Data
Título
Take
31.7.18

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Exercícios de ação!

 

Da História desta saga com mais duas décadas de existência (sem contar com a longevidade da série original o qual se inspirou), Christopher McQuarrie torna-se no único realizador a repetir a posse da batuta. Curiosamente, tendo em vista o anterior Rogue Nation, este Fallout (incrível como não houve tradução português do subtítulo) é um aprumo das revisitações. Ou seja, a experiência cometida com o quinto filme espelha-se como uma aprendizagem neste igualmente megalómano filão globalizado. Aliás, sejamos sinceros, Mission: Impossible é o exemplo de caricatura dos modelos hollywoodescos.

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Mas vamos por partes, o absurdismo adquirido em todo este período produtivo implante no próprio registo de Fallout. Há uma sensação de autoparódia. Existe um reconhecimento do ridículo culminado pelos elementos que forçam esta quimera de sequências de ação e até mesmo dos momentos dos lugares-comuns que pontuam em cada um dos capítulos. E McQuarrie fá-lo sem os estapafúrdios de John Woo e o seu infame segundo capitulo (sublinha-se, hoje visto como um produto do seu tempo). E nessas doseadas secreções de humor discreto e jubilante regista-se a grandiosa marca autoral hollywoodeana, hoje esquecida perante a dominância e facilitismo do CGI – os stunts.

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Deparamos então com um concerto de acrobacias, um jogo sem fronteiras cujo único concorrente é Tom Cruise, que endereça a maior percentagem destes “duelos entre a vida e morte” (a sua lesão nas rodagens serviu automaticamente como marketing). Desde as escaladas vertiginosas, as quedas voluntárias e coreograficamente programadas, sim, Fallout vence por todo esse espetáculo old school, pela restauração da nossa crença numa Hollywood arriscada e analógica (pelo menos utilizando o mínimo possível de CGI na ação gratificante).

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Entenda-se que do exercício de ação vertiginosa e frenética, Mission: Impossible não se ficou na sombra perante o valor de tais atributos técnicos e tacticistas. Christopher McQuarrie trabalhou sobretudo para interligar tais momentos através de uma rede de camadas, o qual constitui o guião, sempre pronto para relembrar os feitos passados da fasquia como um utopia abastada. Sim, o argumento tende acima de tudo induzir-se no espirito quer da saga, quer do simbolismo da mesma. A tendência de ilusão tão presente no eterno jogo de máscaras é aludida nesta trama que cruza a espionagem e a sua contraespionagem. Fallout é um exemplo de filme espião-duplo, incentivado, sobretudo, a induzir o espectador em erro em prol doutra ilusão.

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Falamos a verdade, Christopher McQuarrie concretizou um bem esgalhado enredo sem nunca perder o apetite pelo absurdismo nem da omnipresença do subgénero de espiões. E já que falamos de experiências, Mission: Impossible tem separado gradualmente da sua postura “ressaca James Bond”, focando inclusive na grande fraqueza / marca das aventuras de 007, as mulheres. Fallout não inventa nesse sentido, mas demonstra a relevância do sexo feminino na ação, sem nunca desbravar os clichés e as associações fáceis. Como anexo a essa tendência, o regresso da formidável Rebeca Ferguson ao mais solido papel anti-Bond Girl do recente cinema hollywoodeano.

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Nada que realmente envergonhe a indústria e muito mais a evolução desta, Tom Cruise autorreconhece-se como um dos grandes do género sem nunca conduzir-se no arquétipo “one-army man”, nem mesmo ceder às fragilidades “millennials”. É de momento um dos apogeus das acrobacias cinematográficas, que não se via desde Mad Max: Fury Road (sim, esta declaração soa quase a cliché!). Por agora deixo o aviso: esta crítica vai se autodestruir em 5 segundos. 5 … 4 … 3 … 2 … 1 …

 

Real.: Christopher McQuarrie / Int.: Tom Cruise, Ving Rhames, Henry Cavill, Rebecca Ferguson, Simon Pegg, Angela Bassett, Alec Baldwin, Sean Harris, Vanessa Kirby, Wes Bentley, Liang Yang

 

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7/10
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publicado por Hugo Gomes às 20:26
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27.6.18

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Soldados de Fronteira!

 

Com Denis Villeneuve de fora, sem Emily Blunt e Jóhann Jóhannsson (este último por motivos fatídicos), a sequela de Sicario avança entre nós com algum ceticismo. Contudo, vale a pena salientar que este Day of the Soldado segue o mesmo registo acinzentado do original. Sublinhando mais uma vez - demasiado cinzento – inclusive para os nossos dias, cuja consciência politica parece ter atingido tamanha sensibilidade.

 

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O italiano Stefano Sollima é o novo mestre do leme, trocando uma guerra, anteriormente a máfia “cefalópode” em Suburra e na série Gomorra por um outro palco bélico -  o verdadeiro confronto armado oriundo do outro lado da fronteira - aproveitando com beneficio toda a situação que se vive desta crise de migração ilegal mexicana e dos constantes escândalos fronteiriços da administração Trump. Mas vamos por partes quanto ao dito tom cinza neste prometido thriller de ação.

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A primeira sequência tem de tudo para agradar uma certa fantasia trumpista, os terroristas islâmicos vindos da rota dos bad hombres e toda a consciência de um perigo real que cerca a tão “agraciada” América. Sim, é uma pertinência de ideias políticas bastante à direita, ou republicana tendo contexto o universo politico norte-americano, é o mediatismo, o medo real ou irracional perante uma aproximação globalizada graças aos medias e a “cachoeira informativa” o qual deparamos constantemente. Através desse “cavalo de Tróia” que arrasa os valores democratas, Sicario circula para uma outra via, a da militarização, percorrendo os bastidores; um desencantado Doutor Estranho Amor que vai “contagiando” o medo maniqueísta criado até então. Os “heroicos” americanos convertem-se nos verdadeiros catalisadores, sob o desejo de um mundo aos seus pés e de uma guerra iminente, incentivada por interesses políticos.

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Sollima filma todo o percurso, uma não-discreta “invasão”, como se um filme de guerra tratasse, tão próximo daqueles exemplares decorridos no Golfo Pérsico ou das outras e inúmeras variações em solo árabes. Sim, já perceberam, Sicario é, em generalizada designação, um filme de guerra. O Soldado do titulo resume-se às soluções projetadas para um termino de um conflito imaginário, a Guerra como plano final como se materializa-se no popularizado provérbio de “combatendo o fogo com fogo”. O realizador responde com confiança ao lugar deixado por Villeneuve (digam o que dizer, Sicario era o seu melhor filme), de mão firme nas sequências de ação e dos muitos zenits filmados com a graciosidade dos drones (a inovação e a possibilidade destes mesmo planos graças a este tipo de tecnológica). A realização, é sim, adaptativa ao maneirismos do original, porém, falta-lhe o toque à Michael Mann que o filme de 2015 concretizava com aprumo (mais Mann que muitos filmes do próprio Mann, como verificamos na pertinente cena do trânsito), e à banda sonora da autoria de Hildur Guðnadóttir, a ferocidade monstruosa de Jóhann Jóhannsson.

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Day of the Soldado é assim uma continuação esforçada em acompanhar o ritmo estabelecido, tecendo as diferentes ideologias em prol de um realismo teorizado, impondo questões e nunca respostas substantificadas. Se o inicio é pura urticária a democratas, com os reflexos das últimas demências de Eastwood, já o final encontra essa consolidação politica, desde uma emotividade pedagógica que amolece as personagens, passando por momentos finais tenebrosos, negros e repescados a uma ambiguidade sem igual. Sollima passou o teste de Hollywood, é lúcido que baste e com isso mexe e remexe no argumento de Taylor Sheridan (que vem provando ser melhor guionista que realizador) com bravura e energia.

 

“So, you want to be a Sicario. Let’s talk about your future.”

 

Real.: Stefano Sollima / Int.: Benicio Del Toro, Josh Brolin, Isabela Moner, Catherine Keener, Jeffrey Donovan

 

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7/10
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publicado por Hugo Gomes às 17:10
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15.5.18

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Um Homem em Fúria!

 

Fora as questão de cinematografia, convém referir que nos anos 90, e não há tanto tempo assim, Spike Lee era visto como uma espécie de caricatura de um certo fundamentalismo afro-americano, nesse sentido, um filme como Malcolm X correspondia com exatidão à sua natureza. Com a passagem para o novo século, Lee foi de certa forma ostracizado pela indústria, como tal, tentou integrar-se perante projetos fora das suas amenas águas. Filmes como Inside Man e até mesmo o esquecível remake de Oldboy eram encarados como tarefas de subsistência perante uma Hollywood que definitivamente o desprezava. Não somente a sua figura, mas como evidenciava um inerente racismo e colonialismo no seio desta “utopia cinematográfica”. A América, porém, não mudou em paralelo com o circuito de Lee, apenas revelou os seus demónios interiores, sendo que, tendo em conta os tempos que vivemos, sentimos na obrigação de pedir clemência ao realizador, que se assumiria não mais, nem menos, que um subestimado messias sociopolítico.

