Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Há "Um Animal Amarelo" na sala

Hugo Gomes, 19.10.20

Felipe-Braganca-dirige-Um-Animal-Amarelo.jpg

Em um debate decorrido no Cinema Ideal, durante a projeção de O Fim do Mundo de Basil da Cunha (no âmbito do Cineclube do Indelisboa), perante um grupo de alunos da Faculdade de Letras aventurei-me nas palavras “descolonizar o cinema português”. Isto, obviamente, seguindo a temática do filme pelo qual fui convidado a comentar, referia sobre a nossa perceção quanto aos bairros sociais e os seus respetivos biótopos sob a lente de diversos cineastas, os seus tratados teriam que ser, antes de mais, pluralizados em conformidade com um vasto leque de “quem o filma”. Esse descolonizar, o qual referi, e que possa, porventura, ser mal interpretado, deriva dessa passagem de testemunho do olhar predominante para aqueles que possam, através das suas especificidades e experiências, enriquecer o cinema e a sua ótica.

Contudo, pegando na sua definição mais “convencional”, encontramos um filme como Um Animal Amarelo que segue essa demanda [descolonizadora] por vias do auto-deboche ou da satirização do privilégio branco. Aqui somos exaltados pela jornada do “herói” branco nas buscas de riquezas exóticas por esse mundo fora e igualmente da sua emancipação frente aos fracassos do capitalismo. É um brasileiro, aspirante a cineasta (Higor Campagnaro), oriundo de um tropicalismo civilizado (Brasil), assim como encara, partindo para os remotos cantos da Africa subsariana, explorando, extorquindo o que de “selvagem” lá permanece.

Contado num jeito de fábula que cruza um imaginário paralelo e um bandeja crítica de todo essa “especialidade” branca, nunca reduzindo o seu grau de ridicularização, a quarta longa-metragem de Felipe Bragança é um exercício eclético que vias explorar a identidade brasileira e nunca restringir-se a uma mera tese. Aqui, o nosso protagonista desafortunado é a cobaia da experiência, essa, a da perceção que maioritariamente o Primeiro Mundo tem do Terceiro e por consequência o engano daqueles que não se revêm na sua classe e que forma um Segundo. A crítica pode-se estender à nossa portugalidade franciscana, iludida das glórias passadas que são, grande parte delas, etiquetas de 40 anos totalitários, mas é no Brasil, essa terra de clara multiculturalidade que as facas estão apontadas, com o fio direcionado ao seu contexto politizado (e não é “O” de agora).

Aí deparamos com o desejo de auto-integrar numa euro-identidade, recolhendo as sobras de velhos impérios, e negligenciando o negro historial do qual se formaram … os brasileiros, propriamente ditos. Um Animal Amarelo atormenta e desconsidera essa mesma colonização cinematográfica, recolhendo-se num abstrato conto que espelha a nossa relação com o Mundo.

Se existe uma moral digna de epifania como a de qualquer “fábula” aqui - novamente, eu a ler por alto as definições como elas são - é que para representar “o Brasil como está hoje em dia só pode ser cantado como piada ou como uma autópsia”, frase extraída da obra seguinte/anterior (tendo em conta a sua rodagem/lançamento) de Bragança, dirigido a meias com a atriz Catarina Wallenstein -Tragam-me a Cabeça de Carmen M. – é um dos sintomas do porquê da necessidade desta descolonização no cinema português (por um lado, Um Animal Amarelo possui uma “costela portuguesa” com certeza) e sobretudo brasileiro.

Aposta de novos olhares e além do mais, temáticas que possam acrescentar o pluralismo que falta, por vezes e muito, no nosso Cinema, esse, sim, é o "Animal Amarelo" na sala que precisa de ser falado.

 

PS: deixo-vos aqui o link da minha conversa com da atriz Catarina Wallenstein sobre o filme no SAPO.

Catarina Wallenstein: "Dentro de mim podem existir 50 pessoas diferentes, mas a questão é quantas delas quero conhecer"

Hugo Gomes, 05.09.20

MV5BMzZmMGQ4ZjItNjcwOC00NGIyLWFmNGMtN2EzZTdhMDQ4Mz

Um Animal Amarelo (Felipe Bragança, 2020)

Há um animal, grande, felpudo e tons amarelos que traz consigo memórias amaldiçoadas e poeira cintilante, que é um convidado de honra no Indielisboa.

