Data
Título
Take
19.4.18

quixote.jpg

Para além do novo filme de Lars Von Trier, The House that Jack Built, Cannes revelou mais títulos para a sua programação, entre os quais o badalado The Man who Killed Don Quixote, de Terry Gilliam, que se encontra sob disputa judicial quanto aos seus direitos de distribuição. O filme foi escolhido para encerrar o certame.

 

Quanto às outras adições, Un couteau dans le cœur (Knife + Heart) do francês Yann Gonzalez (tendo Vanessa Paradis como protagonista), Ayka do cazaque Sergey Dvortsevoy (realizador galardoado com o Prémio de Un Certain Regard por Tulpan) e o regresso do turco Nuri Bilge Ceylan (vencedor da Palma de Ouro em 2014) com Ahlat Agaci (The Wild Pear Tree) completam a Competição Oficial.

 

fahrenheit-451-trailer-2-fb.jpg

 

Whitney, o documentário assinado por Kevin Macdonald (O Último Rei da Escócia), sobre a cantora mundialmente célebre Whitney Houston, será, em conjunto com Fahrenheit 451, a adaptação do livro de Ray Bradbury pelo canal HBO, serão as sessões da Meia-Noite.

 

Un Certain Regard também com novas adições, e bem lusófonas. Chuva e Cantoria Na Aldeia Dos Mortos, documentários do português João Salaviza e da brasileira Renée Nader Messora sobre o povo Krahô, um comunidade indígena vivente no centro do Brasil, junta-se à competição ao lado de Muere, Monstruo, Muere, do argentino Alejandro Fadel, e de Donbass, de Sergey Loznitsa, que abrirá a secção “Um Certo Olhar”.

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 15:18
link do post | comentar | partilhar

17.4.18

quinzaine_2018_314x229_presse_HDcmyk.jpg

 

Longas-Metragens

Amin de Philippe Faucon (estreia mundial)

Carmen y Lola de Arantxa Echevarria (estreia mundial) – primeiro filme

Climax de Gaspar Noé (estreia mundial)

Cómprame un revólver ( Buy Me a Gun ) de Julio Hernández Cordón (estreia mundial)

Les Confins du monde de Guillaume Nicloux (estreia mundial)

El motoarrebatador ( The Snatch Thief ) de Agustín Toscano (estreia mundial)

En Liberté ! de Pierre Salvadori (estreia mundial)

Joueurs ( Treat Me Like Fire ) de Marie Monge (estreia mundial) – primeiro filme

Leave No Trace de Debra Granik première internationale

Los silencios de Beatriz Seigner (estreia mundial)

Ming wang xing shi ke ( The Pluto Moment ) de Ming Zhang (estreia mundial)

Mandy de Panos Cosmatos

Mirai ( Mirai ma petite sœur ) de Mamoru Hosoda (estreia mundial)

Le monde est à toi de Romain Gavras (estreia mundial)

Pájaros de verano ( Birds of Passage – Les Oiseaux de passage ) de Ciro Guerra & Cristina Gallego (estreia mundial) – filme de abertura

Petra de Jaime Rosales (estreia mundial)

Samouni Road de Stefano Savona (estreia mundial) – documentario

Teret ( The Load ) de Ognjen Glavonic (estreia mundial)

Troppa grazia de Gianni Zanasi (estreia mundial) – filme de encerramento

Weldi ( Dear Son – Mon cher enfant ) de Mohamed Ben Attia (estreia mundial)

 

Curtas-Metragens

Basses de Félix Imbert

Ce magnifique gâteau ! ( This Magnificient Cake ! ) de Emma De Swaef & Marc Roels

La Chanson ( The Song ) de Tiphaine Raffier

La lotta de Marco Bellocchio

Las cruces de Nicolas Boone

La Nuit des sacs plastiques ( The Night of the Plastic Bags ) de Gabriel Harel

O órfão ( The Orphan ) de Carolina Markowicz

Our Song to War de Juanita Onzaga – documentário

Skip Day de Patrick Bresnan & Ivette Lucas - documentário

Le Sujet ( The Subject ) de Patrick Bouchard

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.


publicado por Hugo Gomes às 15:07
link do post | comentar | partilhar

14.4.18

MV5BNmNhOTE5NDctM2RiMi00OWM0LTlhMjYtNzAyNGQ0MWM2Zj

Como se sabe, a Netflix não terá qualquer filme presente este ano em Cannes, em consequência está a decisão do Festival em excluir qualquer obra sem distribuição cinematográfica em França da competição.

 

Para a Helen Mirren, tal decisão da empresa de streaming é “devastadora” para qualquer cineasta. Em uma entrevista ao site I News, a atriz de Winchester (em cartaz) revelou a sua posição em relação a este confronto. Mesmo admitindo que gosta de assistir filmes no seu IPad, Mirren encontra-se do lado de Cannes, referindo que é "devastador para pessoas como meu marido [Taylor Hackford], realizadores, porque querem que seus filmes sejam exibidos em uma sala de cinema para um grupo de pessoas. É algo comum".

 

Esta decisão da Netflix afetou a possibilidade de obras de cineastas como Alfonso Cuarón (Roma), Jeremy Saulnier (Hold the Dark), Paul Greengrass (Norway) e dois projetos em torno de Orson Welles: o documentário de Morgan Neville, They'll Love Me When I'm Dead, e The Other Side of the Wind, projeto inacabado do cineasta agora terminado, de integrar a Seleção do Festival de Cannes.