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Em BlacKkKlansman, Spike Lee subverte o caso real de Ron Stallworth (um detetive afro-americano que infiltra-se na sede do Klux Klux Klan, em plena década de 70) para abordar uma América de hoje, sob os enfeites dos movimentos trumpistas e da expansão extrema-direita. O filme soa a projeto antigo, com o cineasta a indiciar força de vontade para espelhar os seus profundos dilemas, entre os quais a repugnância por The Birth of a Nation, de D.W. Griffith, e pelo retrato exposto em outro clássico norte-americano, Gone with the Wind. Como sabem, Spike Lee sempre fora um apoiante à censura do incontornável filme de Griffith (incontornável no sentido da História Técnica e Narrativa do Cinema), sendo que nos seus anos enquanto estudante de Cinema protestava incendiariamente à inclusão da obra nessa História centenária. Como trabalho de graduação, Lee respondeu, literalmente, com The Answer (1980), onde transformou o filme com mais de três horas de duração numa metragem de 10 minutos.

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E desse ‘Answer prolongado em toda a sua obra (mesmo as ditas contas industriais que se resistiam aos seus dilemas) chegamos a BlacKkKlansman, o qual somos correspondidos, por fim, ao seu ácido e por vezes urgente ativismo. Em tempos que filmes politizados à direita se convertem em êxitos sem precedentes (de American Sniper a quase tudo composto por Berg / Wahlberg), uma obra inteirada nas questões raciais e sociopolíticas que evadem todo um sistema bajulador da bandeira estrelada, assume-se, como diria os yankees, num must-see.

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Mesmo sob um humor matreiro a ser confundido com os tons coenescos (por aqui aposta-se influência de Jordan Peele, realizador de Get Out reivindica a produção deste BlacKkKlansman), deparamos com um Spike Lee em estado de fúria, libertador do seu enclausuramento cinematográfico o qual encontra neste curioso ficheiro policial um pretexto para prosseguir o seu discurso. É sim, um filme de demagogia politica centrada no seu alvo, visto que o realizador nunca exerce de maneira igualitária os mesmos julgamentos perante organizações tão opostas e igualmente propagadoras de ódio (os Black Panthers de um lado, a terem como punição um sermão ao de leve, e os Klux Klux Klan a ser ridicularizados … sublinha-se … deliciosamente ridicularizados). Esta desigualdade é tão própria de Spike Lee, mas assumimos BlacKkKlansman como um filme do seu tempo (precisamente o nosso), cujo objetivo principal requer toda a nossa e merecida atenção.

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Mas é nesses signos de The Answer, que o filme tende por vezes cair num discurso incansavelmente reacionário, e propicio à imagem dos mais recentes movimentos que anseiam apagar obras inteiras perante o seu conteúdo temático. The Birth of a Nation, é assim, a vitima da fúria de Lee, despachada para novas gerações como um somente “filme inconsequente e irresponsável” da História cinematográfica, ao invés de salientar a sua importância na linguagem da mesma. É óbvio que datado como se encontra, a obra de Griffith é uma tenebrosa e indigesta visão de um Mundo fabulista, idealizado por alguns loucos (e não são poucos), mas sem a existência desta controversa peça não existiria, estruturalmente, este BlacKkKlansman. Talvez estejamos a cair em conversas de sensibilidades puras ao invés de construímos uma consciência exata e racional. Contudo, o debate de obra acima do autor / conteúdo tem mais que se diga e não iremos centra-nos nestas questões perante um filme como este. BlacKkKlansman encontra firmeza nas suas palavras e atos, é uma produção vingativa, mas sabiamente vingativa que se reencontra constantemente. E por mais defeitos que possamos apontar a Spike Lee, nunca iremos acusá-lo de incoerência nesse mesmo discurso.

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O realizador regressa naquilo que poderemos afirmar como um dos seus melhores trabalhos dos últimos anos, conseguindo reunir um elenco capaz e vigorosamente carismático (desde o achado que é John David Washington, filho de Denzel Washington, até ao caricatural Topher Grace na pele do infame David Duke) e providenciando momentos de um cinema estruturado e tecnicamente expressivo (a reunião com os Black Panthers revela-se num onirismo aludido e metaforizado). Confirma-se, Spike Lee continua a demonstrar sangue na guelra.

 

Filme visualizado no 71º Festival de Cannes

 

Real.: Spike Lee / Int.: John David Washington, Adam Driver, Laura Harrier, Topher Grace, Alec Baldwin, Steve Buscemi, Robert John Burke

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 16:39
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29.3.18

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A essência da verdade!

 

O nome de Koreeda transporta-nos diretamente para um termo saudosista da memória do cinema deixado por Ozu, sendo que Still Walking (2008) foi a sua grande consolidação com estes efeitos de legado. Contudo, um objeto como The Third Murder (O Terceiro Assassinato) representa uma espécie de rebelião, uma tendência atípica de descartar as associações do seu nome até então. O que nos é apresentado é um filme de tribunal, com um prefixo de thriller de investigação extremamente sereno e paciente para com a sua própria astucia, brincando sobretudo com a semiótica das suas situações. Poderia ser um prolongado jogo de dedução, mas Koreeda brinca a outro “santo japonês”, Akira Kurosawa, não no sentido épico shakespeariano que mais uma vez é associado, mas à sua obra Rashomon e as bifurcações da chamada verdade, se é que existe essa presunção “totalitarista” que é isso mesmo … a verdade.

 

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Tal como a obra de 1950, onde um julgamento constitui uma narrativa encadeada por relatos, quer os flahsbacks pelo qual são constituídos, ou o relato principal que transforma o próprio tribunal num integrado flashback, O Terceiro Assassinato joga com as questões e como elas se confrontam com a realidade jurídica (mais uma vez, realidade, a servir de dilema). O que é a verdade? Ou a verdade para existir deve ser acreditada? Ou defendida? Não esperamos respostas, até porque, tendo como espelho o próprio decorrer do julgamento, Koreeda é engenhoso na implementação dessas mesmas dúvidas, nos debates que poderão ser formados nas “caixas de vidro” que são agora confessionários improvisados. Aliás, os reflexos postos e sobrepostos aludem à própria natureza desta ficção que busca, apesar de tudo, um só propósito: o porquê da Pena de Morte? Assim como Orson Welles, ciente dos crimes cometidos pelos seus defendidos lançaria numa furtiva resposta ao direito da vida, mesmo esta condenada ao enclausuramento, em Compulsion (O Génio do Mal, 1959), Masaharu Fukuyama (que trabalhou com Koreeda em Tal Pai, Tal Filho) é encarregue de livrar o seu “assassino” da sentenciada morte, especificando através dessa ação os diferentes atos de matar.

 

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Em certo aspeto, O Terceiro Assassinato leva-nos a conhecer um outro sistema jurídico sem as ênfases orquestradas por episódios hollywoodescos. Uma obra curiosa que salienta uma versatilidade incomum num autor como Hirokazu Koreeda, pronto a deixar os seios familiares em prol de uma pertinente essência de verdade parcial e os caminhos traçados por essas divergências percetivas (assim como é metaforizado na sequência final, as encruzilhadas guiadas pelas nossas convicções).

 

Real.: Hirokazu Koreeda / Int.: Masaharu Fukuyama, Kôji Yakusho, Shinnosuke Mitsushima, Suzu Hirose

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 18:30
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18.3.18

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No covil do Diabo!

 

O nosso amor vem do Mundo que nascemos e daquele que integramos ao crescer”. É com esta tradução não literal das palavras proferidas por uma das personagens após testar o dito “gosto interpretativo” duma outra, o qual arranco este texto sobre a mais recente obra de Jean-Claude Brisseau. Como tal, enquadrarei esta mesma frase no sentido de que Brisseau, segundo as novas gerações, é um perverso voyeurista em busca do derradeiro orgasmo feminino. Assim se poderia resumir a sua célebre e, ao mesmo tempo infame, Trilogia Tabu (Coisas Secretas, Os Anjos Exterminadores, À Aventura), a esquecer com isto a sua faceta mais “primordial”, onde se realçava um furioso estado de espirito em prol do proletariado.

