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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Eu e Godard. Godard e Eu.

Hugo Gomes, 13.09.22

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Jean-Luc Godard e Anna Karina no dia de casamento, foto de Agnès Varda

Ecos da canção de Clio pairavam na minha cabeça nesta manhã, só que ao invés de “Eric Rohmer est mort” ouvi “Godard est mort”. Por momentos não pude acreditar, quer dizer, 91 anos não era pêra doce, o seu desaparecimento estava longe do inesperado, mas … “A Morte de Godard” … planou em todos estes anos como um mito, um evento apocalíptico aludido como ameaça de uma morte cinematográfica anunciada, ou a destruição de tudo o que acreditávamos. 

Godard, por mais tonto que pareça [quem conhece a minha pessoa sabe o bem], fez parte da minha instrução cinéfila. Desde que descobri o cinema propriamente dito, “devorando” clássicos e diferentes olhares, grande parte canónicos, digamos de passagem, alguém me aconselhava um certo cineasta francês. Nova Vaga, dizia ele, uma nova perspetiva de Cinema, depois disso nunca mais seria o mesmo, assim prometeria. A verdade é que de Godard, comecei por isso mesmo, no início, pelos acossados e vidas viventes, desprezos e géneros binários, porém, foi um louco que me conquistou de imediato. “Para quem estás a falar?”, pergunta Anna Karina. “Com a audiência”, responde Jean-Paul Belmondo. Era um doido, quebrou a quarta parede, falou comigo … sim, comigo, pensei perante aquela “anormalidade” em frente aos meus olhos, e num pequeno ecrã. Mais tarde, sentados nas estribeiras de um porto, o casal iniciava uma discussão. "Porque estás triste?” O resto foi a citação das citações, olhares sentimentais por palavras racionais. 

Godard era “Pierrot Le Fou” na minha tenra idade. Eu sei, cliché, uma convencionalidade hoje em dia, perfeitamente endereçado à arrogância dos cinéfilos que competiam pelo mais obscuro dos obscuros. “Hipsters” diriam os mais mundanos. Deste lado, nada disso, Pierrot, Karina, Belmondo e o azul encharcado nas suas ventas, o apogeu do quão vibrante e automaticamente fresco poderia ser o Cinema. Passados estes anos ainda encontro ideias, experimentos, a dissociação das palavras com as imagens, o som com o movimento (Será que ouvimos realmente a música que habita na cabeça destas personagens, como a certa altura, um desesperante errante faz-nos crer?), o Cinema feito e refeito, atentado e tentado. O seu significado? Como responde Samuel Fuller naquela festa onde ninguém escute, onde ninguém dialoga: “Cinema é um campo de batalha. Há amor, ódio, ação, violência, morte ... em uma palavra: emoção.

Muitos dirão, “é Pierrot que amas, não Godard. Talvez essas vozes - os “godardianos” - tenham razão, ou talvez não. Eu e Godard, Godard e eu, a relação sempre foi tumultuosa em grande parte das vezes. Até porque Godard demonstrou-se um homem de ciclos, com várias mortes e vários nascimentos; o Godard político, o Godard experimentalista, o Godard professor, o Godard crítico em ensaios audiovisuais e o Godard existencialista, este último, como derradeiro sopro, gerar uma nova linguagem cinematográfica, nem que para isso tenha que “despedir das velhas”. Qualquer acadêmico saído da sua “gruta de conhecimento” cita Godard com a facilidade das facilidades. “Não gosto de Frémaux a dar lições, prefiro Godard”, certa vez li num estreante a crítico, erro dele em apoiar-se somente numa figura e não entender que Godard é um homem de quatro estações, existindo só nele a diversidade com que espelha o cinema. 

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A peculiar conferência de imprensa no Festival de Cannes de 2018, quando Godard apareceu aos jornalistas em videochamada

Continuando, recordo como fosse ontem, a tristeza com que saí da Sala Bunûel em Cannes [2018], naquela que seria a primeira sessão de “Le livre d’image”. Sim, tristeza, ao entender que Godard se colocava acima do próprio cinema, respondendo e desintegrando o misticismo de "Johnny Guitar" (“Ela mente”), e de seguida nos encher de imagens recortadas, dilaceradas, criadas e automaticamente a mercê da autodestruição. Será que o Cinema vale pouco para o mestre? O que pretendia com tudo aquilo? O poderia nascer naquela destruição? Ouvi aplausos ali, murmúrios acolá, o meu peito pesou, senti a boca seca e gritei: “O Cinema Morreu porque Godard deixou de acreditar nele”. Foram poucos aqueles que me ouviram, outros se riram, e quase todos eles, acenando com a cabeça, dificilmente conseguiam explicar o seu fascínio por aquela obra. Não os censuro, nem eu sei explicar concretamente o meu fascínio por algumas obras, quanto mais os outros. 