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 02:25
link do post | comentar | partilhar

12.4.18

30571814_1861076997246561_6806814790773199958_n.jp

Jean-Luc Godard, Spike Lee, Stéphane Brizé, Jia Zhang-kee, entre outros, irão competir pela Palma de Ouro nesta 71ª edição do Festival de Cannes. Uma programação cheio de surpresas e com muitos nomes estreantes irão fazer as delícias dos cinéfilos nos dias 8 a 19 de maio na Riviera Francesa.

 

Destaque ainda para O Grande Circo Místico, do realizador brasileiro Cacá Diegues (Carlos Diegues), uma coprodução portuguesa em sessão especial nesta tão cobiçada mostra cinematográfica.  

 

Filme de Abertura

“Everybody Knows,” Asghar Farhadi (em Competição)

 

Competição

“Asako I & II,” Ryusuke Hamaguchi

“Ash Is Purest White,” Jia Zhang-Ke

“At War,” Stéphane Brizé

“BlacKkKlansman,” Spike Lee

“Burning,” Lee Chang-Dong

“Capernaum,” Nadine Labaki

“Cold War,” Pawel Pawlikowski

“Dogman,” Matteo Garrone

“Girls of the Sun,” Eva Husson

“Lazzaro Felice,” Alice Rohrwacher

“Shoplifters,” Kore-Eda Hirokazu

“Sorry Angel,” Christophe Honoré

“Summer,” Kirill Serebrennikov

“The Picture Book,” Jean-Luc Godard

“Three Faces,” Jafar Panahi

“Under the Silver Lake,” David Robert Mitchell

“Yomeddine,” A.B Shawky

 

 

Un Certain Regard

“Angel Face,” Vanessa Filho

“Border,” Ali Abbasi

“Euphoria,” Valeria Golino

“Friend,” Wanuri Kahiu

“Girl,” Lukas Dhont

“In My Room,” Ulrich Köhler

“Little Tickles,” Andréa Bescond & Eric Métayer

“Long Day’s Journey Into Night,” Bi Gan

“Manto,” Nandita Das

“My Favorite Fabric,” Gaya Jiji

“Sextape,” Antoine Desrosières

“Sofia,” Meyem Benm’Barek

“The Angel,” Luis Ortega

“The Gentle Indifference of the World,” Adilkhan Yerzhanov

“The Harvesters,” Etienne Kallos

 

Fora da Competição

“Le Grand Bain,” Gilles Lellouche

“Solo: A Star Wars Story,” Ron Howard

 

Sessões Especiais

“10 Years in Thailand,” Aditya Assarat, Wisit Sasanatieng, Chulayarnon Sriphol & Apichatpong Weerasethakul

“Dead Souls,” by Wang Bing

“La Traversee,” Romain Goupil

“O Grande Circo Místico,” Carlo Diegues

“Pope Francis – A Man of His Word,” Wim Wenders

“The State Against Mandela and Others,” Nicolas Champeaux & Gilles Porte

“To the Four Winds,” Michel Toesca

 

Sessões da Meia-Noite

“Arctic,” Joe Penna

“The Spy Gone North,” Yoon Jong-Bing

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.


publicado por Hugo Gomes às 12:33
link do post | comentar | partilhar

6.4.18

MV5BMTg2MjM5NTQ4MV5BMl5BanBnXkFtZTgwNzExMTQ3NDM@._

Han Solo: Uma História de Star Wars será exibido no próximo Festival de Cannes. O filme assinado por Ron Howard que decorre antes dos eventos da trilogia original de Star Wars, tem projeção especial no tão cobiçado evento cinematográfico no dia 15 de maio.

 

Com estreia marcada para dia 24 em Portugal, Han Solo: Uma História de Star Wars conta no elenco com Alden Ehrenreich, Woody Harrelson, Emilia Clarke, Donald Glover, Thandie Newton, Phoebe Waller-Bridge, Joonas Suotamo (como Chewbacca) e Paul Bettany. Esta prequela focará no primeiro encontro entre o famoso mercenário, anteriormente interpretado por Harrison Ford, e o seu comparsa "Chewie".

 

Em relação ao Festival de Cannes (8 a 19 de Maio), esta não será a primeira vez que um filme da saga intergaláctica integra a programação. Em 2002 e 2005 os episódios II (Ataque dos Clones) e III (A Vingança de Sith), respetivamente, tiveram as honras de ser apresentados em Fora de Competição.

 

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 13:27
link do post | comentar | partilhar

5.4.18

Sem Título.jpg

Penélope Cruz e Javier Bardem são os protagonistas de Todos lo Saben (Everybody Knows), o primeiro filme de língua espanhola do iraniano Asghar Farhadi (Uma Separação; O Passado; O Vendedor). O filme terá as honras de abrir o 71º Festival de Cannes.

 

Este drama familiar e thriller psicológico acompanha Laura, uma mulher que viaja com a sua família de Buenos Aires para Espanha. Mas o que iria ser uma celebração acaba por se tornar num pesadelo e na revelação de segredos que poderão colocar em causa toda a família. Ricardo Darin, Inma Cuesta, Carla Campra e Bárbara Lennie compõe o resto do elenco.

 

Vale a pena referir que este projeto inicialmente teria o selo da El Deseo, de Pedro e de Agustín Almodóvar, mas a empresa abandonou a produção.

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 13:31
link do post | comentar | partilhar

4.4.18

martin-scorsese-silence.jpg

O cineasta Martin Scorsese será distinguido em Cannes com a Carroça de Ouro (Carrosse d'Or), um prémio atribuído pela Sociedade de Cineastas Franceses (SRF) na Quinzena dos Realizadores, uma secção paralela do Festival Internacional de Cinema de Cannes.