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Sim, o seu cinema tornou-se mais pessoal, para muitos, de produção artesanal e cada vez mais devedora aos “pecados” da Sétima Arte face à veia teatral (a reprodução de algo torna-se numa autenticação totalitária), e esse culminar originou “raparigas de parte nenhuma”, um tentador convite ao seu leito intimo, aquele apartamento preenchido por livros, DVDs e sobretudo coabitado por fantasmas, cenário e seus pertences reciclado neste Que o Diabo nos Carregue. Brisseau não se afasta da proposta indiciada no seu subliminarmente referido filme anterior, a pessoalidade continua lá, mas em jeito de pós-rendição, o dito voyeurismo centra-se uma vez mais como a psicanalise dos seios afetivos e amorosos, e quiçá, frente aos modelos estabelecidos da sexualidade.

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E por busca desta primeira e citada frase do texto, saliento o conceito que amamos, o Amor que poderá nada ser mais que uma ideia na qual agarramo-nos fielmente. Talvez por isso que com tanta facilidade são proclamadas juras de amor, o “amo-te” vulgarizado como uma salvação desesperada dos nossos espíritos aqui neste “filme do Diabo”. Assim como Clara (Anna Sigalevitch) propõe ao desconhecido, Fabrice (Fabrice Deville), um homem doente dessas mesmas paixões fabricadas, uma terapia afetiva: “foca-te em mim, nos meus olhos, nos meus seios, nas minhas coxas”. Esta substituição de uma imagem por outra, onde a representação se mantêm intacta, nos evidencia que amamos não apenas as pessoas, mas a sensação de sermos amados, glorificados e sobretudo acarinhados. Assim nascem “amores platónicos”, induzidos somente pela imagem, pela estética, pelas formas, pelo ícone sustentado pelas ideias impostas pela sociedade vivente (eis aqui o eco da frase inicial). Em contraponto, a obsessão de Fabrice, Suzy (Isabelle Prim), tenta preencher o seu vazio existencial através do apelo a forças metafisicas.

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Sim, no seio de toda esta desventura sexual-amorosa, evidencia-se uma pertinente superação das ideias feitas e simultaneamente a subjugação dessas mesmas. São invocações que nos levam a conferir Que le Diable Nous Emporte como um filme teorizado. À imagem das suas últimas obras, Jean-Claude Brisseau constrói filmes-teses, e através desse corpus de estudo alicerça uma panóplia de narrativas em composição de uma mesma elucidação. Mesmo não possuindo a bravura da pessoalidade transmitida em La Fille de Nulle Part (A Rapariga de Parte Nenhuma), essa suplicação filmada (tendo em contexto o julgamento e condenação de Brisseau em 2005 e 2006 face às acusações de assédio sexual), Que Le Diable nous Emporte opera como um vórtice referencial. Uma reutilização que nos faz pensar e repensar a ideia de Cinema, longe do virtuosismo e sobretudo perto das fronteiras da representação e da sugestão.

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É por detrás dessa perversão, esse masturbador laboratório de corpos nus e do faz-de-conta que nos arranca gargalhadas involuntárias (será?), a proposta utópica sentimental que se desdobra entre tempos, no qual deparamos uma infernal disposição de valores e ideologias, emoções e psicologias condensadas como o Diabo sabe tão bem fazer. Um filme inseguro apesar de tudo, que celebra o reencontro de velhas caras no Cinema de Brisseau (o regresso de Fabienne Babe desde De Bruit et de Fureur, de 1988), e as temáticas anexadas a este Universo tridimensional e imenso de fetichismos pessoais.

 

Real.: Jean-Claude Brisseau / Int.: Fabienne Babe, Isabelle Prim, Anna Sigalevitch, Fabrice Deville

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 18:21
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8.3.18

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“Minha dor é perceber

Que apesar de termos feito tudo o que fizemos

Ainda somos os mesmos e vivemos

Ainda somos os mesmos e vivemos

Como os nossos pais...”

 

Assim canta Elis Regina naquele seu êxito o qual partilha o mesmo titulo com esta nova obra de Laís Bodanzky (O Bicho de Sete Cabeças). Não é coincidência, a realizadora já veio a público assumir a presente referência, e com isso, é natural que as letras desta canção de 1976 (do álbum Falso Brilhante) adquiram uma certa cumplicidade a este drama no feminino. Como Nossos Pais [filme] é um ensaio interiorizado na validade do matrimónio, ou para irmos mais além, na “longevidade” do relacionamento, o que está por detrás da paixão, do entusiasmo e das jornadas ao conhecimento do nosso par. Longe das canções românticas, infantilizadas por um platonismo mortal que coabitaram o universo deixado por Regina, a obra de Laís Bodanzky forma um cerco que rodeia estas personagens enclausuradas no cansaço, enquanto espelha as rotinas dando solução às mesmas por saídas que não cedem, e até mesmo desafiam, o seio dos moralismos implantados, sobretudo por uma educação cristã.

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Aqui o objetivo não é julgar as opções de Rosa (Maria Ribeiro), a imagem da “super-mulher” moderna, em constante malabarismo com as facetas domésticas e o seu lado de profissionalismo, enquanto o seu marido dedica os dias num ativismo prolongado para salvar a Amazónia. É obvio que dentro deste cenário suscita-se uma reavaliação do contexto da Mulher no século XXI, e os discernimentos sociais estão presentes como denúncias silenciosas, mas Como Nossos Pais é um filme que se adapta à audiência, longe do género exposto, até porque existe uma Rosa em cada um de nós. O Amor (palavra sequentemente imperativa) torna-se não um sentimento, e sim um conceito imposto pela sociedade (será que amamos os mesmos conceitos, mais que as próprias pessoas?). A fidelidade é também questionada, hesitada, olhada como uma repreensão que trava os nossos devaneios. Os ditos escapes que surgem na outra margem.

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Sim, somos remetido a experiências sociais, enunciados que emitem lógicas a ser debatidas pós-visionamento, orquestrado por personagens que autodestroem os estereótipos alicerçados, assim como o maniqueísmo fatal dos chamados “panfletos feministas”. Longe disso, Como Nossos Pais revela-se num “playground” para os afetos. Segundo Bodanzky, da mesma forma que reproduz nos desejos da sua personagem-chave, a intenção do filme é arrancar onde a peça de Henrik Johan Ibsen, Casa de Bonecas, termina. O que fazer depois da declarada emancipação? O que surge depois da motivação de espirito? Uma cadência que vai atingindo numa narrativa episódica, endereçada a modelos ou exercícios de reflexão que funcionam como conflitos. Ou seja, este é um daqueles casos onde o conteúdo (a provocação deste) sobressai ao formato, que no seu todo se resume a um cinema “limpo” e tecnicamente previsível.

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Mas o Cinema não se faz apenas de formas, ele também comunica com o espectador. Aliás, “O Cinema é a arte do sensível”, salienta o filosofo francês Jacques Rancière, e Como Nossos Pais, não se revelando brilhante ou fundamental na História da Sétima Arte, embica nesse tremendo dialogo e sensibilidade.

 

Filme de abertura do 9º FESTin: Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa

 

Real.: Laís Bodanzky / Int.: Maria Ribeiro, Clarisse Abujamra, Antonia Baudouin, Herson Capri

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 18:04
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8.2.18

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Liverpool Boulevard …

 

Film Stars Don't Die in Liverpool pega nas memórias de Peter Turner, na altura do enredo, um ator de inicio de carreira que conhece por acaso, Gloria Grahame, a suposta vizinha do lado que na realidade foi em tempos um dos rostos reluzentes da grande indústria californiana. Ela tinha 50 anos, ele somente 26, mas nada impediu de viverem um romance que bem poderia imortalizar-se no grande ecrã sob o folego de um drama romântico, daqueles que apenas Hollywood era capaz de fazer. Contudo, esse mesmo mundo é hoje um escombro fragmentado e em constante confronto, sendo que temos a nosso dispor, como alternativa, uma produção britânica que aposta sobretudo na modéstia. Mas vamos por partes. Quando falamos em modéstias não referirmos simplesmente ao formato telefilme sob o selo de qualidade BBC, consequentemente às cinebiografias esquemáticas que surgem anualmente como bando de pombos em busca do seu prémio. Essa modéstia a que Film Stars’ remete é na singela ternura da sua história, sem nunca trespassá-la para questões mais filosóficas ou existencialistas. Mesmo assim, é um filme cuja sua modéstia não o impede de tentar ser narrativamente criativo, e aqui sublinho o tentar.

