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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Godzilla vs . Kong: O lamento do espétaculo em sala

Hugo Gomes, 07.05.21

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Quando a Pandemia ameaçou as salas de cinema, espalhando o pânico e o medo de regressar à sua devida “normalidade” (rituais quotidianos era substituídos por outros), a grande indústria – Hollywood – depositava crença em Christopher Nolan, o seu São Sebastião, para demover os espectadores a “migrar” para o seu habitat natural. O filme – “Tenet” – não era o herói que necessitávamos, nem o que acabaríamos eventualmente por pedir, arrecadando mais de 300 milhões em todo o mundo, uma quantia insuficiente tendo em conta os custos da sua produção.

Esta receção levou com que outros estúdios adiassem, ainda mais, as suas apostas milionárias e noutros casos, como a Disney, “espetassem” as suas antecipadas produções nas plataformas de streaming. Perante a “má figura” feita por “Tenet”, a Warner Bros tomou uma decisão pecaminosa de estrear os seus blockbusters num modelo simultâneo, em sala e streaming [HBO Max], um pacote que incluiria as chamativas adaptações da DC, a nova autoria de Clint Eastwood [“Cry Macho”] e um combate colossal em CGI intitulado de “Godzilla Vs. Kong”.

Ironicamente seria a “macacada total” do “rematch” de 1963 (“King Kong vs. Godzilla”, de Ishirô Honda e Tom Montgomery) a colocar alguma esperança no retorno das salas de projeção, somando até à data mais de 415 milhões dólares em todo o Mundo (incluindo um valor agradável em território chinês o que por si só deixou executivos de Hollywood felizes). Se é certo que o trabalho de tarefeiro de Adam Wingard (realizador o qual tecíamos alguma atenção desde os seus bem esgalhados ensaios de género - “You’re Next” e “The Guest”) oferece-nos somente aquilo que nos havia prometido – o mundo como ringue de boxe para duas criaturas tecnológicas – é de temer que seja objetos primários como estes a reconquistar o público na sua retoma aos cinemas em resiliência.

Será que o cinema-espetáculo está confinado à anorexia CGI, onde um símio gigantesco detém mais Humanidade do que as suas passageiras personagens humanas e de um guião, que apesar de ter sido escrito por mais que dois argumentistas, é de uma infantilidade atroz? Para muitos, a resposta concentra-se na somente definição de “blockbuster”, o divertimento para massas que em certa parte toma a crítica como refém (há que cativar a indústria ao invés de refletir sobre as mudanças de “consumo” do qual estamos a testemunhar). Mas essas desculpas baratas e padronizadas não são suficientes.

Se em época de streamings e as suas respetivas produções em massa, o espectador caseiro tem-se tornado cada vez mais exigente e paliativo, porquê em grande tela restringirmos ao efeito visual, ao pirotécnico e à linguagem básica que envergonha qualquer guionista? “Godzilla vs. Kong” pode ser um sucesso improvável em momentos necessários, mas nós merecemos mais e melhor.