 

Scorsese, um dos nomes maiores da chamada vaga movie brats dos anos 70 e atualmente um dos mais respeitados da indústria norte-americana, junta-se assim a uma vasta mas eclética lista de nomes premiados: Werner Herzog (2017), Aki Kaurismäki (2016), Jia Zhangke, (2015), Alain Resnais (2014), Jane Campion (2013), Nuri Bilge Ceylan (2012), Jafar Panahi (2011), Agnès Varda (2010), Naomi Kawase (2009), Jim Jarmusch (2008), Alain Cavalier (2007), David Cronenberg (2006), Ousmane Sembene (2005), Nanni Moretti (2004), Jacques Rozier e Clint Eastwood (2003).

 

A 50.ª edição da Quinzena dos Realizadores decorrerá entre 9 a 19 de maio.

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.


publicado por Hugo Gomes às 15:26
link do post | comentar | partilhar

29.3.18

christopher-nolan-time-100-2015-artists.jpg

Christopher Nolan marcará pela primeira vez presença no Festival de Cannes. Porém, não será para apresentar nenhuma das suas obras, mas sim para celebrar os 50 anos de 2001: Uma Odisseia no Espaço, a ficção cientifica clássica de Stanley Kubrick.

 

Datado de 1968, o filme que se tornou numa das incontornáveis referências do género no Cinema será projetado na 71ª edição do festival com uma cópia de 70 mm (formato que será exibido pela primeira vez desde a estreia do filme). A sessão será apresentada pelo realizador de Dunkirk, no dia 12 de maio, sendo que no dia seguinte, o cineasta coordenará uma masterclass onde abordará a influência da obra de Kubrick na sua própria carreira, em especial o seu trajeto na ficção científica em Interstellar (2014).

 

2001-space-odyssey-stanley-kubrick-50th-anniversar

 

Uma das minhas primeiras recordações no cinema foi de ver o filme de Stanley Kubrick, 2001: Uma Odisseia no Espaço, em 70mm, no Leicester Square Theater, em Londres, com o meu pai. A oportunidade de estar envolvido na recriação dessa experiência para uma nova geração e de apresentar a nova cópia não restaurada de 70mm da obra-prima de Kubrick em toda a sua glória analógica no Festival de Cannes é uma honra e um privilégio. ” declarou Nolan em comunicado oficial.

 

O Festival de Cannes começa a 8 de maio e prolonga-se até dia 19 do mesmo mês. A seleção oficial será anunciada no dia 12 de abril.

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 00:22
link do post | comentar | partilhar

27.3.18

img_620x347_2017_08_02_13_01_40_376563.jpg

As obras Colo, Verão Danado, e Terra Franca serão exibidos no ACID: Association du Cinéma Indépendant pour sa Diffusion, evento que decorre todos os anos em paralelo com tão mediático festival de Cannes.

 

Inseridos num programa especial - ACID TRIP 2 # Portugal – que para além da projeção das três longas-metragens será ainda organizadas uma mesa redonda com fins de discutir o cinema português, a sua visibilidade e diversidade no resto do Mundo. O debate contará a presença e apoio da APR – Associação Portuguesa de Realizadores, e a sessões terão lugar entre os dias 11 a 13 de maio, o primeiro fim-de-semana do Festival de Cannes (8 a 19).

 

umapedranosapato_terra_franca_5a787b2de0f4e.jpg

 

Colo, que estreou há poucas semanas nos circuito comercial, é uma das últimas obras de Teresa Villaverde, um filme que debate sobre a crise no seio familiar, enquanto que Verão Danado, a primeira longa-metragem de Pedro Cabeleira, retrata uma juventude desiludida com o rumo que as suas vidas parecem tomar. Terra Franca, estreia de Leonor Teles (Urso de Ouro em Berlim de 2016 com a Balada do Batráquio) no formato das longas, é um documentário sobre a vida de um pescador do Tejo, abordado o seu oficio, vida conjugal e pessoal. O filme encontra-se a ser apresentado no Cinéma du Réel, em Paris.

 

É de relembrar que esta não será a primeira vez que a realizadora Teresa Villaverde é promovida no ACID, a sua estreia nesta disposição aconteceu em 1998 com a consagração da sua terceira longa Os Mutantes.

 

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 02:31
link do post | comentar | partilhar

12.3.18

d999895ccfbe037543cb6a367e94a5a5.jpg

Foi divulgado o primeiro teaser trailer de Loro, o novo filme de Paolo Sorrentino (La Grande Bellezza), que marcará o regresso do seu ator-fetiche, Tony Servillo, assim como à temática da politica italiana.

 

Loro explorará as complexidades de Silvio Berlusconi, o antigo primeiro ministro italiano sempre envolvido em inúmeras polémicas, desde a jogos de poder e de luxuria. Riccardo Scamarcio, Chiara Iezzi, Fabrizio Bentivoglio, Elena Sofia Ricci, Roberto Herlitzka, Ricky Memphis, Roberto De Francesco, Dario Cantarelli e Alessia Fabiani completam o elenco.

 

Loro poderá ter estreia mundial no próximo Festival de Cannes, e já se fala na possibilidade de ser apresentado em duas partes.

 

 

 Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 19:13
link do post | comentar | partilhar

4.1.18

directors-cut-beauty-woody-allen-blue-jasmine-cate

Cate Blanchett irá presidir o júri da próxima edição do Festival de Cannes. A atriz australiana vencedora de dois Óscares da Academia, torna-se assim a 12ª mulher a liderar o tão cobiçado júri.

 

Em declaração, Blanchett expressou o seu agrado com o convite: "Estive em Cannes de muitas formas ao longo dos anos; como atriz, produtora, no mercado, na esfera da Gala e na competição (…) exclusivamente pelo puro prazer de assistir à cornucópia de filmes que o festival abriga. Sinto-me honrada com o privilégio e a responsabilidade de presidir o júri deste ano".

