Data
Título
Take
28.6.18

694171.jpg

Incríveis, mas há 14 anos atrás!

 

Os fãs podem suspirar de alivio. As preces foram ouvidas. Temos por fim a sequela de The Incredibles, e diga-se por passagem … recomenda-se. Tudo começou em 2004. A Pixar vivia os melhores momentos da sua jornada pela indústria da animação graças ao sucesso atingido por Finding Nemo (aliás o melhor êxito do estúdio na altura), mas o objetivo não era seguir os conselhos táticos de “equipa que vence não mexe”. O que fazer depois desse coming-of-age submarino? A resposta foi encontrada por Brad Bird que visualiza o crescente cinema de super-heróis que estaria a dar os seus importantes passos de rejuvenescimento e encontra nele um foco quotidiano e subversivamente sociológico: e se os super-humanos vivessem entre nós, e que fossem condenados às meras vidas humanas, escondendo as suas verdadeiras identidades em prol do mundano?

 

94f3f4bbe8abf0c724c22dd623124472.png

 

Obviamente que a questão não era de todo original, a aura destes heróis de collants deriva sobretudo da dicotomia identitária, o disfarce que cada vez mais se confundia com o seu próprio “eu”. The Incredibles surgiria, coincidentemente, no mesmo ano em que David Carradine discursa a natureza ocultada do super-herói nos momentos finais de Kill Bill, exemplificando um curioso caso, o do Super-Homem. Esta criação da DC, possivelmente o mais célebre do arquétipo heroico, é um ser poderoso cujo disfarce não é nada mais, nada menos que o mero mundano. Segundo o “malévolo” Bill de Carradine: “Superman was born Superman. When Superman wakes up in the morning, he's Superman. His alter ego is Clark Kent. His outfit with the big red "S", that's the blanket he was wrapped in as a baby when the Kents found him. Those are his clothes. What Kent wears - the glasses, the business suit - that's the costume. That's the costume Superman wears to blend in with us. Clark Kent is how Superman views us. And what are the characteristics of Clark Kent. He's weak... he's unsure of himself... he's a coward. Clark Kent is Superman's critique on the whole human race.

 

incriveis-2-pixar2-617x256.jpg

 

The Incredibles funcionou como um gracioso sucesso de crítica e público, contornando as preocupações iniciais de um filme que parecia confundir com as grelhas televisivas dirigidas ao público-alvo. Era mais que cinema de super-heróis, aliás os super-humanos eram só pretexto para uma pertinente crónica sobre a mortalidade e os valores afetivos. Os fãs, então gerados, solicitavam constantemente uma sequela, uma resposta ao jubilante cliffhanger, mas tais desejos foram recusados, por outras palavras, adiados e adiados até contabilizarmos 14 anos ( uma espera que fecundou continuações desnecessárias desde Carros a Dorys, com a exceção de um excecional Toy Story, mas isso são outros contos).

 

incredibles-21.jpg

 

Este Incredibles 2, agora sem o “The” (mas novamente com Brad Bird), é uma animação sob um batido signo de família e união, porém, esses “trapos” são costurados com peças modernas que dialogam com os novos tempos. Há um lado de emancipação feminina visada pela inversão dos papéis de género. Ele torna-se “dono de casa desesperado”, ela vai de viagem de negócios. Essa troca de identidades sociais revesse como o polo criativo desta jornada Pixar, calculado com humor astuto e do coração bem disnesco que se reconhece a léguas.

 

3400722-incredibles-2.jpg

 

Contudo, a viagem, por mais agradável que seja, um revisitar a estes heróis calorosos, é ditada por um triste sabor de revisão, de beco sem saída na originalidade hoje tida como raridade. Fala-se pelo meio de fantasmas da NSA, coloca-se a questão queixada por Alan Moore e a sua obra-prima Watchmen, porém, esses ingredientes servem como faíscas de ação e reação num produto que se constrói em terreno seguro. Quando chegamos a um ponto em que, visualmente, a animação já não parece surpreender, deve-se tocar o botão de emergência da Pixar, há que procurar além da história, novas formas de contá-la.

 

Real.: Brad Bird / Int.: Carig T. Nelson, Samuel L. Jackson, Sophia Bush, Holly Hunter, Catherine Keener, Isabella Rossellini

 

theincredibles2poster3-kB4E--621x414@LiveMint.jpg

6/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 01:59
link do post | comentar | partilhar

25.5.18

MV5BMDQ0YmEwYmQtOWZlOC00YmVhLWI2NmYtMGYzN2E4MzE5Nz

Traumas e ensaios mentais, golpes de génio.

 

Antes de seguirmos pelos labirínticos registos da existência de Eduardo Lourenço, é preciso falar de Miguel Gonçalves Mendes, realizador que se tem dedicado à evasão do formalismo e o formato academicamente aceite que o documentário português parece ter contraído no sentido em esquematizar “vidas e méritos alheios”. Por sua vez, é também fugaz a distorção dos cânones do docudrama que ultimamente tem caído num poço sem fundo de (não) criatividade. Passando pela lenda de mouras encantadas de Olhão, pela marca pessoal de Cesariny ou do romance que transgride o “eu” artístico e criador de José Saramago, Gonçalves Mendes aventura-se agora, ou deixa-se aventurar, pelos pensamentos de contradições de Eduardo Lourenço, ensaísta, professor e sobretudo “poeta da vida”.

 

35773_49732_941.png

 

Nesta tendência de condensar um livro da autoria de Lourenço, O Labirinto da Saudade (1978), o realizador propõe ao catedrático uma demanda pessoal e pensante pelo seu intimo intelectual e fá-lo através do uso da tecnologia para colocar um velho sábio em perfeita confrontação com as suas ideias. Este é um caso em que a ideologia e o homem se confundem, parindo uma quimera de conscientização dos fantasmas da nossa nacionalidade, enquanto Lourenço se debate pela sua própria existência. A existência de um em paralelismo com o nosso legado enquanto portugueses, viventes de um país traumático, cujas mazelas agora convertidas em lendas e criaturas mitológicas, olharapos da nossa História (“A História é a ficção das ficções”).

 

Sem Título.jpg

 

As questões deparam-se, aguçadas como adagas feudais, no qual Eduardo Lourenço se defende com a serenidade e a lucidez pelo qual é visto, respeitado e venerado. E dentro dessa divindade, Gonçalves Mendes prepara um altar tecnológico, empacotado entre caixotes dimensionais e náutilos, a espiral logarítmica que nos leva ao córtex da sua concretização, mas ao mesmo tempo à sua tragédia. Por entre esses traumas evidenciados, existem dois que se cometem como pessoais, acima da reflexão pensante dos anteriores. A primeira cicatriz do nosso país que Eduardo Lourenço verdadeiramente testemunhou conta com Ricardo Araújo Pereira como o interveniente escolhido para uma exorcização do salazarismo vincado nas nossas raízes (“povo fascista e ‘fascizado’”), ou a análise do “sacerdote falhado”, Salazar em pessoa e a sua cruzada pelo país imaginário ainda hoje invocado com um martirológico saudosismo. O segundo “trauma” experienciado é mais quebradiço, até porque é o futuro que aborda, o futuro da nossa cidadania enquanto europeus, continentais acima de nacionais (“Precisamos mais que nunca ser europeus”).

