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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Tendências 2025: os posts mais acedidos do ano

Hugo Gomes, 01.01.26

Arranca o 12º Porto/Post/Doc: o real como mesa de mixagem num festival que não se quer escapista.

Hugo Gomes, 20.11.25

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O real! O que ainda podemos extrair dele, do conceito, da idealização, do fundamentalismo talvez, ou da estética quem sabe, como pensá-lo, ou melhor, como trabalhá-lo? Entendemos que isto são questões quase sem resposta, ou a merecer apenas teorizações e calhamaços teóricos, mas uma ‘coisa’ é certa, o cinema encostou-se ao real, desde a procura quase objectiva de André Bazin desejoso em deparar com o seu cálice sagrado (como se o elo perdido entre fotografia e cinema fosse possível, ainda hoje, associar). Contudo, sobre procuras ou demandas, qual seja a natureza, o Porto/Post/Doc, evento que há uns valentes anos tem conseguido adquirir um lugar apenas seu, longe do arquétipo que muitos o tentaram reduzir, de festival de documentários, é hoje uma montra de cinema que anseia trespassar as claras marcas entre o documental e a ficção, o que está para além? O que se procura no fim do movimento do tal real? 

Para preparar a 12ª edição, acontecer a partir do dia 20 a 29 de novembro, no Batalha Centro de Cinema, no Passos Manuel, entre outros lugares (confira toda a informação aqui), Sérgio Gomes, programador, recebe as questões, provocações ou incitações do Cinematograficamente Falando … Colocado-os em cima da mesa, e desafiado a respondê-los, trajecta um pequeno guia, talvez mais conceptual, do que nos espera o festival deste ano. 

Quais os desafios encontrados na preparação desta 12ª edição do Porto/Post/Doc?

Organizar o Porto/Post/Doc é sempre uma aventura e, nesta 12.ª edição, sentimo-lo mais do que nunca. 

O primeiro desafio foi de escala: programar mais de 130 filmes. O festival cresceu com novas secções, entre elas a estreia de uma Competição Internacional de Médias e Curtas-Metragens, o que implicou ver e selecionar centenas de obras adicionais. Conciliar esta diversidade com uma linha curatorial coerente foi um exercício exigente, quase como montar um enorme quebra-cabeças. Enfrentámos também desafios externos: assegurar apoios financeiros e parcerias, manter o público envolvido num panorama cultural competitivo e garantir uma infraestrutura técnica à altura. No entanto, cada obstáculo tornou-se um estímulo à inovação: ajustámos horários para promover o diálogo entre realizadores e público, lançámos o novo podcast do festival e assim como uma nova parceria com a Filmin, ampliando o alcance dos filmes selecionados. 

A consolidação das atividades da Indústria, com mais e melhores projetos, foi igualmente decisiva. No fim, o maior desafio foi superar-nos sem perder a nossa identidade: fazer do Porto/Post/Doc um espaço de encontro vivo entre filmes, autores e espectadores, mantendo viva a curiosidade e a reflexão que nos têm orientado desde a primeira edição.

O tema desta edição “O Tempo de Uma Viagem” parece propor uma reflexão não apenas sobre deslocações geográficas, mas também sobre deslocações íntimas, históricas e até políticas. Enquanto programadores, que tipo de viagem vos interessava provocar no espectador?

Desde o início que sabíamos que "O Tempo de Uma Viagem" não se limitaria a comboios, rotas ou oceanos. O nosso foco estava nas travessias interiores e no tempo que cada deslocação transporta consigo. O nosso objetivo era que o público embarcasse num percurso que refletisse a condição humana de estar em permanente movimento. Cada filme desta secção amplia a ideia de viagem, entendida não apenas como deslocação física, mas também como percurso emocional, temporal e político. 

Alguns revisitam memórias familiares, outros percorrem a conturbada história de um país e outros propõem viagens de descoberta pessoal. O objetivo era despertar uma sensação de partida, um convite para sair do lugar habitual e, simultaneamente, para se encontrar consigo próprio e com os outros. Neste contexto, o cinema assume-se como guia e passaporte. Como escrevemos na apresentação do programa: "As viagens revelam-nos tanto quanto nos transformam; são fugas e reencontros, buscas de liberdade e confrontos com os limites do nosso mundo e do mundo dos outros". 

Em última instância, a viagem proposta é dupla: atravessa as histórias no ecrã e prolonga-se nas reflexões que estas suscitam. Se, no final do festival, o público sentir alguma transformação, por mais pequena que seja, a viagem terá valido a pena.

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Claridade (Mariana Santana, 2015)

Há na programação uma tensão constante entre o real e o imaginado: o documentário que se contamina de ficção, o arquivo que se reinventa em ensaio e a ficção que nos chega quase como um documento dos nossos dias. Onde sentem que o cinema contemporâneo mais se arrisca hoje: em contar o mundo ou em reinventar o modo como o olhamos?

Não consideramos que contar o mundo e reinventar o modo de o observar sejam caminhos opostos, mas sim dimensões inseparáveis. O cinema contemporâneo arrisca precisamente ao juntar estas duas forças. Muitos cineastas compreendem que, para retratar a complexidade do presente, é necessário descobrir novas formas de ver e que a experimentação formal é parte integrante desse processo. Daí surgirem documentários híbridos, ensaios poéticos e obras que desafiam a fronteira entre o real e a ficção. São filmes que quebram convenções para abordar a realidade por vias inesperadas. 

No festival, recebemos obras que atravessam linguagens e exploram temas sociais, políticos e humanos com estratégias narrativas ousadas. Estas opções nascem da consciência de que a realidade não se enquadra sempre nos modelos tradicionais; por vezes, é através da metáfora, da encenação ou da subjetividade que se revela uma verdade mais nítida. O que nos entusiasma é ver cineastas dispostos a avançar para este território de incerteza. O maior risco atualmente reside em reinventar o olhar, de modo a que o ato de contar o mundo se torne mais pleno e revelador. 

Ao selecionar filmes para o Porto/Post/Doc, procuramos obras que rejeitam a forma previsível e que nos convidam a sentir, pensar e ver de forma diferente. É neste cruzamento entre narrar e reimaginar que surgem algumas das obras mais marcantes do nosso tempo.

A abertura com “Romaria”  de Carla Simon e o encerramento com “Father Mother Sister Brother” de Jim Jarmusch fomentam um arco temático sobre a família, a memória e o regresso às origens. Foi uma escolha deliberada construir esta espécie de narrativa circular como um espelho íntimo do próprio festival, que também revisita a sua história ao entrar na 12.ª edição?

A escolha dos filmes de abertura e de encerramento de um festival é sempre um gesto cuidado. Nesta edição, a escolha tornou-se evidente quando reconhecemos o diálogo entre "Romaria" e "Father, Mother, Sister, Brother". Ambos exploram temas como a família, a memória e as raízes, oferecendo uma intensidade emocional que nos pareceu ideal para enquadrar o início e o fim do programa. "Romaria", de Carla Simón, acompanha uma jovem que regressa à costa galega à procura das suas origens familiares. Trata-se de um regresso literal às origens e constitui o terceiro e último filme da trilogia autobiográfica que a realizadora iniciou com "Verão 1993" (“Estiu 1993”) e "Alcarràs". 

