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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

As estações não temem o Ceifeiro

Hugo Gomes, 31.10.23

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Peter Lorre, Vincent Price, Boris Karloff e Basil Rathbone em imagem promocional de "The Comedy of Terrors" (Jacques Tourneur, 1963)

Começo por situar-me numa peça recente - “02:22: Uma História de Fantasmas”, encenado por Michel Simeão e com texto de Danny Robins, no Teatro Villaret - o encontro entre dois casais de amigos que perante um estranho fenómeno sobrenatural relatado na casa que serve de cenário, pontualmente presente na hora indicada no título, debatem sobre a veracidade dos fantasmas, espíritos, ou lá o que fossem. Nesse quarteto encontramos um céptico, um homem de ciência e de lógica que ministra uma improvisada masterclass sobre a origem das assombrações, focando na questão do medo e a sua grande importância humana. Segundo ele, o Homem era composto por três tipos de “cérebro”, o “cérebro-macaco” [razão], o “cérebro-cão” [emoção] e o por fim, o “cérebro-lagarto” [instinto], e neste último integrava o sintoma do medo, porque é na base dele que é possível sobreviver aos perigos iminentes e, segundo a peça, até o facto de “cagarmos de medo” não é mais que um ato primitivo para nos tornar numa refeição nada apelativa a eventuais predadores. 

Portanto, o medo não é uma cobardia ditada pela sociedade que deseja agrupar humanos pela sua dominância social, pelo contrário, uma ligação espectral com o nosso “eu” selvagem, o “homem das cavernas” que optou por refugiar-se nas grutas como abrigo a desconhecidos fenómenos naturais (as tempestades, por exemplo), ou a manutenção do fogo, não como uma somente forma exequível de se aquecerem, como também de afugentar as imensas ameaças noturnas. Por outro lado, não há que negar que o medo e todo o seu “sistema orbital” é deveras apelativo, ou até sensual na maneira como somos magnetizados pelas suas “ramificações”. Desde a génese do Homem dito moderno que o medo fascina; criamos ficções e fabulações à volta dele, e procuramos morais a sua base, escrevemos livros sobre ele e mais que tudo, o vendemos, seja nos jornais ou outros medias enquanto sustento financeiro. E o Cinema é cúmplice dessa “prostitução” em relação ao medo, e que melhor género para falar dele do que o terror? Todo este sujeito a um único propósito, fazer do medo a sua causa, o seu entretém e a sua arte. 

O terror brotou em mim desde os meus “verdes anos”. Recordo dos tv spots de “The Exorcist” ou “Child’s Play” o qual me amedrontavam e igualmente alimentavam a minha curiosidade, arquitetando a partir daí planos para escapar da imperativa “hora de dormir” e espreitar tais obras na televisão genérica. Ou do poster de Freddy Krueger colado numa das paredes do quarto de uma prima minha, cujo seu vislumbre trazia-me pesadelos na minha tenra idade ou, e de forma tão marcante, “Shining” de Kubrick, na coleção de VHS(s) que o meu pai ostentava nas sua estante. Foi o intitulado “meu primeiro filme de terror”, e os traumas ainda hoje instalados (o quarto 237 continua a provocar palpitações). Apesar de hoje em dia encontrar no cinema de terror o seu quê de “relaxante”, possivelmente como um escape do verdadeiro terror que é os nossos dias, foi por outros géneros, emoções ou formatos que procurei o tão esquecido medo, e tendo por vezes resultados triunfais. 

Quanto mais velas de aniversário sopro, mais amedrontado fico perante a ideia de envelhecimento, da decadência que o meu corpo e mente poderão revelar ou até na solidão consolada ao testemunhar as repentinas despedidas de todos em meu redor, esse medo, o encontro num outro tipo de cinema; num “Amour” de Haneke (ver o nosso(a) companheiro(a) de uma vida a desaparecer gradualmente aos nossos olhos), num “The Father” de Florian Zeller (Anthony Hopkins sentindo abandonado e chorando pela sua mãe) ou até mesmo num “Venus” de Roger Michell (Peter O’Toole impontente em defender a sua honra, mazelas temporais no seu corpo é óbvio). É o “Forever Young” dos Alphaville tocado numa triste e inconclusiva melodia, o tempo não volta atrás e por mais “lagartos” que sejamos, não conseguimos sobreviver a esse derradeiro medo, o medo de morrer, mas antes, a sua descida infernal.

