, Bucky tenta convencer o nosso herói da sua inocência quanto a um tenebroso atentado à Sede das Nações Unidas, cujas provas apontam para o seu envolvimento. Entretanto, surge a notícia de que tal edifício está cercado pela polícia de intervenção alemã e a única forma de ambos escaparem da massa policial é através dela. Bucky garante ao nosso amigo “que não irá matar ninguém“. As sequências seguintes são de uma brutalidade avassaladora, o denominado Soldado do Inverno e o Capitão América tentam evadir do prédio, golpeando, atirando “borda-fora” e fortemente batendo nos ditos policiais. As imagens são evidentes, são poucos os que conseguem resistir a tais golpes. Toda esta cena vem provar o que não precisa ser provado, estamos perante a um filme inconsequente nos seus atos. Tudo muito bem, o problema é quando se joga com política.

A Marvel prometeu uma Guerra Civil, baseada numa homónima série de BD, porém, o resultado é deveras dececionante. Como já referi, neste franchise da Disney o terreno é fertilmente político, digno do “cinema adulto”, mas o que consegue é um ensaio pueril que brinca com as ditas políticas da mesma forma que movimenta figuras de ação. Tudo começa com uma chamada aos tempos da Guerra Fria, que depois dos nazis disfarçados que foram a organização antagónica HYDRA, chegam-nos os fantasmas da União Soviética, com o modelo do Candidato da Manchúria como primeira base.

O anterior Soldado de Inverno continua a fazer das suas, integrado em mais missões terroristas que servem de pano de fundo para uma conspiração global. Mas o problema não está nos vilões “vermelhos”, mas sim nos próprios Vingadores, cada vez militarizados e convertidos em forças especiais a operar nos locais mais remotos em defesa de um estilo de vida próprio, o qual acreditam piamente. Depois de uma missão que terminou em tragédia em Lagos, Nigéria, vitimando mais de uma dezena de civis, as Nações Unidas engendram um plano, não para destruir a iniciativa dos Vingadores, mas destituir os seus poderes e a liberdade destes, sendo que a única solução é uma interligação à NATO, na qual só operariam caso fossem precisos ou convocados.

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É um registo teoricamente interessante seguir este território pantanoso no subgénero de super-herois. Christopher Nolan conseguiu-o parcialmente com a sua trilogia protofascista [“The Dark Knight”] e a última estância da DC Comics [“Batman V Superman”] sombreia a responsabilidade da imensidão dos poderes num só indivíduo. Mas a Marvel, ligada à sua Disney, apenas consegue proclamar ideologias intervencionistas e imperialistas no seu Capitão América, confundindo-as com alusões de liberdade individual e em políticas maniqueistas, deixando na “margem do prato” as ambiguidades. “Civil War” vai ao encontro dessas doutrinas e crenças, transformando o Homem de Ferro e os seus “seguidores” (que recrutam um adolescente de 15 anos alheio ao conflito) a tomarem responsabilidades governamentais, como os verdadeiros vilões da fita. Com “brigas” atrás de “brigas”, o filme acaba por transmitir uma visão de um Mundo e esta “realidade” é estabelecida como a mais correta das verdades.

Conclusão, temos super-herois politicamente perversos ao serviço de um argumento inconsequente que parece ter sido escrito por uma criança de 5 anos com toda aquela harmonia típica da Disney. Conforme são as nossas ações e posições, acabamos por ser todos “amigos” perante uma causa comum. A moralidade no seu “melhor“!

Mas o pior é que como é um filme de super-herois bem oleado, ninguém leva a sério estas politiquices jogadas num só norte. Infelizmente, é por estas e por outras que, com a ajuda dos ávidos seguidores de BD, filmes como estes são venerados e aclamados como produtos cinematográficos de requinte, até porque o que interessa é saber quem ganha no confronto Capitão VS Homem de Ferro, e o Homem-Aranha, “enfiado a martelo”, apenas presente para providenciar futuros capítulos (um registo imaturo que só vem a provar para quem são direcionados este tipo de produções) .O restante é simplesmente “peanuts”.

Salvando o Mundo! Outra Vez!

Hugo Gomes, 24.04.15

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Depois de “Guardians of the Galaxy” ter expandido o Universo Cinematográfico da Marvel, expondo uma outra equipa de super-heróis, voltemos agora à "velha" trupe num confronto directo com um inimigo comum, ou por outras palavras, mais do mesmo. 

Joss Whedon novamente no leme, contagia toda uma narrativa com as suas intervenções cómicas porém, enquanto que o primeiro "joint event" resultou numa "experiência modesta" (não sejamos esquecidos quanto ao mastodôntico orçamento) e nervosa, com “Age of Ultron”, a confiança está ao rubro. Em consequência disso temos um extensivo prolongamento do enredo, no qual se concentram mais personagens (talvez demasiadas) e respectivos subenredos (acontece tanta "coisa" em simultâneo), apostando assim, numa ênfase dramática mais acentuada. 

É um entretenimento que resistirá no teste dos espectadores, mas infelizmente é povoado por concertantes lugares-comuns geográficos e etnográficos, estereótipos servidos para simplificar todo um Mundo criado. Se prestarmos atenção aos propósitos subliminares do filme, encontramos na iniciativa “The Avengers” um excesso de militarismo, apenas descaindo na figura do mais anedótico dos vingadores, Hawkeye (Jeremy Renner), que comporta-se como um autêntico Tio Sam: "we want you to join in our cause". Mas claro, fazer leituras políticas aqui é quase tão descabido como ir a um restaurante de fast food pedir uma sopa. Avancemos para o próximo episódio.