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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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"A Minha Casinha": as quatros estações em Baião numa conversa com António Sequeira e Beatriz Frazão

Hugo Gomes, 19.12.23

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A Minha Casinha (2023)

"Que saudades que já tinha da minha alegre casinha, tão modesta quanto eu", nenhum português fica indiferente a estas palavras. O clássico cantado e interpretado pela banda Xutos & Pontapés (antes saído dos lábios de Milu no filme “A Costa do Castelo”) converteu-se num hino popular à distância infligida pela migração, seja de que natureza for. No caso do filme que adota um título aproximado do single, "A Minha Casinha", a primeira longa-metragem de António Sequeira, os Xutos não nem vê-los (ou será melhor dizer, nem ouvi-los), mas o espírito desse pregado sentimento de saudade, desse gradual desapego afetivo dos nossos "ninhos" em prol de uma libertação, de uma mudança, é sentido, aliás, vivido na primeira pessoa.

Sequeira, como tantos outros, tentou a sua sorte, fez-se à estrada e chegou a Londres para estudar Cinema. Ao regressar ao país que o viu nascer, trouxe consigo a ambição de realizar um filme, um ato glorioso mas hercúleo para quem deseja começar nestas andanças sem os devidos apoios ou incentivos. No entanto, isso não o desanimou, o jovem realizador, que entrou como pôde, conseguiu convencer um quarteto de atores (Salvador Gil, Beatriz Frazão, Miguel Frazão e Elsa Valentim), dirigiu-se para Baião e filmou durante um ano, representando as quatro estações na vida desta família que lida com a "síndrome do ninho vazio".

Em entrevista com o Cinematograficamente Falando..., o realizador revelou as suas projecções, o que pretende alcançar com o seu cinema e os muitos passos ainda por dar, ao seu lado, a atriz Beatriz Frazão junta-se à conversa.   

Dou o “pontapé de partida” com o “de onde e como surgiu a ideia para este filme”?

António Sequeira: A ideia de "A Minha Casinha" surgiu através de um processo demorado. Saí de Portugal aos 18 anos e fui para o estrangeiro. Lá fora, comecei a perceber que, embora as coisas fossem espetaculares, havia um sofrimento relacionado com o distanciamento para com a família, e sempre havia contato, esse sentimento era uma verdade escondida dela. Com o tempo, comecei a perceber que isso talvez não fosse algo que apenas me afetasse; também afetava outras pessoas. Quase todos os meus amigos estavam a passar pela mesma situação, sendo substituídos por animais de estimação, por exemplo, então, achei que havia potencial nisso, uma temática universal para ser discutida e abordada. Fui à procura de filmes que explorassem o tema e quase não encontrei nenhum que o desenvolvesse realmente. Eram sempre focados sob a perspetiva dos filhos que partiam, e nunca na perspetiva daqueles que ficavam.

Recordo-me de uma cena no final do filme do [Richard] Linklater  -"Boyhood" - em que a mãe (Patricia Arquette) fala sobre esse sentimento de vazio e o rapaz vai-se apercebendo das mudanças na casa. Acho que isso ficou-me na cabeça, incentivando-me a explorar mais a fundo essa temática e criar quase uma sequela espiritual de "Boyhood", desta vez acompanhando o filho à universidade e explorando as várias formas como ele volta para casa. Isso também inspirou um pouco o processo de filmagem, assim como foi feito no filme do Linklater que foi filmado ao longo de vários anos, 12 aliás, aqui, também queríamos capturar a ideia de crescimento verídico nos atores, em uma escala mais pequena, ou seja filmamos durante um ano nas estações. Portanto, foi um pouco essa a ideia por trás do projeto.

É sabido que este filme não contou com financiamento do ICA, praticamente o António entrou “porta adentro” e disse “tenho aqui um filme”.

AS: Basicamente. Há, obviamente, mais oportunidades lá fora para conseguir trabalhar na indústria. Um dos grandes problemas em Portugal, na minha opinião, é que a indústria é muito fechada, e entrar nela é bastante difícil. Parece que está guardada num castelo, e que para lá chegar é uma tarefa árdua, e sabia que a única maneira de entrar nesse "castelo", como muitos jovens realizadores lidam, seria passar anos a tentar obter financiamento e esperar pelo momento certo, muitas vezes acabando por desistir após anos de esforço em vão, devido à dificuldade de entrada e ao processo moroso. Pode acontecer, mas é muito demorado. Decidi, então, tomar as rédeas da situação e criar o meu próprio caminho. Optei por construir o meu próprio "castelo" e produzir o meu próprio filme. Vamos ver como corre.

