Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Ler Cinema, Ver Literatura [Índice]

Hugo Gomes, 06.09.25

“Double Indemnity”: O livro e o filme

Hugo Gomes, 07.08.25

double-indemnity-4-1.jpg

Sim, matei-o. Matei-o por dinheiro — e por uma mulher — e
não fiquei como o dinheiro e não fiquei com a mulher. Bonito, não é?Walter Neff

 

Se Walter Neff ficou sem o dinheiro e a mulher fatal, já os leitores e os espectadores de “Double Indemnity” continuarão a ter a oportunidade de revisitar o livro e o filme que partilham entre si o nome e a essência. Ambos contam com uma atmosfera de malaise, personagens de moral ambígua, a femme fatale, um protagonista aparentemente duro, traições, ou seja, muitos ingredientes associados aos noir. No cerne das duas obras encontra-se o plano que Walter e Phyllis efectuam para eliminar o esposo desta. O primeiro é um vendedor de seguros aparentemente perspicaz, que tem no momento em que se desloca a casa de Mr. Nirdlinger/Dietrichson, para renovar o seguro automóvel do mesmo, o episódio-charneira da sua existência. É nessa ocasião que conhece Phyllis e desde aí fica plantada a semente para um jogo de sedução que desemboca na morte do esposo da antiga enfermeira. Tudo é planeado para parecer um acidente, com vista a que a viúva receba a indemnização dupla do título e os amantes possam mais tarde viver felizes para sempre. Claro que, ao estarmos numa obra noir, o destino da dupla não é a felicidade, mas sim a perdição ou a infelicidade, com os dois a percorrerem alguns caminhos tortuosos até chegarmos ao desfecho.

O livro é da autoria de James M. Cain. A fita é realizada por Billy Wilder e conta com um argumento inspirado na obra literária, escrito pelo cineasta e por Raymond Chandler. Ao colocarmos lado a lado o livro e o filme é possível observarmos algumas diferenças entre ambos, algo completamente natural numa adaptação de material literário para o grande ecrã. A começar pelos nomes das personagens. O Walter Huff de Cain passa a ser Walter Neff, enquanto Phyllis Nirdlinger torna-se Phyllis Dietrichson na marcante fita do realizador oriundo da Galícia, embora a alma destes exemplares noir seja a mesma. Walter é duro e deixa-se apaixonar pela femme fatale em ambas as obras. Phyllis é manipuladora e sedutora, quer no livro, quer no filme. Se a fita for visionada antes da leitura do livro, é praticamente certo que a tarefa de dissociar os personagens dos seus intérpretes será assaz complicada, sobretudo quando estamos perante os protagonistas, seja pelas interpretações marcantes de Fred MacMurray e Barbara Stanwyck, ou pela capacidade do argumento em transportar as especificidades de Walter e Phyllis para a tela.

Na película, Billy Wilder começa o enredo in media res, com Walter a encontrar-se ferido, em visível mau estado, enquanto se desloca até ao local de trabalho, onde se prepara para utilizar o gravador de Barton Keyes (Edward G. Robinson), o seu superior e amigo, para confessar os seus crimes, ou seja, aquilo que o atormenta. A narração em off é um recurso transversal a uma miríade de filmes noir. “Double Indemnity" não é excepção, com o enredo a ser apresentado a partir do ponto de vista do vendedor de seguros. No caso do livro, o ponto de vista é o mesmo, tal como a narração ao bom estilo hard boiled, ainda que James M. Cain opte por colocar a personagem principal a narrar os episódios desde o momento em que chegou a casa de Mr. Nirdlinger. Não obstante, o autor deixa claro que o protagonista e narrador já sabe o desfecho dos acontecimentos que está a relatar, algo notório desde a primeira página, quando Walter salienta “Decidi correr até lá. Foi assim que cheguei a esta Casa de Morte, de que têm estado a ler nos jornais. Não parecia uma Casa de Morte quando a vi. Era apenas uma casa espanhola, como todas as outras na Califórnia (…)”, qual depoimento que nos torna cúmplices de tudo aquilo que está a ser exposto e aguça a nossa curiosidade em relação ao modo como esse espaço adquiriu uma designação pouco lisonjeira.