Por seu turno, "Father, Mother, Sister, Brother", de Jim Jarmusch, é composto por três capítulos filmados nos Estados Unidos, Irlanda e França, e reflete sobre os laços familiares com o tom minimalista e melancólico que caracteriza o autor. Embora distintos na forma, ambos os filmes abordam a passagem do tempo e as ligações afetivas que atravessam gerações. À medida que o programa foi tomando forma, começou a delinear-se uma estrutura circular. 

A abertura propõe uma espécie de romaria íntima e o encerramento oferece um reencontro cinematográfico. Este arco dialoga com o percurso do próprio festival. Depois de doze edições, revisitamos também as nossas origens e reconhecemos a comunidade de realizadores e espectadores que regressa ano após ano. Há um sentido de família de cinéfilos que tem marcado a evolução do festival. A relação emocional criada com estes filmes resultou tanto de instinto como de intenção. Deixámo-nos conduzir pela coerência dos temas e, no fim, encontramos uma moldura que reflete o espírito do Porto/Post/Doc em 2025: uma viagem que parte, regressa e reencontra as emoções fundamentais que nos unem.

Continuando nas escolhas das aberturas e encerramentos, até porque em festivais que apostam numa temática documental, cada vez mais se testemunha uma cedência às narrativas ficcionais, não apenas diluindo o género documentário, como também desferir um golpe nas estruturas estagnadas destes eventos. Contudo, pergunto se esta gradual seleção de ficções num festival como o Porto/Post/Doc não resulta, metaforicamente, numa fuga à realidades com que deparamos e o encontro das mesmas questões em monstros modelos cinematográficos?

A provocação da pergunta é legítima. Muitos festivais de documentários têm alargado o seu âmbito para incluir ficção e nós próprios desde a primeira edição temos seguido essa linha daí o "Post" no nome do festival, com filmes ficcionais ancorados na realidade e obras híbridas. No entanto, não entendemos isso como uma fuga à realidade. Pelo contrário, vemos isso como outra forma de a alcançar. As ficções que programamos não são uma fuga; nascem de um profundo diálogo com questões contemporâneas e recorrem a linguagens distintas para as abordar. Enquanto o documentário tradicional funciona como um espelho direto, a ficção pode ser um espelho que distorce para revelar zonas que a objetiva não alcança. 

A integração da ficção permite renovar as expectativas e ampliar o que um festival dedicado ao "cinema do real" pode ser. Evita que o formato se feche sobre si próprio e abre espaço a novas formas de observar o mundo. Longe de diluir o género documental, esta convivência expande-o. As fronteiras entre as diferentes formas de expressão são hoje cada vez mais porosas. Muitas ficções resultam de uma investigação rigorosa e muitos documentários recorrem a dispositivos narrativos que antes estávamos mais habituados a associar à ficção. A Competição Internacional deste ano apresenta vários exemplos de cineastas que desafiam essas divisões. Não vemos a ficção como escapismo, mas como outro meio de questionar a realidade. 

Por vezes, é através da metáfora, da imaginação ou do fantástico que emergem verdades mais intensas, capazes de nos deslocar e de nos fazer questionar: "E se...?" Ao incluir ficção, também contestamos as estruturas rígidas dos festivais. O mais importante é ter um olhar crítico sobre o presente, seja ele proveniente de um documentário ou de uma narrativa experimental. Mais do que uma fuga, há um encontro: o encontro entre formas que partilham o mesmo impulso de interrogar o mundo.

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Videograms Of A Revolution (Harun Farocki & Andrei Ujică, 1992)

Este ano, dois cineastas vão ser objecto de foco, Lina Soualem e Andrei Ujică. Gostaria que me explicasse as razões que levaram à selecção de ambas as figuras num ano como este 2025, e se as cinematografias dialogam umas com as outras?

Ao começarmos a delinear a programação para 2025, percebemos que queríamos destacar cineastas que abordam, cada um à sua maneira, temas de memória e história que tanto marcam o mundo atual como a nossa linha curatorial. A escolha de Lina Soualem e Andrei Ujica surgiu de forma natural, apesar das diferenças geracionais, culturais e formais que os separam. O que os aproxima é a pertinência das questões que colocam. Lina Soualem, cineasta franco-argelino-palestiniana nascida em 1990, representa uma nova geração que aborda as grandes narrativas mundiais através de histórias íntimas. Filmes como "Their Algeria" e "Bye Bye Tiberias" partem da sua própria família para refletir sobre questões de identidade, pós-colonialismo, exílio e pertença. Ao trabalhar sobre camadas de silêncio, memória e feridas herdadas, o seu cinema mostra como o íntimo pode revelar estruturas emocionais e políticas que ultrapassam o âmbito pessoal. Trata-se de uma voz delicada, mas profundamente política, que traz ao festival uma perspetiva em que o privado ilumina o coletivo. 

Do outro lado, surge Andrei Ujica, um romeno nascido em 1951 e uma figura incontornável do cinema de arquivo. A sua obra transformou a forma como olhamos para a imagem histórica. Filmes como "Videogramas de uma Revolução" (“Videograms Of A Revolution”), "Out of the Present" e "A Autobiografia de Nicolae Ceaușescu" (“The Autobiography Of Nicolae Ceaușescu”) mostram como o arquivo pode ser questionado, reorganizado e reinterpretado para expor as tensões entre a imagem, o poder e a verdade. Num presente marcado pelo excesso visual, pela desinformação e pelo cepticismo, o trabalho de Ujică adquire uma atualidade particular. Ele não trata o arquivo como prova, mas como campo de questionamento. Porque juntos no mesmo ano? Porque, apesar das diferenças, ambos exploram as relações entre memória, história e identidade, ainda que por vias opostas. 

Soualem avança do íntimo para o histórico; Ujică parte da macro-história para chegar ao humano. Colocá-los lado a lado é criar uma conversa sobre como construímos narrativas sobre nós e sobre o mundo. Os seus filmes dialogam diretamente com o tema “O Tempo de Uma Viagem”: Soualem percorre gerações e feridas do exílio; Ujică percorre o tempo político, as utopias e as desilusões de um século. Trazer estes dois cineastas para o foco de 2025 permitiu-nos aproximar diferentes gerações do cinema documental. As suas obras oferecem olhares complementares sobre a forma como o passado e o presente se inscrevem no ecrã. Ao programá-los juntos, convidamos o público a observar como o arquivo íntimo e o arquivo histórico se iluminam mutuamente e como, em ambos os casos, o cinema se torna um instrumento para compreender quem somos e de onde vimos.

Ao longo dos últimos anos, o Porto/Post/Doc tem-se afirmado como um espaço de escuta e de crítica, um festival que olha o real não apenas como matéria de observação, mas como matéria de diálogo. Nesta nova edição, em que a viagem é também metáfora de encontro, que papel atribuem ao público nesse processo? É o espectador também chamado a “partir”, a deslocar-se interiormente com os filmes?