 

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Por entre uma narrativa que oscila por dois espaços temporais, o encontro e por fim o derradeiro reencontro, os flashbacks são integrados na ação decorrente. Desta forma a nossa memória cinéfila invoca-nos para a outro trabalho notável de costura entre as diferentes dimensões temporais, Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni, onde Jack Nicholson, numa muda de camisa à velocidade do panorama executado pela câmara, protagoniza a sua própria “memória”. Nesse sentido poderemos apelidar o filme de Paul McGuigan (do culto Acid House e do agora esquecido Lucky Number Slevin) como um descendente de quinta geração das experimentações "antonionianas", mas é certo que o seu esforço em tecer uma narrativa que não se joga ao comprido pelo básico academismo é de facto um esforço louvável.

 

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Entretanto, os dispositivos A a B e sucessivamente a C encontram-se lá, “rasteirinhos” e quietinhos, como manda a indústria atual. Porém, existe outro enriquecimento que não devemos esquecer – Annette Bening. Toda a memória hollywoodiana num só velcro. A atriz vai para além da personificação copista e encara esta oportunidade para executar um cocktail daquela Hollywood preservada, hoje encarada como um museu ambulante. Um afunilamento de idiossincrasias, gestos e presenças, que bem relembra-nos uma das frases de Charles Aznavour em Tirez sur le Pianiste de Truffaut (“Conheces uma, conheces todas”). Existe algo de Gloria Swanson nela, não apenas na partilha do nome próprio (é lógico!), mas na natureza Diva que nega o seu esquecimento, habitando na ilusão de um estrelato longínquo (alusão a Sunset Boulevard, a prestação mais célebre de Swanson). Obviamente, o filme passa o recado desse paralelo, ou a citada comparação, assim como as outras que diluem no desempenho de Bening. Uma Marylin Monroe "sob efeito de Schrödinger" (se a estrela de Some Like It Hot tivesse chegado aos cinquenta anos) e a uma aura de mistério conjugada digna de uma Laurel Bacall (Has anyone ever told you that you look like Lauren Bacall when you smoke? / Humphrey Bogart. And I didn't like it then either.).

 

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Sim, o filme tende em executar com uma prenunciadora astúcia e as memórias de Turner devem a isso, um tributo ao seu amor perdido, ao romance que transcendeu todos os ecrãs que projeta um legado de performances e estados naturais. Film Stars Don't Die in Liverpool é “pequeno cinema” preso no corpo de um protótipo de “pequena produção”. E devido a tais esforços, merecia melhor sorte que um somente derrotado desta "award season". Por fim, e como mera curiosidade, eis filme anexado a uma meta-dimensão, que nos transporta para o glamour desses tempos de “ouro”, ao mesmo tempo que lança farpas aos movimentos atuais e a hipocrisia político-social ligada à elite hollywoodesca. E faz tal apenas transmitindo a vitória de “verdadeira” Gloria Grahame na Gala dos Óscares. A sua vitória como secundária em The Bad and the Beautiful e o seu curtíssimo discurso, um “thank you” corrido, hoje seria visto como uma afronta ao pseudo-activismo mercantil de muitos dos vencedores das iguais estatuetas.

 

Real.: Paul McGuigan / Int.: Jamie Bell, Annette Bening, Julie Walters, Vanessa Redgrave, Stephen Graham

 

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7/10
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publicado por Hugo Gomes às 15:51
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4.2.18

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Ficcionando realidades …

 

Djon África é, em apenas um filme, o caminho inverso percorrido pelo Cinema de Pedro Costa, com Miguel Moreira, fiel colaborador da dupla João Miller Guerra e Filipa Reis, a nos servir  um Ventura. Contudo, apesar desta minha declaração, não se iludam em encontrar outros paralelos entre estes referidos cineastas. Aliás, seria preguiçoso cairmos em tais comparações como se porventura o cinema português fosse reduzido a dois, três ou quatros nomes. Mas uma coisa é certa, Djon África, a viagem de um cabo-verdiano radicado em Portugal, que parte numa busca às suas origens num país que nunca conheceu, mas que mesmo assim o vive culturalmente, é mais um registo docudrama, estilo que em Portugal sempre se soube fazer bem.

 

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É a realidade contagiada, ou a verdade encenada, para nos impor uma dimensão osciladora por entre essas visões. Miller Guerra e Reis não são novatos nesse mesmo universo, apesar desta ser a sua primeira longa-metragem - a dupla havia germinado desde então um “ecossistema” fiável por entre a sua filmografia. Personagens salteadas, o retrato de um país marginalizado que se esconde nas sombras, a identidade que se interpela por assuntos de caracter de inserção social, elementos, esses, invocados e fantasmagorizados nesta jornada existencialista e sobretudo etnográfica (muito graças ao argumento de Pedro Pinho).

 

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Miguel Moreira comporta-se como um ser fragmentado pela pessoa que é fora das câmaras e da personagem que veste a pele ocasionalmente, mas acima de tudo é um peão-guia para o espectador, e veículo emocional para os realizadores que trabalham tamanhos sentimentos instintivos como outra viagem para além horizonte (o actor nunca conhecera Cabo-Verde, a câmara capta essa surpresa, fascinação e experimentação). Talvez exista em todo este caso um filme sobre “retornados” e de uma cultura transcendente, mas nem sempre transladada (como a cultura cabo-verdiana persiste em vários bairros sociais portugueses), que nos convida mas que nunca nos conforta totalmente (o espectador é sempre tido como um turista em relação a esta “apropriação cultural”); Miguel, cuja ilegalidade não o faz verdadeiramente português e o seu desconhecimento não o faz cabo-verdiano, um sem pátria recusado pelas duas margens, e que mais cedo ou mais tarde sucumbe numa existencial “prisão invisível”.

 

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Um efeito xamânico que apodera-se da narrativa, transformando o filme, que vai perdendo gradualmente a sua vertente documental, da mesma forma que Miguel se converte integralmente numa personagem fictícia (tendo em conta o que deparamos no cinema de Pedro Costa, Cabo Verde continua a reservar os seus “fantasmas”). “Eu conheço o meu pai. Eu sou o meu pai”, a frase proclamada que define todo o rumo de Djon África, simultaneamente, a trajectória do cinema de Miller Guerra e Reis, o ensaio social que vai adquirido o seu gosto pela “farsa”, a ficção como espelho do seu cinema. Quanto ao resto … fica ao critério do espectador.

 

Filme visualizado no âmbito do 47º Festival Internacional de Roterdão

 

Real.: João Miller Guerra e Filipa Reis / Int.: Miguel Moreira, Isabel Cardoso

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 00:10
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3.1.18

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A violência como estado de alma!

 

Três cartazes são implantados à beira de uma estrada para nenhures com o objetivo de desafiar as autoridades de uma cidade local. Cidade, essa, assombrada por um misterioso rapto e violação que terminou em tragédia para uma adolescente. O alvoroço desses placares é simultaneamente instalado nos habitantes dessa mesma localidade, cada um deles se colocando na posição dos agentes, liderados pelo carismático Xerife Willoughby, ou do outro lado, em minoria, pela mãe da vitima, e autora dos badalados “três cartazes à beira da estrada”.

 

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Eis um novo trabalho de Martin McDonagh enquanto realizador e argumentista, convocando mais um ensaio de violência, nesse caso emanando um caos silencioso (talvez recorrendo ao lugar-comum da avaliação de obras americanas atuais), um retrato de uma América sufocada pela sua mesma agressividade. Não é a Trumplândia que se tornou habitual abordar, mas a consolidação de um país imaginário, a dita Terra de Oportunidades de Tio Sam, espelhada como um território de morte e de condenados. São misfits, personagens puramente idolatradas pela violência do seu meio, esquecidas pelo regulamento do maniqueísmo fácil.

 

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Three Billboards Outside Ebbing, Missouri remexe nesse leque de personagens. McDonagh aprendeu truques fáceis de escrita coenesca para persuadir e iludir o espectador neste seu ecossistema, principalmente na descartabilidade das figuras de fácil amor, erradicando a compaixão e desafiando-o a posicionar a favor daqueles que tudo menos fazem para conquistar-nos. Assim, como na vida real, nem todos os seres merecem a nossa comiseração, McDonagh reincide numa comunidade para esse mesmo feito. Porém, a violência transmitida na sua filmografia leva-nos a uma obra que cede facilmente a esse atos de primitividade. Em certo jeito, é como se fossemos transportados para a década de 70 no auge das missões de Dirty Harry e os seus métodos radicais. Os punhos que “calam políticos” e as balas que “exterminam” criminosos. Em Three Billboards Outside Ebbing, Missouri deparamos com a mesma natureza, a crueldade reina em todo o seu esplendor, porém, nunca somos realmente envolvidos numa catarse, numa reflexão desses mesmos atos, ao invés disso numa prolongada cumplicidade.