 

34090680_2022012438052335_1149544900102979584_n.jp

 

Essa questão das questões, a bandeja direta ao apocalipse identitário, guia-nos para o derradeiro dos destinos, no qual Lourenço encontra-se consciente. Nada é eterno, porém, “escrevemos como fossemos eternos”. Quanto à morte, a paragem final, que não aflige a sábios, aliás, porque a “verdadeira morte é a do outro”, nesse campo, Lourenço encontra-se calejado. A tragédia parece se abater nos últimos tempos deste Labirinto da Saudade, mas Miguel Gonçalves Mendes responde com um reencontro a um legado e fá-lo sob o jeito de um antecipado tributo. Fora a figura do sábio, que monta e desmonta a sua sapiência através de passos (planeados pela personificação de Diogo Dória), o filme em si, adverte para um sufocante cerco tecnológico e provavelmente não era preciso tantos “confettis” para celebrar tais ideias.

 

MV5BMGIxOWRiZjQtZjg2Ny00YzkzLWIyZmYtYzNkMzU5YjIxND

 

Contudo, em defesa a Miguel Gonçalves Mendes, esta assoalhada artificial gira em volta da sua figura, portanto, saúda, e ouve atentamente à sua palavra, ao contrário dos textos que se querem fazer ouvir mas que são emudecidos pelas imagens salteadas de quem não sabe pensar além do seu umbigo. Acreditem, existem muitos autores assim, que se escondem por “correspondências”, mas Gonçalves Mendes não é um deles.

 

Real.: Miguel Gonçalves Mendes / Int.: Eduardo Lourenço, Diogo Dória, Ricardo Araújo Pereira, Adriana Calcanhotto, Pilar del Río, Gregório Duvivier, Álvaro Siza Vieira, Sabrina D. Marques

 

MV5BNzE2NTVmNWUtNjVhYy00MzM5LWE2MzQtMTVjNDgwNWNiMT

 

6/10

publicado por Hugo Gomes às 13:34
link do post | comentar | partilhar

11.5.18

5168804.jpg-r_1280_720-f_jpg-q_x-xxyxx.jpg

Diamante bruto ou Ovni do Cinema Português?

 

Gabriel Abrantes (sob aliança com Daniel Schmidt) chega por fim ao universo das longas com uma fábula tramada de um futebolista prodígio que certo dia adquire consciência do seu redor. Eis Diamantino, filmes-paródia cujas rábulas caricaturais servem de espelho para a cada vez mais quebradiça sensibilidade europeia.

 

MV5BOTdkNjY2ZjMtOTlmYi00YjkzLThhY2EtOGVkOThiOTkyYT

 

O jovem realizador virou do dia para a noite num astro da curta-metragem portuguesa, que sob esse mesmo formato concretizou algumas das mais invulgares produções do Cinema Português. Improviso e criatividade são dois elementos certos na sua filmografia, requintada com um humor burlesco e sob um ponto de vista satírico, e este Diamantino não é exceção, preservando todas essas mesmas convicções. É um OVNI, um objeto verdadeiramente insertado num conceito de luso-futurismo (se não existe tal definição, deveria existir) que esclarece a iniciativa da dupla. Contudo, não é preciso pensar muito para se perceber donde veio a inspiração para esta homónima personagem interpretado por Carloto Cota (verdadeiramente impagável). Do visual aos maneirismos e mesmo o dialeto de região autónoma (aqui trocou-se Madeira pelos Açores), assim como o contexto familiar e social, este Cristiano Ronaldo faz-de-conta é mais que uma mera caricatura para fins de jubilo inconsequente ou do alvo preciso à sua figura, é antes disso um atalho que nos levará a uma reflexão à nossa condição enquanto europeu.

MV5BMTlhMzNkMmYtOTg3MS00M2RjLWI5M2QtZTIzOWE3OWExMD

 

Até porque Diamantino [a personagem], o Midas nas quatro linhas perde o seu dom de jogar quanto reconhece que o Mundo não gira envolto do seu umbigo, aprendendo a tal lição através de um acidental contacto com refugiados (ou diríamos antes “fugiadinhos”). A partir daí é a sua determinação de encontrar a si próprio, como uma Europa em crise existencial, ingénua e receosa por medos irracionais. A personagem, a anterior sombra distorcida do craque, é a alusão direta do Velho Mundo, perdido em partidos nacionalistas e solidariedade high moral ground (o privilégio de ser europeu). Pelo meio, encontramos anedotas sob o formato de propagandas quase orwellianas e da metamorfose simbólica do seu personagem/continente, lavados por contornos fabulistas como é o caso das malvadas irmãs “cinderelescas” (as gémeas Anabela e Margarida Moreira).

 

MV5BZjJkMWU4ZDMtYjE3Zi00YjgzLTgxZDYtZmFmY2QwMmMwYT

 

Gabriel Abrantes apodera-se de um filme in loco, rebuscado por natureza, acidamente incorporado num humor capaz, por vezes onírico, e para isso cruza a imagem real com as manipulações tecnológicas, entre o CGI e os efeitos práticos, elementos por si tão próprios do seu trabalho nas curtas (em especial atenção para os seus Humores Artificiais e o segmento Freud and Friends do coletivo Aqui em Lisboa).

 

MV5BMDI3NTFhMGUtODcxMi00MjU2LTgxZmYtMTI2ZmVlNzllNj

 

Contudo, a loucura faz-se em pequenas doses, quase desconjurado devido a um ritmo desequilibrado. A causa? A possível readaptação do formato de longa para alguém conformado com pequenos rascunhos e isso torna Diamantino num sugestivo experimento que por vezes cede à parábola ao invés da sátira ácida. Mas nada que nos faça distrair da confirmação de um dos possíveis grandes nomes do cinema português futuro, que partilha tal como este Diamantino, uma verdadeira crise existencial.

 

Filme visualizado na 57ª Semana da Crítica de Cannes

 

Real.: Gabriel Abrantes, Daniel Schmidt / Int.: Carloto Cota, Anabela Moreira, Margarida Moreira, Chico Chapas, Joana Barrios, Abílio Bejinha, Filipe Vargas, Carla Maciel

 

MV5BNGEyYzU2MjctMDJiNS00MTE4LWJkMTEtN2NhY2IwZDBjOW

6/10

publicado por Hugo Gomes às 23:47
link do post | comentar | partilhar

12.4.18

MV5BZmZhMjViZDMtOTZmOC00MGIyLWE1NDEtMmU0MTEzZTlmZj

Tudo o nevoeiro levou …

 

Esta é a primeira experiência cinematográfica de Donato Carrisi, escritor e jornalista italiano, que se aventura nas odes da realização com a adaptação de um bestseller da sua autoria – La Ragazza Nella Nebia (A Rapariga no Nevoeiro). Provavelmente esta seja a relação que faltava a muitas conversões do género (na nossa memória surge automaticamente o desastre de The Snowman, o olhar de Tomas Alfredson sob o imaginários Jo Nesbø), a compreensão e carnalidade entre o escrito e a materialização visual. Se é bem verdade que esta “perda de virgindade” por parte de Carrisi nos apresenta um produto ainda muito “verde” nos requerimentos de personalidade cinematográfica (o realizador requisita demasiado toques do universo de David Fincher), não é mentira que encontramos em A Rapariga no Nevoeiro, um golpe aguçado na tendência destes thrillers policiais.

 

MV5BODg4ZTgxNjQtNzY2ZS00MGVjLTllYWQtZTY1MGQwOTRlNm

 

O desaparecimento de uma adolescente num pacato vilarejo torna-se no centro da atenção dos medias após o envolvimento do infame e temido detetive Vogel (Toni Servillo), um investigador com um modus operandis muito particular (pactuava com a imprensa para pressionar agressores e vitimas, para além de, sob esse signo, falcatruar provas e evidências). No seio da investigação, encontra-se o suposto culpado do desaparecimento da jovem, um professor recém colocado sem alibis que torna-se num dos grandes ataques da iniciativa de Vogel.