Para nós, o público nunca é um observador passivo. Este ano, quisemos aproximar ainda mais o filme da plateia, transformando o tema da viagem num convite direto à participação. Um festival só cumpre a sua missão quando cria um diálogo, e este exige dois intervenientes ativos: o filme e quem o vê. As conversas após as sessões, as masterclasses com convidados como Lina Soualem e Andrei Ujica e o Fórum do Real existem para incentivar o público a falar, a questionar e a partilhar. Ver um filme vindo de longe, entrar numa sala cheia de desconhecidos ou deixar que uma história abale uma convicção são, por si só, formas de partida. No nosso texto de apresentação, escrevemos que convidamos o público a embarcar connosco "não para encontrar respostas definitivas, mas para abrir espaço ao essencial: ouvir, questionar e reconhecer o outro". Esse é o papel que atribuímos ao espectador: um companheiro de jornada ativo e consciente. E, quando vemos pessoas a sair da sala a discutir o que acabaram de ver e a relacioná-lo com as suas memórias pessoais, sabemos que a viagem aconteceu.

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Trains (Maciej Drygas, 2024)

Fugindo da superstição do número 13, o que se ainda poderá fazer, ou aprimorar, no Porto/Post/Doc na sua futura edição?

A próxima edição será a 13ª e preferimos não considerá-la uma superstição, mas sim uma oportunidade de evolução. Com "O País dos Outros", vamos concluir a nossa trilogia temática, aprofundando questões de pertença, memória e convivência cultural. Pretendemos melhorar a experiência do público, explorar novos formatos de interação e reforçar o apoio a cineastas emergentes, por exemplo, através do programa Working Class Heroes. A acessibilidade continuará a ser uma prioridade, levando o festival a mais comunidades e a novos espaços da cidade. Acima de tudo, queremos voltar a surpreender. O festival é um organismo vivo e cada edição exige atenção, adaptação e ousadia. Continuaremos a viajar e esperamos que o público viaje connosco.

O Film Noir continua cool! Arranca o 4º Screenings Funchal Festival, na companhia de Bogart e Stanwick.

Hugo Gomes, 03.10.25

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In a Lonely Place (Nicholas Ray, 1950) / 4 de Outubro (Forum Madeira, 21h00)

A Madeira será, nas próximas semanas, uma ilha rodeada por neblina: ruas escuras, detetives privados de gabardine e poses cool, crime, castigo e mistério. Tudo a preto e branco, resguardado nas sombras e nos becos escuros. É o cliché do film noir o que descrevo, mas é precisamente aqui que o genuíno subgénero será apresentado, numa retrospectiva cuidadosamente selecionada.

Contratou-se o seu inspetor na capital do arquipelago: o Screenings Funchal Festival, que chega à quarta edição e a um novo caso, melindroso caso, talvez sob os olhares atentos daquela mulher de passado longínquo, a habitual femme fatale, em quem qualquer homem sonharia perder-se e igualmente temer. Armadilhas, diríamos.

Mas não nos desviemos. Voltemos ao ciclo: Humphrey Bogart e Barbara Stanwyck surgem como protagonistas num prolongado noir na Madeira, narrado por Pedro Pão, programador que rompe a lógica dos festivais de cinema e apresenta, de bandeja acinzentada … para não contrariar o monocromatismo … oito obras, a representar Hollywood no seu esplendor e intriga, a partir do dia 3 de outubro e prolongando pelo resto do mês.

O Cinematograficamente Falando… desafiou o programador a apresentar o seu caso… eis-lo:

O film noir surge na ribalta nesta 4.ª edição do Screenings Funchal Festival. Porquê este subgénero na programação? E, dentro dele, por que motivo estes títulos foram escolhidos como representantes desse universo tão vasto?

O noir não foi o ponto de partida, foi o de chegada. Gosto que haja uma razão estruturada para cada edição, mas às vezes as coisas surgem por acaso, e foi o caso desta. Durante a pandemia, descobri que ninguém do meu grupo próximo de amigos tinha visto o “Casablanca”. Tendo em conta as restrições em vigor, resisti à tentação de arranjar amigos novos, e organizou-se uma sessão privada com projector, Blu-ray num atelier bem amplo. Depois fui-me lembrando de outros filmes que gostava muito com o Bogart, e fiquei com uma ideia (muito embrionária) de um dia fazer um ciclo dedicado ao Bogart

Nesta fase as possibilidades eram demasiadas, e foi preciso pensar em restringir o tema. Assim que decidi que o ciclo não deveria ser exclusivamente focado no Bogart e que deveria ser partilhado com uma protagonista do género feminino achei que só poderia mesmo funcionar dentro do film noir, e a Barbara Stanwyck era a escolha óbvia. Desta forma, foi mais fácil escolher este conjunto de filmes, que apesar de se tratar de uma pequena amostra do noir, representa bem as histórias e personagens que me interessam, e que se encaixa na proposta do ciclo.

O ciclo parece orbitar em torno de dois espectros: Barbara Stanwyck e Humphrey Bogart. Acredita que um subgénero pode ser sintetizado em dois intérpretes? Ou foi antes um atalho para trazer obras prestigiadas, populares e que, ao mesmo tempo, sintetizam o estilo?

O ciclo orbita de facto em torno de Stanwyck e Bogart, mas nunca foi a minha intenção resumir o noir nem aos actores nem ao limitado número de filmes exibidos. Acho que a ideia de “atalho” é perfeita. Achei que eles representam os arquétipos mais emblemáticos do noir e quis usá-los para criar um fio condutor. Além disso, sendo figuras icónicas, (o Bogart provavelmente mais) quis aproveitar isso para que o ciclo fosse o mais apelativo possível. Outro objetivo foi dar visibilidade a uma actriz incrível, a Stanwyck, que creio ser muito menos reconhecida pelo público em geral.

No campo dos realizadores, encontramos nomes distintos e percursos muito diferentes, com exemplos de ecletismo dentro de Hollywood. Teve em conta este factor artístico? E, perante esta diversidade, considera o film noir um subgénero de transição mais do que um corpo coeso?

Depois de ter restringido o tema como referi anteriormente, fiquei com um painel de luxo, no que toca a realizadores, para selecionar obras. Achei a diversidade de realizadores muito interessante, e é por isso que se defende que o noir não é tanto um género, mas antes um estilo. Mesmo pela amostra reduzida dos que conheço, isso é notório e fascinante. Wilder, Ray e Lang, entre outros, mostram abordagens muito distintas dentro do noir, e ao longo da década de 40 o noir transformou-se através de experimentações formais, estéticas e influências diversas, tornando-se um território cinematográfico muito rico e interessante por essa diversidade.