"Um Animal Amarelo", o mais recente trabalho do jovem cineasta brasileiro Felipe Bragança, centra-se na história com ecos coloniais de um aspirante a realizador que decide refazer a sua vida como “caçador de riquezas” em Moçambique, sempre acompanhado pelo fémur dos seus antepassados e por um "espectro animalesco".

Conversei com Catarina Wallenstein, atriz que tem ganho nome na produção nacional em trabalhos de Manoel de Oliveira, João Botelho e Sérgio Tréfaut e que, do outro lado do oceano, tem trabalhado com Felipe Bragança numa reconstrução identitária brasileira, primeiro com "Tragam-me A Cabeça de Carmen M.", sobre uma atriz portuguesa que se acha perfeita para interpretar o papel de Carmen Miranda, e agora com o filme que encerra esta 17ª edição do festival IndieLisboa.

No IndieLisboa do ano passado, vimos "Tragam-me A Cabeça de Carmen M.”, que codirigiu com Felipe Bragança. Agora, chega-nos “Um Animal Amarelo”, mas sem a Catarina creditada na realização.

Na verdade, "Um Animal Amarelo” foi rodado antes do “Tragam-me A Cabeça de Carmen M.”, um filme menos ambicioso. Conheci o Felipe durante a rodagem do “Um Animal Amarelo” e decidimos trabalhar no “Carmen” durante a sua pós-produção, para estar pronto como filme-reação. Para existir com maior prontidão. Normalmente nos filmes aplicamos um maior desenvolvimento, aquele tempo todo para escrever, mas “Tragam-me A Cabeça de Carmen M.” foi uma experiência mais artesanal, um processo mais imediato com o momento presente, uma convulsão tão rápida para com esse tempo. Quisemos reagir e, por isso, já estamos a pensar fazer outro.

Em termos políticos, havia qualquer coisa de atualizado em "Tragam-me A Cabeça de Carmen M." em relação a este.

Um Animal Amarelo” é um filme de camadas sobre a identidade brasileira, que é atravessada pelos tempos. Nós, portugueses, também albergamos essas questões, visto que o filme lida com o colonialismo presente na sua sociedade. Quanto a essa atualização, é bem verdade que os tempos estão a mudar e muito rapidamente, mas "Um Animal Amarelo" aborda questões que não desatualizam em um ou dois anos. O Felipe começou a trabalhar nos filmes antes da eleição de Bolsonaro. Em 2017.

Em “Um Animal Amarelo”, as televisões têm importância para o seu contexto temporal. Quando o protagonista embarca na sua aventura africana, notamos que o Brasil está atento ao "impeachment" da presidente Dilma Rousseff.

Exatamente! Foi uma localização temporal e como o Brasil atravessa durante estes anos, em particularmente desde o golpe. Penso que devemos chamar os bois pelos nomes. Porque do "impeachment" ao golpe existe uma mudança do "status quo" que vai da irresponsabilidade de uma pessoa a uma engrenagem de um movimento ainda maior. Aliás, a Dilma já foi ilibada do que fora acusada, ou seja, ela poderia concorrer outra vez. Só que o seu processo de destituição deu espaço a este atual governo que está a desmantelar o Brasil.

tragam-me-a-cabeça-de-carmen-.jpeg

Tragam-me A Cabeça de Carmen M. (Felipe Bragança & Catarina Wallenstein, 2019)

 

No fundo, “Um Animal Amarelo” é uma fabulação da consciência colonial, quer do Brasil como também de Portugal?

Como cidadãos portugueses temos muito que olhar para a nossa História. “Um Animal Amarelo” é uma coprodução luso-brasileira que foi filmada em Rio de Janeiro, Beira (Moçambique) e Lisboa, criando uma rota comum com a da Escravatura. Permitindo aos dois países repensar o passado que carregamos nas costas. Mas isso depende de cada um e julgo que poucos estão abertos para o fazer.

