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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

"Venom: Let There Be Carnage!: quando o cinema é somente "carne pra canhão" ...

Hugo Gomes, 12.10.21

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O primeiro “Venom” do Universo Cinematográfico Marvel da Sony que germina em paralelo com o do Marvel da Disney não foi, de todo, uma obra-prima do subgénero. Nem sequer uma variação que rompesse as suas próprias convenções. Tratou-se, sim, de um espetáculo graficamente dependente do CGI anexado a um enredo atrapalhado e simplista. Era mesmo em Tom Hardy que se concentrava o grande “mas” que recomendava ver todo aquele espetáculo anónimo.

Já por essa altura (2018) a sequela estava prometida e com um dos mais desejados vilões do universo do Homem-Aranha: Carnage/Carnificina. Os produtores contrataram Woody Harrelson para viver o monstro e o ator criou um "serial killer" entusiasta que invoca o de “Natural Born Killers” de Oliver Stone em doses amnésicas e aceitáveis para gerações órfãos de tal cinefilia. O resto, aqui deixado à mercê da direção de Andy Serkis (o ator profundamente ligado ao motion capture via "The Lord of the Rings", "King Kong" ou "Planet of the Apes") é uma salganhada visual, uma praia artificial em todo o seu esplendor, como se confirma num clímax igual ao de um frenético videojogo.

Nem mesmo Tom Hardy e o dinâmico jogo entre "slapstick" e “underdog” (em constante atrito com o seu parasita “irmão” Venom, o "bromance" latente) ou o deliciosamente sádico Woody Harrelson, conseguem resgatar este novo "Venom" da sua inconsequente existência. Mesmo que a sequela assuma a sua patetice com uma defensável impotência, tudo implode na ânsia de se lançar para novos horizontes industriais no Universo Marvel, nem que, para isso, tenha que se vender a alma à possessão tecnológica.

A Estátua da Liberdade já se vê ao longe ...

Hugo Gomes, 14.07.17

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Em tempos existia um pássaro que encontrou refúgio numa ilha, remota e intocável pelo tempo, onde nenhuma ameaça pairava naquele reduto paradisíaco. A ave nidificou aí, viveu feliz por gerações, levando uma vida sem preocupações nem temores. O seu corpo habituou-se a tal “pasmaceira”, engordou, perdeu a capacidade de voo, assim como o instinto de sobrevivência. Algum tempo depois, o Homem conseguiu por fim chegar a essa tão paradisíaca ilha, proclamando como seu lar. O pássaro outrora pacífico e depois nada atlético, não deparou nos seres humanos uma ameaça, nem sequer a intuição de fugir aos seus “abraços mortais”. O pássaro, que foi batizado de dodó pelos holandeses, foi caçado até à extinção, sem oferecer qualquer resistência, isto apenas um século após a sua descoberta. Hoje, o dodó, um espectro de criatura que em tempos pisou o nosso planeta, converteu-se num símbolo da ameaça real da extinção, e por sua vez do desmazelo, da negligência desta.

Um paradigma que fora utilizado vezes sem conta para representar de que maneira um indivíduo não se apercebe da sua própria extinção, mesmo que os sinais estejam ao nosso alcance. Em 2002, o êxito de animação “The Ice Age” (Carlos Saldanha & Chris Wedge, 2022) apresentou de forma paródica e direta esse mesmo simbolismo, onde um grupo de dodós que planeava escapar ao fim de uma era, mas sem a incapacidade de se aperceber das causas da sua eventual dizimação, levava-lhes a esse caminho mais que certo. No terceiro capítulo da trilogia / prequela “Planet of the Apes” (“Planeta dos Macacos”), os humanos são os pássaros dodós da trama, os seres mais próximos da extinção, ora vítimas de uma peste, ora vítimas das suas mais primitivas características – o gosto pelo conflito e pela guerra.

Novamente sob a batuta de Matt Reeves, após a fábula política de “Dawn of the Planet of the Apes”, esta Guerra promete-nos um desfecho ao prolongado êxodo iniciado em 2011, e possivelmente, um dos surpreendentes êxitos desta recente Hollywood tecnológica. É um exemplar pomposo, de um parabolismo dramático que nos convence perante uma invocada memória cinéfila, a exposição de uma guerra sob os adereços que o Cinema tão bem conhece. Se por um lado encontramos referências de um cinema de John Ford (onde nem falta o Monument Valley), ou do febril guerrilheiro de “Apocalypse Now” (faltava a Woody Harrelson o pregão “Horror… Horror has a face”), e as tendências dos efeitos visuais ao serviço da narrativa e não o oposto (não víamos tamanha exatidão nesse sentido desde o “Avatar”).