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Clash by Night (Fritz Lang, 1952) / 24 de Outubro (Forum Madeira, 21h00)

Relativamente à masterclass de Luís Miguel Oliveira: não lhe peço apenas que fale das intenções de criar este “intervalo” reflexivo no meio da programação, mas também da importância (ou irrelevância) da crítica no papel da curadoria de festivais que, como este, não seguem a lógica dominante do mercado.

A masterclass parte de uma necessidade e lacuna muito grande, do contacto do público madeirense com especialistas, neste caso da área do cinema, mas que se aplicaria igualmente, a muitas outras áreas. Acredito que este esforço de complementar o ciclo com o contributo do LMO enriquecerá não só os espectadores, mas também o próprio festival. Esta lacuna não é exclusiva da insularidade, reflete uma condição de periferia cultural, que no nosso caso se agrava pela nossa condição ultraperiférica e que teria uma solução muito simples chamada: “investimento”.

No que diz respeito à crítica, é difícil imaginar alguém que desempenhe um papel de programador que lhe seja indiferente. Acho o trabalho da crítica inestimável e muitas vezes pouco valorizado. Socorri-me várias vezes dela para ajudar a organizar e justificar a escolha de alguns filmes neste ciclo e sou constantemente enriquecido por ela tanto como programador como espectador.

Enquanto programador e cinéfilo, houve algum filme que gostaria de incluir neste ciclo, por corresponder ao espírito do evento, mas que acabou por ficar de fora?

Falta-me descobrir, ver e aprender demasiadas coisas para me sentir bem com esse intimidante título de cinéfilo. Trabalhar neste ciclo, fez-me perceber que existem muitos mais filmes que ainda quero ver do que aqueles que já vi. Tem sido sempre assim, e isso é algo que eu aprecio imenso no processo. Gostava de ter incluído o “Casablanca”, que acabou por inspirar o festival, mas, não sendo um noir, não se enquadrava na proposta. Outro filme que considerei foi “The File on Thelma Jordon”, mas acabei por optar pelo “Clash by Night”. Apesar de ser um melodrama com elementos noir, pareceu-me mais pertinente para este ciclo, na medida em que explora não o arquétipo da femme fatale, mas uma mulher com consciência social, que procura autonomia e se sente insatisfeita com as expectativas que a sociedade lhe impõe.

É sabido que eventos culturais desta natureza dependem muitas vezes do apoio autárquico. Sente-se apreensivo sabendo que as eleições locais, a decorrer no mesmo mês, podem condicionar a continuidade de futuras edições do festival?

Essa dependência é real e, no nosso caso, decisiva. Este festival nunca poderia realizar-se nestes moldes sem o apoio fundamental da Câmara Municipal do Funchal, ao qual estamos muito agradecidos.

Não me sinto apreensivo por várias razões. Em primeiro lugar, porque o departamento de cultura da CMF é composto por uma equipa cujo trabalho fala por si e que, mesmo numa eventual mudança partidária, dificilmente deixaria de ser reconhecido e continuado. Além disso, acredito que aquilo que temos vindo a oferecer à cidade do Funchal é culturalmente significativo, e o facto de estarmos já na 4.ª edição parece indicar que essa convicção é partilhada. No pior cenário, iremos nos adaptar, como sempre fizemos até hoje, focando e reforçando as nossas sessões regulares.

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The Big Sleep (Howard Hawks, 1946) / 18 de Outubro (Forum Madeira, 21h00)

O Screenings Funchal Festival vai-se consolidando edição após edição. Que linhas de força gostaria de ver no seu futuro? E persistindo; John Waters continua na sua lista de desejos?

Gostaríamos que o festival crescesse (e não me refiro a after parties e cocktails) e tivesse mais condições para trazer com mais frequência realizadores e outros convidados, pois esse contacto direto com o público é importantíssimo. Mesmo fora do festival, na programação regular, seria possível ter cá com mais regularidade cineastas se tivéssemos algum tipo de apoio mais alargado. 

Em relação ao Pope of Trash, acho imensa piada que tenhas retido isso e que me relembres de vez em quando. É sinal que é uma excelente ideia, e se correr mal, posso sempre alegar ter sido incentivado e induzido em erro pelo crítico. Não sei se o Liarmouth ficou de vez na gaveta, mas poderia ser um incentivo adicional. Gostava mesmo muito de ter um festival dedicado ao John Waters. A Madeira é um dos sítios menos apropriados para o fazer e é exactamente isso que faz da ilha o sítio perfeito para o receber. Não será em 2026, e de forma a evitar que eventuais repercussões possam encurtar o tempo de vida da iniciativa, ainda gostava de ir ao Herzog primeiro. Mas continuo a achar que o “Pink Flamingos" seria o filme perfeito para a última sessão do Screenings Funchal. Um último gesto de celebração e provocação. Podem haver formas melhores de acabar, mas não me ocorre nenhuma de momento. 

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Toda a programação poderá ser consultada aqui.

Episódio 0: Notas de Intenção

Hugo Gomes, 24.09.25

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Pensei em gravar um monólogo, mas depois de duas ou três tentativas apercebi-me de que não sou apto para “falar para o boneco”. Portanto, cá vai … para mal dos vossos pecados … em versão escrita.

Este episódio 0, assim numerado para não integrar a linha canónica que pretendo criar com o projecto “Bola Preta”, também poderia chamar-se “Nota de Intenção”. Inspira-se na tradição das vinhetas de uma ou duas páginas em que os realizadores expõem os propósitos e ideias do filme que se prestes a ver nos institucionalizados press kits. Em festivais internacionais, muitas destas notas são o primeiro contacto da imprensa com a obra, a inaugural fonte de informação.

“Bola Preta” é, sem surpresa, um podcast. — “Ui, mais um, como se já tivéssemos poucos.” — Sim, estamos saturados de podcasts: é podcast para aqui, podcast para ali, muitos deles a suscitar dúvidas sobre a sua existência ou até mesmo utilidade. Contudo, um podcast de cinema não é propriamente um oásis neste país, muito menos no formato que tenciono construir.

Quero, à semelhança das tais ‘notas de intenção’, revisitar um elemento essencial da minha educação cinéfila: a tertúlia. Nem que seja numa mesa de bar, acompanhado por uma birra, debatendo cinema, crítica e todos os temas que daí desaguem. É isto que desejo: conversas longe da formalidade, da “estreia da semana”, da temática exclusiva, da lógica da entrevista. Quero falar com amigos, camaradas de tela, conhecidos, figuras de diferentes áreas, com a crítica de cinema no centro, e em modo eclético.

O modelo é simples: em cada episódio terei um ou mais convidados, com quem embarcarei numa discussão, numa dúvida talvez, numa provocação por vezes. Daí seguirá, de forma labiríntica, a fluidez da conversação. Para onde nos levará? Não sei.

A minha jornada será exactamente essa, falar sob o intuito da promessa de aprender com o outro, de me deixar guiar pelas suas visões, de fortalecer a minha “sagrada” cinefilia, ou apenas de resistir com o meu ponto de vista.

Sim, será um podcast de cinema. Mas, acima de tudo, um programa sobre a humanidade no Cinema e nos diferentes olhares que dele brotam. Porque Cinefilia tem algo de amizade, porque não fazer alguma ‘coisa’ com ela?