Inicialmente, não tínhamos nenhum financiamento, mas eventualmente conseguimos o apoio do município de Baião. Apesar das limitações logísticas e do apoio dos atores, que concordaram em trabalhar por preços bastante baixos porque acreditavam no guião e também na equipa técnica, e viam potencial no projeto, foi a generosidade das pessoas envolvidas que tornou este filme possível.

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Beatriz Frazão em "A Minha Casinha" (2023)

Isso era algo que também pretendia perguntar, como conseguiu “convencer” um quarteto de atores a alinhar com a sua visão?

AS: Os períodos de filmagem foram comprimidos num curto espaço de tempo, e os atores tiveram que ajustar suas agendas para participar, desbloqueando outros compromissos para se dedicarem a este projeto. Aqui, tivemos que encontrar a liberdade de ocasionalmente dedicar uma semana inteira, auxiliando todos a deslocarem-se até Baião para filmar. Não foi uma tarefa fácil, mas esse foi o processo para encontrar os atores.

O desafio mais significativo foi identificar atores que fossem tão loucos como eu [risos], que estivessem dispostos a embarcar nesta jornada independentemente das dificuldades. Vale a pena mencionar o caso dela [dirigindo-se à Beatriz], que estava envolvida em outras produções enquanto filmava. Ela estava a participar numa peça de teatro em Lisboa ao mesmo tempo que estávamos a filmar em Baião, uma distância de 4 horas entre os dois locais. Foi graças a essa dedicação e entrega deles que conseguimos levar este projeto adiante.

Beatriz Frazão: Para mim não fazia qualquer sentido não fazer este filme. Já havia trabalhado com o António [“My Mum 's Letters”, 2020] e tinha mais vontade ainda de continuar a trabalhar com ele. Quando li o guião fiquei tão emocionante e empenhada em ajudá-lo a levar este filme à concretização. Portanto, o dinheiro não me preocupou muito, porque sabia que me ia divertir e que faço isto por paixão. 

Porém, o mais complicado foi o de termos que filmar ao longo do ano, pois tínhamos que estar disponíveis durante todas as estações, reservando uma semana a cada três meses. Além disso, houve um momento em que eu estava envolvida numa peça ao mesmo tempo e recordo do António entrar em pânico: "Ai meu Deus, ela agora não vai conseguir terminar o filme!", e nessa altura tinha o cabelo todo preto, mas conseguimos dar volta a isso, integrar essa mudança na personagem, como se ela também tivesse mudado o cabelo. Arranjei um motorista que me levava todos os dias de Baião até Lisboa para o espetáculo, e depois, à meia-noite, voltava para Baião para filmar. Tinha que filmar às oito da manhã no dia seguinte. Foi uma verdadeira loucura, foi incrível e valeu a pena. Esta é uma das razões pelas quais as pessoas realmente precisam de ver este filme.

Quase uma colónia de férias …

AS: Exacto, era uma colónia de férias. Só que férias … a trabalhar. [risos]

BF: Era, literalmente, porque estávamos a viver todos na mesma casa. Era uma colónia interessante. [risos]

AS: Queríamos também criar um ambiente baseado na direção de atores de filmes que recordo ter apreciado, por exemplo, "Blue Valentine", em que Ryan Gosling e Michelle Williams viveram juntos durante algum tempo, e essa abordagem contribuiu para construir relações mais autênticas nas filmagens. Da mesma forma, procurámos que os nossos atores, durante as filmagens, partilhassem momentos juntos e vivessem como uma espécie de família, fazendo pequenos-almoços e assim por diante. Foi uma forma de os fazer ficar mais à vontade uns com os outros e “parecerem” mais família no filme.

Julgo que para a Beatriz, esse processo de criar relações familiares com os demais atores, já se encontrava uma parte previamente concebida, visto que contracena com o seu pai [Miguel Frazão].

BF: Essa parte já estava feita. [risos] Mas a relação que temos é muito diferente do que a que está no filme.

Tentaram trazer alguma ‘coisa’ dessa vossa relação para com a relação no filme? 

