Sei o que fizeste com esta saga no passado ...

Afinal, o espírito de Ben “Capitão Gancho” Willis ainda paira ao longo destes anos, e, como estamos em tempos de legacy sequels em abundância, nada como capitalizar a nostalgia. Se os anos 80 já estão distantes, os 90 tornaram-se a nova mina de ouro… ou assim se acredita. Chegamos a "I Know What You Did Last Summer", êxito do terror de 1997 que, caso não o recordem, poderão lembrar do spoof no primeiro "Scary Movie", dos irmãos Wayans. Contudo, antes de avançarmos para o regresso de Jennifer Love Hewitt ao género — que abandonou firmemente em 1998 — e de Freddie Prinze Jr., percorremos este breve recap da saga: o original, a sequela… e o bastardo.
I Know What You Did Last Summer (1997)

Na boa maré de "Scream", o argumentista Kevin Williamson achou por bem capitalizar o seu guião engavetado, que até então não conseguia vender, uma adaptação do livro de Lois Duncan, "I Know What You Did Last Summer" [publicado em 1973], que acabaria por ser lançado no mesmo ano de outro trabalho assinado por Williamson — a sequela musculada "Scream 2" — o que motivou comparações na altura entre o slasher desconstrutivo e este teen slasher certinho no regulamento. O filme dá continuidade à tendência do terror adolescente bem-comportado, feito para entreter acne e hormonas, receitas encorajoradoramente fáceis de peregrinações de jovens salivantes por aroma softcore sexual ou mortalidade criativas.
A autora original não gostou em nada da reconversão do seu livro num genérico exercício slasher movie: “Como mãe de uma filha morta, repudio veementemente”, declarou invocando a memória da sua filha mais nova, Kaitlyn Arquette, assassinada em 1989, tinha 18 anos. Quanto ao filme, com realização de Jim Gillespie, seguimos um quarteto juvenil a passo de entrar na universidade ou carreiras desejadas. Na noite de finalistas, após festejos privados na praia, regressam a casa… ou assim pretendiam. Pelo caminho, atropelam acidentalmente um pescador. Após ocultarem o corpo, pactuam o silêncio do crime, ainda que em constante oposição da protagonista (Jennifer Love Hewitt, a perder a virgindade logo no início do filme, como que a despistar os mais atentos ao arquétipo de “final girl”). Um ano depois, cada um dos envolvidos recebe uma mensagem anónima: “Eu sei o que fizeste no Verão passado.” Não é preciso muito para prever o rumo da história — nem quem será a próxima vítima neste descarrilar de uma suposta gangue à lá Scooby-Doo.
A ideia que serve de mote ao enredo rapidamente se vê embrulhada em clichés e numa certa risibilidade que não consegue evitar. A contar com isso, o elenco pouco contribui para qualquer credibilidade — com excepção de Sarah Michelle Gellar, nos intervalos de "Buffy", e a saudosa Anne Heche (1969 - 2022) num papel secundário e algo alucinado. É, aliás, a realização de Jim Gillespie, algo virtuosa para o material que tem em mãos, que confere alguma dignidade ao que é, no fundo, um filme redundante de facaria … ou neste caso “gancharia”?
Foi um sucesso (125 milhões de dólares angariados mundialmente). E daí? Passados uns dias, esquecemos mesmo do raio que eles fizeram no verão passado. Portanto, entre isto e “Scream”, Kevin Williamson não previu a passada de génio.
I Still Know What You Did Last Summer (1998)

Depois do sucesso a sequela não tardaria a surgir (bastou um ano, nem esperaram o corpo arrefecer). Desta vez, Kevin Williamson não assinaria o argumento, devido a conflitos de agenda (e ainda bem, com ‘coisas’ bem melhores para fazer), e Jim Gillespie desaparece do “mapa”, sendo substituído por Danny Cannon, saído do fracasso de "Judge Dredd", com Sylvester Stallone, e dividido entre a produção do corruptível policial “Phoenix”.
Afinal, o pescador não estava morto, e o seu retorno aconteceu num misto de Bahamas com precipitação elevada e mais mortes, principalmente de secundários de passagem… e sim, Jack Black com “dreadlocks is a thing”.
No auge da efémera movimentação dos teen slashers, ressuscitados com o sucesso de "Scream", este "I Still Know What You Did Last Summer" perpetua os clichés e lugares-comuns contra os quais a saga de Wes Craven declarou guerra, evidenciando lições pregadas aos peixes (com a tal memória de 5 segundos que isso acarreta), lá pelos lados de Hollywood. Valha-nos os trópicos e um aroma de vudu para apimentar a correria de jovens sexualizados nesta parvoíce febril, pouco dados a usar neurónios nas horas cruciais. Hoje, visto em retrospectiva, é claramente um produto do seu tempo; com uma migração evidente de artistas musicais em tela, neste caso Brandy Norwood a nova coadjuvante da candidata scream queen, ou actores promissores embriagados pelas más decisões, Mekhi Phifer, que “brilhou” ao lado de Delroy Lindo em “Clockers” de Spike Lee e aqui ressoa os mesmos estereótipos deste subgénero. Ainda a sonoridade a tentar capitalizar colectâneas de artistas em ascensão ou no cunho MTV.
A verdade é que o boca-a-boca não ajudou ao seu sucesso. A estrela Freddie Prinze Jr., por exemplo, recusou-se durante anos a ver esta sua obra. Já Jennifer Love Hewitt, saturada de ganchos e gabardinas, avançou para outras decisões de carreira, não com muita sorte, visto que acabou por falar com fantasmas numa série de televisão ("Ghost Whisperer").
I’ll Always Know What You Did Last Summer (2006)

Ao terceiro, o cânone é opcional. Estamos no auge do mercado de home video; o DVD popularizou o “cinema em casa” e, rapidamente, algumas produtoras viram na possibilidade de ir directamente para as prateleiras uma mina de ouro — vender milhões de cópias graças a um conceito de nostalgia “mal-amanhada”. A fórmula era simples: pegar numa saga ou num título, produziam à pressa uma sequela com esse único propósito (nem era necessário contar com elementos do projecto original, muito menos respeitar a coerência narrativa do franchise). Bastava um número no fim do título … valha-nos a numeração! "Hollow Man" teve, "The Butterfly Effect", também, e, inexplicavelmente, até "Donnie Darko", por isso… porque não "I Know What You Did Last Summer"?
Este "I'll Always Know What You Did Last Summer" estava inicialmente previsto para ser produzido por volta dos anos 2000 e retomaria a história onde o segundo filme terminou. Só que nem Jennifer, nem Freddie, quiseram regressar. O projecto foi para a gaveta e o que nos chega é uma recontagem da obra original que herda o título… sem o merecer.
Uma recauchutada cópia feita à pressa, sem o virtuosismo do primeiro, sem a ambiência exótica do segundo. Apenas existe porque, supostamente, respira … ofegante e desesperado, e que coloca (será essa a novidade), o pescador como uma assombração. O realizador deste “feito” é Sylvain White, mais tarde especializado em televisão ou série de streaming, que no fundo foi uma substituição de última hora. Ou seja, um simples “tapa-buracos”.








