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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Bola Preta #09: Agentes pasolinianos e chinês com sotaque carioca. Uma conversa com Rodrigo Fonseca.

Hugo Gomes, 01.12.25

Episódio 9_ A História da Eternidade.jpg

Acabado de chegar do Festival do Cairo e mesmo assim com uma insaciável sede de Cinema, Rodrigo Fonseca envia-me um SMS: “Vamos ver o Pasolini que passa no Nimas?”. A resposta foi afirmativa; duas horas depois de ter aterrado, lá estava ele, crítico de cinema de Bom Sucesso, à porta da sala, aguardando a minha chegada naquela tarde com cheiro a Inverno. Um abraço de saudade e partimos rumo ao inóspito: Tebas, romances edipianos e mendigos no fim da linha. “Édipo Rei” fora o filme escolhido para unir dois continentes cinéfilos. Depois, seguiu-se o jantar: uns relatos aqui, outros acolá. “Como foi o Cairo?”, ouve-se da minha parte. “E você? Como tem sobrevivido?”, devolve ele. Pedem-se crepes chineses, vaca à moda de Singapura, sopa de cogumelos, porco com bambu e, a acompanhar tudo, cerveja, pois claro! Clico no record: nasce um novo episódio de Bola Preta, com alguma saudade pelo meio — um reencontro entre amigos, irmãos de mães diferentes, de diferentes no planisférios e cinemas diferentes (nada de utopias aqui). “Temos de ser breves”, avisa, relembrando que o avião partirá pouco depois, rumo ao Rio de Janeiro. Secretismos à parte, a cinefilia tem algo de convívio.

 

“Polígrafo”

Oliver!”, de Carol Reed, a adaptação do romance de Charles Dickens - Oliver Twist - venceu o Óscar de Melhor Filme em 1968, o antecessor desse prémio, do qual nenhum dos intervenientes da conversa recordava era “In the Heat of the Night” de Norman Jewison, com Sidney Poitier. 

 

Ouvir episódio completo aqui

 

A História da Eternidade: no Cinema o tempo pára, mas a vida continua …

Hugo Gomes, 06.05.16

AHDE-1.jpg

Nos primeiros momentos, a morte toma o seu lugar na inospitalidade do cenário. Aí o tempo parou, mas as histórias entrelaçadas neste funeral anónimo florescem: a vida, seja ela qual, continua, seguindo o seu caminho entre os grãos que descem vagarosamente na sinistrada ampulheta. Nessas primeiras sequências é possível perceber o interesse do realizador Camilo Cavalcante em não ligar-se a estados temporais mas sim a crónicas desencontradas, enredos que encontram refúgio numa aldeia que, por sua vez, encontra-se “congelada” no referido tempo.

A História da Eternidade” é uma parábola a esse mesmo tempo, que destrói tudo e ao mesmo tempo faz renascer nova vida. É nessa vida depois da morte que o filme interage em mais um “conto de faroeste” disfarçado que, em união com o recente Boi Néon (de Gabriel Mascaro), não oculta a rebeldia aos parâmetros estabelecidos da masculinidade. O ambiente religioso e conservador é apenas “sol de pouca dura“, até porque o enredo tem tanto de perverso como de mágico, confiando cegamente na sugestão, na memória, para expelir uma teia de infinidades. Entre espaços é ouvido Fala, cantado por Ney Matogrosso, a confirmar a pureza das artes performativas em consolidação com o másculo do seu teor indisciplinado. A sequência imergida nesta musicalidade invoca outro tributo quanto à narrativa desta história intemporal – o primitivismo – a ligação tenra entre Homem e a Natureza, entre o moderno civilizado e o folclore digno de um ancestral druida.

Camilo Cavalcante, mesmo sob a “cartada” de sugestões, não engana o espectador perante os seus concretizados truques de magia, os planos completamente panorâmicos que rodopiam as suas personagens desmascarando ilusões que, no entretanto, poderiam ser impostas e induzidas. “A História da Eternidade” remete todo esse jogo de misticismo, onde no final, no calor do conflito que cerca entre o grupo de personagens, é novamente o tempo, que é posto em prática, funcionando numa só vez, para apagar o irreversível e embarcar as personagens numa nova oportunidade.

Sim, é tudo uma questão do tempo, que voa ou opta pela imobilidade. Porém, conforme seja o seu “movimento“, o cinema continua a ser feito. Refletindo sobre esses espaços temporais que tão importantes foram para a evolução de uma arte. Simplesmente mágico!