Mas começa a questionar-se nos manuais escolares a nossa história colonial, nomeadamente a chamada Era dos Descobrimentos.

Sim, começa a existir, mas de forma simplificada. Aliás, um dos problemas de hoje é a facilidade de acesso à informação bastante simplificada, que traz pouca densidade de pensamento. Nós temos que olhar para tudo isto de forma mais complexa e não sermos abatidos pela culpa, porque esta não interessa para nada. O que interessa saber é de onde se vem e para onde vai e o nosso papel de causa-consequência efetivo no desenvolvimento socioeconómico de vários países.

Em relação ao cinema, os franceses “abriram” mais rápido essa desconstrução colonial, enquanto o português ainda vai em pequenos passos.

Sim, só que eles não passaram por uma ditadura de 40 anos que exaltava sentimentos de patriotismo de forma abnegada e pouco explicada. Como alguns “F” que nos ajudaram a construir uma identidade muito básica. A exaltação da bandeira através dos “futebóis” e dos seus respetivos clubismos. Reduzir a identidade nacional somente ao “Fado". Faz parte dela, mas nós não somos apenas isso. Não sou só a Catarina, não sou só uma atriz, não sou só uma mulher e não sou só uma portuguesa. Dentro de mim podem existir 50 pessoas diferentes, mas a questão é quantas delas quero conhecer, dentro da minha história, da minha família. Acho que devíamos ter um pouco mais de vontade de ser curiosos e deixar-nos surpreender.

Outro fator que julgo ser a essência das aventuras deste “herói” é que todo o filme traça um quadro geral do privilégio branco.

Talvez sobre o ridículo e a impossibilidade da utopia do "privilégio branco". O herói branco de “Um Animal Amarelo” é um anti-herói e o facto de ser um privilegiado branco não o faz dele heroico. Não é de todo uma boa pessoa, é um anti-herói que vivencia acasos e onde ele nem sempre é louvável. Isto é uma história onde os negros nem sempre os "bonzinhos", o branco não é nem o "bonzinho" nem o "mauzinho". Por outras palavras, nós não somos uma camada e o filme em si não recorre ao maniqueísmo, apenas desafia o que é "normalizado" para entendermos que existe uma faceta trágica em cada um de nós.

descarregar.jpg

Um Animal Amarelo (Felipe Bragança, 2020)

No fundo, este “anti-herói” brasileiro, como a Catarina lhe chama, que generaliza a ideia de privilégio branco, é um homem ridículo. O privilégio branco é, isso mesmo, “ridículo”?

Sim. Contudo, julgo que, na cultura portuguesa, não temos essa capacidade de auto-deboche, de ridicularizar-nos e, no fundo, penso que seria algo que individualmente nos enriqueceria bastante. Desde 1500 que andamos a exaltar e a glorificar os nossos feitos, o que é muito ridículo porque somos um país muito pequeno, muito provinciano e, ao mesmo tempo, com mil e uma qualidades. Não sou nenhuma traidora da pátria por constatar defeitos ou fragilidades no meu país. Trazia-nos a complexidade que falta ver essas contrariedades e não somente vermo-nos como um povo simplificado de valores tatuados pela ditadura. A nossa geração ainda é herdeira do Estado Novo, ainda somos medrosos. Não nos posicionamos ainda porque ainda temos medo do que o outro pensa, fruto de anos e anos de denúncias e do constante peso da Igreja. É uma carga gigantesca que carregamos às costas e não queremos falar.

Abordemos o futuro, mais especificamente o cinema e a COVID-19. Acredita nessa coexistência nestes novos tempos?

O cinema continuará a existir depois da COVID-19. Não me preocupa verdadeiramente o cinema, tendo em conta a falta de sustentações políticas culturais que alimentem um setor que não só está desnutrido como é necessário à boa saúde da nossa democracia. Evidentemente que o Estado tem que ter um papel importante no apoio da criação plural, independente e diversificada. Não podemos todos depender de plataformas, marcas, curadorias empresariais para estarem a criar produtos massificados, todos parecidos uns com os outros, só porque sabe-se à partida que vai resultar a nível de bilheteira.