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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

César Mourão em "A Canção de Lisboa": "Atenção, eu sou um ator e não um comediante"

Hugo Gomes, 15.07.16

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O Cinematograficamente Falando … falou com o ator César Mourão sobre mais um capítulo da chamada “Trilogia dos Clássicos“, desta vez, e novamente como Vasco Santana, em “A Canção de Lisboa” (Pedro Varela, 2016). Nesta conversa descontraída, Mourão falou sobre o legado do ator que tem “incorporado” no grande ecrã em dois filmes e a sua experiência na comédia e nesta nova versão do clássico dos clássicos portugueses. 

É a segunda vez que desempenha um papel anteriormente interpretado por Vasco Santana. Sente que de certa forma tem sido responsável por carregar o legado do ator?

É impossível ser Vasco Santana, porque simplesmente Vasco Santana é Vasco Santana e ponto final. Apenas faço o trabalho que me pedem da melhor forma possível, é um orgulho interpretar uma personagem já fora desempenhada por Vasco Santana, mas não pode haver comparação. Até porque são duas “coisas” completamente distintas. Se me perguntarem se adorava ter o reconhecimento que o Vasco Santana teve, claro que adorava, mas isso requer muito trabalho, empatia com o público e também sorte.

Então quer dizer que evitou ao máximo “imitar” Vasco Santana?

Sim, a ideia, aliás, era exatamente essa. O objetivo não era fazer uma comparação, não o de imitar Vasco Santana, portanto, foi completamente fugir a esse conceito. 

Os filmes como o clássico “A Canção de Lisboa” são ainda hoje vistos como exemplares respeitados da comédia portuguesa. É difícil fazer comédia em Portugal?

Penso que a comédia em Portugal é bem aceite pelo público. O público gosta da comédia, não só em Portugal, mas como também no resto do Mundo. Atenção, eu sou um ator e não um comediante, trabalho, sim, com  a comédia e felizmente tenho conseguido viver com ela. O que é fantástico, porque é sinal de que o público compra bilhete para ir ver-nos no teatro ou no cinema, ou seja, o público quer realmente ver-nos.

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O facto de se declarar como um ator e não um comediante, significa que aceitaria fazer, por exemplo, um papel dramático, ou algo fora daquilo a que o público está habituado a vê-lo?

Claro, adorava. Como já havia referido sou um ator, não um comediante. A minha formação é de ator, por isso apreciaria interpretar qualquer papel em qualquer registo. Por exemplo, em “A Canção de Lisboa”, existem leves toques de algo mais romântico, mais sério, principalmente nas minhas cenas com a Alice [personagem de Luana Martau]. Mas em Portugal, por vezes, ficamos rotulados com uma determinada característica ou interpretação. Mas como ator, cá estou eu para aceitar os desafios. 

Para si, qual é a fórmula de sucesso desta trilogia? Sabendo que o sucesso em "A Canção de Lisboa" ainda é uma incógnita?

Modéstia à parte, acho que este também vai ser um sucesso. Agora, quanto ao êxito, este é resultado de um verdadeiro trabalho por detrás, da dedicação, e tal pode ser verificado neste filme. “A Canção de Lisboa” é um filme sério, digno, que respeita sobretudo o público-alvo, o público que realmente pretendemos atingir. Não é um filme pretensioso, nada disso. É apenas um filme bem escrito, com dedicação e empenho, esse é sim, o segredo do sucesso. O resto é o público gostar ou não.

Se a trilogia se prolongasse para mais um ou outro filme e se esse filme contasse uma personagem anteriormente interpretada por Vasco Santana, aceitaria participar?

Adoraria, desde que o roteiro ou guião fosse do meu agrado, e tudo o que estivesse à volta também for do meu agrado. Obviamente, que fosse também bem tratado. Portanto, desde que eu gosto, porque não …

Quanto a novos projetos?

Não tenho. Mas atenção, é por opção. Tenho a “Commedia a La Carte”, o qual será para o resto da vida, ainda tenho esperanças de começar um espetáculo no Teatro da Trindade. Os meus projetos são feitos no imediato, é aqui que eu estou, é aqui que eu vou, fazendo sempre “coisas” novas. Convites? É esperar por eles e ver o que daí sai. 

"Ó Evaristo, fora com isto!"

Hugo Gomes, 04.08.15

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Não é que “O Pátio das Cantigas" seja um clássico absoluto do cinema mundial. Foi, sim, um objeto do regime salazarista que caiu atualmente nas boas graças do povo português e ainda hoje integra parte do nosso diálogo e tradições. Quando se fala de “O Pátio das Cantigas”, se menciona, obviamente, filmes como “A Canção de Lisboa”, “O Leão da Estrela”, “O Costa do Castelo”, entre outros e, com exceção de O Pai Tirano, todas elas comédias ditas populistas que tiveram o favor de transladar um humor de revista e de rádio para o grande ecrã. Foi como o cinema português deu os primeiros passos “corretos” no sentido do que julgava ser cinema comercial.

Por outro lado, eram filmes moralistas, adeptos dos bons costumes e de conteúdos limitados em consequência do regime político que se vivia. Nota-se, por exemplo, a célebre sequência do tumulto no arraial do “Pátio das Cantigas”, em que a personagem de Vasco Santana leva um grupo de crianças para um recanto obscuro e aclama: “aqui não lhes acontece mal nenhum“, no mesmo local onde se vê uma tabuleta com a inscrição SALAZAR. Sim, sempre existiram mensagens subliminares nestes filmes que respeitavam os chamados “três Fs” de Salazar. Porém, a ideia de um remake ou “homenagem”, como cobardemente se quer auto-intitular este filme, é uma manobra arriscada e que dificilmente nos diz algo sobre a época em que vivemos. Leonel Vieira conduz um grupo de atores, todos formados na escola da televisão, imagem adversa do elenco original, “extraído” da rádio e do teatro, que suportam personagens por vias de meras caricaturas e confronto entres egos ou, como no caso de Miguel Guilherme, uma descarada imitação do Evaristo de António Silva. Até a melhor atriz do elenco, Anabela Moreira, encontra-se num desperdício herege.

Como referência à digna “caixa-maravilha”, este “O Pátio das Cantigas” tresanda a todo um registo televisivo, especialmente com o seu humor descartável, pouco imaginativo e, por vezes, de mau gosto. Existem mesmo sitcoms nacionais mais sofisticadas que toda esta lavagem “pseudomoderna”, já que o modernismo fica-se pelo “pastiche” e pelo product placement que controla o quotidiano das suas personagens e não o contrário. É um pátio míope, sem textura nem dimensão e, pior, sem vida, para além daquela incutida artificialmente para “português ver”.

Da mesma forma, enquanto produtos mais originais e ousados da nossa cinematografia são desprezados pelo seu público, são “coisas” como estas que auferem o seu título de filmes “populistas”. Por fim, se eu tiver que nomear algo de bom neste exercício travestido de comédia, é que Leonel Vieira consegue ser mais sóbrio a nível técnico e de planificação em comparação com Nicolau Breyner e o seu “híbrido “7 Pecados Rurais”. Cinema? Não, autocolante televisivo. Homenagem? Não, simplesmente oportunismo.