 

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O final é perverso nessa mesma imperatividade, onde alianças forjam em prol de um ativismo brutalizado e determinado. Mas para as boas graças de McDonagh, a sua nova criação é um portento argumentativo invejável, mesmo que as temáticas estejam em desencontro com a ideia do público, estas são indiciadas pelo bem da escrita e pela confiança nestas personagens que são insuflados com vida por atores de requinte (Frances McDormand como não víamos desde os tempos de Fargo, Woody Harrelson e Sam Rockwell). Provavelmente, seja por incompreensão da nossa parte, acreditamos que apesar dos facilitismos ideológicos, este Três Cartazes à Beira da Estrada revela uma imagem de uma época. Quem sabe.

 

Real.: Martin McDonagh / Int.: Frances McDormand, Woody Harrelson, Sam Rockwell, Kerry Condon, Abbie Cornish, Lucas Hedges, Peter Dinklage, John Hawkes

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 17:55
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13.12.17

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Todos diferentes, todos humanos … no cinema fantástico de Del Toro!

 

No universo de Guillermo Del Toro (assim o chamaremos) existe toda uma coletânea de simbolismos, elementos fantásticos e criaturas mitológicas que operam conjuntamente como uma metáfora político-social. Talvez seja por isso que adereçamos a este seu mundo fértil de dêcors e caracterizações uma profundidade alusiva que muitas das variações fantásticas atingidas pelo cinema  - sublinhando as adaptações das série infanto-juvenis que seguiram moda no rescaldo do sucesso de Harry Potter e afins - nem sequer sonharam obter.

 

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Em The Shape of Water deparamos, indiscutivelmente, com esse cunho autoral, até porque o Cinema do mexicano é reconhecível, e muito mais a sua colaboração com o actor Doug Jones, o verdadeiro “homem das mil faces”, um exímio herdeiro do legado Lon Chaney. Existem esses recortes, aqui e ali, empréstimos de outras experiências que o cineasta viveu nos seus “anos loucos” por terras de Hollywood, como as transladações de Hellboy e de Blade ao grande ecrã, orquestradas numa diluição de mundos secretos com o realismo formalizado que o espectador indicia como déjà vu.

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É verdade que este vencedor do Leão de Ouro no último Festival de Veneza, um feito para um cinema cada vez mais “série B” ou da infame etiqueta “cinema de género”, é uma obra pretensiosa, com os truques baratos da award season, para além de prolongar os lugares-comuns definidos por este cinema querido, mas é dentro dessa capa de vulgaridade que Del Toro faz das suas para implantar uma rebeldia ao bem-estar do espectador. Pequenos, mas eficazes actos de activismo que tornam The Shape of the Water numa fábula adulta e não tão inocente como aparentemente se julga. Obviamente que todo este dispositivo fabulístico segue numa demanda pela despersonalização de um mundo tão nosso, desde a criatura até ao ar agridoce desta América fechada e pintada sob tons de pseudo-medievalismo, tudo servindo como catarse para um plano maior.

 

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Falar da nossa natureza humana e a actualidade que nos atinge com subjectividade, sem com isso deixar que a mensagem não seja perceptível, é tarefa capaz para a “forma desta água”. Identificamos esses mesmos elementos paralelos, reconhecidos e experienciados, e apercebemos a trajectória que nos conduz a uma lição “dickeana” da seriedade humana (Phillip K. Dick e não Charles Dickens): o que distingue os seres humanos dos animais? O que nos torna humanos? Mas ao invés da singela imagem de andróides replicantes, agora vulgarizados por um cinema de entretenimento ansioso pelo estatuto de adulto (Blade Runner 2049 sofreu com essa saturação e a queda do dito cinema maduro que teima em marcar presença na principal industria), temos um protótipo de criatura da Lagoa Negra, a mitologia que se mistura com elementos invertidos de Hans Christian Andersen (sim, A Pequena Sereia representada por uma muda Sally Hawkins em missão do encanto ao seu “príncipe”) e os factos históricos distorcidos a perpetuar uma sensação de paralelismo.

 

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A desigualdade, discriminação e a incompreensão pelo próximo, matéria evidente em todo este contexto. Sim, por mais rico que seja o ambiente próspero de Del Toro, ele torna-se previsível e perceptível para o espectador. Não existem leituras agravantes e, possivelmente, é nesse sentido que The Shape of Water vinga de muitas construções fantásticas e de ficção cientifica que ultimamente tem sido produzidas, não existindo a pretensão de esconder ou de confundir com intelectualidade. Neste caso, o Mundo é aberto e apto para todos o usufruírem, quer como crítica sociopolítica, quer como a fábula adulta pelo qual tem sido vendido.

 

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Se Del Toro é um artesão formidável na construção desse imaginário materializado, já a música de Alexandre Desplat acompanha esse processo e salienta os já proclamados tons fabulísticos deste amor intraespécies, que na verdade se refere ao mais antigo dos contos humanos. Dentro daquilo que tem sido produzido lá para os cantos de Hollywood, The Shape of Water é uma gema, um brilho reluzente de um cineasta que nos fascina através da criança que vive dentro de nós. Simplesmente honesto. 

 

Real.: Guillermo Del Toro / Int.: Sally Hawkins, Richard Jenkins, Doug Jones, Michael Shannon, Octavia Spencer, Michael Stuhlbarg

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 16:15
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Na roda da desventura!

 

Podemos reconhecer, a partir do ano 2000, dois factores benéficos para a “sobrevivência” do cinema de Woody Allen. A primeira, Scarlet Johansson impulsionou um novo fôlego e dinâmica na cooperação entre actor/autor. É evidente que um dos melhores trabalhos do nova-iorquino nasceu daí, Match Point, um revisitar aos temas de adultério e crimes passionais que havia estabelecido no seu Another Woman(Uma Outra Mulher). E como segundo ponto temos a vinda do director de fotografia Vittorio Storaro, cuja  entrada no universo Woody enriqueceu esses emaranhados de histórias com uma visão preparada, cuidada ,e sobretudo, atribuindo a artificialidade que o seu cinema há muito desesperava.

 

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Nesse sentido, depois de Café Society, este Wonder Wheel (Roda Gigante) é, até à data, o filme que estabelece esse bem cooperativo, a fotografia que enquadra-se no ambiente pseudo-fantasioso de Coney Island e que respira por vontade própria. O artificialismo referido assinala-se como uma leitura dessa mesma fantasia, o escapismo visual que indicia uma transformação. Deste modo, a fotografia de Storaro converte-se do dito requinte estético, o clima que nos transporta ao seu ambiente natural, para uma tendência de expressionismo. Os atores respiram através desta mesma imagem, das cores que nos transmitem, enquanto espectadores, uma atitude reactiva em relação às suas emoções, pensamentos e, porque não, devaneios.

 

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Mas fora do ponto visual, que nos saliva, Wonder Wheel é um filme que curiosamente esclarece a veia de Woody Allen enquanto, sobretudo, argumentista. O seu apetite pela tragédia e a forma como a nos entrega, um exercício de dispositivos narrativos que maltrata as suas personagens. Estas, indiciadas como cobaias desse mesmo tubo de ensaio – a busca pela tragédia propriamente dita e de que forma atingi-la. Se é bem verdade que encontramos na personagem-guia (um nadador salvador com apetite pelo dramático personalizado por Justin Timberlake) um espelho do Allen voyeurista, é também indiscutível que essa mesma raiz o condensa num marco de direcção para o arranque desta desventura. As personagens vivem uma mentira, insinua a certa altura Timberlake, código genético destes peões que habitam no mais “fraudulento” dos locais, Coney Island.

 

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Existe sobretudo uma rivalidade entre essas “mentiras” que disputam pelo quotidiano dos viventes, a feira que assume o decor e o cinema, constantemente trazido à baila, como uma alternativa aquela matéria algo circense. Estas feiras temáticas eram em tempos a prioridade na distracção dos habitantes de Nova Iorque, porém, encontraram-se condenadas pela popularidade crescente das salas de cinema, pelo facilitismo da projecção e pela qualidade da experiência que se poderia experienciar aí.

 

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Apesar da aparente extinção dessa Coney Island levada da breca, o Cinema poupou-o do esquecimento, conservou-o nas suas fitas, um tributo de um entretenimento ao seu antepassado. E acrescento, foi com Coney Island que o cinema norte-americano seguiu em passos  na sua linguagem ao encontro do real, com Little Fugitive (Ray Ashley e Morris Engel, 1953). Contudo, em Wonder Wheel, a narrativa declara o seu fascínio trágico no qual circula ao encontro dessa mesma “ferida”. A tragédia assim proclamada como um substantivo sólido é a combustão dessa mesma trama, e a rainha desta, Kate Winslet, prova ser a maravilha disputada. Talvez em Wonder Wheel deparamos com o inicio de uma nova faceta de Woody Allen. A ver vamos.