 

Pierre Lescure, director do festival e o seu delegado-geral, Thierry Frémaux, afirmaram estar “muito satisfeitos em receber uma artista tão rara e única, cujo talento e convicções enriquecem as telas e o palco." 

 

A 71ª edição do Festival de Cinema de Cannes irá decorrer de 08 a 19 de Maio.

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 16:54
link do post | comentar | partilhar

16.11.17

Quadrado.jpg

O quadrado, objecto de provocação!

 

Ruben Östlund filma os seus filmes com uma certa intenção, uma provocação no qual tenta debater-se com a consciência moral do espectador. Se em Force Majeure (Força Maior), especificaria o medo como uma catarse ao rompimento de uma relação, em The Square (O Quadrado) somos ainda levados ao extremos nessa encruzilhada de decisões. “E se fosse consigo?” - mais do que um programa pedagógico, Östlund perpetua uma tragédia cómica minada de experiências que vai de encontro aos nossos próprios medos, provavelmente o maior dos medos sociais, o de agir na altura certa.

 

thumb_53109_film_film_big.jpeg

 

Em paralelo com a avalanche de Força Maior, em O Quadrado assistimos a uma particular sequência de uma arte performativa levada ao extremo, a besta que encarna no homem-artista e a manada indefesa que encarna numa multidão intelectualmente homogénea. A situação torna-se tão drástica que nós próprios [espectadores] questionamos a nossa experiência, a impotência nos nossos activismos, e o desprezo pelo próximo como um mecanismo de defesa. Nessas ditas situações, O Quadrado envolve-nos com uma tese psicológica desafiadora, um filme revoltante … silenciosamente revoltante que poderá dizer mais de nós que qualquer divã. E esse quadrado, engenho simetricamente perfeito que reflecte a igualdade de quem o penetra, um produto de museu no qual Östlund manipula como objecto de estudo a outra das questões da sua obra. Até que ponto a arte pode ser considerada arte? Ou simplificando, o que é a arte?

 

the-square-poster.jpg

 

E toda essa arte tem consequências, assim como os actos do protagonista, Christian (Claes Bang), que concentram todos esses confrontos invocados numa só persona. Aquele, e já referido, medo social, âncora das nossas relações afectivas assim como comunicativas, que elevam a um certo grau de passividade. Até porque existe dentro de nós um certo Christian, que se esconde em plataformas para expressar os seus sentimentos mais primários, no sentido em que essas emoções são eventualmente subvalorizadas por uma comunidade artística, pensante que anseia atingir o pedestal da racionalidade, quer do real, quer do abstracto.

 

The-Square.jpg

 

O Quadrado é um exemplar de um filme subjugado ao debate dele próprio, pronto para o dialogo com o espectador, entre espectadores e sobretudo depois do seu visionamento. São as questões sugeridas pela obra que nos tornam aptos para as suas interpretações; porém, Östlund tenta acima de tudo obter essa função, fugindo da pedagogia infantil e da essência solipsista que invade a comunidade arthouse, mas foge, também, da objectividade.

 

the-circle.jpg

 

O Quadrado prolonga-se até não possuir mais uma questão nova a indicar, torna-se com o tempo obtuso, fácil e previsivelmente moralista, como se toda esta galeria resumisse a uma fábula, citadina e moderna que exorciza a realidade como a vemos. Depois vem a obsessão de Östlund pelas escadas, a técnica e como filmá-las, uma tese na qual não procuramos aqui dar respostas, mas que preenche em demasia uma obra sobretudo comunicativa que oscila pelo simples ilustrativo.

 

 

Real.: Ruben Östlund / Int.: Claes Bang, Elisabeth Moss, Dominic West

 

MV5BMTk1NDc5NTM5NV5BMl5BanBnXkFtZTgwOTM4MTAzMjI@._

7/10

publicado por Hugo Gomes às 17:22
link do post | comentar | ver comentários (1) | partilhar

28.5.17

the-square1.jpg

Em 2015, o vídeo da "birra" de Ruben Östlund tornou-se viral. O desapontamento pela ausência do seu Força Maior entre os nomeados ao Óscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira foi alvo de chacota, mas o realizador já pode olhar para atrás e rir da situação, a Palma de Ouro "caiu" nas suas mãos. E agora?

 

The Square declarou-se como o grande triunfante da noite glamorosa do Croissette, o conquistador de uma Competição que, no geral, decepcionou tudo e todos. Segundo as más línguas, a qualidade desta Selecção derivou do interesse de Thierry Frémaux, delegado-geral do festival, em promover o seu diário "Sélection Oficielle" que fora lançado nas bancas francesas, deixando assim, pouca dedicação ao alinhamento da Competição Oficial. Nela notou-se uma aposta cada vez mais nos mesmos nomes do famoso "tapete vermelho", a fascinação pelo artista e não pela sua obra, e uma escassez significativa do cinema norte-americano, aquela que fora sempre vista como a grande conquista da dinastia Frémaux.

Centoventi-Campillo.jpg

Entretanto, um dos filmes maiores da montra, 120 Battemente par Minutte, de Robin Campillo, não saiu de "mãos vazias" deste certame. O Grande Prémio de Júri condiz tão bem, e segundo consta, Pedro Almodóvar emocionou-se como este activismo da comunidade LGBT e dos seropositivos pelos seus direitos de vida. Às vezes o cinema é isso … emoções, e acima de tudo, estes prémios demonstraram mais sentimento que, propriamente, imparcialidade. Notou-se assim, uma grande diferença entre os seleccionados e as escolhas dos jornalistas e críticos.

