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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Lux in Tenebris

Hugo Gomes, 14.06.25

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Interessa mesmo a razão por que Ana de Armas chacina como chacina? Interessa juntar os nós da suposta história em busca de uma coesão que os espectadores, hoje, ditam com fervor?

"Ballerina" respeita apenas um código: o do seu universo, e, consequentemente, o do seu conceito. Chad Stahelski, vindo da experiência como duplo, viu no cinema de ação americano um enorme flagelo. Era urgente inovar, não nas historietas, mas na ação: como é concebida, como é filmada, e, por fim, concretizada. Sem decupagens abusivas, e com coreografias que vampirizam o ridículo e o incoerente, surpreende-se com um bailado para com a morte, aquele abraço que se dá antes que o além se torne o nosso eterno lar. Um ditame, ou talvez um regresso, não às origens, mas às tendências esquecidas. As de Hong Kong, como bem sabiam fazer; ou de Jackie Chan, a vangloriar-se, nem que fosse no título “sem duplos”, com as acrobacias mais arriscadas como aquelas que poderíamos, boquiaberto, vislumbrar em “Police Story” (1985). Ou, como tem sido sempre, o Oriente: com “The Raid” e a sua magnum opus sequela (2011 e 2014, Gareth Evans), a demonstrar uma acção física, dolorosa, extracorporal, quase sobre-humana, um rodeo de homens contra homens, captado e espectacularizado. Nós, espectadores, sentimos-no na obrigação de contemplar.

Até hoje, não podemos negar: à luz dos riscos cometidos por Tom Cruise na sua saga “Mission: Impossible”, é em “John Wick”, a dominância da acção yankee. Porque dele geraram filhos (“Nobody”, “Atomic Blonde”); dele se reinventou o que urgia reinventar: o antídoto para a decadência do género. “Ballerina”, o spin-off, sem a graciosidade dos ringues de Keanu Reeves, é uma ramificação desse sucesso. Faz-se na graça e na paz dos seus anjinhos. Não há como negar, mesmo que Len Wiseman não seja, efetivamente, Chad Stahelski, tem apesar de tudo queda para a ação (ainda que tenha seguido pelos piores caminhos… um remake de “Total Recall”? Porquê??).

Portanto, ver “Ballerina” não é pagar bilhete para um espectáculo insólito, mas confirmar uma tendência. Uma fórmula — já confortável, enquanto fórmula que é. Acção na mestria da sua movimentação. Não vivemos épocas douradas, mas, com “John Wick” e os seus primos e filhos bastardos, testemunhamos algumas luzes… radiosas luzes. Com “Ballerina”, sentimos uma ligeira iluminação nesse ramo.

Para o Sérgio

200 Milhões de dólares para o "boneco"

Hugo Gomes, 27.07.22

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Num cenário de destruição e de pirotecnia variada ocorrida numa praça de Praga, a personagem de Ryan Gosling [o nosso “herói”, ou será antes “anti-herói”?], algemado a um banco, tenta se abrigar e esquivar (com êxito) da “chuva de munição” que aquela mesma sequência proporciona. Longe do alcance daquele espectáculo anormal, mas observado todos os passos por via de um elaborado sistema de vigilância, Chris Evans [aqui definido, e sem sombra de dúvida, como vilão] esperneia furiosamente pelo facto, e que passo livremente a citar, de ninguém conseguir atingir em naquele “fulano” acorrentado. 

Aqui, é de invocar um dos badalados mandamentos da lógica batida do filme-espectáculo, hoje estabelecidos como clichés em modo auto-paródia: a má pontaria dos antagonistas perante o herói do enredo, a outra subjacente, é a sua evidente sorte para escapar “ileso” aos proporcionados obstáculos. “The Gray Man”, dos irmãos Russo (“The Avengers: Endgame”), não inventa nada nesse sentido, nem mesmo é apontado como o último da sua espécie, mas é surpreendente (talvez seja a minha ingenuidade a manifestar-se) que a Netflix tenha apostado 200 milhões de dólares (até à data o seu filme mais caro) para conduzir-se em lugares-comuns em contracurva com outros lugares-comuns numa ação globalizada, visto e revisto nos anos 90 e em início do novo século. Hoje em dia, essas vertentes instalaram-se (ou antes "acomodaram-se"), ora em franchises duradouros (“007”, "Fast and Furious”), ora nos atributos e nos "cojones" da fisicalidade de Tom Cruise (“Mission: Impossible”). 