A localização da habitação é a mesma no livro e no filme, tal como as motivações do vendedor para se deslocar à “casa de morte” e a utilização precisa do protagonista como narrador de serviço. No entanto, importa realçar algumas das diferenças entre o exemplar da autoria de James M. Cain e a película de Billy Wilder. Dividida em catorze capítulos, a obra literária foi inicialmente publicada em oito partes na revista Liberty, tendo sido parcialmente inspirada num homicídio que ocorreu em 1927, em particular, o assassinato do esposo de Ruth Snyder. O homicídio foi perpetrado por esta e o amante, com ambos a terem como objectivo receberem a indemnização do seguro de vida de Albert. Cain traz um vendedor de seguros para o interior da trama e coloca-o num berbicacho que tem tudo para correr mal. Existem algumas diferenças a pontuarem os actos de Walter no livro e no filme. Por exemplo, o plano do protagonista para eliminar Phyllis. No filme, ele desloca-se até à casa desta. No livro, o vendedor de seguros efectua um plano bem mais elaborado, que visa a obtenção de álibis sólidos, a utilização de um carro que não lhe pertence e atirar a femme fatale para a morte. Por sua vez, na fita, Neff salienta que conta com uma empregada de cor, enquanto na obra literária é mencionado um filipino, com as diferenças entre os dois trabalhos a irem desde pequenos pormenores a elementos de maior relevo.

O que também conta com algumas mudanças, seja por razões criativas ou restrições inerentes ao Código Hays, é a ligação que se forma entre Lola (a filha de Mr. Dietrichson ou Mr. Nirdlinger) e o protagonista. Se na película o sentimento de culpa e a preocupação do vendedor de seguros marcam a relação da dupla, já na obra de James M. Cain é bem saliente que este ama a jovem, embora não seja totalmente correspondido pela mesma. Uma personagem que é mais desenvolvida no livro é Nino Zachetti, o jovem com quem Lola se encontra envolvida. Note-se a ligação do passado deste ao de Phyllis e uma descrição mais gráfica do envolvimento destes dois — algo que não consta na fita —, ou o destaque atribuído a este estar a concluir a tese e ter contraído um empréstimo junto de uma empresa de Walter. No filme, este pauta-se sobretudo pelo comportamento arisco, inclusive junto do protagonista. A unir as duas obras encontra-se o facto de Lola formar inicialmente algumas suspeitas no que diz respeito à possibilidade do amado ter participado no assassinato do progenitor.

Outro elemento que conhece algumas alterações é Keyes, com o analista de seguros, responsável por avaliar as queixas, a ganhar um relevo mais acentuado na película, onde é praticamente o mentor do protagonista e amigo pessoal do mesmo. No livro, este começa a desconfiar de algo, é igualmente perspicaz e confia em Walter, embora as dinâmicas entre ambos não sejam tão desenvolvidas. Apesar disso, na obra de James M. Cain encontramos uma animosidade de Keyes para com o dono da seguradora, o filho do anterior proprietário, que não constava de modo tão acentuado na fita e permite expor outras “camadas” da personagem. Também o desenlace das duas obras difere. Diga-se que seria praticamente impossível manter o final do livro, sobretudo à luz das imposições do Código Hays, com Billy Wilder a optar por um desfecho igualmente impactante e típico dos noir, ou seja, eivado de desesperança. Billy Wilder e Raymond Chandler contaram com uma relação conturbada durante a elaboração do argumento (algo que serviu de material para a peça Billy Ray), ainda que a colaboração tenha sido extremamente proveitosa. Chandler nem era a primeira escolha do cineasta.

Charles Brackett saiu do projecto — voltaria a colaborar com Wilder em “Farrapo Humano” (“The Lost Weekend”, 1945) —, após ter participado no primeiro tratamento do argumento, enquanto Cain, o autor do livro, parecia reunir a preferência do realizador. A escolha acabou por recair em Chandler, um autor com uma larga experiência nos noir, com a dupla a contribuir para um dos mais emblemáticos filmes do subgénero. Alguns diálogos foram mantidos, ou praticamente não conheceram alterações (como a fala citada no início do texto), outros passaram por algumas modificações, mas é notório que existiu toda uma capacidade de transportar o ambiente da obra literária para o filme. O talento de Chandler e Wilder para as palavras assemelha-se à capacidade de James M. Cain para criar um noir envolvente, com livro e filme a contarem com diversos elementos associados ao subgénero e a contribuírem para a marca deixada pelo mesmo.

 

* Texto da autoria de Aníbal Santiago, escritor do blog Rick's Cinema, hoje, infelizmente, desativado.