 

Mas este júri fez História no festival ao atribuir o prémio de realização a Sofia Coppola, a segunda mulher a vencer tal distinção, 56 anos depois de Yuliya Solntseva, com o filme Chronicle of Flaming Years. A filha do cineasta de The Godfather e Apocalypse Now, resultou no melhor que esta readaptação de The Beguiled tinha para oferecer, um filme vazio que cobardemente tenta fazer oposição feminina com a versão de '71. Nesta perspectiva, os valores técnicos sobrepõem-se ao anoréctico do enredo e da falta de ambição das personagens. Enquanto que no original era perceptível uma tensão entre as figuras de Clint Eastwood e Geraldine Page, no trabalho de Coppola as encarnações de Colin Farrel e Nicole Kidman a operarem como figuras inaptas de tragédia e de suas representações politicas.

MV5BMzE2Mjc3ODI5Ml5BMl5BanBnXkFtZTgwODY5ODYwMjI@._

A vitória da realização remeteu-nos a outro "fantasma", a atribuição do prémio máximo do festival a uma mulher, cuja primeira e última vez aconteceu em 1993, com The Piano da australiana Jane Campion. Mesmo sob o desejo de Jessica Chastain, parte do júri, em ver mais mulheres em competir para a Palma, a verdade é que nem uma das candidatas apresentou-nos qualidades devidas para a distinção. Sofia Coppola poderá ter sido a melhor da "turma", visto que Noami Kawase, uma das "favoritas" do festival, embarcou com uma obra de ideias demasiado presas ao meloso e à falta de objectividade, para além Lynn Ramsay, que nos apresentou um ensaio vazio de violência e, sobretudo, um filme incompleto.

 

Falando nesta última, o pior de todo o Festival, e inacreditavelmente distinguida com dois prémios, o de argumento, o qual partilhou com The Killing of a Sacred Deer, do grego Yorgos Lanthimos, um exemplo mais consciente da sua violência visual e psicológica, e o de Melhor Actor, Joaquin Phoenix a roubar as hipóteses de triunfo a Robert Pattinson na obra dos irmãos Safdie, visto como o favorito à categoria.

 

Contudo, o trabalho do russo Andrey ZvyagintsevLoveless, exibido no primeiro dia do Festival, não foi esquecido pelo Júri [Prémio Especial de Júri]. O retrato de uma humanidade cada vez mais longe de afectos e a dominância da tecnologia no nosso quotidiano fundida com uma realização impar e milimetricamente pensada pelo realizador do anterior, o muito bem-sucedido Leviathan, faz "refém" o paladar da trupe liderada por Almodóvar. Mas aí, também a instalação de Ruben Östlund, não esquecer o seu grande feito. O homem que destroçou a "maldição" Haneke, que infelizmente, o seu "best-of" não contou com nenhuma premiação na mais invejável mostra cinematográfica do ano.

 

Loveless-3-e1494728867724-620x350.jpg

 Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 23:09
link do post | comentar | partilhar

palmacannes70.jpg

Habemus Palma! Ruben Östlund pode ter falhado a nomeação aos Óscares de Melhor Filme Estrangeiro com Force Majure, em 2015; porém, chega-nos a compensação com a atribuição do prémio máximo do certame de Cannes, com The Square, entregue pelo presidente do júri oficial Pedro Almodóvar

 

Mas o grande vencedor da noite foi You Were Never Really Here, de Lynn Ramsay, que sai da Croisette com 2 prémios: o de Melhor Argumento (em ex-aequo com The Killing of a Sacred Deer) e o de Melhor Interpretação Masculina (Joaquin Phoenix). Diane Kruger, sem surpresas, vence a categoria feminina pela interpretação em In the Fade, e o muito elogiado 120 Battement par Minutte, de Robin Campillo, é laureado com o Grande Prémio de Júri.

 

MV5BYmQ3ZTUzNzMtZWNiNi00NDY3LWE5ZGEtMmQ5MmViYWE1Mj

 

Sofia Coppola, entretanto, faz história no Festival: torna-se a segunda mulher a vencer o Prémio de Realização pela readaptação da obra The Beguiled, 56 anos depois de Yuliya Solntseva, com o filme Chronicle of Flaming Years.

 

Nicole Kidman, que contou com três filmes selecionados na programação deste ano (para além dos episódios de Top of the Lake, de Jane Campion), foi homenageada com o Prémio de 70º Aniversário.

 

sofia-coppola-the-beguiled-trailer.jpg

 

Palma de Ouro – The Square, de Ruben Östlund

Grande Prémio de Júri – 120 Battement par Minutte, de Robin Campillo

Premio de Realização – Sofia Coppola por The Beguiled

Premio de Interpretação Masculino – Joaquin Phoenix em You Never Really Here, de Lynn Ramsay

Premio de Interpretação Feminina – Diane Krugger em In the Fade, de Fatih Akin

Prémio Especial de Júri – Loveless, de Andrey Zvyagintsev

Prémio de Argumento: The Killing of a Sacred Deer, de Yorgos Lanthimos (ex-aequo) You Were Never Really Here, de Lynn Ramsay

Curta-metragem: Une Nuit Douce, de Xiao Cheng Er Ye

Caméra d’Or: Jeune Femme, de Léonor Serraille

Prémio de 70º Aniversario – Nicole Kidman

 

 

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 20:46
link do post | comentar | partilhar

BASED_ON_A_TRUE_STORY_POSTER_70X100CM.jpg

Espaços polanskianos …

 

Como poderemos definir o cinema de Roman Polanski? Os espaços que se limitam enquanto o drama das suas personagens é dimensionalmente amplificado? Ou pelas tramas embutidas nas páginas de um livro, a criação que toma lugar frente ao seu criador? É certo que esse fascínio pelo mundo literário da última questão, representa em parte uma grande fatia do que é o cinema de Polanski, sobretudo quando o imaginário escrito assume uma materialização na ambiência do protagonista.