 

Real.: Woody Allen / Int.: Kate Winslet, Jim Belushi, Juno Temple, Justin Timberlake

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 15:58
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25.11.17
25.11.17

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Gipso-realismo!

 

Abram alas!! Temos um novo universo partilhado cinematográfico, conceito nada de novo, digamos, nem sequer devedor do mercado glutão dos super-heróis e monstros ambulante. A utopia aqui descrita em A Ciambra, que interliga com Mediterranea, é uma réplica social e étnica de uma Itália sob as crises existenciais e identitárias.

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Porém, avança-se que Jonas Carpignano não se interessa em criar panfletos de reinserção social, ao invés disso preenche a tela com outra tela, um reflexo da nossa realidade, sem filtros nem moralidades enxertadas. A Ciambra, que segue um jovem de etnia cigana perante uma reafirmação de status, o da sua comunidade, assumindo como um elemento patriarcal e da sociedade que o rodeia e o rejeita, é a atualização de uma homónima curta da autoria do próprio Carpignano, um revisitar aos elos e às hospitalidades por vezes hostis.

 

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Assim como o coming to age vivido pelo protagonista, de criança a adulto forçado, esta curta a longa desvia a atenção de qualquer compaixão ou solidariedade por parte do espectador. Filma-se a seco, invocando as raízes do neorrealismo italiano, deixa previsível por aqueles ares de contexto social, mas é nas infâncias renegadas de um Zero em Comportamento de Jean Vigo ou das delinquências escapistas de Antoine em 400 Golpes do nosso amigo Truffaut, que A Ciambra bebe diretamente da fonte. Fora as particularidades étnicas e sim, também eles, éticas, Jonas Carpignano retrata a adolescência tortuosa de qualquer um, sem cor, sem divergência cultural e sobretudo sem os maniqueísmos pedagógicos que atormentam o cinema (para) jovens.

 

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Portanto esse formalismo do real, o culminar de 100 anos de aproximação da Sétima Arte com a nossa visão estandardizado do mundo envolvo, A Ciambra funciona como um dos rebentos dessa inteiração, se alguns apelidam na ressurreição do novo realismo conterrâneo, outros falaram na maturidade da câmara em lidar com o verité (verdade) das suas ações. Assim como um rapaz que conheceu uma rapariga é imbativelmente na maior das odisseias cinematográficas, a criança em linha direta ao mundo adulto não fica atrás.

 

Filme visionado no 11º Lisbon & Sintra Film Festival

 

Real.: Jonas Carpignano / Int.: Pio Amato, Koudous Seihon, Damiano Amato

 

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7/10
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publicado por Hugo Gomes às 01:28
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22.11.17

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As Guardiãs do Mundo Moderno!

 

A adaptação do livro de Ernest Pérochon remete-nos a uma Guerra de sombras, invisível e igualmente furtiva. Depois dos homens partirem para as batalhas longínquas, as mulheres permanecem nas suas residências, mantendo, para além do negocio familiar, as réstias do quotidiano em “tempos de pacificidade”. Xavier Beauvois é dotado em dar visibilidade a conflitos invisíveis, mesmo que neste Les Gardiennes a questão do não-visível é por vezes traída pela dimensão onírica, “prisões traumáticas” nos retornados, cujo espirito continua refém dos horrores da Guerra infestada. Contudo, é na reconstituição histórica e sobretudo social que o filme vinga como um diálogo do passado em relação ao presente dominado por movimentos e ativismos - é a causa das Mulheres em inverter o enganado estatuto de “sexo fraco” e a confirmação da sua importância para o funcionamento das estruturas sociais.

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Todo este discurso parece saído de fora, como um estrangeiro que observa a cultura de outrem, mas é nessa “estranheza” perante a força destas mulheres que o filme adquire um tom quase lisonjeador, admirando de perto como de longe uma distorcida alusão às comunidades de O Senhor das Moscas (ou diríamos as Amazonas do século XX). Este retrato pseudo-bélico é trabalhado não só no sentido das personagens, como do cenário criado. Sim, por vezes Beauvois abdica do lado ficcional para orquestrar um ensaio de História recontada, desde os avanços tecno-agrícolas que faz questão de inserir em prominentes travellings (paralelismo com o mesmo processo de O Estranho Caso de Angélica de Manoel de Oliveira) até às tendências bucólicas desta outra-França.

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Mesmo soando a rigor nessa “réplica de costumes”, Les Gardiennes expõe uma faca de dois gumes, é simplista (ora que bem, ora que infelicidade). Essa modéstia, talvez melhor adjetivo, implica um tratado de cortesia entre realizador e a sua matéria, sem nunca transgredir, nem sequer atraiçoar as mensagens e moralidade aplicadas. Se é a força das mulheres que queremos mostrar, é a forças das mulheres que terão (manifestada desde a veterana Nathalie Baye como topo de uma hierarquia improvisada, em contraste pela novata Iris Bry em vestes de marginalidade).

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Contudo, a técnica encontra-se presente - realçamos a fotografia de Caroline Champetier (hipnotizada pela secura dos campos e da poeira emanada pela terra fértil) – o espelho-refletor desta ruralidade e as aptidões brutas de um campestre a servir de invocação aos primórdios do Cinema. Como sabem, ELE nasceu como captação da vida de “ninguém”, do trabalho árduo desses “escravos da terra" e das ritualizações hoje semi-extintas pela modernidade dos nossos meios.

 

Filme visualizado no 11º Lisbon & Sintra Film Festival

 

Real.: Xavier Beauvois / Int.: Nathalie Baye, Laura Smet, Iris Bry, Cyril Descours

 

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7/10
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publicado por Hugo Gomes às 13:43
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16.11.17

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O quadrado, objecto de provocação!

 

Ruben Östlund filma os seus filmes com uma certa intenção, uma provocação no qual tenta debater-se com a consciência moral do espectador. Se em Force Majeure (Força Maior), especificaria o medo como uma catarse ao rompimento de uma relação, em The Square (O Quadrado) somos ainda levados ao extremos nessa encruzilhada de decisões. “E se fosse consigo?” - mais do que um programa pedagógico, Östlund perpetua uma tragédia cómica minada de experiências que vai de encontro aos nossos próprios medos, provavelmente o maior dos medos sociais, o de agir na altura certa.

 

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Em paralelo com a avalanche de Força Maior, em O Quadrado assistimos a uma particular sequência de uma arte performativa levada ao extremo, a besta que encarna no homem-artista e a manada indefesa que encarna numa multidão intelectualmente homogénea. A situação torna-se tão drástica que nós próprios [espectadores] questionamos a nossa experiência, a impotência nos nossos activismos, e o desprezo pelo próximo como um mecanismo de defesa. Nessas ditas situações, O Quadrado envolve-nos com uma tese psicológica desafiadora, um filme revoltante … silenciosamente revoltante que poderá dizer mais de nós que qualquer divã. E esse quadrado, engenho simetricamente perfeito que reflecte a igualdade de quem o penetra, um produto de museu no qual Östlund manipula como objecto de estudo a outra das questões da sua obra. Até que ponto a arte pode ser considerada arte? Ou simplificando, o que é a arte?

 

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E toda essa arte tem consequências, assim como os actos do protagonista, Christian (Claes Bang), que concentram todos esses confrontos invocados numa só persona. Aquele, e já referido, medo social, âncora das nossas relações afectivas assim como comunicativas, que elevam a um certo grau de passividade. Até porque existe dentro de nós um certo Christian, que se esconde em plataformas para expressar os seus sentimentos mais primários, no sentido em que essas emoções são eventualmente subvalorizadas por uma comunidade artística, pensante que anseia atingir o pedestal da racionalidade, quer do real, quer do abstracto.

 

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O Quadrado é um exemplar de um filme subjugado ao debate dele próprio, pronto para o dialogo com o espectador, entre espectadores e sobretudo depois do seu visionamento. São as questões sugeridas pela obra que nos tornam aptos para as suas interpretações; porém, Östlund tenta acima de tudo obter essa função, fugindo da pedagogia infantil e da essência solipsista que invade a comunidade arthouse, mas foge, também, da objectividade.

 

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O Quadrado prolonga-se até não possuir mais uma questão nova a indicar, torna-se com o tempo obtuso, fácil e previsivelmente moralista, como se toda esta galeria resumisse a uma fábula, citadina e moderna que exorciza a realidade como a vemos. Depois vem a obsessão de Östlund pelas escadas, a técnica e como filmá-las, uma tese na qual não procuramos aqui dar respostas, mas que preenche em demasia uma obra sobretudo comunicativa que oscila pelo simples ilustrativo.

