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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Caiu um anjo que afinal era um homem

Hugo Gomes, 06.01.22

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Às portas do paraíso, os festejos de mais um dia na suposta eternidade ocorrem. “Festa é festa” dirão, silenciosamente, estes, os anjos, alados e aliados de Deus. Na celebração interminável um esquivo intruso esgueira-se por entre as presenças divinas, com intuições de incentivar o caos na mais harmoniosa das festividades. A vítima, voluntariamente colocada de parte do centro do festivo alvoroço de anjos, Charlot, agora personificado na astral criatura é instigada pelas tentações do indesejável emplastro, um diabrete que sussurra ao seu ouvido, despertando-o para os seus carnais impulsos - o desejo. Assim, como peças de dominó que tombam consequencialmente e sequencialmente, o desejo trará ciúme, e os até então eunucos anjos adquirem, por fim, o sexo e a vontade alicerçada. Bem, há problemas no paraíso! E como na sua presença terrena, como na espectral, Charlot sempre será um infortunado vagabundo numa tremenda correria para se livrar impunemente das suas desventuras, porém, a sorte não lhe sorri desta vez, o estrago já fora feito, a punição é a sua expulsão dos Reinos do Céu. Charlot tomba assim como acontecera a Gabriel, o arcanjo, que caiu de desgraça sobre a terra dos mortais. Por sua vez, o nosso errante encontra o forçado descanso à porta do edifício que o acolhera nas suas aventuras de final incerto.

Um sonho? Uma passagem? Uma moral materializada em soneto bíblico? Este prenúncio de final que tanto dividiu os críticos da altura e que rompera com a tragédia chaplinesca até então praticada na narrativa. O paraíso violado de “The Kid” (1921) é mais cruel que um suposto gag, é uma onírica passagem que contagia o lado proto-neorrealista do filme, do seu miserabilismo contextualizado, e que, sob a lente, nos revela uma perversão dúbia e encriptada. Ora, como parece ter reparado, em tempos, João Benárd da Costa, a poligamia reina o extenso quintal de Deus e que a virada para bancada monogâmica gerou discórdia, conflito e por sua vez a retirada forçada dos catalisadores para lá do Céu. É pertinente pensar nesse estilo como estrutura sociológica dos anjos, ou como receita perfeita para a “Paz Mundial”. De facto, tal não está contra os ideais do “amar o próximo” como prega melodicamente as doutrinas cristãs, mas é uma provocação envolver-se em princípios pagãos, quase como uma tentativa de sexualizar o assexuado. Isto, se debatermos nas armadilhas deixadas por Charles Chaplin quanto ao seu estranho arco narrativo, e como bem sabemos o ator / realizador … desculpem, o autor, eternizado foi, possivelmente, um dos mais inteligentes e criativos seres a operar no cinema, mas se atentarmos pelo simplismo, a crueldade deste não possui limites. 

Depois de empatizarmos com Charlot na sua perseguição (o conflito do filme é o de evitar o recambiado do seu “garoto” para o orfanato), somos repentinamente levados para esta dimensão alternativa. O conto que vos acabo de narrar descamba por um suposto final feliz, o nosso herói vagabundo é recompensado pela sua trapalhona determinação. Porém, essa satisfatória elipse e tão, como diríamos, Deus Ex Machina, chega-nos a ser mais surreal que o forrobodó paradisíaco. Será que tudo isto não aconteceu e ao mesmo tempo aconteceu? Ou seja, a imagem do anjo chaplinesco caído no degrau da entrada 69 é um substituto do trágico fim de um sem-abrigo vencido pelo cansaço, fome, frio e quem sabe, desespero? Será que o dito final é apenas areia atirada aos olhos do espectador, poupá-lo da impiedade deste mundo?

Bem, se não conseguimos lidar com o infortúnio, sempre podemos acreditar em desfechos afortunados, da mesma maneira que, passados 80 anos, há quem ainda crê que foram os cintilantes "extraterrestres" que visitaram David em “A.I. Artificial Intelligence”  (Steven Spielberg, 2001).

Cada um com a sua infância, cada um com o seu Cinema

Hugo Gomes, 01.06.21

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Good Morning (Yasujiro Ozu, 1959)

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The Childhood of a Leader (Brady Corbet, 2015)

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Capernaum (Nadine Labaki, 2018)

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Wadjda (Haifaa Al-Mansour, 2012)

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Home Alone (Chris Columbus, 1990)

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The White Ribbon (Michael Haneke, 2009)

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Let the Right One in (Thomas Alfredson, 2008)

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Little Fugitive (Ray Ashley & Morris Engel, 1953)

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The Florida Project (Sean Baker, 2017)

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The Sixth Sense (M. Night Shyamalan, 1999)

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The 400 Blows / Les Quatre Cents Coups (François Truffaut, 1959)

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The Kid (Charles Chaplin, 1921)

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The Last Emperor (Bernardo Bertolucci, 1987)

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Zero to Conduite / Zéro de conduite: Jeunes diables au collège (Jean Vigo, 1933)

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Bicycle Thieves / Ladri di Biciclette (Vittorio di Sica, 1948)

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Village of the Damned (John Carpenter, 1995)

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My Life as a Zucchini / Ma vie de Courgette (Claude Barras, 2016)

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The Boy with Green Hair (Joseph Losey, 1948)

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Aniki Bóbó (Manoel de Oliveira, 1942)

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The Shining (Stanley Kubrick, 1980)

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Cinema Paradiso / Nuovo Cinema Paradiso (Giuseppe Tornatore, 1988)

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Come and See (Elem Klimov, 1985)

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Pather Panchali (Satyajit Ray, 1955)

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E.T. the Extra-Terrestrial (Steven Spielberg, 1982)

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André Valente (Catarina Ruivo, 2004)

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Ivan's Childhood (Andrei Tarkovsky, 1962)

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Nana (Valérie Massadian, 2011)

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Pixote, a Lei do Mais Fraco (Hector Babenco, 1981)

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Poltergeist (Tobe Hooper, 1982)

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800 Balas (Álex de la Iglésia, 2002)