 

MV5BOGQ0ZDYxODMtMmNlNC00MzA3LWE4NmQtNjJkMWE5OWQxMz

 

Recordo que Johnny Depp procurou o livro do Diabo, mas foi o livro que acabou por encontrá-lo, direta ou indiretamente. Ewan McGregor procurava estrelato no seu anonimato, e sem saber tornar-se-ia uma personagem fulcral da sua ficção. Mathieu Amalric concentrava o texto de von Sacher-Masoch, esperando-o situar num palco de teatro; no virar do acto, tornou-se involuntariamente o actor desse mesmo mundo. Estes são exemplos de que o perseguido (escritor) torna-se o alvo da sua criação ou objetivo (o livro), e D'Après une Histoire Vraie (A Partir de uma História Verdadeira) não foge à regra.

 

MV5BNDc1NWMwZjYtNWVhOS00YTM3LThkMjYtYzdiMDMzZTlmMW

 

O duelo psicológico de duas mulheres que tentam debater-se na dominância social, onde por sua vez poderemos encaixar uma crise identitária. É mais um fruto de dicotomia entre criador / criação. Porém, o resultado nesta página é de um revisitar aos lugares-comuns desse cinema habitué de Polanski, o apartamento que se joga como tour de force para a entrada da sua narrativa, a obsessão que realinha a psicologia das personagens, e os livros que tomam o núcleo deste vértice, o qual chamaremos de thriller polanskiano.

 

MV5BMWQ3YTQwYmQtODRhZi00NmEzLWJhZWUtN2MzYzIyYzk4Nm

 

Emmanuelle Seigner não é uma novata neste mesmo universo e nisso é evidente na sua naturalidade com este voyeurismo (atenção leitor, não confundir com a vida privada do mesmo, discutida e debatida por diferentes meios). Todavia, é Eva Green que concentra o polo magnético desta mesma “raiz do medo”. A actriz, a joia que brilhou em The Dreamers (Os Sonhadores), de Bertolucci, cresceu e tornou-se uma mulher feita, mas a sua atitude provocatória continua em voga e os seus movimentos corporais articularam-na como uma moderna “femme fatale”. A fatalidade da sua figura, mais a vitimização de uma escritora em fraca inspiração, A Partir de uma História Verdadeira joga-se eficazmente como um trabalho de atrizes subjugadas ao olhar perverso de quem é encontra-se apto a distorções psicológicas.

MV5BZGJmY2RhOTktZjU2Zi00Y2MzLWFiY2MtZTUyMzdlYjQ0MT

 

Na teoria, eis um plano de execução à imagem de Persona, de Ingmar Bergman, o confronto existencial e mental de duas “personas” que embatem na diluição de uma só figura. Na pratica, Polanski não possui a sensibilidade de Bergman, mas sim uma depravação tremenda, cúmplice de loucuras e delírios obsessivos. Aqui o espectador duvida quanto à sua intenção e, no final, o desconhecido torna-se na resposta lógica. Infelizmente, os resultados deste caminho leva-nos a conclusões mais preguiçosas e fáceis. A dicotomia exposta converte-se na pista mais óbvia na natureza do seu twist.  

 

Filme visualizado no 70º Festival de Cannes

 

Real.: Roman Polanski / Int.: Emmanuelle Seigner, Eva Green, Vincent Perez

 

MV5BMmE3YWEzMmYtNzM1My00NmY0LWE1YzktYmFkODAyY2MyZm

6/10

publicado por Hugo Gomes às 17:10
link do post | comentar | partilhar

27.5.17

4cdd2b70-251c-4628-91b0-4a260727d3b4.png

A Fábrica do Nada, a terceira longa-metragem de Pedro Pinho, venceu o Prémio FIPRESCI (crítica internacional) das secções paralelas, o qual engloba a Quinzena de Realizadores e a Semana da Crítica. A tomada de posse dos trabalhadores de uma fábrica de produção de elevadores, tem sido altamente elogiado pela crítica internacional, o realizador Pedro Pinho esteve presente na cerimónia de entrega do galardão, juntamente com a sua equipa, tendo a oportunidade, após os agradecimentos, de manifestar revolta contra a Lei Seca e o panorama actual que o Cinema Português atravessa.

 

120 Battements Par Minute, de Robin Campillo, foi consagrado com o Prémio FIPRESCI da Competição Oficial, o activismo vivido pela comunidade LGBT e dos seropositivos que desejam acima de tudo viver, conquistou igualmente a crítica internacional, é visto como um dos grandes concorrentes a tão cobiçada Palma de Ouro. Tesnota, de Kantemir Balagov, vence a categoria Un Certain RegardEnquanto, Naomi Kawase e o seu Radiance, renderam o Prémio do Juri Ecumenico.

18813631_10209002812764399_8705496206033077405_n.j

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 16:45
link do post | comentar | partilhar

26.5.17

Joaquin-Phoenix-You-Were-Never-Really-Here.jpg

Queria realmente não estar aqui!

 

Para entendermos a escocesa Lynn Ramsay teríamos que navegar pela sua anterior carreira e percebermos o que a move profundamente – o trauma. Contudo, este You Were Never Really Here é um exemplo da dissipação miraculosa do efeito de trauma; o que restou foram as imagens, anexadas a um vazio alarmante, onde a violência passa daquele território inteiramente masculino e transforma-se num universo recontado sob o sujeito de ‘ela’.