 

MV5BMWE1OGIwNmQtY2MxMy00ZWMwLWFlZmYtYTMxZmYxY2NmMW

 

Negro e carpinteiro, que para além de servir de bandeja fresca aos adeptos do género quase fincheriano, eis um thriller que interpreta a comunicação social como uma espécie de “quarto poder”, uma resolução faustiana para com a autoridades, provando com isso a falta de ética e deontologia das duas partes (um cinismo por vezes certeiro, provando as capacidades de dualidade jornalística de Carrisi). Num universo repovoado por anti-heróis, A Rapariga no Nevoeiro tem a proeza de nunca ceder à demagogia moral. Ao invés disso ostenta como um corpo de inserção num mundo não tão inocente, aquele que nós vivemos e que nos cumpliciamos.

 

MV5BMDk5ZGRiNDEtMjBiNS00NDZiLWFmMTctYmU1NzUwNmNmNz

 

E tendo esse factor em mente, Carrisi joga com os nossos julgamento, manipula-nos e sentimos como tal, indefesos e sobretudo influenciados por essas partidas de perceção (não será isso que muita comunicação social faz em prol do mediatismo?). Um produto nebuloso que tece as suas complexidades morais acima da semiótica pura da investigação detectivesca. São essas as questões que prevalecem, bebendo a priorização por vezes limitada da chegada ao whodunnit ou do efeito twist. Aqui, em A Rapariga no Nevoeiro, tal perde força perante a agressividade do seu código amoral.

 

MV5BYTliYzk3ZTQtYTY1Mi00MmRkLTk0MTgtYjg2ZGRjNTI1OW

 

Vistas bem as coisas, tudo poderia funcionar num dos mais entusiasmantes thrillers policiais dos últimos anos, mas Carrisi carece de maturidade no território cinematográfico e por vezes perde controlo dos imperativos aspetos de iniciante. Perde a noção do tempo (o filme prolonga-se mais do que é preciso) e perde em adensar os seus alvos. Mas nada impede que este seja dos mais ricos e negros do seu subgénero, daqueles produzidos recentemente com dignidade de dar baile a muito das “americanices” que nos surgem.

 

Filme visualizado na 11ª edição da Festa do Cinema Italiano

 

Real.: Donato Carrisi / Int.: Toni Servillo, Jean Reno, Alessio Boni, Lorenzo Richelmy

 

MV5BMDJkZWQzNzgtNTE3NS00MmJlLTgwYTItZWM4OTA4YTUwZj

6/10

publicado por Hugo Gomes às 18:43
link do post | comentar | partilhar

9.4.18

MV5BM2ZiZmFlMzgtNmJlYy00NDNhLWFmZDQtYzQ1YjNlMmE2Yz

Entre vedações …

 

Nem sequer repousamos dos créditos iniciais e a perseguição acontece. Ela corre desalmadamente. Ele persegue-a. Uma vedação impede que a corrida se prolongue. Estes dois seres finalmente conhecem-se mesmo que as circunstâncias não sejam as favoráveis, mas foi a compaixão de um que tornou aquele momento … especial. Este inicio irá de certa forma dialogar com o seu desfecho, porém, o cenário será inverso, mas a vedação lá estará para impedir que as fugas se estendam, rompendo com o seu destino.

 

Cuori_puri.jpg

 

Ela, Agnese, vive sob a promessa de celibato, uma decisão crucial, constantemente pressionada pela muito religiosa progenitora. Ele, Stefano, tem o ingrato trabalho de proteger um parque de estacionamento de um supermercado dos ciganos que se encontram do outro lado da vedação, sublinhando-se mais uma vez a presença destes cercos. O mundo deste … é um mundo de violência, que anseia tê-lo como seu retornado, acrescendo ainda o facto dos seus progenitores serem autênticos “pedintes”, e cujas suplicas monetárias atrasam qualquer progresso na emancipação de Stefano. Sim, a esta altura o espectador está familiarizado que ambos estão cercados pelas suas “vedações”, estas mesmas partilham os seus respetivos ADN - a família que se assume como condutora das suas próprias vidas, ou simplesmente os filhos subjugados aos pecados dos seus pais.

 

Festa-do-Cinema-Italiano-CUORI-PURI-critica-1.jpg

 

Cuori Puri é um conto citadino de contornos algo shakespearianos que opera sob a tendência de um cinema marginalizado e sob magnetismos do seu realismo formal. Além do romance “proibido”, consumado pelo desejo de rebeldia, a primeira longa-metragem de Roberto De Paolis comporta-se ao sabor das correntes tendenciosas de um certo cinema italiano que transforma os velhos ensaios neorrealistas em novos retratos humanitários quanto à condição do imigrante / minorias (neste caso a etnia cigana a servir de subenredos antropólogos). Como tal, parece existir uma profundidade de campo neste jogo de flirts e canções de engate confundidos como juras amorosas. Todavia, essa mesma profundidade não adquire a densidade necessária para evadir do universo destes dois apaixonados uma claustrofobia solipsista com pretensões para mais.

 

pure-hearts-cuori-puri.jpg

 

Tal como acontece com muitas das primeiras longas, De Paolis tropeça nas suas “virgindades”, mas é a sua recusa pelo celibato cinematográfico que nos leva a crer que teremos algumas alegrias num futuro próximo. Veremos. Contudo, o realizador demonstra uma eximia dedicação no trabalho dos atores, com Selene Caramazza e Simone Liberati a aprofundarem as suas personagens, enriquecendo-as com apaixonadas motivações.

 

Filme visualizado na 11ª Festa do Cinema Italiano

 

Real.: Roberto De Paolis / Int.: Selene Caramazza, Simone Liberati, Barbora Bobulova

 

coverlg.jpg

 

6/10

publicado por Hugo Gomes às 15:38
link do post | comentar | partilhar

1.3.18

7bf8774b1aa3d5860f485d8a069a67a855ac4c99.jpg

Mata-Hari de vermelho!

 

O pano ergue-se. A orquestra arranca o primeiro acorde, preenchendo o teatro com uma melodia rompante e furiosa. Por fim, entra em cena a estrela, a dançarina que exibe toda a sua destreza, dirigindo-se graciosamente para a luz do holofote que a ilumina de essencial natureza. Ela é a rainha do palco, e todos os olhos da ópera a seguem como se tivesse sido decretado pecado perder de vista qualquer movimento que seja produzido pelo seu corpo delicado. Contudo, a alguns metros dali, um outro “bailado” decorre, um americano vagueia pelo jardim noturno em busca da sua “toupeira”, o infiltrado/aliado na sua luta contra o sovietismo oculto mas presente. O encontro destas duas figuras misteriosas vai-se revelar uma emboscada, da mesma maneira que a dançarina será traída pelos movimentos adversos do seu companheiro de dança. Que tragédia … em ambos os cenários. Aparentemente, nada de relacionado existe nesta convergência temporal, mas há uma carnalidade entre estes dois momentos nesta intriga imaginada por Jason Mathews, no seu bestseller: Red Sparrow.