Godard transformou-se num símbolo, ora um ícone de um cinema passado em resistência, ora um messias de um cinema ainda por nascer. E talvez seja essa a sua verdadeira essência. Ele nunca era somente algo, era tal e o seu oposto, a cura e o seu veneno [fez chorar Varda, renunciou Truffaut, nós na minha garganta], a erva do rato assim por dizer. Disse adeus à linguagem, mas sem saber criou uma, nunca despedimos verdadeiramente do Cinema porque o Cinema é mais que Godard e ao mesmo tempo Godard é o Cinema. Mas que fique claro, eu não desprezo Godard, via nele como uma criança, e sempre fora, neste jogo cinematográfico, em plena descoberta de uma paixão. Por vezes o Cinema tem destas ‘coisas’, vivemos o suficiente até se converter num projeto visto e  revisto, reciclado e reutilizado. 

Bem, o mencionado dia chegou. A premonição apocalíptica concretizou. “Morreu Godard”, nunca pensei que tal anúncio se concretizasse. O Mundo mudou. O Fim de uma era [“The End” em letras garrafais], o início de uma outra. Vamos ter que aprender a viver sem ele, o Cinema precisará viver sem ele, nem que seja do seu fantasma, o espectro quase sebastiânico com que a acérrima cinefilia se viu refém nas últimas décadas. Sim, morreu a lenda, o sábio, o charlatão, a distopia, a utopia, o génio, o louco, o canónico, o influente, o eterno jovem e o duradouro velho. Morreu Godard, o homem que odiei amar e que amei odiar. Esta é a minha sincera vénia, quer ao seu espírito, à sua memória, aos seus órfãos. 

Adeus Jean-Luc, le Fou, a morte do Cinema, o renascimento do Cinema. Até tu “Deus”, morrerias um dia. 

Há Tempo para degustar o Cinema! Arranca o 4º Close-Up, Observatório de Cinema de Famalicão

Hugo Gomes, 10.10.19

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Les Yeux sans Visage (George Franju, 1960)

O Tempo destrói tudo, isso é mais que sabido, mas ele também constrói. Constrói uma perspetiva, uma noção e acima de tudo a História. Neste caso a História do Cinema, que é novamente revisitada no CLOSE-UP – Observatório de Cinema, neste seu quarto episódio, como é habitual, a ter lugar na Casa das Artes de Famalicão, entre os dias 12 a 19 de outubro.

Novamente, uma programação recheada de filmes, concertos, temáticas, round tables e muitos convidados naquela que já é a mais respeitada comunhão de cinefilia do país. E voltando ao Tempo, a História do Cinema que é constante revista, CLOSE-UP contará como prato principal dois acompanhamentos musicais a dois dos grandes clássicos do cinema russo; o sempre incontornável “Battleship Potemkin” / “O Couraçado Potemkin”, de Sergei Eisenstein, com a Orquestra de Jazz de Matosinhos a condizer, e o aclamado filme de Boris Barnet, “The House on Trubnaya Square” / “A Casa na Praça Trubnaya”, onde os Mão Morta assumem uma original banda-sonora. Já nas sessões especiais, a História do Cinema pelos olhos delirantes de Quentin Tarantino, “Once Upon a Time... in Hollywood”, e a antestreia da mais recente obra do filipino Brillante Mendoza, que volta a debruçar-se pela teias criminosas e marginais de Manila em “Alpha: The Right to Kill”.

A fortalecer a temática do Tempo, ainda temos o historial condensado num folhetim imagético em “Le livre d'image”, do sempre intemporal Jean-Luc Godard, ou do tempo enquanto dispositivo manipulável em “John McEnroe: O Domínio da Perfeição” / “L'empire de la perfection”, de Julien Faraut. A Lenda e o Contemporâneo do atual Cinema Francês, dois pontos de partida para uma das secções fundamentais desta anual mostra cinematográfica – Histórias de Cinema – que nos brinda com um Passeio pelo Cinema Francês com dois protagonistas: Agnès Varda e Jean-Luc Godard.