 

Digamos que este misto de Taxi Driver com Drive (um cocktail de Scorsese e Refn - este último, de certa forma, a invocar as influências do primeiro), é um exercício de agressividade que se exerce de fora para dentro, ao invés do dentro para fora. As imagens perdem o seu sentido mais intrínseco, assumindo-se como protótipos de um engenho visual. Triste será dizer, que Ramsay falha o alvo numa intensa deambulação narrativa. Quanto ao enredo, as pistas são nos deixadas como migalhas de pão se tratasse, encontramos o rasto por momentos, mas este tende desaparecer face à gula dos “pássaros”. Pássaros, esses, os artifícios animalescos que nos conduzem a uma indiferença enorme entre as personagens, e a realizadora perante o material adaptado (visto tratar-se numa pequena história de Jonathan Ames), incutindo uma estética sem propósitos, quer criativos, quer induzidos narrativamente.

 

Joaquin Phoenix ainda em modo I’m Still Here neste You Were Never Really Here, uma ligação artística do seu modus operandi de interpretação, um homem pronto a emanar a sua força para transportar um filme à pendura como um Atlas. Mas os seus esforços são em vão. Ramsay polvilha o filme com alguns truques visíveis de inércia, entre os quais as rápidas transposições, de forma a simular um sistema de videovigilância, atenuando o explícito da violência embarcada, ou a rádio que nunca se cala, dando-nos um filme sonoro dentro deste filme, estreitamente visual. Infelizmente os truques não resgatam este “freakshow” da penumbra do seu ser. Eis um fracasso completo, Ramsay com pretensões de invocar o seu ‘eu’ violento, dando-nos preocupações quanto ao seu estado. Depois disto, haja alguém que critique o Refn.

 

Filme visualizado no 70º Festival de Cannes

 

Real.: Lynn Ramsay / Int.: Joaquin Phoenix, Ekaterina Samsonov, Alessandro Nivola

 

3/10

publicado por Hugo Gomes às 23:42
link do post | comentar | partilhar

25.5.17

MV5BY2YxM2IyYmQtZmUyZS00NmVhLTkxOWYtMTJkOTdjZTU5ND

Peripécias a dobrar!

 

A infelicidade bovariana e a repreensão sexual da protagonista seriam belíssimos pontos de partida para uma caprichosa fecundação neste thriller erótico. François Ozon usufrui da sua transgressão sexual e psicológica para minar neste seu L’Amant Double um intenso clima de ebulição, e com isso, presenteando-nos um magnificente artifício visual que vai desde a transposições vaginais, split screens invisíveis e um fetiche sexual onírico. O realizador anexa esse apetite estético com uma auto-reciclagem, há uma busca pelo Jeune & Jolie, onde Marine Vacth novamente segue em modo “stalker” dos seus desejos, mais uma vez, apta a explorar esse seu inerente desconhecido.

primary_Lamant-Double-Cannes-2017.jpg

L’Amant Double é um cruzar de dois olhares, o desconhecimento tormento de géneros (a sexualidade encontra-se no limiar da sua fronteira) e do jogo de ilusões que Ozon pedala com alguma classe. Há Brian DePalma aqui, existe citações a Dead Ringers de Cronenberg, do outro lado do espelho, e o visual possui aspirações a Refn. Por outras palavras, L’Amant Double é uma orgia de influências que, para nossa infelicidade, geram um nado morto, porque simplesmente o argumento não segue essa mesma ambição, a essa narrativa visual. Assim, sucessivamente vamos cedendo a um terreno pantanoso, aos truques baratos que fazem descortinar um embuste, os lugares-comuns do território do thriller mais convencional e o plot twist que nos arrebata com uma incoerência impossível.

l-amant-double.jpg

Engolimos a seco essas revelações e depressa tentamos encaixá-los na já exposta narrativa, ao contrário de um Hitchcock (citando o óbvio dos cineastas desse sentido), onde a intriga sofre com uma metamorfose encadeada com a sua revelação, alterando a nossa perspectiva, mas consolidando-a com o estabelecido desde então. L’Amant Double tem que “colar” a cuspo e a sémen esse mesmo twist, e o resultado é um verdadeiro acidente de proporções catastróficas. Digamos que Ozon embateu numa parede de concreto, e é pena, porque os primeiros actos prometiam. E que promessas eles nos davam.

 

Filme visualizado no 70º Festival de Cannes

 

Real.: François Ozon / Int.: Marine Vacth, Jérémie Renier, Jacqueline Bisset

 

255144.jpg

 

4/10

publicado por Hugo Gomes às 22:49
link do post | comentar | partilhar

Fabrica do Nada.jpg

Nothing Else Matters!

 

As Máquinas não podem parar, e o Cinema deve acompanhar todo esse processo de auto-sustentabilidade. A Fábrica do Nada, a quarta longa-metragem de Pedro Pinho, é esse conceito simultâneo de fazer cinema e falar de política, um retrato de um activismo em pleno passo de reflexão. Trata-se de um filme baseado na peça de Jorge Silva Melo, por sua vez inspirada na experimentação de auto-sustentabilidade da fábrica de elevadores Otis, durante 1974 - 2016, uma ideia de absoluta esquerda a invocar os fracassos de Torres Bela.

c2bfffdcec98af6b402c42915094eb16.jpg

Quando a austeridade avança ameaçando postos de trabalho, os trabalhadores tomam conta da fábrica, expulsando os seus patrões e operando através de didactismo. O "Nada" do título, é essa espera que intervala entre o “golpe de estado” e o fim do sonho esquerdista, bem como a discussão política, um avante anti-capitalista que resulta na própria consolidação com o movimento globalizado. Pinho trabalha essas ideias dando-nos um cinema que, acima de tudo, é um próprio experimento, incutindo a ficção como uma anestésica perspectiva quase mundana a uma ciência que muitos parecem evitar - a política. Sim, A Fábrica do Nada é para além de mais, um filme politizado que aposta numa duo-linguagem para a difusão da sua própria mensagem.