 

436e52ab-59c3-4343-8846-c71f55fcb468-0406f8f9-83e3

À primeira vista, eis mais uma oportunidade de Hollywood seguir a sua infernal busca pelos antagonistas vermelhos - a União Soviética bem entranhada na memória do cinema de espionagem dos anos 60 e 70 - continuando a persistir em velhos rancores (provavelmente nunca expirados) e atribuir o seu quê de pastiche em todo este cenário. É a Rússiagringa” a pairar como a ameaça num filme sem atitude de esquivar os seus evidentes maniqueísmos, até porque justiça e medo apenas estão distanciados por 4 km. Mas face a isso, o grande dispositivo de Red Sparrow fez escola na formação de novas Mata-Haris - a piscar os olhos às aventuras trágico-eróticas de Tinto Brass (Salon Kitty, 1976), revelando-se o novo produto de Francis Lawrence num objeto no mínimo sedutor; quer no requinte técnico-narrativo (a primeira sequência encadeada é um exemplo grandiloquente disso), quer na construção da intriga, mantendo-se longe dos lugares-comuns do convertido cinema de ação (apesar da palavra-chave espionagem nunca ser uma “tag” para esse reconhecíveis códigos).

agente_07-lg.jpg

Essa sedução é trazida com tamanha frivolidade graças a Jennifer Lawrence, que tendo em conta aquilo que vimos em mother!, ou seja, a sua capacidade de se sujar, humilhar, submeter aos métodos dos seus realizadores, a convertem num habitual farrapo. Arrisco a afirmar que este é o papel mais trabalhado da sua carreira (mesmo que o sotaque artificial seja embaraçoso), mas provavelmente, em tempos de #metoo e de um dito puritanismo que ressurge a olhos vistos, a sua presença seja uma via para adensar Red Sparrow. Aqui, o arquétipo inicial transforma-se numa ode à "Força do Sexo Fraco", um universo onde o ser masculino revela as suas maiores fraquezas e esclavagismos frente às “armas secretas” das mulheres.

red_sparrow__official_trailer_20th_century_fox-h_2

A qualquer momento sentimos que o filme de Francis Lawrence anseia explodir do seu formalismo técnico (invejável tendo em conta as muitas produções do género) e da sua agressividade inerente, quebrando os códigos definitivamente. Mas já sabemos o que a casa gasta. Por outras palavras, como Hollywood anda à deriva do fácil mercado. Isso torna-se numa espécie de travão para Red Sparrow, um filme mais interessante nas entrelinhas do que na sua fasquia. E tal como a natureza da sequência inicial, existem constantes oscilações: a graciosidade de um lado, a imperatividade do género do outro.

 

Real.: Francis Lawrence / Int.: Jennifer Lawrence, Joel Edgerton, Matthias Schoenaerts, Jeremy Irons, Ciarán Hinds, Charlotte Rampling, Mary-Louise Parker

 

transferir (1).jpg

 

6/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 01:46
link do post | comentar | partilhar

8.1.18

transferir (2).jpg

A Guerra, ali ao lado!

 

A esta altura do campeonato torna-se difícil separar Darkest Hour de um outro olhar sobre a crise de Dunquerque. Sim, refiro ao homónimo filme de Christopher Nolan, o qual tantas maravilhas foram dirigidas por esse Mundo fora. E nesse “concurso opinativo”, o mais recente filme de Joe Wright sai a perder no senso comum por simplesmente emanar a dita biografia classicista, erguido, como é o costume, pela omnipresença do seu ator principal.

 

MV5BMjE2ODY3NzA4MF5BMl5BanBnXkFtZTgwMzQwNjg2MzI@._

O conflito bélico em si, encontra-se visualmente ausente, mas verbalmente presente nos discursos dos seus lideres, um campo de batalha torna-se terreno politico que se vislumbra em “horas mais negras”. A assombração da guerra e um homem, o belicista primeiro-ministro Winston Churchill, que se torna na figura-chave de uma nação a passos largos a essa mesma “escuridão”, parecem não ser par para o explicito pomposo de Nolan. Porém, é aí que se enganam. Darkest Hour é em toda a sua condução (e perdoam-se as aventuras no cinema mais clássico a puxar pela Hollywood “banhada” pelos seus ídolos de ocasião), um filme pacifico com a nossa imaginação. Um retrato de um Reino Unido como uma ilha em pés de guerra, onde as verdadeiras “trincheiras” residem a milhas de distancia, mas é com as suas invocações verbais que o espectador é engolido por esse cenário sugestivo (apenas relembrado por pequenos detalhes sem a afiambrada explicitude).

 

MV5BMTg1NDQ5NjAwNF5BMl5BanBnXkFtZTgwNTgzODA1NDM@._

 

Enquanto isso, Wright deixa-nos antever um aprumo técnico, a começar pela primeira sequência onde um picado navega por entre o parlamento inglês, causando uma extensão à sensação de conflito interno, o plano geralizado que dá lugar a um dinâmico conjunto a servir de preparativos para a enésima esquematização biográfica (recordamos a natureza teatral injetada num outro parlamento em Lincoln, de Spielberg). A luz, as sombras, tudo incluindo na fotografia de Bruno Delbonnel jogam a favor da avizinhada ansiedade e, em conformidade, a banda sonora rompante de Dario Marianelli assume o inicio de batalha como um rufar dos tambores (o tão profético confronto encontra-se ao virar da esquina). Obviamente, que Darkest Hour funciona como um objeto de requinte e de alguma classe no seu vigor vintage, e Gary Oldman é par para esse desafio, não fosse o facto da obra o apropriar como a sua força-motora. Apesar do “boneco imitador” que o ator contrai nesta sua composição (como os votantes e academistas tanto adoram premiar), é nessa coerência histórica indiciada na sua interpretação o qual Joe Wright trabalha como um vetor, o resto vem por acréscimo.

 

1ecd1ccb86a8bebdb67f117bff701e32117f1aa5067aa6284a

 

A certo ponto, sentimos esse classicismo a estorvar a seriedade do filme. Vejamos a sequência decorrida no metro, onde Churchill entra em contacto com os seus eleitores, acompanhado por um “belo” discurso de empório patriótico, e de inspirada manipulação para nos dar a ideia de que o “povo é quem mais ordena” naquele cenário sociopolítico. Enfim, rasteiras e mais rasteiras que não condenam de todo este Darkest Hour, mas o enfraquecem frente ao leque de biopics da award season. Mas em relação ao outro Dunkirk, a dominância das palavras e o uso sugestivo do trabalho de Wright adquirem uma dimensão fulcral e menos jubiloso em relação a tão proclamada obra de Nolan. E, verdade seja dita, puxando para trás, em 2007, Joe Wright conseguiu em 5 minutos aquilo que o outro não conseguiu em hora e meia. Nem sempre a quantidade é sinonimo de qualidade. 

 

Real.: Joe Wright / Int.: Gary Oldman, Lily James, Kristin Scott Thomas, Ben Mendelsohn, Ronald Pickup, Stephen Dillane

 

lead_960.jpg

6/10
tags: , ,

publicado por Hugo Gomes às 16:45
link do post | comentar | partilhar

4.1.18

transferir (3).jpg

Um desastre que não se resume a um desastre de filme!

 

Primeiro de tudo, The Room, o filme original de 2003, produzido, dirigido, escrito e protagonizado por Tommy Wiseau, é um desastre por inteiro, a questão é como encaramos esse mesmo acidente. Alguns afirmam que é o pior filme da História da Sétima Arte, outros vão mais longe garantindo que apesar de “mau” (um rótulo algo oligárquico para qualquer crítico de cinema), trata-se de uma espécie de obra-prima nesse mesmo sentido, e quiçá, uma transgressão da arte narrativa.