*Episódio 1 prestes … mas prestes a sair! Estejam atentos.

"O cinema de Hong Kong é pouco visto em Portugal": vem aí o 2º Making Waves para contrariar a tendência!

Hugo Gomes, 24.09.25

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Ah Ying (Allen Fong, 1983)

Está a chegar uma corrente vinda de Hong Kong ao Tejo, parece desaguar no Cinema Ideal nestes tempos. Portanto, façam ondas … O Making Waves, a segunda mostra de Cinema de Hong Kong de Lisboa, acontecerá nos próximos dias, de 25 a 28 de setembro com vista para o rio donde partiram os exploradores para a rota marítima do Oriente, mas longe dessas eras colonizadoras, hoje é Hong Kong a ‘colonizar-nos’ com uma mostra breve e altamente curada do cinema que se pratica naqueles cantos remotos. O que podemos dizer sobre o Hong Kong cinematográfico sem referir os lugares-comuns das vagas anteriores, ou do expoente cinema de acção ou até mesmo desse continente à parte de nome Wong Kar-Wai, esse “bichinho” que conquista corações por esse mundo fora. 

A programadora Vanessa Pimentel respondeu ao desafio do Cinematograficamente Falando … falar-nos desta mostra e as razões para ser uma rota oriental para cinéfilos portugueses. Que segredos cinematográficos ainda tem Hong Kong guardados?

A mostra surge como uma ponte entre Hong Kong e Lisboa, mas também como um gesto de mediação cultural. Quando se seleccionou estes seis filmes, pensou mais em revelar Hong Kong ao público português ou em provocar o olhar que Lisboa tem sobre si mesma através desse espelho asiático?

O programa Making Waves visa a promoção do mais recente cinema de Hong Kong, fora do seu território. É um programa que acontece em várias cidades do mundo, desde a Ásia até à América, em que, cada cidade e cada programação faz a sua própria seleção. Como sabemos, o cinema asiático e, em particular, o cinema de Hong Kong é um cinema menos visto em Portugal - a Ásia é um lugar longínquo.  

Nesse sentido, quando a Blue Lotus Lisboa abraça este projeto, fá-lo com a intenção de dar a conhecer ao público, em Lisboa, o que, do nosso ponto de vista, de melhor se tem produzido no cinema de Hong Kong, deixando em aberto a leitura que quiser ter, sobre Hong Kong, sobre Lisboa e sobre o mundo. Esta mostra é, também, marcada pela presença de público bastante heterogéneo, com diferentes origens e backgrounds, penso que a multiplicidade dos olhares é um dos seus pontos fortes.

Quais os desafios encontrados de uma para a segunda edição da mostra?

Julgo que o desafio mais óbvio de uma segunda edição será certamente superar a primeira. Numa seleção bastante diferente da seleção do ano passado, manter a qualidade dos filmes que propomos era a primeira prioridade, seguindo-lhe a possibilidade de trazer pessoas relacionadas com cada filme para termos as conversas - Q&A  que se seguem às sessões e penso que ambos foram cumpridos. Temos seis filmes premiados ou que marcaram presença em Festivais de Cinema internacionalmente reconhecidos, um restaurado, da primeira Nova Vaga de Hong Kong, de 1983 e, com todos os filmes, temos uma actriz, uma produtora, uma montadora e três realizadores que estarão em Lisboa, para partilharem connosco as suas experiências. Será, sem dúvida, interessante ouvi-los e poder perguntar-lhes sobre o que nos interessa. 

Por fim, e não menos importante, está a capacidade de atrair público que é, naturalmente, outro dos desafios importantes. Temos boas expectativas e acho que podemos conseguir um bom resultado, a ser posto à prova já no dia 25 de Setembro.

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All Shall Be Well (Ray Yeung, 2024)

O programa oscila entre novos nomes e um clássico restaurado, “Ah Ying” (Allen Fong, 1983). Que leitura quis propor ao colocar lado a lado estas duas extremidades, o cinema mais fresco e a herança de uma Nova Vaga já distante?

A ideia é sempre criar uma perspetiva mais abrangente do cinema de Hong Kong. Hoje em dia, com a quantidade de títulos que vão sendo restaurados, em Hong Kong e não só, abre-se a possibilidade de trazer à sala de cinema títulos que não poderiam ser revistos, de outra forma. O cinema de Hong Kong é pouco visto em Portugal, no seu todo, ou seja, tanto os títulos mais recentes, como os mais antigos. Trazer um filme restaurado é dar a conhecer mais um título igualmente importante e revelar um pouco mais do património cinematográfico de Hong Kong, dando a possibilidade, como referi acima, de alargar a perspetiva que podemos ter

Há uma evidente intenção de confrontar o público com temas universais — saúde mental, maternidade, género, resistência física — mas sempre ancorados em Hong Kong. O que é que se perde e o que é que se ganha quando se universaliza uma cinematografia ainda marcada por tensões locais?

As cinematografias das mais diferentes regiões podem versar sobre os mais variados temas. A universalidade talvez nos torne mais próximos uns dos outros, mas têm sempre uma abordagem particular, penso que a ‘individualidade’ ou a componente autoral não se perde e enriquece qualquer universalidade. Tomando como exemplo a questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo, um tema que se discute em vários sítios do mundo e que colide, na nossa sociedade, com princípios católicos, somos confrontados, em “All Shall Be Well” (2024) com a inexistência da possibilidade legal para reconhecer a união de duas mulheres, aqui, numa perspetiva particular de Hong Kong, levantando outras questões como o problema da especulação imobiliária e da habitação  - curiosamente, outro tema mais universal do que seria desejável e que é foco de grande tensão, dadas as limitações naturais do território. 

De resto, em todos os filmes estão presentes características particulares de Hong Kong, desde as paisagens e cenários aos hábitos culturais, às perspectivas sociais e individuais, facilmente as ‘universalidades’ se particularizam nos autores que as invocam, julgo que essa é uma componente de grande evidência e importância, neste programa.

Segundo os press releases, a mostra pretende “criar uma ideia mais concreta de Hong Kong”. Mas não haverá o risco de, ao concentrar seis filmes num curto espaço de tempo, cristalizar uma imagem que, sendo parcial, se confunda com uma verdade total?

A nossa intenção é trazer ao público em Lisboa mais e mais cinema da Ásia, no caso concreto, o Cinema de Hong Kong, abrindo portas ao imaginário português para esta cinematografia de paragens mais distantes. Pensar que qualquer região ou cinematografia se pode fechar em apenas seis títulos, seria largamente redutor. O ano passado trouxemos sete títulos e este ano mais seis, todos muito diferentes entre si, na forma, na estética, na técnica e na temática. Quando se fala em ‘criar uma ideia mais concreta’ não significa fechar um conceito, mas sim torná-lo concreto, através de imagens, sons e histórias que nos são dadas a ver e ouvir e não uma mera especulação ou ideia pré concebida do que é ou pode ser Hong Kong. 