Quanto aos “outros”, chuviscos que a Netflix anseia capitalizar. Experienciamos tal com um formatado “Red Notice” (Rawson Marshall Thurber, 2021), uma reunião estrelar que antecede a este “The Gray Man”, que por si só piscar para uma futura saga. Ambos os exemplos situa-nos num impasse quanto à sua criatividade e engenhosidade na execução, por outras palavras, não existe Cruise e os seus arriscados stunts - como se fosse um espectáculo a merecer o bilhete - que salve, ou dos backgrounds definidos dos seus protagonistas (um “007” não necessita introduções elaborados, o espectador sabe para o que vem), resultando num joguete de ação “bombista” (explosões atrás de explosões sem um mínimo de consequência) ou dos chavões emocionais, intervenientes numa aparente narrativa que se pretendia fluída  - papas para alimentar um espectador menos atento [a inserção de uma “sobrinha” como motor sentimental e humanista do “herói”]. Coloca-se um macguffin, acelera-se na edição (o travão é território interdito), o mesmo acontece na interação entre personagens e até mesmo numa câmara que teima em não fixar num ponto sequer (mesmo no estático há que dar movimento, não vá o público aborrecer pela "inércia", segunda a sua lógica), enfim, inúmeras parcelas para estabelecer uma fórmula. 

E pronto, é isto, 200 milhões (era mesmo preciso?) para lubricar cinema algorítmico, e que tendo em conta as recentes notícias, o “feito” resulta … vem aí mais “The Gray Man”! 

Goodbye, Mr. Bond

Hugo Gomes, 30.09.21

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A esta altura do campeonato, os potenciais espectadores estão mais do que informados sobre este “007: No Time to Die” ser o adeus definitivo de Daniel Craig à personagem a que emprestou o seu corpo ao longo de cinco filmes durante 15 anos. Na hora da despedida, vale a pena recordar que o ator, hoje desassociável da pele do famoso agente secreto criado por Ian Fleming, não obteve uma pacífica promoção a “00” em 2006, naquele que foi um dos inovadores capítulos deste duradouro "franchise", o inesperado “Casino Royale”. Contra tudo e contra todos, até porque Daniel Craig não correspondia aos padrões tradicionalmente aceites para o papel de James Bond (houve quem se referisse à sua “cara de pugilista”), o filme de Martin Campbell marcou o início de algo inédito para este espião com licença para matar: continuidade narrativa e não as episódicas missões a que os seus antecessores estavam agregados. 

Hoje, uma ‘coisa’ é certa: independentemente das discussões sobre o próximo passo de um “novo Bond” (fala-se de atores negros a mulheres), “007: No Time to Die”, mesmo com o atraso de mais de um ano na estreia por causa da pandemia, ficou responsável por cumprir uma passagem de testemunho da forma mais (re)criativa possível. Nesse sentido, e para quem ainda receia pela visão “woke” que se vai entranhando na indústria cinematográfica e nas sociedades, desde o seu tratamento em relação às mulheres – as “bond girls” –, passando pela quebra da masculinidade tóxica que estava sempre associada a esta fantasia, "Casino Royale” fez mais pela personagem para as novas gerações do que esta missão a quente propriamente dita. Ainda assim, a pressão da "modernização" levou a produção a contratar a consagrada argumentista e também atriz Phoebe Waller-Bridge (da série “Fleabag”) para "aperfeiçoar" o guião e atribuir-lhe o “ar da sua graça”, descartando qualquer “male gaze” em relação aos corpos femininos. Sim, “007: No Time to Die” é um filme cordial e a condizer com os novos tempos, sem com isso sacrificando a pomposidade da sua produção nem o capricho das suas sequências de ação.

Sucedendo a Sam Mendes na cadeira de realizador, Cary Fukunaga (“True Detective”, “Beasts of No Nation”) mantém o virtuosismo orgânico do "franchise" e, por vezes, com alguma classe referencial. O resto... bem, o resto e com alguns bónus, é o que se espera neste universo: automóveis, relógios de marca, cocktails e vilões miseráveis e igualmente megalomaníacos. Nota-se que o filme é um tributo, não só à personagem, por fim humanizada, mas a um ator que vestiu o smoking e bebeu martinis secos com rigor, sem nunca ceder ao peso do legado. Há aqui uma atitude de mudança e, ao mesmo tempo, é na sua lógica conservadora que se encontra a derradeira dignidade da personagem. 

007: No Time to Die” presta a homenagem, fechando (mesmo com algum material para expandir estas narrativas) esta "dinastia" de James Bond como quem termina uma epopeia com pós de “perlimpimpim”...

Um "McCastro", se faz favor!

Hugo Gomes, 11.07.20

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O exímio piloto cubano, Juan Pablo Roque (aqui interpretado pelo brasileiro Wagner Moura), “deserta” da sua pátria (Cuba) através de um arriscado e elaborado plano que consiste em nadar do território cubano até à baía de Guantánamo (território norte-americano) para ser automaticamente detido pelas autoridades na sua chegada. Já no interior da prisão, Roque desvenda as suas intenções e os motivos que o levaram a exilar do regime de Fidel Castro. Nesse momento um dos guardas leva-lhe comida, McDonalds como se pode verificar nas embalagens típicas. Retirando cuidadosamente o hambúrguer da sua caixa de cartão, e após uma primeira e saboreada dentada, Roque dirige-se, com um sorriso de satisfação nos lábios, aos militares que o interrogam: “Anos a fio a comer ‘McCastro’, McDonalds parece-nos uma iguaria.”