BF: Acho que a nossa química é muito forte. Tentámos incorporar algo vosso na personagem, claro. Mas é curioso, porque ele é o meu pai, está sempre comigo, sempre me acompanhou, mas nunca tinha contracenado com ele. Sou super envergonhada, não consigo fazer nada à frente da minha família. [risos] No entanto, neste filme, o António “obrigou-nos” a contracenar. Mas foi uma experiência no mínimo engraçada, eu o via a representar e ele a mim. Por isso …

AS: Tenho uma curiosidade [volta-se para a Beatriz]. Alguma vez deste alguma dica ou sugestão ao teu pai, ou vice-versa?

BF: Claro que sim. [risos] Ela dava dicas a mim, eu a ele. Por vezes perguntava como deveria ser naquela cena - “Oh pai, tu sabes melhor que eu, tu és pai. Eu nunca passei pela tua situação” [risos] - ou como se tinha comportado, e eu também fazia o mesmo. 

Com o António a ter uma genuína relação de pai e filha, e considerando que as rodagens do filme ocorreram uma semana em cada estação do ano, isso proporcionou espaço para ajustar a trajetória do guião. Em outras palavras, a ótica do conflito familiar começou a inclinar-se para a relação específica entre a Beatriz e o Miguel?

AS: No nosso caso, seguimos bastante o guião, e uma das coisas importantes era manter uma certa flexibilidade, como a Beatriz acabou de mencionar sobre o cabelo, por exemplo, podendo trocar e adaptar conforme necessário. Era essencial ter essa flexibilidade, por isso mesmo era crucial filmar as cenas cronologicamente. Para quê? Para nós, filmarmos de acordo com as estações do ano, era importante compreender a história e os pontos a desenvolver, indicando as dinâmicas que se encaixavam melhor. A rodagem foi um processo de adaptação, mesmo com as performances dos atores, que conforme envolviam mais com o projeto, mais evoluíam. Conseguia-se quase perceber o ano a passar através dos detalhes, tanto na forma como mudavam a representação quanto na construção gradual da história ao longo desta.

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António Sequeira na antestreia portuguesa do filme

No documentário sobre a produção do filme ["Uma Casinha em Baião"], dirigido por Rui Pedro Tendinha, recordo do António ter afirmado que o seu cinema não tem bases no cinema português. Gostaria de saber qual é a sua relação com o cinema português e, já agora, que influências ou inspirações leva consigo enquanto realizador?

AS: Quando disse isso ao Tendinha, não foi totalmente verdadeiro, porque obviamente tenho algumas bases no cinema português, embora não tanto quanto muitos estudantes de cinema em Portugal. Como estudei no "estrangeiro", fomos expostos a outras influências, no meu caso, por ter estudado no Reino Unido, tive mais contato com cineastas como Ken Loach, Mike Leigh, entre outros, que me influenciaram, cada um deles, de maneiras diversas. Um dos cineastas que serve de inspiração, como já mencionei, é Linklater, cuja maneira de escrever e desenvolver diálogos e personagens de forma naturalista eu admiro, queria levar esse estilo na minha carreira - é curioso que Linklater tenha filmado grande parte de sua obra em Austin, Texas, e quando visitei a cidade, percebi que estava cheia de referências aos seus diálogos. Outro cineasta importante para mim é Noah Baumbach, conhecido por filmes como "Marriage Story" ou "The Meyerowitz Stories", que também cria personagens realistas no seu meio.

A minha família é toda da área da Saúde, eu fui o único estranho que segui Cinema. [risos] Diferentemente da maioria dos realizadores que crescem com "Citizen Kane" e os grandes da indústria, eu, por não vir tradicionalmente desse meio, tinha a tarefa de escolher filmes que pudessem entreter artisticamente a mim e, ao mesmo tempo, entreter o resto da família. Pensei recentemente sobre isto e percebi que esses episódios foram verdadeiramente influentes. Compreendi que é esse tipo de cinema que pretendo fazer: filmes que tenham um lado artístico e, ao mesmo tempo, entretenham aqueles que não estão necessariamente ligados ao mundo do cinema. Os meus pais, sem o saberem, influenciaram-me dessa forma. [risos]

Que realizador deseja ser no futuro?