 

 

Real.: Ruben Östlund / Int.: Claes Bang, Elisabeth Moss, Dominic West

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 17:22
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25.10.17

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Vieste a mim … feiticeira!

 

Anna Biller é fascinada pela cinematografia extinta, pela vibe anterior à década de 70s, e este The Love Witch, fruto de uma carreira refém a essa mesma natureza, é um tremendo exemplo disso. Por entre as invocações de um satanismo trash, ou da bruxaria envergada pelo artificialismo risivelmente voluntário de um Ken Russell, Biller apresenta-nos a caricata personagem, Elaine (Samantha Robinson), uma jovem infortunada no campo amoroso que recorre à feitiçaria como apelo a um “príncipe andante”.

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Com uma interpretação deliciosamente caricata e voluntariamente canastra, a protagonista assume de imediato a voz da emancipação feminina, fazendo-o através de um contexto historizado, algures entre a ficção preconceituosa indiciada pelo termo de paganismo (claras insinuações à dominância da igreja cristã) e do papel da mulher vitimizada por esta prolongada e injustificável inquisição. Obviamente que The Love Witch brinca com essa dualidade de versões em prol de uma ambiguidade dissolvida na trama, e também, é bem verdade que todo aquele discurso contra a opressão feminina tem um tanto reflexivo como de satírico (separando-o da comparação óbvia com Goddess of Love, de Jon Knautz).

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Mas se The Love Witch não consegue “libertar-se” dessa pretensão de ser algo mais que um mero produto de referência cinematográfica, é naturalmente visível que essa incompatibilidade de nuances atribui ao dito tributo um certo elo com o humor involuntário. Porém, a comédia descrita pelas etiquetas de género, camufla-se com a tragédia pessoal de Elaine, obcecada com o romance fabulista, como a certa altura diz: “como nos contos de fadas”, que visa oposição a um mundo actual, devidamente condenado à dependência sexual. E se a sexualidade é um arma transgressiva na conquista dos seus parceiros, Elaine é acima da sua submissa passividade que demonstra e que se orgulha proclamar, um símbolo de insurreição da “domesticação”.

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Tecnicamente, o filme corresponde a esse desafio de alusão fílmica, prestando uma clara e polivalente homenagem através da ausência de virtuosismo nos desempenhos, assim como o visual alicerçado aos decores e fotografia contagiada por suaves cores em conformidade com expressionismos estéticos de ocasião, ou do flashbacks, em jeito de onirismo, através de planos fechados como um interrompido fade out em escarlate. Aliás, todo o filme é uma fantasia, uma farsa por entre metas que consolida com um casamento de mentira, tal como o “príncipe” e o “faz-de-conta” numa recriação medieval. Anna Biller é a nossa ilusionista, fazendo-nos acreditar num passado diluído na actualidade. Na nossa “boa” actualidade. Um desconecto e artesanal mimo aquele que deparamos.   

 

Real.: Anna Biller / Int.: Samantha Robinson, Jeffrey Vincent Parise, Laura Waddell

 

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7/10
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publicado por Hugo Gomes às 13:19
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19.10.17
19.10.17

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"Queriam o quê? Telenovela"

 

Ramiro é aquilo que poderíamos apelidar cinematograficamente de «loser», uma personagem à deriva da sua sorte, encostada às “cordas” do passado, da glória que lhe nunca passou, nem sequer o esforço que detêm para a atingir. A certa altura, o protagonista-titulo confessa aos seus amigos que acabara de descobrir a sua passividade (“Sou uma pessoa passiva”), sequência-chave que revelará por completo a sua anti-tour de force, até porque o seu talento, diversas vezes mencionado por outros, nunca fora devidamente reconhecido, assim como conquistado. O seu proclamado bloqueio criativo é simplesmente fruto desse autodesprezo.

 

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Mas Ramiro não é de todo um desprezível, é dotado de um boa índole, o espectador crê isso através dos seus actos minuciosos, na sua teimosia controlável que nos leva aos seus próprios demónios, o medo; o medo de falhar, automaticamente, o medo de tentar. É fácil simpatizar com este Ramiro, nem que seja pela interpretação derivante do actor António Mortágua, um laço de empatia com uma audiência que se lança nas prateleiras de um alfarrabista em busca de preciosidades. O que encontramos é “livros esquecidos”, estilos não vingados, enredos antiquados com o intuito de agradar aos “velhos do Restelo” ou os reféns das “coisas que outros amaram”. Porém, e utilizando esse mesmo lugar, Ramiro enquadra-se num cinema português desadequado, não pela inutilidade estilística, mas como oposição às novas vagas que tendem em: a) manejar a experimentação narrativa e visual no qual diversas vezes disfarça a pura incapacidade; b) a sedução pelos formatos wannabe hollywoodescos, de forma a repudiar toda uma História da nossa cinematografia.

 

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Tal como a personagem, Manuel Mozos cria um filme passivo na sua positiva afirmação, até porque é em Ramiro que evidenciamos um cinema lúcido, intrinsecamente português-alfacinha e discretamente irónico, mesmo sob as influências de João Cesar Monteiro e dos seus constantes e castiços trocadilhos. Talvez tenha sido a experiência com Miguel Gomes, outro influenciado pela natureza do anterior “João de Deus”, o catalisador para esta invocação. Porém, Mozos não pretende o mero tributo. O filme concentra-se sobretudo numa saudação, a vénia a uma iminente emancipação, assim como a transformação de Ramiro após a perda do seu mentor.  Eis um pequeno achado do cinema português, um “livro” poeirento e esquecido na mais oculta das prateleiras que resulta na mais graciosa das descobertas. Sem alterar o curso do nosso cinema, temos aqui filme e não pretensões.   

 

Filme de abertura do 15º Doclisboa: Festival Internacional de Cinema

 

Real.: Manuel Mozos / Int.: António Mortágua, Madalena Almeida, Fernanda Neves

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 17:36
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25.5.17

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Encontro de Irmãos!

 

O percurso dos irmãos Safdie leva-nos aos imprevistos da noite, num conto que visa a violência urbana mas que nela investe o amor fraternal, uma faísca de esperança nesta corrompida desumanização que se abate entre nós. Poderia ser mais um retrato influenciado no neo-realismo ou no vérité de que derivava o anterior Heaven Knows What. Porém, ao invés disso, deparamo-nos com uma obra envolvida em ácidos, nas cores neons que tomam conta das imagens e da música techno que ecoa para nos trazer essa desesperada atmosfera. Robert Pattinson é esse peregrino, um criminoso que após um golpe falhado, resultando na detenção do seu irmão, tenta de tudo para conseguir libertá-lo.

 

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Para o bem dele, para o seu bem, e para o bem desta cidade cada mais adereçada a um oportunismo individualista, esta corrida contra o tempo (ao bom jeito das noites atribuladas de imprevistos, tais como After Hours, de Martin Scorsese), Good Time é um filme que fala sobre todos nós, mas é acima de tudo um diálogo entre os Safdie. Um intimismo, não individualista, mas colectivo. A sua relação, a sua história, as suas emoções espelhadas nos olhares desesperados de Pattinson (por sua vez a escolha de Ben Safdie a desempenhar o irmão encarcerado), como se o antigo ator de Twilight emanasse uma espécie de heterônimo de Josh [Safdie]. Novamente, o cinema desta dupla de irmãos remexe-se pela deambulação citadina, como se continuassem nesta imensa peregrinação pela selva de asfalto, sem rumo algum.

 

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Há quem aponte o efeito visual e sonoro de um agressivo videoclip minimalista e animalista, amarrado aquelas equívocas semelhanças com obras de Refn e a sua respectiva e superlativa atribuição estética, mas no seio de todo este novo tratamento, existe, com certeza, os nossos ‘“velhos” Safdie. O filme e o seu meta-filme, unidos numa só obra.

 

Filme visualizado no 70º Festival de Cannes

 

Real.: Ben & Josh Safdie / Int.: Robert Pattinson, Ben Safdie, Jennifer Jason Leigh, Barkhad Abdi

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 15:04
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22.5.17

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Se a Montanha não vai ao Fellipe, o Fellipe vai à Montanha!

 

Por mais que Fellipe Barbosa (Casa Grande) renegue a natureza documental de Gabriel e a Montanha, é perceptível que o realizador utilizou as mesmas ferramentas que se poderia levar a cabo num cinema de investigação. A fronteira entre o documentário e a ficção é um dilema há muito debatido, até mesmo quando o Cinema caminhava a passos largos na sua evolução, mas hoje, tendo em conta a vontade e a facilidade de filmar, as duas dimensões parecem cada vez mais diluídas ao encontro de uma só linguagem.