 

MV5BMDY5ZDUwOTEtOGQ1MS00MTNhLWJlYWEtMTEyOGI1YWE4ZD

 

Não falamos de reavaliação ou revisionismo, mas sim de um “cult” que estabeleceu o filme como um sucesso de matinés, uma troça involuntária que se metamorfoseou para uma espécie de comédia negra. E como todos os “descarrilamentos” existe um enredo a ser absorvido por detrás disto tudo, e tal aconteceu em 2013 com o livro The Disaster Artist, onde Greg Sesteros aborda todas as atribulações de uma produção “arriscada”, assim como a misteriosa figura de Wiseau. Foi essa mesma matéria que serviu de base para esta homónima adaptação de James Franco (que realiza e protagoniza), que a certo momento cita Titanic para espelhar a sua verdadeira natureza – uma iminente “catástrofe” a servir de cenário para o amor entre dois seres – neste caso especifico a amizade entre dois aspirantes a atores. Inadaptados envolvidos em fracassos contínuos que decidem traçar as suas próprias regras, por outras palavras, o seu próprio filme.

 

MV5BMzBmYTZmMTktODYyNS00N2U1LTk3MDktMWI3NzljNmM4Yj

 

Mas em relação a Titanic de Cameron, ficamos somente por esta sintaxe enviusada. O filme de Franco tende em ser um prolongado making of dramatizado que bem tenta conquistar os que de fora estão deste fenómeno “The Room”. Infelizmente, a própria fenomenologia é falhada. A matéria-prima é demasiado nicho para o mainstream e de forma a conservar essa atmosfera bizarra que entra em paralelo com o objeto real, Franco emancipa-se dessa habitual tendência do “contado a principiantes” e aventura-se na sua própria jornada pessoal. Com isto afirma-se que não encontraremos nenhuma experiência de qualquer estado, nem algo arriscado em termos de storytelling clássico. Nada disso, os marcos narrativos aristotélicos mantém-se como manda o cinema de entretenimento, mas a vénia a este Quarto de Wiseau, que é constantemente indicado como o objetivo definitivo.

 

MV5BMWNlODk4ZTgtNzMwYS00OWYxLWE3M2QtYTA2MTZiOTBmZT

 

E todo este jeito de homenagem faz bem à saúde de Franco, que para além de um ator em constante mimetização (o mesmo se pode apontar ao seu irmão e co-protagonista Dave Franco como Sesteros), é como realizador que deparamos com o seu melhor trabalho. Sim, este é o seu filme mais contido, o menos intimista e egocêntrico e sobretudo mais competente para fins comerciais, resultando numa compaixão terna entre criação e criador. Afastando-se da mera anedota, ou a caricatura de algo que por si merece a ridicularização, de que maneira funciona essa mesma? Tal depende do espectador. The Disaster Artist é um complemento dotado de carinho. É para ver, e desta vez sem a companhia de colheres.   

 

I did not hit her. It's not true. It's bullshit! I did not hit her. I did not. Oh, hi Mark!”

 

Real.: James Franco / Int.: James Franco, Dave Franco, Ari Graynor, Seth Rogen, Alison Brie, Zac Efron, Josh Hutcherson, Jacki Weaver, Melanie Griffith, Sharon Stone, Tommy Wiseau, Danny McBride, Adam Scott, J.J. Abrams, Lizzy Caplan, Kevin Smith, Kristen Bell, Bryan Cranston, Zach Braff, Judd Apatow

 

MV5BMTk4N2UwMzAtY2UwMC00Y2ZmLThlNTMtNzQwOGUyYjlmMT

6/10
tags: , ,

publicado por Hugo Gomes às 15:57
link do post | comentar | partilhar

23.12.17

83ea144249147a6fa08b2b639c25a152710f3ecc.jpg

A Máscara do Medo

 

A violência adquire um só rosto, uma face sem particularidades e características que se confunde na cara dos outros, assim como na nossa. Essa mesma máscara é adaptável a qualquer uma, basta as palavras proferidas serem mais leves que as memórias que essa mesma guarda. Do México, esse cenário de violência provinda de uma guerra narcótica e tribal, a corrupção do sistema e a negligencia quer dos silenciosos, quer dos silenciados, é matéria finita no cinema. O documentarista Everardo Gonzalez somente abandona a ficção e as suas armadinhas e abraça a primeira pessoa do panorama. La Liberdade del Diabo é um registo de histórias que nunca chegam a espelhar a total patologia social mexicana, mas são inacreditáveis as palavras de dor, rancor ou somente os testemunhos dessa mesma realidade que se ouvem através de um sistema de Fregoli.

 

laliberta_f02cor_2017110218.jpg

 

Pois, que se lixe a ficção a servir de “sala de pânico”, este “cinema verité” contido em talking heads encontra refúgio no anonimato de uma máscara comum. Esta experiência adquire a sua farsa, um tipo de farsa que Joshua Oppenheimer executara no seu díptico The Act of Killing / The Look of Silence, uma encenação utilitária para a invocação de uma verdade de difícil extração. Em La Liberdade del Diabo, a farsa é simbolizada pelo disfarce facial, o lado ficcional dessa coletiva de memórias infelizes. O sofrimento e a crueldade estão de mãos dadas para a conceção de uma narrativa, neste documentário que conduz-se com emergência e choque para todos aqueles que encontram a segurança no conforto do lar (ou da sala de cinema).

 

la-libertad-del-diablo.jpg

 

Existe em Gonzalez um certo ar de perverso voyeurista, mas essa curiosidade que “por vezes mata o gato” indicia um ativismo. Se é eficaz ou não para com o espectador, isso advém da sua perspetiva e sensibilidade. Contudo, quem nos dera que o tão “conceituado” Wang Bing fosse assim. Tão urgente e menos ocidentalizado. Enfim…

 

Filme visualizado no 11º Lisbon & Sintra Film Festival

 

Real.: Everardo Gonzalez

 

 

La-libertad-del-Diablo (1).jpg

6/10
tags: , ,

publicado por Hugo Gomes às 16:14
link do post | comentar | partilhar

23.10.17

Thor Ragnarok.jpg

À terceira é de vez … em 9 anos!

 

Não vamos aqui “histericamente” proclamar que este Ragnarok é o Filme da Marvel por excelência, como muita da imprensa norte-americana interessada em seguir como insiders os estúdios da Marvel / Disney considera em cada produção lançada, mas poderemos garantir que este era o filme que precisávamos (não totalmente) neste universo cinematográfico.

10-thor-2610.jpg

Era fácil superar os dois standalones anteriores, tendo em conta que The Dark World (O Mundo das Trevas) representou tamanha pedra na qualidade narrativa e produtiva destes episódios-fílmicos. Em Ragnarok, o neozelandês Taika Waititi (What We Do in the Shadows, da série Flight of the Conchords) percebeu a tempo que a personagem-título necessitava de um “refresh”, de uma actualização (digamos assim), trazendo com isso consequências e implicações. Primeiro, a auto-paródia que preenche o protagonista, tornando-o adaptável para uma variedade estilística. Sim, Thor 3 é dos poucos que aposta numa divergência de estilo (anteriormente este título era de Guardians of Galaxy), nem que seja pelos cenários deliciosamente coloridos ou da música techno 80 de fazer chorar David Hasselhoff, tudo isto em enquadramento com o nosso “herói”, que subliminarmente é movido por vingança, sentimento primitivo raro neste universo colorido da Disney.

 

MV5BMTNhYTQwNTAtYWQ1YS00OTEwLWIzNjEtZTI5MmM5ZWNmYj

 

Porém, se ficamos minimamente satisfeitos com este upgrade, por este precioso momento de causa-efeito, e as inconsequências disfarçadas por alguma preocupações de insurreição, Ragnarok é para todos os termos uma produção gloriosamente engendrada no seu A a B em linguagem argumentativa, pelo lufa-lufa narrativo e pelas constantes personagens unidimensionais (Cate Blanchett e Tessa Thompson são exemplos disso) que apenas vingam por alguns pormenores irreverentes.