AS: Sinto que em Portugal existe muito desprezo pela audiência, e acredito que deveria haver uma maior diversidade na produção cinematográfica. O que pretendo fazer no futuro, incluindo com este filme, é não subestimar o público, nem assumir que eles apenas desejam "comédias básicas" – isso também é uma forma de desprezo. Por outro lado, também não adoto a mentalidade de "a audiência não vai entender isso, então nem vou me esforçar". Quero fazer um filme que eu gostaria de ver, mas ao mesmo tempo, tenho em mente o que as outras pessoas gostariam de assistir.

Lembro-me de algo que me foi dito na escola de cinema: enquanto escreves, mantém alguém da audiência, uma perspetiva externa, não para te influenciar, é claro, mas para lembrar para quem realmente estás a escrever um filme. "A Minha Casinha" é uma obra desse género, em que o público pode relacionar-se, e não um filme que olhe de cima para baixo, assumindo que eles só gostam de "coisas" simples. As pessoas também procuram complexidades, que as façam pensar, mas hoje em dia, quando ligamos as notícias, sentimos vontade de espairecer, de compaixão e de esperança. É esse tipo de cinema que desejo fazer, um cinema que traga um pouco de luz ao mundo.

Soa um pouco patético, mas é verdade. [risos]

A Beatriz encontra-se presente nas três plataformas diferentes - Cinema, Teatro e Televisão. Gostaria de saber, tanto numa perspetiva de mercado quanto artística, como se vê enquanto atriz e que objetivos pretende atingir?

BF: Considero-me sortuda desde o ínicio, fiz de "Anne Frank" na peça, que é uma figura histórica muito importante, como também a mensagem que transmite. Este filme também alinha-se a uma mensagem que toca o coração das pessoas. No entanto, muitas vezes no mercado português, sinto que as produções são feitas somente para obter audiência, e frequentemente o produto parece um pouco superficial, com uma abordagem infantil. Isso ocorre muitas vezes com as personagens de novelas.

Gostaria de criar personagens que não se enquadrem nessa abordagem superficial, que não sejam apenas orientadas para o entretenimento fácil. Quero seguir um caminho mais artístico, focando-me em transmitir uma mensagem significativa, tocar as pessoas e ser uma luz na vida delas, um pouco como o António estava a dizer. Quero trazer essa luz para os projetos em que me envolvo, em vez de criar algo apenas para atrair audiência.

Pelo que sei, a peça “O Diário de Anne Frank” manteve-se em cartaz durante meses.

BF: Sim, tivemos quatro meses no [teatro] Trindade e depois fomos para o ‘Maria Matos. Foram 135 espetáculos no total. 

No teatro, onde a repetição da performance é uma das essências, e que pessoalmente me fascina, questiono como lidou com isso na sua experiência teatral. Como conseguiu aprimorar o seu desempenho ao longo das sessões? Ou, por outro lado, essa repetição tornou-se um desafio performativo?

BF: Isso é fascinante, eu também adoro, mas isso também tem um lado bom e um lado mau. Como disse fizemos 135 espectáculos, corríamos o riscos de ficarem cada vez melhores, visto que iamos aperfeiçoando por sessão, como também poderia acontecer o oposto, porque quando fazemos a mesma ‘coisa’ durante 135 vezes podemos tornar-nos mecanizados. Por isso mesmo, tínhamos que relembrar em todos os espectáculos que haveria sempre alguém que estava a ver a peça pela primeira vez, portanto, teríamos que viver aquilo todos os dias como fosse a primeira vez. Mas o que adoro no teatro é que a peça é sempre igual todas as noites, mas todas as noites são completamente diferentes. 

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Beatriz Frazão na peça de "O Diário de Anne Frank", no Teatro Trindade

Eu sei que é um bocadinho cedo para falar nisso, visto que o António está a aproveitar este momento com a primeira longa-metragem, mas há novos projetos à vista?

AS: De momento, quero ver como o público reage ao meu trabalho, isso irá determinar como irei fazer o próximo ou acabarei na rua. [risos] Agora a sério, é muito importante ter em conta em relação, porque gostaria muito de ter mais projetos em Portugal e para isso é importante se é possível ter este tipo de filmes aqui, se não tentarei avançar em projetos mais internacionais, em Londres especificamente. Outra alternativa seriam as co-produções, que seria uma solução interessante. 

BF: A esta altura estou praticamente de férias [risos], é o Natal. Para o ano terei alguns projetos, mas ainda é cedo para falar deles.