Mas em todo o caso, este é dos ditos blockbusters “armados em espertinhos”, porém, a sua astúcia tem um lado mais politicamente filosófico que as metafísicas do costume, é o retrato da desumanização da Humanidade, que acarreta a extinção como um Atlas martirológico, e a humanização do Primata (o aparecimento da subconsciência em Caesar – novamente concebido graças ao empenho de Andy Serkis – como momento-chave para o derradeiro destino que todos nós conhecemos), o testemunho forçadamente deixado da nossa “soberania”. Cada vez mais longe de “Rise of the Planet of the Apes”, cada vez mais perto do clássico de Franklin J. Schaffner, daquela distopia pelo qual Charlton Heston cedeu a tamanha culpa perante as ruínas da Estátua da Liberdade.

O único senão deste “War of the Planet of the Apes" é a sua vontade de agradar a gregos e troianos, o de equilibrar o registo cinéfilo com a perspetiva política assim como os elementos tão corriqueiros do entretenimento hollywoodesco. Nesta última estância, refiro a entrada do comic relief (um chimpanzé pelado com voz de Steve Zahn) ou de um último terço literalmente explosivo, como 95% dos blockbusters que se produzem atualmente. Todavia, é boa macacada aquela que encontramos aqui, e num Verão disperso por franchises falhados e de produtos inconsequentes do costume, “Planet of the Apes" vem provar o que de melhor se faz nesta grande indústria.

A "macacada" que nunca se tornou

Hugo Gomes, 07.07.17

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Há mais cinema em War of the Planet of the Apes do que aquilo que se julga. É um filme em completa ebulição politica sem querer afirmar um lado ou uma ideologia concreta, conservando a tendência fabulista do segundo, mas também é, um entretenimento visual que orquestra o CGI como parte integra da narrativa e não o contrário … como a maioria dos casos … assumindo-se como um mero brinde “eye-candy”. Sim, esta é uma boa macacada.

O Senhor da 'Macacada'

Hugo Gomes, 21.07.14

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Um blockbuster inteligente? Parece heresia esta afirmação principalmente para os mais puristas cinéfilos, mas a verdade é que esta “sequela de uma prequela /reboot, respetivamente vindo de um “remake” de um clássico que por sua vez é uma adaptação de um célebre e provocante livro de Pierre Boulle” (mais “tempestades” que “ventos favoráveis” neste título), é uma obra que reserva alguma astúcia e uma caminhada leve a muitas das questões que assombram atualmente a Humanidade (não, não é ironia). Existe nesta revolta animal uma análise ligeiramente “trocada por miúdos” de como estruturalmente funciona um regime ditatorial (frases como “eles seguem-no porque têm medo” invoca essa mesma ideia nas audiências mais despreocupadas do verão) e o constante darwinismo ético e moral, que evidencia um distanciamento dos primatas da sua natureza e a aproximação da sua comunidade às similaridades da civilização humana e das bases de que foram erguidas.

São ideias e temáticas que Boulle havia invocado na sua obra e que Franklin J. Schaffner “beliscou” sob moldes clássicos no filme de 1968, aquele que foi considerado o início de um dos primeiros grandes franchisings do cinema. Nesta versão tecnologicamente irrepreensível, somos ditados por um conjunto de fórmulas e modelos narrativos, vistos e revistos, mas que funcionam naturalmente compatíveis neste génesis do fim do Mundo alternativo, é por isso que em o “Dawn of the Planet of the Apes” não esperem nada de novo no campo do cinema mainstream. Ao invés disso, contemplam jogadas brilhantemente orquestradas e arriscadas da produção.

Entre esses riscos encontramos um protagonismo irrecusável dos primatas, cujo primeiro ato é envolvente em prol destes, esboçando a sua comunidade, relações e partilha de visões, tudo elaborado por uma linguagem perceptível, mesmo sem as legendas que complementam os seus dialetos gestuais. Caesar, o chimpanzé dominante encarnado por Andy Serkis (por via da tecnologia motion capture), é visto e limado como um líder idealista, conservador da paz e perseverante na força conjunta dos primatas. Os traços convergentes da criatura tecnológica com outras fortes personalidades históricas e bíblicas não são um disparate. Existe algo de Lenine em Caesar, mas também de Moisés, tal como no anterior.

Ou seja, este é um mundo onde literalmente e analiticamente, os “macacos” são os reis, os condutores de toda a intriga que tal como a anterior obra de Rupert Wyatt, a muito bem-sucedida Origem, não apressa à ação nem o clímax, construindo um verdadeiro drama humano nas ditas criaturas. E tal como seu antecessor, são as personagens humanas que apresentam fragilidade e pouca interatividade com o próprio espectador, mesmo que Gary Oldman seja sempre um secundário de primeira classe. O “Dawn of the Planet of the Apes” é um entretenimento de “grau prata”, que evoca inteligência (voltando à questão inicial) e uma certa memória cinematográfica que se faz deslumbrar com uma qualidade técnica invejável (é um forte candidato à estatueta de Melhores Efeitos Visuais, vistos que as criaturas tecnológicas parecem realmente “bestas” de carne e osso). As verdades devem ser ditas e vale a pena espreitar o “amanhecer” de um imaginário que de tão alusivo tem com a matriz a Humanidade.