 

MV5BMGIwMzU5NzAtMGNlNi00ODg0LWEyYWItZDVjZTljMWM0Nj

 

A cobardia da Marvel ao longo de 9 anos é compensada com “passos-coxos” avante, oferece-nos um entretenimento visual com uma noção satírica invejável … ou Jeff Goldblum como o merecedor imperador de uma nação. Já esperávamos isto por muito tempo (não me refiro apenas à iconoclastia de Goldblum), mas aos “ventos de mudança” que entraram no estúdio mais sobrevalorizado dos dias de hoje.  

 

"We know each other. He's a friend from work."

 

Real.: Taika Waititi / Int.: Chris Hemsworth, Tom Hiddleston, Cate Blanchett, Tessa Thompson, Anthony Hopkins, Idris Elba, Karl Urban, Ray Stevenson, Jeff Goldblum, Mark Ruffalo, Benedict Cumberbatch, Taika Waititi, Matt Damon, Sam Neill

 

MV5BYmE3NmU3NDItMmUzYi00YjFkLTkzNzQtZDg5NTM2OTkzNT

 

 

6/10
tags: , ,

publicado por Hugo Gomes às 12:46
link do post | comentar | partilhar

13.10.17

v1.bTsxMTE3MjYwNztqOzE3NTg5OzEyMDA7ODAwOzEyMDA

Quando os bons valores matam!

 

Existe em todo este jogo de “correr atrás” um sentimento de culpa, e essa culpa é minimizada com o uso da máscara. Neste caso, o slasher movie, subgénero que se difundiu na década de 80, encontrou refúgio no disfarce, algo aprendido com as caças de Michael Myers em Halloween, ou do açoiteiro Leatherface em Massacre no Texas, tudo isso na década de 70 (tendo como piscar de olhos às reencarnações maternais de Norman Bates em Psycho). Sexta-Feira 13 não traz nada de novo no eterno jogo do gato e rato; o assassino no seu recreio, escolhendo as armas e sucessivamente as vitimas, a popularizar a “moda” do whodunit, a descoberta da identidade misteriosa, a verdadeira face por detrás da “máscara”*.

 

friday_1_1.jpg

 

Em Sexta-Feira 13, a tragédia marcou o campo de férias de Crystal Lake. Devido à negligência dos monitores, uma criança acidentalmente afoga-se no paradisíaco lago. Anos mais tarde, o mesmo campo de férias é assombrado por um assassino. Fala-se do regresso de Jason Vorhees, a trágica criança que perdeu a sua vida nas águas, um retorno não apenas físico, mas até metafísico. Apesar da sua componente sanguinária e politicamente incorrecta, Sexta-Feira 13 desenvolve uma veia moralista cristã. Os adolescentes (vitimas) são literalmente castigados pela sua rebeldia, pela luxúria, pelo consumismo e pelos vícios que apresentam. Uma das regras estabelecidas nestes confrontos é a tendência do casal sexualmente activo ser mortalmente punido durante o acto, a má índole do grupo merece um procrastinado fim e a final girl teria que corresponder os requisitos virginais e de pureza.

 

friday-the-13th-1980-DI.jpg

 

Sean S. Cunningham cria sob partes "frankenstenianas", um slasher atmosférica embebido nas influências deixadas nos exercícios dos anos 70 e por fim, formalizar o modelo que seria seguido anos e anos de indústria até chegar ao sentido "spoof", de paródia, dos anos 90. No fim, Jason poderá não ser o assassino esperado, porém, as sequelas iriam corrigir isso através do método régua e esquadro (esvaziando o síndrome whodunit que só seria recuperado no quinto capítulo). Curiosidade, o primeiro filme apresenta um dos desempenhos primordiais de Kevin Bacon.

 

PS: apesar do uso da palavra máscara no texto, esta não é invocada de modo literal. A conhecida máscara de hóquei que a figura de Jason Vorhees popularizou, só foi introduzida em 1982 com o terceiro capítulo da saga. O uso da máscara tido neste texto deriva sobretudo da identidade ocultada do assassino.

 

Real.: Sean S. Cunningham / Int.: Betsy Palmer, Adrienne King, Jeannine Taylor, Kevin Bacon

 

friday-the-13th.png

 

 

6/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 13:13
link do post | comentar | partilhar

7.10.17

Borg vs McEnroe.jpg

A new rush!

 

Estamos em 1980, estádio Wimbledon, na grande final do campeonato de ténis. O público espera impacientemente pela chegada dos dois tenistas, a competição está ao rubro. Do túnel de acesso ao estádio, duas silhuetas sombrias fazem se presenciar. A cada passo aproximam-se a luz que por fim os banhará com o holofote, revelando as suas verdadeiras identidades. Eles são Björn Borg e John McEnroe, os finalistas deste esperado torneio, o maior do desporto do ténis. De um canto, Borg, conhecido como o iceberg, vindo dos recantos mais remotos da Suécia. Eis o verdadeiro campeão, um atleta nato que concretizou 4 campeonatos mundiais de forma triunfal, estando agora na proximidade do seu quinto titulo. Mas a tarefa não será fácil para este Golias. Um "David" tenta-lhe retirar o tapete, McEnroe, um jovem prodígio, talentoso, mas com um carácter oposto ao do seu adversário, um rebelde sem causa de má conduta desportiva, odiado pelo público e muito mais pelo corpo de árbitros que assiste às suas partidas (o enfant terrible Shia LaBeouf é a mais apropriada escolha de casting).

 

borg-vs-mcenroe-03.jpg

 

Neste momento do campeonato, estas figuras, agora convertidas em personagens, cada uma regida ao leitmotiv, à jornada do herói e do anti-herói, do objetivo que os torna consequentes dos seus respectivos destinos O macguffin – o título – lança-os nesta aventura desportiva agora conformada como uma demanda cinematográfica do storytelling. Durante o tempo demorado a chegar aos seus cantos de jogo, o filme recorre ao slow motion, às câmaras-gruas que nos deixam antever a audiência que servirá de massa malfeitora, e do "ringue" plenamente situado neste vórtice. McEnroe arranca com a sua jogada, atira a bola ao ar e movimenta-se de forma a concretizar a primeira "raquetada" da partida. O espectador [nós] esperava por este momento sob cadências de um thriller, o suspense que nos faz recatar nas nossas ocultas emoções.

 

borg-vs-mcenroe-07.jpg

A raquete bate na bola e, consequentemente, o jogo, ou filme, entra no plano picado generalizado, daquelas imagens que nos acostumamos a assistir na televisão, nas transmissões directas dos nossos desportos de requinte. A banda-sonora é interrompida com o "tlack" emitido pelo esférico, as personagens são agora meros peões a correr atrás desse minúsculo ponto que velozmente atravessa cada lado do perímetro. Neste preciso momento em que o rotineiro cinema emocional dá lugar à rotina do desporto, percebemos da manipulação que o cinema "contador de histórias" parece induzir nestes retalhos viventes; a rivalidade de dois campeões num desporto que está para a grande tela como a engenharia está para o lírico. Falando nessa metamorfose romantizada que o desporto possui na Sétima Arte, é fácil identificar o boxe como a aperfeiçoada adaptação, onde os rounds se comparam a arcos narrativos e a luta prolongada, realçada pela câmara dos nossos directores, num autêntico clímax de almas em bruta confrontação, intrínseca e extrínseca.

imgID126757393.jpg.gallery.jpg

O ténis não possuía até à data nenhum estandarte cinematográfico, e como tal Borg vs McEnroe funciona como o melhor exemplo deste desporto na grande tela. Um história de rivalidade novamente encarada como o ingrediente apimentado, imaculado perante a exactidão competente do realizador Janus Metz, uma competência que não vai além do formalismo estético e da manipulação emocional. Nesse sentido, Rush, do sempre tarefeiro Ron Howard, correspondeu com maior expectativa o desafio.