15 Anos, Escritos de Resistência [Índice]

Hugo Gomes, 12.08.22

O Rick Blaine foi almoçar e deixou a Marie Kondo tomar conta do seu blog

Hugo Gomes, 16.07.22

MV5BNDU5YmEyMjctNDY0OC00YjcxLTgzY2MtYmExMmQ3ZDU1OG

Casablanca (Michael Curtiz, 1942)

É incontestável que a Sétima Arte pode sobreviver sem a crítica. Porém, a segunda permite e muito que a primeira ganhe novas vidas, interpretações, um lastro duradouro, gere debates apaixonados e enriqueça o diálogo entre o espectador e a obra. Quantas vezes não somos colocados perante novas perspectivas sobre um filme devido a uma crítica, seja esta mais ou menos fundamentada, profissional ou amadora, escrita na mais refinada revista especializada ou nos blogues mais amadores? O próprio debate sobre o texto que determinado crítico escreveu sobre filme a, b ou c acaba por fazer germinar toda uma envolvência em volta das fitas que certamente não aconteceria sem a crítica. Nem que seja para insultar o profissional X, Y ou Z. Nesta fase do texto, podemos também começar a fazer um jogo relacionado com a contagem do número de vezes em que a palavra crítica foi e vai ser aqui escrita. Ou, podemos fazer outro desafio, talvez mais útil e estimulante, e contar a quantidade de vezes em que um artigo ou uma (não consigo evitar) crítica foram importantes para a nossa visão sobre um filme ou de uma temática da obra, ou do trabalho do realizador.

Esses textos sobre a Sétima Arte que são regularmente denominados por uma palavra começada pela letra c podem, ainda, ter o condão de inspirar o cinéfilo a querer escrever, a tentar saber mais no que diz respeito a tudo o que está relacionado com o cinema, a admirar esse meio e até alguns críticos. E, juntar o gosto pelo cinema com o da escrita, torna tudo ainda mais interessante. É um vórtice para o qual parece impossível deixar de entrar com a impetuosidade do Pepe a uma perna (ou outra parte corporal que apanhe pela frente). Não queremos ir lá de pantufas, queremos descobrir tudo à bruta. Saber mais sobre cinema, papar tudo quanto é filme, dominar a arte de escrever. Adensa a nossa paixão pelos filmes e pelas salas de cinema, pelos festivais e por toda e qualquer sessão a que consigamos assistir. A escrita sobre cinema obriga quem está a teclar, a pegar numa caneta ou na poética e anacrónica pena, a reflectir sobre a fita, a ter uma postura mais activa e conhecedora sobre o seu objecto de análise. Nesse sentido, os blogs tiveram, no seu tempo, um papel relevante não só para a formação de alguns críticos, mas também para a criação de espectadores mais activos, mais conhecedores, mais apaixonados e militantes do gosto pelo cinema.

No meu caso, apliquei o método Marie Kondo ao blog e deixei para trás algo que prefiro deixar no passado para não ser tentado a voltar a cair em tentação. Porém, existem casos como o do Hugo Gomes que mantém o Cinematograficamente Falando a viver e a produzir de modo admirável. Acredito que ele está à espera que os blogs sejam como os vinis: auge, queda e regresso à popularidade. Não acredito nisso, mas gostava (e acho que um diálogo entre plataformas como os blogs, youtube e podcasts – como já está a ser feito em alguns casos, pode ser bastante interessante). Nem sempre concordo com o Hugo. Por vezes tenho vontade de o insultar (sobretudo quando ele se atreve a não gostar de filmes em Cannes antes de eu ter a oportunidade de não apreciar os mesmos). Mais vezes ainda tinha um gosto enorme de falar sobre cinema com ele depois dos visionamentos (e antes). Acima de tudo tenho pelo Hugo um respeito sincero (caso contrário não saía temporariamente da reforma), sobretudo pela forma como procura evoluir, estar informado e colocar em prática uma das palavras mais utilizadas pelos unicórnios do empreendedorismo: resiliência.

Se a imprensa em papel está pelas ruas da amargura em termos financeiros, muitas das vezes incapaz de competir com a velocidade do online, também o cinema se debate com a facilidade da oferta proporcionada pelos serviços de streaming. São excelentes, também tenho conta em alguns. Porém, contribuem para tornar tudo ainda mais imediato, menos capaz de perdurar no tempo, mais fácil de cair naquele grande saco de gatos que é o catálogo da maioria dessas plataformas. É, por isso, que espaços como o Cinematograficamente Falando continuam e continuarão a ser relevantes. Ajudam e muito a manter vivas as obras cinematográficas, ou, pelo menos, a fazer com que estas perdurem na memória. E, enquanto existir memória desses filmes, certamente estes não vão cair no esquecimento.

 

* Texto da autoria de Anibal Santiago, escritor do blog Rick's Cinema, hoje, infelizmente, desativado.