 

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Bastante divergente da essência docudrama à portuguesa, Gabriel e a Montanha é uma tese documental, a apropriação da trágica história de Gabriel Buchmann, um economista brasileiro que apaixona-se pela África subsariana e determina-se a integrar as mais diferentes comunidades. É um ensaio que tenta responder as questões levantadas desde que o caso tornou interesse dos Media (Gabriel foi encontrado sem vida no Monte Mulanje, no Malawi, em 2009), enquanto impregna uma vertente ficcional que coloca em claro o seu lado biográfico, sempre em conformidade com a encenação fiel dos locais e personagens reais. Sim, foi um trabalho de pesquisa que levou a conceção desta viagem do homem que gradualmente despe a sua ocidentalização, assim como Sean Penn concretizou uma outra descida ao selvagem em 2007 (Into the Wild), este último sob moldes do storytelling.

 

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Porém, não devemos desvalorizar esse lado ficcional perante o árduo trabalho do realizador-investigador, em cumplicidade com o actor João Pedro Zappa a interpretar o derradeiro peregrino. Gabriel e a Montanha explicita um retrato humanista do protagonista, para além de, ao contrário de muitas cinebiografias, não glorificar totalmente a figura, espelhando-a numa logística de complexidades. Fellipe Barbosa apresenta assim uma homenagem, um tributo assim por dizer, que atravessa as mais diferentes fronteiras da linguagem cinematográfica, ora sobre uma perspetiva etnográfica, geográfica e porque não uma experimentação do seu lado documental, de forma implementá-lo como a nova haste de um cinema sem fronteiras de género.

 

Filme visualizado na 56ª Semana da Crítica de Cannes

 

Real.: Fellipe Barbosa / Int.: João Pedro Zappa, Caroline Abras, Alex Alembe

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 16:19
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8.5.17

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Ai o Amor, o amor …

 

Há 10 anos atrás estreava entre nós o filme O Capacete Dourado, um romance de contornos shakespearianos transportado para o contexto social atual e que, de forma vampírica, beberia de uma tragédia que tanto “apimentou” os medias portugueses. Infelizmente, apesar da passagem em Locarno, a atenção não foi a devida o que, em conjunto com os “trambolhões” que o sistema de validação e financiamento de projetos cinematográficos deu na última década, procrastinaram este tão esperado regresso (sem querer afirmar com isso que Jorge Cramez é uma espécie de D. Sebastião do cinema português). Cinema, esse, que ao contrário do pensamento demagógico, não precisa de ser salvo.

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Eis que surge Amor Amor, a transformação atual da peça La Place Royale ou l'Amoureux Extravagante, de Pierre Corneille (escrito em 1634), para uma intimidade ritualizada que o autor assume. Tratando-se de uma história de encruzilhadas amorosas entre cinco personagens, todas elas remetidas a amores secretos e a planos ocultos para a concretização dessas mesmas paixões, tudo decorrido no último do ano. O quincôncio é inserido em diferentes signos, como figuras estampadas de qualquer baralho de tarot, tendo a nosso dispor a Trágica (Ana Moreira), o Manipulador (Jaime Freitas), a Cínica (Margarida Vila-Nova), o Ingénuo (Nuno Casanovas) e por fim, o Romântico (Guilherme Moura). Figuras que incentivarão esta tragicomédia a seguir sob um registo coeso e igualmente boémio em relação às suas tramas. Uma festa, uma praia e por fim o réveillon como reinício, as três etapas que adensarão estas relações em constantes choques.

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Mas o que nos motiva a gostar imensamente deste Amor Amor, não é o seu enredo, nem as suas personagens, nem sequer os diálogos, nem mesmo as suas sofredoras paixões e compaixões que servem de linguagem meta-cinematográfica. O que realmente realça a nova obra de Cramez de muitas outras produções nacionais (sobretudo aquelas com as quais compete no Indielisboa), é o afeto evocado pelo plano. O realizador constrói um filme tendo em consciência prioritária de como filmá-lo, e nesse modo atribuir uma narrativa vivaça, fortemente rica e sobretudo de um virtuosismo rigoroso em relação à sua estrutura técnica. Amor Amor separa-se dos imensos produtos televisivos (sempre associados à palavra - técnica) por essa dedicação à perspetiva do espectador, incutindo com isso algumas das sequências mais belas do cinema português recente. E que amor esse! Pelo plano conjunto, de tão difícil marcação, pelo grande plano que tenta invocar a introspeção quase direta da alma das personagens (a mencionar a transposição dos quadros de arte e do olhar do artista a essa transfiguração).

 

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Mas esta experiência, o bem-vindo reencontro da longa-metragem, não é de todo perfeita e Cramez, apesar de acertar na narrativa visual, falha sobretudo na narrativa temporal. Tarkosvski referia o tempo, não como uma simulação, e sim como um retrato realista. Amor Amor pode não ter a ousadia de elaborar uma intriga de 24 horas de ordem fiel, porém, não conseguiu transmitir essa sensação de tempo. Um dia é mais atribulado que uma semana e devido a isso, o espectador perde-se neste registo temporal. Trocando por miúdos, demasiados eventos para 24 horas. Fora isso, Amor Amor é um filme invulgar no nosso panorama. E esperemos que Jorge Cramez continue a diversificar o seu cinema e a pensá-lo de forma técnica, que muitas vezes parece faltar aos nossos “alegres tugas”.

 

Filme visualizado no 14º Indielisboa: Festival Internacional de Cinema Independente

 

Real.: Jorge Cramez / Int.: Ana Moreira, Jaime Freitas, Margarida Vila-Nova, Nuno Casanovas, Guilherme Moura, Eduardo Frazão, Joana de Verona

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 14:12
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24.4.17
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A peregrinação das actrizes!

 

Cansaço ... é o que sentimos no final desta peregrinação. Simplesmente cansaço! Mas aqui não é um defeito, é uma virtude, o sentimento pretendido neste novo rol de realismo à lá Canijo, onde uma vez mais são as suas actrizes a liderar o processo criativo, mulheres que mimetizam o real e não o oposto. É a continuação do seu trabalho, os métodos experienciados para atingir a natureza-matriz do actor. O que os move? O que os faz atingir esse patamar? O que os torna, não inconfundíveis, mas sim confundíveis com o cenário envolto?

 

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João Canijo tem-se submetido a essa experiência desde que a noite tornou-se escura [Noite Escura, 2004] e aí, gradualmente, tem avançado com uma aproximação ao realismo e ao mesmo tempo improvisando e sofisticando o processo de direcção de atores. Foi com o É o Amor que a ideia de cruzamento surgiu, a do conflito entre a ficção, indiciada por "infiltrados" numa realidade que não lhes pertence, e do lado documental, o realismo aprisionado na lente e moldado para as infinidades da interpretação e reinterpretação. Nesse jeito, Fátima funciona nesse apoderamento do primeiro ponto, em constante abalo com o segundo. A veia documental encontra-se presente no percurso, na jornada replicada que se evidencia como um obstáculo de capacidades. As capacidades, por sua vez, encontram-se nas actrizes, subjugadas ao método de improvisação quase "strasbergiana".

 

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A peregrinação torna-se então num coliseu de gladiadoras, actrizes que rivalizam egos e batalham pela atenção do espectador. Mas nem todas as actrizes são capazes de sobreviver neste "circo de feras", nesta estrada sem fim que assume como o palco de improbabilidades. Apenas duas (Anabela Moreira e Rita Blanco) concentram forças para a "pedalada" e é nelas que nasce um conflito tardio (dramaticamente falando), que atingirá um estado de ebulição de forma gloriosa. A satisfação surge aí. As personagens estão criadas e nessa frecha conseguem por fim separar-se da actriz num processo doloroso, demoroso e dispendioso que resumiu toda esta experiência. A da interpretação, a da matéria de que são feitos os actores e, por fim, do espectador, capaz de testemunhar esta instalação "sob milhas".

 

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Ao contrário do que se julga, Fátima não é um filme religioso. Não no sentido católico do desfecho desta jornada. Nada disso. A religião é apenas evidenciada na composição das personagens e na crença mutua, das actrizes em relação a Canijo, e de Canijo em relação às actrizes. O embate final é um atalho para Fátima, o refúgio religioso que se converte na perfeita união de espírito e da cinematografia que Canijo consegue emanar através de imagens assombrosas!

 

Real.: João Canijo / Int.: Anabela Moreira, Rita Blanco, Teresa Tavares, Sara Norte, Ana Bustorff, Teresa Madruga

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 15:35
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