A maldição da fobia pagã

Hugo Gomes, 13.07.17

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A descoberta dos majestosos tesouros e túmulo de Tutankhamon suscitou entre os anos 20 e 30 uma chamada “febre do Egipto”. O mundo encontrava-se maravilhado por estas vidas passadas, civilizações anteriormente presentes nas páginas bíblicas do Exodus, e com cada descoberta surgiria uma nova acha para esta inconsolável “fogueira”. Contudo, algo desafiou as próprias convenções das atuais sociedades ocidentais, maioritariamente judaico-cristãs: os rumores de uma maldição que vitimava quem se encontrasse ligado à descoberta do tão famoso sarcófago do jovem príncipe que um dia governou as margens do Nilo.

Essa maldição era advertida em hieróglifos (segundo os rumores existia uma placa de cerâmica na antecâmara de Tutankhamon com o seguinte aviso: a morte irá atacar com seu tridente aqueles que perturbam o descanso do faraó), em mensagens de milénios com invocação a deuses que só este povo acreditava. Sim, para esta sociedade vivente do século XX, as “pragas egípcias” eram heresias, um paganismo que se teria, acima de tudo, de ver descredibilizado. O cinema, porém, não descredibiliza qualquer acto pagão, mas a Sétima Arte veste uma religião e Hollywood era maioritariamente cristã, acreditando nas suas “boas” morais, requisitando-as para as suas subliminares mensagens e desenvolvimento das referidas personagens como exemplos a seguir numa sociedade moderna.

Em 1932, estreou, tendo como foco esse mediatismo, o filme de terror “The Mummy” de Karl Freund, com Boris Karloff a vestir a pele do “monstro” do título, um sacerdote condenado em vida como na morte, e uma maldição que empesta a sua carne como naqueles que o reencontrarem. Não foi a primeira vez que Karloff vestiu a monstruosa pele ao serviço da Universal Pictures, “The Mummy” estrearia um ano depois de “Frankenstein” de James Whale, onde o ator britânico reencarnava a criação do tão “louco cientista”. Ambos os filmes apresentariam criaturas renascidas, os primórdios dos mortos-vivos cinematográficos, e tendo em conta que a múmia (que se dava pelo nome de Imhotep) e o “monstro” (somente o monstro, erradamente seria conhecido como Frankenstein em gerações futuras) partilhavam o mesmo rosto, a fisionomia algo sinistra de Karloff alimentava essa fantasia palpável. O espetador conseguiria facilmente reconhecer essa “monstruosidade” pagã.

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Tal como acontecera em “Frankenstein”, livremente baseado no romance de Mary Shelley, era a ciência a mais profunda blasfémia, a aspiração dos dotes divinos só meramente merecidos a Deus - o de criar vida - nunca poderiam adereçar ao mais comum dos mortais. Em “The Mummy”, um outro ramo científico permanecia na lista de provocações, a arqueologia, o explorar de civilizações antigas e o de devolver à luz do Sol, artefatos de outras épocas. O cinema despreza a ciência, as suas raízes cristãs repudiam qualquer indício de igualdade da Humanidade com Deus, tal como o Renascimento causara na antropologia. Mas na obra de 1932, uma outra provocação era feita, o paganismo, a intervenção de uma divindade fora do nosso circuito de apelação. Deuses antigos, crenças extintas, novamente a coabitarem com os ensinamentos de Jeová e de Cristo, um verdadeiro terror para as doutrinas de “boas morais” (aquilo que aceitamos hoje, tendo muito como base os ensinamentos bíblicos).

O filme de Karl Freund diversas vezes menciona essa coabitação de uma forma atentada. “Estamos a ouvir uma linguagem que não era falada à 3.000 anos”, “Uma caixa que não era aberta há mais 3.000 anos”, frases como estas servem para “The Mummy” relembrar-nos que estamos perante um extenso círculo de paganismo, estranho para o Mundo em questão e alimentando-o com uma tremenda fobia. O filme leva o espectador à saída, senão ao desejo desta. Ao próprio preconceito oriental, em disputa com uma superstição da outra “margem”. “Eu não gosto de ser tocado, é um preconceito oriental”, adverte Boris Karloff, alimentando essa gradual divergência entre quotidianos.

No final, como é previsto, o Ocidente vence, a “The Mummy” regressa ao seu anterior estado, a do “inofensivo” cadáver com efeitos de peça de museu, e o aviso é feito às audiências. O de não abrir compartimentos milenares nem sequer perturbar o sono do “faraó”, não por ameaça à Humanidade como a conhecemos, mas à crença vivida pela Sétima Arte. O eterno medo pelo paganismo!