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Halito Azul (Rodrigo Areias, 2018)

Aí, para além dos filmes da cineasta que apaixonou gerações pela sua criatividade e dinamismo e o realizador que continua a fomentar cinefilias, passearemos por alguns dos clássicos ante-Nouvelle Vague de uma das cinematografias mais fortes a nível internacional. Será o brilhante “Les Yeux sans Visage”, de George Franju, ou a viagem pela metrópole americana em “Deux hommes dans Manhattan”, de Melville, ainda as histórias trágicas e tragicómicas de “Le Plaisir”, de Max Ophuls, e até mesmo um dos mais belos casamentos de imagem e música de “Ascenseur pour l'échafaud”, de Louis Malle, a fazer as delícias dos amantes de cinema? A resposta é sim.

Na também habitual Fantasia Lusitana, espaço dedicado aos ascendentes protagonistas do cinema português, conheceremos (ou revisitarmos) o trabalho de Eduardo Brito, realizador, argumentista e fotógrafo, descrito pelo seu olhar perfeccionista e dedicado aos enquadramentos. Aqui deparamos com uma seleção de curtas da sua autoria, incluindo a estreia de Úrsula, como também vídeos experimentais, videoclipes e ainda uma longa-metragem escrita pelo próprio com a realização de Rodrigo AreiasHálito Azul”.

O cinema terror também terá o seu tempo de antena, ao integrar o espaço de Cinema do Mundo, este ano centrado no género profundo (“Mandy”, “The Love Witch” e “It Comes at Night”, compõem o trio de sessões que explicita o terror e o medo na América). Além disso, o CLOSE-UP contará ainda com sessões dedicadas às escolas e de família, com as exibições de “Toy Story 4” e “The Lion King”, como ainda tempo exclusivo para o legado de João César Monteiro, onde serão mostradas algumas das suas curtas como ainda lidas os seus poemas. Para a cadência das suas palavras, Isaque Ferreira será o responsável pela leitura.

"Agnès Varda dava-nos as pistas necessárias para desvendar o seu Cinema." Uma conversa com Rosalie Varda

Hugo Gomes, 08.10.19

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Varda par Agnès (2019)

Varda disse-me que os jovens não são menos curiosos. São apenas mais preguiçosos.

Seguindo as palavras da sua filha e produtora, Rosalie, percebemos o porquê de Agnès Varda ter sido uma das grandes veteranas do Cinema a apaixonar os mais jovens. Primeiro, porque não encontramos nas suas palavras, proferidas em masterclasses, nenhum indício de condescendência para com esta geração. Ao invés, era uma energia jovial aquela que contaminava as suas palestras.

Varda por Agnès, até ao momento o último trabalho do importante nome da “bancada de esquerda” (left bank) da Nouvelle Vague, expira esse mesmo toque, uma “velhota” que fala dos seus filmes como uma adolescente cheia de genica. É através dessa motivação que vamos de encontro com um legado, a merecer perpetuação nas futuras gerações.

Tive o privilégio de conversar com Rosalie Varda, fruto do relacionamento da realizadora com o ator Antoine Bourseiller (mas legalmente adotada pelo cineasta Jacques Demy) sobre esta sua produção, e sobretudo sobre a sua mãe que infelizmente nos deixou.

É sabido que foi você que trouxe a ideia deste filme para Agnès Varda?

Sim, era a ideia de um filme sobre a sua interação com o público. Como ela trabalha e como ela faz o seu Cinema. Seria um projeto marcado por duas partes: a primeira, antes do ano 2000, com Varda a operar grande câmaras e a trabalhar com a película; a segunda, depois do novo milénio com a “descoberta” da câmara digital, e como o digital tornou possível um envolvimento ainda maior dela na área do documentário. É que, com essa câmara, Varda conseguiu aproximar-se das pessoas sem que parecesse intrusiva.

Ao mesmo tempo queria mostrar que nos primórdios da sua carreira, ela era uma fotógrafa e como tal foi crucial para o seu desenvolvimento enquanto cineasta. A experiência do olhar adquirido por essa área tornou-a atenta e a realizadora perfeccionista que conhecemos. Da mesma forma que o digital a levou a desbravar a arte contemporânea, a inserir-se nas instalações artísticas. Ou seja, temos vídeo, foto, arte … Agnès Varda era tudo isso. Todos esses temas.

Portanto, 11 anos depois de “Les Plages d'Agnes", este seria o definitivo filme do seu legado?