Um exemplo da possível clarificação de preconceito, são os dois documentários que trazemos este ano que, apesar de bastante diferentes entre si, nos mostram a extensa paisagem natural de Hong Kong e não a habitual cidade repleta de arranha céus que estamos mais habituados a ver. Por outro lado, a vinda dos realizadores e atores estreita esse contacto e permite-nos saber mais sobre a realidade de Hong Kong.

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Four Trails (Robin Lee, 2023)

O que me pode dizer sobre os convidados? Da sua importância para uma mostra destas como a sua selecção?

Como já referi em respostas anteriores, a vinda dos convidados é uma oportunidade única para conversar sobre os filmes que vamos ver, mas também sobre como é fazer um filme em Hong Kong e sobre a sua realidade. Qualquer filme que tenha um elemento principal da equipa disponível para falar sobre o seu trabalho enriquece sempre a experiência da sessão a que se refere e permite que o público se relacione com a história e a experiência partilhadas na sala, de forma mais intensa. Por exemplo, este ano teremos a atriz [Hui So-Ying] que protagoniza o filme restaurado “Ah Ying”, o que não é habitual. Por outro lado, será extremamente enriquecedor tê-la entre nós para partilhar a sua experiência, em particular, neste filme que se inspira, em parte, na sua própria história.

Como encara o atual cinema de Hong Kong, tendo em conta que os principais movimentos artísticos, e até produtivos, parecem ter entrado em desuso ou expirado na sua criatividade. Ou existe desde sempre uma ideia redutoramente ocidental quanto ao cinema de Hong Kong?

O cinema, em todo o mundo, tem vindo a deparar-se com variados desafios e as (im)possibilidades de produção são ainda mais variadas e de diversas índoles, estando sempre presente a nuvem da ‘morte do cinema’ com as diferentes dificuldades de financiamento e a pressão para a ‘standardização’ em determinados canais, um pouco por todo o lado. Sou bastante otimista e julgo que a capacidade de reinvenção e a vontade de filmar e de contar histórias pode e tem superado as adversidades, dando lugar a novas estratégias de produção que permitam a concretização de novos filmes. Este programa é, a meu ver, sinal de que o Cinema de Hong Kong não sofre de criatividade expirada e tem, pelo contrário, um património rico e gerações mais velhas e, também, estreantes a produzir cinema de forma autêntica e com qualidade reconhecida.

Por fim, ao trazer para Lisboa esta segunda edição do Making Waves, até que ponto sente que está a programar para a comunidade asiática residente, para o público cinéfilo português, ou, secretamente, para si própria enquanto espectadora que também procura ver o que raramente chega às salas?

Naturalmente, o que nos motiva na Blue Lotus Lisboa é a ligação  que temos à Ásia e essa é base fundamental para um projeto que ambicionamos ver crescer e evoluir na direção de um Festival de Cinema Asiático em Lisboa.

Na elaboração da programação tentamos, como já referi, manter uma qualidade elevada nos títulos apresentados. De resto, programamos para todos os que estejam interessados e que queiram ver esta cinematografia tão importante e de rara visibilidade em Lisboa, sempre na expectativa de podermos cativar e chegar a mais pessoas. Temos todo o gosto em ter nas salas um público heterogéneo, de diferentes raízes e motivações, a riqueza desta mostra está, também, na diversidade e na partilha de perspetivas motivando o diálogo entre universos tão distantes.

Toda a programação poderá ser consultada aqui.

"Lavagantar"

Hugo Gomes, 19.09.25

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História de lavagantes e safios, de realizadores do povo e realizadores de outra ordens morais, um filme sobre a memória recente urgentemente requisitada que opera numa transformação alegórica do corpo de Júlia Palha num país que nunca existiu, mas o qual se deseja intensamente.

"Lavagante" estreia 2 de outubro nos cinemas portugueses.

Arranca o 19º MOTELX! As novidades do festival de terror de Lisboa em cinco 'golpes'.

Hugo Gomes, 09.09.25

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A um passo de duas décadas de existência, o MOTELX celebra a sua 19.ª edição com o fulgor de uma nova vida: novas secções, um novo prémio, mais apostas em produções nacionais e, claro, a preservação das tradições a que nos habituámos no Cinema São Jorge. Arranca hoje (09/09) e, durante mais de seis dias, o cinema de terror e de género tudo fará para transformar aquele pedaço de Lisboa num espaço incontornável. Haverá convidados, para além dos filmes, e, como sempre, outros eventos paralelos. O lounge… adivinha-se… a abarrotar.

"O terror mora aqui", assim nos prometem, e quem o promete melhor que ninguém, são João Monteiro e Pedro Souto, os directores como também dois dos programadores do evento que, ao longo de 19 anos, conquistou a capital e agora sob o desafio do Cinematograficamente Falando … descortinam as principais novidades desta véspera da 20.ª edição.

Sim, já se vislumbra no horizonte… mas, por enquanto, vivemos os ímpetos desta proposta fresquinha e terrífica!

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Noémia Delgado

Prémio Noémia Delgado e Gale Anne Hurd

Há muito tempo que tínhamos esta ideia de criar um prémio e começar a distinguir vozes que, de certa forma, estiveram silenciadas ao longo de cem anos de cinema de terror … e no cinema em geral. Uma das coisas interessantes que o século XXI trouxe ao género foi precisamente o surgimento de autoras, algo que praticamente não existia. Queríamos, portanto, criar um prémio que desse atenção e destaque a estas novas autoras, sem esquecer, obviamente, quem ficou para trás e foi esquecido, como é o caso da Noémia Delgado (1933 - 2016).

Ela foi alguém que nos deixou uma marca, até porque, quando passámos os seus filmes, ficou-nos a sensação de que algo ficou por fazer. Esteve quase a estar presente numa edição do MOTELX, mas as suas condições de saúde não o permitiram. Ficou-nos essa mágoa, tanto nossa como dela. Por isso decidimos homenageá-la com este prémio. Não houve, no caso dela, aquele resgate público que, por exemplo, aconteceu com o António Macedo. De certa forma, queremos fazer o mesmo: todos os anos dar um prémio, falar dela, relembrar o nome dela. Mantê-la viva na cinefilia de alguma maneira.

Depois houve uma conjugação de factores que nos permitiu, este ano, ter connosco a nossa primeira Convidada de Honra: Gale Anne Hurd, uma das melhores produtoras de Hollywood, sem dúvida a pessoa ideal para entregar um prémio desta natureza. Alguém que construiu e consolidou uma carreira de sucesso, trabalhou muito com realizadores como James Cameron [“The Terminator”, “Aliens”] ou Brian De Palma [“Raising Cain”], e que continua ativa. Não ficou no passado: está agora envolvida na série “The Walking Dead”, que, curiosamente, é ainda mais conhecido do que muitos dos trabalhos que fez antes. 

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O Crime da Aldeia Velha (Manuel Guimarães, 1964)

Bruxas e o Quarto Perdido … e novamente “O Crime da Aldeia Velha”!