Possivelmente é com essa mesma sensação, não prolongada durante anos, mas por alguns meses, que retidos no nosso confinamento e à mercê das propostas televisivas e de streaming, assistir a um “Wasp Network”, produção despersonalizada de Olivier Assayas, numa sala de cinema nos soa a tão raro pitéu. Mas não nos deixamos ser enganados pelo nosso “amarcord” em relação aos cinemas, o que vemos nesta grande tela é uma mistela histórica embrulhado num tecido adaptável a qualquer ecrã. Assim, artificiosamente parece ter sido construído, não por ser uma fruta da indústria virtualizada da Netflix, mas por esta nova “major” encontrar nele qualidades para apostar na sua distribuição e automaticamente retalho para o seu catálogo.

Pois bem, esquecendo por momentos todo este prato alternativo da nossa dieta cinematográfica, Olivier Assayas perde-se por amores pela história real da Rede Vespa, uma operação de espionagem levada a cabo pela Cuba de Fidel para travar os ataques terroristas no seu território promovidos pelos EUA. O enredo, esse, ostenta potencialidade nem que seja em formatos documentais ou seriados, ao invés disso temos uma metragem de duas horas e uns trocos. A única solução narrativa a administrar aqui é a mera esquematização de factos, caras e eventos, contada e despachada sem enfoque nem luzes de manifestação cinematográfica. E é triste Assayas condensar em tão enlatado produto, principalmente visto que o conhecemos em andanças mais capazes como “Clouds of Sils Maria” e “Summer Hours”, visto ter reunido novamente com o ator venezuelano Edgar Ramirez, basta verificar a sua capacidade de historieta num filme como “Carlos” (o filme e a minissérie).

Talvez o problema para o realizador seja a sua própria falta de ambição. Um amontoado de material que se encavalita um nos outros, ao invés de colidir numa só lente, numa só vivência e num só percurso, como Assayas tem feito até então. Além do mais, “Wasp Network” é tão frouxo (já pouco me restam palavras para a falta de personalidade) que nem sabe que partido tomar nesta intensa espionagem e contra-espionagem (a imparcialidade é um gesto inexistente e despersonalizado). Um autêntico “McCastro”!

No fio da navalha ...

Hugo Gomes, 27.11.19

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Após Kenneth Branagh ficar preso na plasticização da adaptação do romance crucial de Agatha Christie (“Murder on the Orient Express”), a grande mais valia de "Knives Out: Todos São Suspeitos" é a revitalização do chamado "whoddunit", a cadência de "thriller" que se apoia principalmente na revelação do assassino. O realizador Rian Johnson é o cabecilha deste misterioso crime - a morte de um romancista milionário e a suspeita de um homicida entre a afortunada e vil família - ingredientes perfeitos para fazer esquecer os fãs irados com a sua odisseia no espaço infinito (“Star Wars: The Last Jedi”) e investir numa nova saga detectivesca.

Por entre as luxuosas assoalhadas da mansão Thrombey, como um jogo Cluedo, “Knives Out: Todos São Suspeitos” joga-o com a segurança de nunca transgredir da sua linha, minando a trama com reviravoltas atrás de reviravoltas com o objetivo de surpreender o poder de dedução do espectador. Com um elenco de luxo: Daniel Craig, Chris Evans, Ana de Armas, Jamie Lee Curtis, Michael Shannon, Don Johnson, Toni Collette e Christopher Plummer. Trata-se de um exercício de entretenimento passageiro e perspicazmente virtuoso, ainda que este divertimento não seja sinónimo de cinema e ao filme de Rian Johnson falte sobretudo a ousadia de cometer o crime e não ser apanhado em pleno delito. É tudo correto, formalmente previsível (não confundir com o argumento que tantas voltas dá) e demasiado acanhado e acalcado nos seus “rodriguinhos”. Ou seja, é aquilo que esperávamos numa produção deste calibre e natureza.

Contudo, é no território que outros antes dele cruzaram que “Knives Out: Todos São Suspeitos” se vinga oportunamente como um disciplinado cidadão exemplar e, frisando mais uma vez, é no guião que encontramos o toque de matador.  Isso e na desconstrução de James Bond levada a cabo por Daniel Craig (a despedir-se a todo o custo da personagem que o tornou na estrela que é hoje em dia) que se dá pelo nome de Benoit Blanc… e com um sotaque sulista a condizer.