Legado é uma palavra que não aprecio, mas o filme dá-nos as ferramentas para entendermos ainda mais o Cinema.

Quer dizer que “Varda per Agnès” é mais que um tributo e, sim, um filme sobre o Cinema.

Sim, como o Cinema funciona. Ela estava interessada em três palavras – inspiração, criação e partilha – e esse trio é misturável. Porém, é através dessas palavras que Varda pôde ser a realizadora diversificada que sempre foi. Atenção, ela nunca se repetia, facilmente conseguia partir do documentário para a ficção e de seguida para uma curta, sem replicar a narrativa. Mas o mais importante de tudo isso era a facilidade com que ela era capaz de falar sobre o seu trabalho. Sabes uma coisa, daqui a um ano ou dois, ou mais, continuarão a fazer documentários sobre ela. Repito, Agnès Varda dava-nos as pistas necessárias para desvendar o seu Cinema.

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Rosalie Varda e Agnès Varda

Mesmo nos últimos anos, Agnès Varda mantinha um olhar jovem, mesmo abordando os seus filmes mais antigos, ao mesmo tempo que adquiriu a maturidade para falar deles melhor do que na altura que os fizera. Acredito que este foi o momento perfeito para decifrar o seu “La Pointe-Courte”, bem mais precisa do que quando estava a filmá-lo, porque ela experienciou a Vida. Como qualquer pessoa que ao longo dos anos solidifica a sua perspetiva em relação a um tema que tão bem conhece. Acima de tudo, “Varda per Agnès” exibe energia criativa que reflete nas pessoas dando-lhes o desejo de ver e pensar.

Foi uma honra produzir os filmes da sua mãe?

Sempre fomos boas parceiras. Eu tentava protegê-la acima de tudo e ela protegia-me. A nossa relação era muito boa, diria mesmo, facilmente boa. É curioso que, ao contrário de muitos outros realizadores do seu tempo, o público de Varda era maioritariamente jovem. Como explica este fenómeno? Diria mais uma referência. As audiências jovens tem interesse nela e nos seus filmes porque ela era livre. Varda tinha liberdade, nunca cedeu à publicidade, à grande indústria, manteve-se sempre no limiar disso tudo.

Os jovens, por sua vez, adquirem a sensação de que a compreendiam perfeitamente. Nunca a encararam como uma “velha” a falar dos seus filmes, mas sim uma artista, uma cineasta. Nunca sentiram que Varda fosse geracionalmente distante para partilhar alguma coisa. Os jovens querem extrair dela todo o conhecimento.

Recordo que numa entrevista, você expressou que não sentiu que fosse a sua mãe a partir, mas uma “figura pública”.

Sim, quando morreu Agnès Varda senti que morreu uma figura pública. As pessoas vinham ter comigo e davam-me os pêsames e diziam-me o quanto “gostavam de Agnès“. Mas eles só conheciam a sua Agnès, a empática artista, não a minha. Por algum tempo senti que a minha mãe não morreu, mas sim outra pessoa, uma artista, alguém diferente.

Mas consegue separar essas duas figuras?

Sim, eu consigo separar o trabalho dela com a minha mãe. Não é a mesma coisa.

O filme foi apresentado pela própria Agnès Varda em Berlim este ano. Acha que “Varda per Agnès” alterou, inconscientemente, o seu tom?

Pelo facto de ela não estar cá?

Sim.

Não, os artistas são luxo, mas a arte está viva. Varda morreu em março e mesmo assim olhamos para o filme e ele não está morto, está sim vivo. “It’s Alive!

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Jane B. par Agnès V. (1988)

Antes de virar produtora, trabalhou na área da figuração …

Sim, trabalhei como figurinista por mais de 20 anos. Trabalhei com Varda, com Jacques Demy e muito mais gente, em espetáculos de dança e óperas. Depois dessa experiência adquirida cheguei ao pé de Agnès e disse: “Quero trabalhar contigo” [risos]. Ela respondeu: “Sim. Sim, boa“. E foi então que viramos parceiras.

O seu primeiro trabalho de produção foi com a primeira longa-metragem do seu irmão Mathieus Demy, O Americano. Sente-se que de certa forma tem que proteger a sua família?