Diria que os filmes do passado começam a aproximar-se de um certo limite [referente à secção ‘Quarto Perdido’ e a “repetição” de “O Crime da Aldeia Velha” de Manuel Guimarães], sendo que ‘A Sala de Culto”, por exemplo, parece oferecer mais possibilidades. Há aquelas pessoas que são muito valorizadas fora de Portugal, mas que cá ainda não têm o mesmo reconhecimento. Achámos também que não podíamos fazer um programa sobre bruxas sem incluir “O Crime da Aldeia Velha”. E antes da sessão vai passar um documentário feito pelo Jorge Cramez [“Outros Lugares”]. Ele viu o filme no MOTELX, na altura [edição de 2013], e disse que queria fazer um documentário sobre a história que inspirou a obra.

Mas voltando ao limite do 'Quarto Perdido', quer dizer, não faz sentido para nós terminar uma secção só porque já passámos alguns desses filmes. Principalmente num festival que está prestes a celebrar 20 anos, e muitos desses títulos passaram cá há mais de 10 anos. O nosso dever é recuperá-los, reenquadrá-los, dar-lhes nova vida e puxar por eles de outras maneiras.

Na altura em que mostrámos pela primeira vez o “Crime da Aldeia Velha”, a escolha estava ligada à questão da censura do que propriamente ao tema das bruxaria. Mas, neste caso, o filme encaixa-se perfeitamente, como uma luva. São, no fundo, dois tipos de bruxas, uma contra a outra. 

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2551.01 - The Kid (Norbert Pfaffenbichler, 2021)

Secção X e Norbert Pfaffenbichler, a trilogia do experimental

Nós já tínhamos visto o seu primeiro filme há uns anos, e, por várias razões — até porque a Secção X começou muito dedicada às curtas — achávamos que talvez não houvesse ainda espaço para uma longa. Depois, passado um ou dois anos, vimos o segundo e pensámos: “Ok, mas não passámos o primeiro… mas vamos passar este.” Agora, com a estreia do terceiro no Festival de Roterdão deste ano, decidimos, por fim, avançar. É um daqueles casos interessantes em que tens um artista no sentido mais clássico: vem das artes plásticas, arte contemporânea, escultura, e é também curador de exposições… faz um cinema que é experimental do princípio ao fim, mas que, ao mesmo tempo, tem narrativa e uma série de homenagens.

O primeiro, por exemplo, é claramente uma homenagem ao Chaplin, até o título é “The Kid”. O filme coloca-nos num mundo underground onde toda a gente usa máscara, misturando géneros de várias formas. Tens o slapstick, muito bem ligado ao cinema mudo, com gags que aparecem de vez em quando, e também elementos mais performativos. Logo no primeiro há, por exemplo, uma espécie de manifestação contra as forças autoritárias. É um mundo distópico, onde ninguém é realmente livre. Há uma polícia que patrulha os subterrâneos, perseguindo pessoas, e aquelas concentrações de agentes a formar barreiras contra manifestantes, e nesses movimentos das várias personagens notas detalhes performativos muito interessantes.

Portanto, há muito para explorar nestes três filmes. Achámos que seria uma boa homenagem e, pela primeira vez, teremos também um convidado associado à secção. Algo que já ambicionávamos há algum tempo. Uma espécie de embaixador para o futuro, que até nos poderá ajudar.

Porque uma das coisas que sentimos ao longo destes anos é que ainda há algum preconceito, ou até medo, em relação à palavra experimental. Nós temos filmes experimentais de princípio ao fim, que não são narrativos, isso existe, e é um dos objetivos. Mas não é só isso. Queremos também obras underground, filmes que experimentem na forma e no conteúdo. Achamos que esta secção tem espaço para isso, e tem espaço para mostrar que cinema não é só “experimental”: é também underground, político, social…

Norbert Pfaffenbichler é um autor que junta tudo isso, e a sua trilogia o resume.

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Hallow Road (Babak Anvari, 2025)

Anos de Ouro para o terror de estúdio?

Não acho que haja mais qualidade este ano [confrontados com os artigos entusiásticos sobre um ano de ouro de cinema de terror, mais concretamente o de estúdio]. No ano passado até tivemos mais sorte, acho que é mesmo uma questão de calendário e de oportunidade: se conseguimos chegar a tempo, óptimo; se não, é impossível.

Este ano tínhamos esperança em filmes como “Bring Her Back”, mas acabam por cair nas mãos das distribuidoras americanas, que impõem datas de estreia. Não podemos fazer nada. Só quando conseguimos justificar que, em Portugal, esses filmes não vão ter grande impacto é que, às vezes, eles abrem exceções. Mas há títulos que nos interessam sempre. Só não nos interessa, por exemplo, ter um “Jeeper Creepers 4" se for uma coisa muito fraca. O que pedimos às majors são filmes que tenham potencial. Já o cinema independente é mais fácil de negociar, mas, por outro lado, não é esse que o grande público procura. O público quer é os títulos mais mediáticos, e isso vemos logo pelo hype online.

No ano passado tivemos o exemplo do “MaXXXine”: os dois filmes anteriores não tinham feito nada de especial em sala, mas connosco enchemos duas sessões. Há ali um culto, claramente. O “X” foi o único que estreou em sala cá e a prequela, o “Pearl”, nem estreou comercialmente, só passou no IndieLisboa. O “MaXXXine” até atraiu, mas não teve o impacto que teve lá fora. Para o público especialista, sim, foi uma loucura. Há também casos como o “The Substance”: não sei se o facto de ter passado no MOTELX e de ter ganho o prémio do público não ajudou muito à carreira dele cá.

O importante é termos uma programação que seja atrativa para vários públicos. Se conseguimos trazer o público mais mainstream, melhor, porque, depois, ao virem ver um desses títulos, acabam por descobrir o resto da programação. Nunca sentimos que houvesse “falta” de filmes. Pelo contrário: há sempre filmes a mais, e temos de deixar alguns de fora. O que noto, isso sim, são duas coisas: Estão a estrear mais filmes de terror em sala, em Portugal e os grandes estúdios (majors) estão a apostar mais em quantidade e qualidade neste género.

É uma aposta segura: investem relativamente pouco e podem ter retorno rápido. Claro que nem sempre acertam num bom realizador ou num bom argumento, mas nos últimos dois ou três anos tem havido boas junções. A A24 contribuiu muito para esta mudança. Tiveste o Ari Aster com o “Hereditary”, o Robert Eggers com o “The Witch”, o Jordan Peele com o “Get Out e o “Us”. Todos eles já ganharam Oscars e ajudaram a legitimar o terror. Estamos provavelmente na melhor altura para o género em termos de visibilidade mundial.