Borg-vs-McEnroe.jpg

No final, seguimos para a comparação, o cinema contra os reais factos isolados traduzidos pelas imagens captadas por outras lentes; as fotografias que registam a glória e a derrota num dos maiores duelos desportivos de sempre. Se uma imagem vale mil palavras, é bem verdade que nessa comparação o cinema deste Borg vs McEnroe perde em preencher as emoções ao seu visual, despindo os simbolismos desta dicotomia de triunfo/desilusão.

 

Real.: Janus Metz / Int.: Sverrir Gudnason, Shia LaBeouf, Stellan Skarsgård, Tuva Novotny

 

MV5BNWY3ZTU4NmUtNTQwYS00MGRlLWE4OGYtZmEzM2JhOWNhNm

 

6/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 12:07
link do post | comentar | partilhar

12.9.17
12.9.17

It.jpg

E tudo começou com um … palhaço!

 

Para entendermos a natureza desta nova versão do êxito literário de Stephen King, devemos inteirarmos numa das sequência-chaves de ambas as conversões, a infame mini-série que foi transmitida em 1990, e o filme que tem culminado num grandiloquente hype.

MV5BMjEyMzM3NjM0NF5BMl5BanBnXkFtZTgwMDQ1NzMzMzI@._

No projecto televisivo, Tim Curry veste a pele desta entidade que assume a forma do palhaço como catalisador de um medo comum e, não só, criar um engodo, uma empatia fraudulenta para com as suas vitimas. Na cena em questão, que intitularemos simplesmente como sarjeta, seguimos Georgie, uma criança que desfruta um dia chuvoso na "companhia" de um barco de papel, fabricado pelo seu irmão mais velho. Enquanto segue as correntes induzidas pela forte precipitação e das eventuais sarjetas que se encontram à berma dos passeios, Georgie perde a sua embarcação numa delas e, desesperadamente, ao tentar reavê-lo, é surpreendido por um palhaço. Existe nele um sorriso amigável, um discurso de promessas, iguarias, dotado de um humor matreiro, mas que para qualquer criança é um comité de confiança. O rapazinho cai na armadilha, assim como muitas crianças cairiam na "conversa de estranhos", esses terrores comuns dos progenitores.

MV5BMTg1NTU5NTgwOV5BMl5BanBnXkFtZTgwMTQ1NzMzMzI@._

Claramente, com possibilidades de censura televisiva, nunca vemos verdadeiramente a criatura consumir a sua presa, tudo cai num cliffhanger de cena, dando lugar ao créditos iniciais. Na versão de 2017, por sua vez, o "palhaço", agora interpretado por Bill Skarsgård (filho do actor Stellan Skarsgård), é uma ameaça evidente, sorriso malicioso, aspecto pomposo, com diálogos arrastados e uma voz asquerosa. Um verdadeiro pesadelo para a "criançada". A sua abordagem é tudo menos engodo, a farsa como um isco, mas sim a persistência, aquela de consumir a sua presa o mais depressa possível. No caso da alimentação, contrariando o repentino corte da mini-série, este IT é explicitamente gráfico. A exposição dos novos tempos do horror acaba por contornar um dos grandes tabus do cinema de horror, isto porque poucos são os que demonstram expressamente a morte de uma criança de forma visualmente macabra.

68-IT-remake-fb.jpg

Apontado por muitos como uma nova faceta do terror contemporâneo, e ainda mais a operar nos grandes estúdios, Andy Muschietti concebeu Mamã há quatro anos atrás (apadrinhado por Guillermo Del Toro). Vencedor do Fantasporto, o filme apresentava um conjunto de nuances na vertente do fantástico e da estética terrorífica de outros tempos. Muschietti é fascinado pelo terror hoje "infabricável", pelo desconhecido como signo e neste IT pelo regresso do carismático vilão do género (algo que não víamos desde a morte de Jigsaw na "longuíssima" saga iniciada por James Wan).

MV5BNDVjMjIxMzEtMGZmNi00ZmM5LWEzN2ItODJkNTRkZjdiYz

Como importante influência na concepção desta ameaça antagónica, Nightmare on Elm Street parece ganhar dimensão nos aspectos visuais e na tentativa de conceder uma atmosfera penetrável. Tal como as criação de Wes Craven, existe um imenso "carinho" pelo vilão, pela entidade maligna que se assume como o derradeiro protagonista de um conto sob contornos comuns do imaginário de King (sim, todo aquele cenário Stand By Me não é meramente déjá vu).

dims.jpg

Nesse sentido, a "palhaçada" tem tendências a estorvar o potencial narrativo do filme. IT desenvolve-se desequilibradamente entre uma preocupação com as personagens (os jovens capazes que se fundem na reconstituição de época) e os jump scares - como manda a agenda (até  Annabelle 2 conseguia ser mais inventivo nessa abordagem)- gratuitos que nada contribuem para um cenário de medo. Aliás, o medo é coisa inexistente por estas bandas.

maxresdefault (4).jpg

Obviamente que somos induzidos a uma produção competente, quer a nível técnico (apesar do excesso do CGI que não se separa do protagonista), quer na narração (saber condizer duas nuances opostas é, em termos industriais, uma bravura). Porém, a competência nunca salvou projectos do esquecimento e em IT existe uma ausência de agressividade na sua abordagem … E não. Não me refiro ao grafismo, mas sim ao inconsciente, o elemento mais tenebroso de todos.  

 

"You'll float, too, you'll float, too, you'll float, too... YOU'LL FLOAT, TOO!"

 

Real.: Andy Muschietti / Int.: Bill Skarsgård, Jaeden Lieberher, Finn Wolfhard

 

Movie-Cast-2017.jpg

 

6/10

publicado por Hugo Gomes às 16:00
link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

6.9.17

MV5BNzU0MzgxMjAtYjU0NC00ZWYyLTljZWUtNTRkNzBhZTYwYz

O sentido do terror!

 

A dupla Jeremy Gillespie e Steve Kostanski, que tem vingado no departamento de caracterização (com orgulho poderão exibir o Óscar ganho por Suicide Squad), têm apostado a meio pés de lã na realização e ambos com resultados satisfatórios. Agora, reunidos novamente, avançam num autêntico bolo de camadas, um filme de cerco que depressa evolui para algo mais … demente.

 

MV5BNjM2NDZiZTItZTAzNy00NmNlLThjNWItOTQyYzdmYTQ2Nj

 

Se Gillespie e Kostanski juntam esforços para nos trazer um arranque envolto em cultos satanistas e à limitação dos cercados num hospital no “meio do nada”, depressa recorre-se aos lugares-comuns do seu subgénero, às tendências da fórmula, e à honestidade das referências (assume-se os tributos e escapam, por vias de uma cínica absolvição, à acusações de cópia) -  mas onde os trilhos levavam em becos sem saída, The Void torna-se num marginal, um nostálgico desajeitado.