Sim, exato. Todos os meus filmes são as minhas crianças. Eu tenho uma grande família. Mas sim, enquanto produtora sinto-me na obrigação de proteger todos esses meus projetos, como tenho o dever de proteger todos os filmes da minha mãe. Tenho que proteger o “Cléo de 5 à 7”. Tenho que proteger “Le Bonheur, etc. É interessante porque preocupo-me com a educação, batalho por ela. E a educação não é só Televisão, é também Cinema. Por isso é meu dever levar as pessoas para o Cinema.

Não querendo mencionar a palavra Legado [risos], mas como está responsável pelo espólio de Agnès Varda, será que iremos contar no futuro com projetos nunca concretizados pela mesma? Talvez guiões inéditos…

Eu não sei, não é o melhor dia para falar disso. Sabes, de momento estamos a tentar reunir tudo e … temos muita coisa. Por isso, quer dizer, este não é o tema de agora. O tema de agora é reunir tudo nos nossos arquivos. E temos muito.

Provavelmente já lhe perguntaram isto imensas vezes após a morte da sua mãe, mas tendo em conta aquilo que vimos no final de “Visages Villages”, qual é a sua opinião sobre as palavras de Jean-Luc Godard sobre a sua mãe, dias depois do seu falecimento?

Ele disse alguma coisa?

Disse que ela era das “uma das melhores” …

Ele apenas enviou-me uma pequena colagem. Eu não ouvi nada.

Uma Varda lágrima

Hugo Gomes, 03.10.19

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Até há data só houve três mulheres do Cinema que me fizeram chorar!

A primeira, aconteceu em Cannes de 2018, no Theater DeBussy, quando após a transmissão do excerto de Pierrot le Fou - “Pourquoi t’as l’air triste?” / “Parce que tu me parles avec des mots, et moi je te regarde avec des sentiments” – fomos levados diretamente ao rosto lavada em lágrimas de Anna Karina que se encontrava timidamente no meio do público. A outrora bela face da Nouvelle Vague já não apresentava mais aquela jovialidade e vitalidade que paralelizava com um cinema que emergia sob novas ideias e sobretudo novos dispositivos narrativos. Era agora uma cara envelhecida. Anna Karina confrontava com as recordações dos seus tempos áureos, e nós, espectadores fomos empurrados para esse mesmo saudosismo.

A segunda ocorreu no dia 27 de janeiro de 2017, ao rever Hiroshima Mon Amour depois de ter sido noticiado com a morte de Emmanuelle Riva. Segundo consta, ela nada sabia sobre a tragédia de Hiroxima e portanto nós também não.

A terceira deu-se novamente em Cannes, em 2017, sentadinho no meu banco aguardava um eventual e esperado reencontro. Recordo de ver Agnès Varda dirigindo-se alegremente, quase a saltitar, para a casa de Jean-Luc Godard. Contudo, a promessa não foi cumprida, na porta encontrava-se um recado, o realizador de Pierrot le Fou e Vivre sa Vie não estava disposto a recordar os velhos tempos. Varda, a sempre alegre “piolha” não consegue esconder a sua desilusão, uma lágrima solta-se e corre pela sua face. Um momento duro, mas de uma sinceridade que dificilmente poderia ser falseada. Visages Villages foi essa emenda.

Com isto para dizer que ao ver novamente Varda no documentário-legado e certa forma, autobiografado, em Varda por Agnès, é de um triste consolo. A sua energia, criatividade, expressividade e sabedoria, Agnès Varda era uma artista, não de palmo e meio, mas de corpo inteiro, e sobretudo de um humanismo único. Vê-la, ou direi corretamente, revê-la no grande ecrã numa espécie de retrato a nu, porém, de uma nudez controlada pela própria, foi uma das experiências mais emocionantes deste ano no Cinema.

Ficamos sem Varda. Longa Vida a Agnès.

"Chegamos ao Lugar!" Arranca 3ª edição do Close-Up

Hugo Gomes, 12.10.18

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Florida Project (Sean Baker, 2017)

A memória levou-nos à viagem, e em consequência disso, guiou-nos ao Lugar. Mas qual lugar? O Cinema encaminha-nos para espaços, não-lugares, cenários, etapas que resumem a leitmotiv cénicos. Neste terceiro episódio de Close-up: Observatório de Cinema, prosseguimos na jornada de desestruturação do Cinema propriamente dito. De que matéria é feita? Para onde segue? Quais as suas convergências e divergências? Com o Lugar, tema desta nova edição, chegamos, não ao destino, mas possivelmente a uma nova partida.