E, olhando para a nossa seleção deste ano, notámos algumas tendências. Por exemplo: muitos filmes passados em lares e casas de repouso, com personagens idosas. Há também histórias de jovens que vão para centros de terapia e descobrem que o problema é o centro em si. Outro tema recorrente é o aquecimento global: mesmo quando não é central, aparece sempre de alguma forma, nem que seja em tom satírico. E, claro, continuamos a ver muito folk horror! Todos os anos há vários. É um género que traz sempre aquela camada moralista de refletir sobre o que está mal no mundo de hoje. Um exemplo é um filme em competição, do realizador de “Under the Shadow”, Babak Anvari, intitulado de “Hallow Road”, e é uma espécie de folk horror todo passado dentro de um carro.

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Blood Feast (Herschell Gordon Lewis, 1963)

MOTELX a motivar a (nossa) crítica de cinema com a sua programação

Desde o início que a criação do MOTELX trouxe o desafio de pensar um festival dedicado apenas a um género — o terror — e de mostrar a sua riqueza e diversidade de abordagens no mundo inteiro. Foi isso que nos levou a criar tantas secções, algumas delas mais intelectualizadas, como a ‘Suite 13’, que este ano terá um vídeo-ensaio e uma discussão sobre o cinema gore de Herschell Gordon Lewis, estabelecendo pontes com o mundo atual e com diferentes leituras possíveis do género. Também temos espaço para apresentações de livros, teses e reflexões críticas. Este lado de pensamento e análise do terror acaba por atrair críticos e investigadores.

No passado, houve em Portugal quem escrevesse sobre cinema fantástico, como o Lauro António, mas sempre sentimos que o género nunca foi ignorado, apenas raramente teve grande destaque. Dependeu muitas vezes do interesse de críticos individuais. Felizmente, críticos mais recentes têm apresentado uma abordagem mais aberta, tanto para elogiar como para criticar, sem preconceito por ser terror. O problema, às vezes, é que alguns textos ainda recorrem sempre aos mesmos clássicos — Romero, Carpenter, Argento — como se o terror tivesse ficado congelado nos anos 70 ou 80. Essa ideia de que hoje tudo é reciclagem é injusta, porque acontece em qualquer género de cinema. Uma das funções do festival é precisamente mostrar que o terror continua a reinventar-se artisticamente.

E isso verifica-se em todo o mundo. Mesmo em países sem tradição cinematográfica forte, há produções de terror surpreendentes. No Brasil, por exemplo, há um verdadeiro “mini-boom” recente. Também no Cazaquistão, no Irão ou em vários países africanos encontramos exemplos interessantes. O caso africano é particularmente revelador: não se limita a revisitar folclore ou mitos ancestrais, mas inscreve a realidade contemporânea (urbana, social e política) dentro das próprias narrativas.

Esse é um dos papéis do MOTELX: procurar obras de geografias inesperadas, dar-lhes visibilidade e abrir espaço a novos olhares sobre o género. Quem sabe um dia até convidamos um especialista em cinema de terror nigeriano, uma indústria gigantesca e pouco explorada por cá, ou exploramos mais a fundo fenómenos vindos de Bollywood, onde o terror aparece muitas vezes misturado com outros géneros populares.

Toda a programação pode ser consultada aqui.

Dossiê: «Ler Cinema, Ver Literatura»

Hugo Gomes, 25.07.25

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Prospero's Books (Peter Greenaway, 1991)

Se a Literatura, depois do Cinema, nunca mais foi a mesma, o cinema também não poderia sê-lo sem a pré-existência da literatura. Mas, voltando às essências da sétima arte, essa arte vampírica que se alimenta de todas as outras, é da literatura que herdou séculos de humanidade: narrativas, ficções, fricções, movimentos, o romantismo, o sentimentalismo, o niilismo ou até o existencialismo. Poderíamos nomear aqui uma ou outra corrente, mas é na literatura, como no cinema, que reside a mesma linhagem, uma relação umbilical. Se a literatura garantiu ao cinema o prestígio necessário para que deixasse de ser apenas meras vinhetas a troco de um nickel, é igualmente certo que o cinema, pela sua própria existência, metamorfoseou a literatura. A sua linguagem tornou-se mais visual, obrigada a disputar espaço no imaginário do leitor, um espaço que antes, sem grande concorrência, se instalava como banquete exclusivo de historietas e personagens.

Hoje as duas associam, são aliados numa mesma frente, a de alterar a realidade de quem os experiencia. Dez personalidades,entre críticos, professores, curadores e livreiros, folhearam as páginas deste dossiê virtual, “Ler Cinema, Ver Literatura”, a possibilidade de uma utopia, ou até de uma hibridez de modelos. A garantia é que o cinema e a literatura têm mais pontos de contacto do que de separação, e os próximos dez textos estão aqui para demonstrar essa teoria.

18 anos de Cinematograficamente Falando ... saber resistir para o que nos resta!

Hugo Gomes, 25.07.25

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Chegamos aos 18! À maior idade, à responsabilidade … o que farei com essa espada? Ou melhor, o que farei com este espaço que dura, perdura, resiste ou se preserva mais por via da carolice do que supostamente feitio? O zeitgeist que nos envolve acompanha toda a uma metamorfose da crítica e da escrita de cinema em particular.

Há 18 anos, os blogs floresciam, cinefilias encontravam-se e formavam-se novos pares, alguns deles “pegaram” na crítica de cinema pelos seus devidos cornos. Há 18 anos, os jornais e a sua crítica exercida abundavam, revistas de cinema até, nos quiosques e papelarias com a estreia do mês a brilhar na sua capa. Há 18 anos, tínhamos King, Monumental, Fantasporto na sua forma mais arrebitada, João Bénard da Costa e Manoel de Oliveira. Há 18 anos, os DVDs coabitavam nos nossos abrigos, era vista para o futuro, o cinema em casa, arquivado, domesticado. Há 18 anos, havia videoclubes, o Blockbuster no centro, havia secção de Cinema na FNAC … vejam só. Há 18 anos, tinhamos Kathleen Gomes nas páginas do Público, tinhamos Manuel Cintra Ferreira, tínhamos o blog Rick 's Cinema, tínhamos três críticos no Diário de Notícias. Há 18 anos, tudo parecia tão maravilhoso, aí as saudades! Mas não, era apenas … diferente. Hoje, com 18 anos em cima, temos o físico como resistência, o autor como resistência, a cinefilia como resistência, a Cinemateca como resistência, os sites de cinema como resistência, os festivais como resistência. 18 Anos, o cinema resiste, só que não se julga garantido. Por vezes está perdido, desconcentrado, como espectador, ou como este espaço … não sei, mas modéstias à parte, facto dos factos …18 anos é resistir caramba!

Nem tudo são lamentos: a partir de amanhã, de dois em dois dias será publicado um texto convidado para o novo dossiê temático - “Ler Cinema, Ver Literatura” - para juntar aos anteriores “15 Anos de Cinematograficamente Falando: Escritos de Resistência” e “Cinema e o Medo. Será uma iniciativa que por si fala, mas cuja mensagem parece-nos óbvia … se não fosse vocês, meus leitores, não haveria sequer 18 anos. Copos ao cimo, brindemos, ao Cinema também.

CONFORME SEJA AS VOSSAS ESCOLHAS, BONS FILMES