0808952.jpg-r_1280_720-f_jpg-q_x-xxyxx.jpg

É a docuficção, como Portugal sabe muito bem fazer, em que cada caminho serve-nos como um atalho (a ficção) ou o prolongado e completo (documentário). Em certas alturas, Pinho inspira-se em Miguel Gomes para incutir a sua veia de crítica, não por vias da sátira, mas na objectividade das suas imagens. De tal forma que A Fábrica do Nada espelha uma breve história dos gestos políticos que assombram a nossa Nação, do outro lado ele resume as tendências cinematográficas do nosso panorama recente, inclusive a nossa persistência em reter as memórias em forma de imagens. É como se a película (neste caso o digital) conservasse e servisse de uma extensa voz para estes silenciados.

8991.jpg

O final não é eterno, mas terno, é a declaração que esperávamos imensamente no nosso Cinema, a vontade de falar politica, politizar-se, sem se definir por uma esquerda, por uma direita, por um centro, ou qualquer outro lado. Fala-nos de experiências, mas nunca de posições, nem de oposições. Apesar dos eventuais discursos resultarem em impasses de uma linguagem mais directa e menos cientificada (tal como acontecera no anterior A Cidade e as Trocas, Pedro Pinho receia o desperdício na selecção de imagens), A Fábrica do Nada é um filme obrigatório para qualquer português, e não só … Uma obra dedicada e envolvente.

 

Filme visualizado na 49ª Quinzena de Realizadores de Cannes

 

Real.: Pedro Pinho / Int.: Carla Galvão, Dinis Gomes, Américo Silva

 

0840977.jpg-r_1280_720-f_jpg-q_x-xxyxx.jpg

8/10

publicado por Hugo Gomes às 19:22
link do post | comentar | partilhar

25.5.17

Rodin.jpg

"Que cinema mais velho!"

 

O maior de todos os críticos de arte, é incontestavelmente o tempo, e é graças à sua apreciação que muitas das criações do escultor August Rodin foram consagradas até aos dias de hoje. Inevitavelmente, a figura por detrás do Pensador e da estátua de Balzac, serve de ensaio para uma cinebiografia encomendada, e para lugar de “tarefeiro” surge-nos um dos nomes mais subvalorizados do cinema francês, o veterano Jacques Doillon (Ponette, Le Petit Criminel), e como encarnação do artista, Vincent Lindon em mais uma fusão de homem à deriva.

571800.jpg

À deriva nos sentimos desde os primeiros planos em que deambulamos no atelier de Rodin, com o actor a dar graças por este desempenho carrancudo e de sedução frívola. Tal como o ofício, Rodin (filme) vai-se construindo desde passos deliciados e cuidadosos até a arranques grosseiros e pesarosos, há uma essência de distorção da arte de esculpir, com a paciência mas sem a devida dedicação à criação que nasce perante os sonhos do Homem. Como biografia, Rodin é derrocada, emancipada do seu espectador, que poderá indiciar um tom de autodidatismo quase pedante. Esquecemo-nos da sua jornada e a História é citada como aquário de vida artificial. Até mesmo quando se é inserido um conflito em toda esta veia, desde a “rivalidade” com a sua paixão e igualmente escultora Camille Claudel (mais talentosa do que aquilo que o filme pressupõe), até à obsessão balzaquiana que vai auferindo uma certa instigação "truffautiana", obviamente, endurecida como uma sugestão e não um vínculo avante.

 

Rodin_still5-800x555.jpg

 

Por entre ateliers, outdoors, mansões e noites de prazer, Rodin esbarra no vazio da sua própria demagogia. No final da sessão de apresentação à imprensa no Festival de Cannes, alguém grita de pulmões plenos, dirigindo aos créditos finais e de certa forma, se dirigindo ao Mundo: “que cinema mais velho!”. Mais do que isso, mais do que essa impressão em frente aos velhos do Restelo, Rodin é cinema obsoleto, quieto no seu tempo, sem a mínima noção de criação. O tempo, como crítico, nos dirá se a obra de Jacques Doillon será um dos persistentes, mas as apostas deste lado apontam para uma resposta negativa. 

 

Filme Visualizado no 70º Festival de Cannes

 

Real.: Jacques Doillon / Int.: Vincent Lindon, Izïa Higelin, Séverine Caneele

 

rodin (1).jpg

 

 

4/10

publicado por Hugo Gomes às 18:45
link do post | comentar | partilhar


sobre mim
pesquisar
 
arquivos
2018:

 J F M A M J J A S O N D


2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


recentemente

Cannes: Terry Gilliam, Vo...

Quinzena dos Realizadores...

Helen Mirren defende Cann...

Conheçam a programação do...

Han Solo marcará presença...

Trailer: Todos Lo Saben, ...

Martin Scorsese homenagea...

Christopher Nolan em Cann...

Três filmes portugueses n...

Teaser de Loro, o filme d...

últ. comentários
Tomb Raider: 4*Este é um blockbuster bem conseguid...
Mas, sendo este caso Woody Allen já tão antigo, po...
Filme muito bom. Um tratado de sociologia/psicolog...
Notícia triste, mais um talento do qual nos desped...
Ridículo. Não são os únicos posters desta "naturez...
Takes
10/10 - Magnífico
9/10 - Imprescindível
8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
5/10 - Medíocre
4/10 - Muito Fraco
3/10 - Mau
2/10 - Péssimo
1/10 - De Fugir
0/10 - Nulidade
stats counter
HTML Hit Counter
counter
links
mais comentados
1 comentário
1 comentário
1 comentário
1 comentário
12511335_1084470088250815_732384524_o
subscrever feeds
SAPO Blogs