A decorrer entre os dias 13 a 20 de outubro, Close-up tem convertido num seminal evento em aproximação daquilo que chamamos de ano cinematográfico em revista, sem com isso reduzi-lo a um catálogo de estreias recentes repostas, mas um núcleo de temáticas e capítulos no nosso encaminhar cinéfilo. Prova disso, é a abertura oficializada com a projeção de “Lobos”, o grande trabalho de Rino Lupo, realizador italiano que na sua passagem em Portugal inseriu todo um novo olhar cinematográfico. A sessão será acompanhada por Paulo Furtado, o Legendary Tigerman, uma autêntica ousadia em cruzar a História de um passado remoto com os acordes atualizados do músico. Como encerramento, outro clássico e cruzamento, “Sherlock Holmes Jr.”, o qual Buster Keaton irá adquirir novo fôlego ao som de Noiserv.

Neste terceiro tomo há espaço para novas rubricas, o Café Kiarostami será inaugurado, uma mesa-redonda onde convidados de diferentes sectores do Cinema (realizadores, investigadores e críticos) reunirão para debater sobre os variados cantos e recantos da Sétima Arte. Contudo, serão os filmes, as verdadeiras estrelas destes sete dias rodeados de Cinema e a sua respectiva vénia.

Este ano, alguns dos destaques evidentes será a apresentação de “Cabaret Maxime” pelo próprio realizador, Bruno De Almeida. Possivelmente o melhor exemplo de Lugar neste espaço, um filme em que o cineasta transforma uma Lisboa noturna e soturna em “nenhures”, um território imaginário e igualmente real. A guerra entre cabarés é só o pico do iceberg, que é constituído pelas reposições de “Isle of Dogs”, de Wes Anderson (novamente frisando o “não-lugar”, neste caso inserido num Japão neofeudal e industrial), “Ramiro” de Manuel Mozos, a Lisboa saudosista e melancolizada no qual é embebido o espírito do homónimo protagonista e um dos grandes filmes do ano - “Florida Project”, de Sean Baker - um oásis situado nas fronteiras da Disneyland. Todas as sessões contarão com participações de personalidades ligadas ao Cinema, que debaterão com o público, a questão de espaço e lugar na compostura cinematográfica.

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Sansho, The Bailiff (Kenji Mizoguchi, 1954)

Apesar dos lugares serem vários e indeterminados, existe um específico que promete ser paragem obrigatória neste evento – a América Latina. O Close-Up irá exibir um leque de filmes recentes das diversas cinematografias latino-americanas, passando pela esplendorosa escuridão das minas bolivianas de “Viejo Calavera”, de Kiro Russo, pelos paraísos perdidos das promessas nucleares em “La Obra del Siglo”, de Carlos Machado Quintela, e as fantasmagóricas selvas em busca de Vicuña Porto em “Zama”, a mais recente longa-metragem de Lucrecia Martel.

Mas a História (H grande aplica-se) é também ele um lugar de obrigatória paragem, dando continuação à rubrica, este ano Close-Up aprofunda no Japão assombrado de Kenji Mizoguchi, projetando quatro das suas principais obras (“Sansho, The Bailiff”, “The Crucified Lovers”, “Ugetsu” e “The Street of Shame”). A lição de História passará pelos influenciados, e precisamente os portugueses que espelharam esses signos mizoguchianos nas suas respectivas filmografias. Nesse leque poderemos contar com Pedro Costa (“O Sangue”), Paulo Rocha (“Mudar de Vida”) e João Pedro Rodrigues (com a curta documental, “Allegoria Della Prudenza'').

Já na secção Fantasia Lusitana, serão destacados Diogo Costa Amarante, vencedor do Urso de Ouro da Curta-Metragem no 67º Festival de Berlim e visto como um dos mais promissores nomes da cinematografia portuguesa, e Mário Macedo, jovem realizador que também tem feito um premiado e igualmente promissor percurso em festivais. Ambos realizadores serão frutos de retrospectiva (no caso de Macedo, haverá estreia absoluta de um novo trabalho). Como anexo deste espaço, Diogo Costa Amarante teve direito a Carta Branca e a sua escolha recaiu na obra de Agnès Varda, “Vagabond” (1985).

Close-Up ocorrerá, como é habitual, na Casa de Artes de Vila Nova de Famalicão. Por entre o Cinema e os debates, ainda haverá “lugar” para a Exposição Fotográfica e de Vídeo de Ana Cidade Guimarães e Virgílio Ferreira intitulado de A Natureza do Lugar e o Lugar da Natureza.