 

MV5BNmQ0MWNkMmQtOTYyMC00ZGY5LTgwNDgtZWViOTNlNmVhMm

 

Os anos 80 (ou a memória destes) ditam os fluxos sanguíneos deste exemplar em prol de influências óbvias, de Clive Barker e o imaginário infernal do sofrimento via sacra, até Lovecraft e às seitas para além das dimensões reconhecíveis. Esta “descida ao submundo” torna-se num recreio para os devaneios da dupla, a criação das bestas por vias dos efeitos práticos, a obscuridade dos pesadelos trazidos à luz do dia através do “artesanato”. É cinema visual, a estética do horror, o grafismo e o onirismo que faltava numa panóplia rendida ao género -  os psicopatas estéreis aos fantasmas explicados “às criancinhas”.

 

MV5BMmM0MGJkOTktYjViYi00ZmFkLTgwNmItNTE4YjBmMTM1Nm

 

The Void é de certa forma um “fóssil vivo”, uma peça antiquada, mas não obsoleta. É por essas e por outras que perdoarmos mais facilmente o fraco desenvolvimento das personagens, as interpretações fraudulentas e o enredo refém da linguagem puramente visual do que a credibilidade do argumento, até porque o terror não encontra sentido físico. Aliás, o terror é sobretudo abstracto.

 

Filme visualizado no 11º MOTELx: Festival Internacional de Cinema de Terror

 

Real.: Jeremy Gillespie, Steven Kostanski / Int.: Aaron Poole, Kenneth Welsh, Daniel Fathers

 

MV5BNzFiZTBhMGYtNGVjMC00OGM1LTlhYWMtZTdhMDYzNzRiNT

 

6/10

publicado por Hugo Gomes às 14:36
link do post | comentar | partilhar

30.7.17

Atomic Bonde - Agente Especial.jpg

A nossa "loira atómica"!

 

Vamos fingir por momentos que Charlize Theron não é a protagonista de Agente Especial... sim, vamos supor que ela está ausente do projecto. O que nos resta afinal? Um thriller de acção pingarelho completamente estilizado, cujo estilo, quer estético, quer técnico, engole por completo o que de bom este filme poderia culminar? Sim, exactamente isso!

Atomic-Blonde-Charlize-Theron-Stairwell-Fight.jpg

Atomic Blonde desloca-nos para os temores da Guerra Fria, mais precisamente nos dias premonitórios da Queda do Muro de Berlim, tudo embrulhado no típico filme de espionagem mais devedor aos tempos musicalizados de hoje do que ao apogeu deste mesmo subgénero na década de 70. Como é de esperar, a premissa envolve-nos um macguffin, um dispositivo que levará a nossa protagonista e as restantes personagens numa extensa corrida contra o tempo, esse que se faz não da maneira cronometrada, mas na reconstituição de época, com a História a ser escrita em paralelo (das promessas da queda do muro até à realização do histórico acto).

 

atomic-blonde-reviews-1012330.jpg

 

Contudo, o objectivo desta intriga, o motivo de desespero destas personagens, não fazem efectivamente o sangue correr no espectador, a responsabilidade encontra-se de facto na saturação do subgénero, na vulgaridade com que o macguffin se converte nos constantes plot twists, ocorridos pontualmente e sem surpresa alguma. Mas todas estas desculpas têm um propósito (calma, ainda não é aqui que entra Charlize). A desculpa é um show off técnico e estético por parte de David Leitch (um dos realizadores de John Wick e futura sequela Deadpool), uma bandeja requintada de sequências de acção desafiadas por uma montagem poupada em cortes e planificações desnecessárias, aliás são os constantes travellings, esses planos sequências quase espaciais que ditam a natureza desta “loira atómica”.

 

atomic-blonde.jpg

 

Que em união com a violência gráfica, os stunts sem falhas e devidamente treinados, a decadência de uma Berlim em ebulição e por fim … entramos então naquele ponto inicial … a nossa actriz com esforço e dedicação neste papel fisicamente árduo. Theron dispensa os duplos, é autodidacta e essas qualidades reflectem uma cumplicidade com o olhar clínico de Leitch, esse dinamismo vibrante entre a técnica pensada em prol da acção e não o oposto.

 

c6lkrbjwcaaxzxf.jpg

 

Curiosamente, existem vestígios de um sub-enredo existencialista que parece ocasionalmente demarcar-se da proposta de acção. Quem é esta Atomic Blonde? O que procura ela numa cidade dividida sob a agenda política? “Em Berlim, todos procuram algo”, afirma uma das personagens que atravessa no seu caminho, uma estrada que a guia para uma outra sequência. Enquanto combate capangas no Cinema Kino, é projectado Stalker, de Andrei Tarkovsky, a ficção científica filosófica onde um grupo de personagens tentam alcançar a “Zona”, um local misterioso, perigoso e proibido que realiza os respectivos desejos íntimos de quem o atravessa. Nessa jornada cinematográfica, estas personagens defrontam as suas dúvidas e medos antes de se instalarem na “Zona”, que resulta igualmente no espaço de uma Humanidade cada vez mais guiada pelo seu “umbiguismo”. Cena seguinte temos: “Everything you want is on the other side of fear”, lê-se num dos letreiros visíveis de um clube nocturno de Berlim, essa cidade conflituosa em prol dos seus mais íntimos desejos, um desejo colectivo que não reflecte a dúvida individual da personagem de Theron.

 

atomicblonde.jpg

 

Infelizmente, ficou a sugestão, Atomic Blonde perde esse rasto no trilho, e o que sobra é só mesmo uma dedicada actriz de corpo-e-alma. E sim, é ao adicionarmos Charlize Theron a esta equação que o resultado se torna satisfatório. A actriz torna-se a rainha da acção, a estrela deste palco em ruínas e o resto… bem, o resto, a intriga, os secundários e a direcção, estão somente elementos subjugados a uma realeza apenas.  

 

Real.: David Leich / Int.: Charlize Theron, James McAvoy, John Goodman. Toby Jones, Sofia Boutella, Eddie Marsan, James Faulkner

 

atomic-blonde-poster-header-image.jpg

6/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 11:34
link do post | comentar | partilhar

27.7.17

Valerian e a Cidade dos Mil Planetas.jpg

O progenitor da space opera!

 

Uma adaptação de Valerian em pleno século XXI arrisca-se a repetir os mesmos contornos do anterior flop John Carter. Eis dois filmes que vieram muito depois do seu tempo, projectados numa altura em que a cultura pop e o reino do space opera encontra-se intrinsecamente embebida pelas suas próprias influências (muitas vezes sem ter a percepção que os referencia). No caso da publicação franco-belga, Valerian & Laureline, criado por Pierre Christin, a sua importância serviu de base para muita da “ficção cientifica” hoje tida como fenómeno cinematográfico e cultural, nomeadamente Star Wars, o qual o seu mentor, George Lucas, sempre assumiu ser fã da banda-desenhada e cujas referências o auxiliaram na criação do seu tão amado universo.

 

thumbnail_25123.jpg

 

Desde a primeira publicação, em 1967, contam-se sensivelmente 50 anos, e Luc Besson, sempre desejoso em converter este legado para o grande ecrã, experienciou tais templantes com o seu Fifth Element (Quinto Elemento, 1997). Sendo um projecto por si arriscado, no seu contexto mercantil (vender space opera fora do conceito Star Wars é uma tarefa quase hercúlea para as audiências estivais), Valerian poderá ser induzido a erro pelas gerações mais novas, o de ser ultrapassado pelos seus descendentes, e equivocamente reduzido a um “frankenstein de ideias”, uma vistosa e histérica criação oportunista. Mas, longe dessa miopia envolvente ao fenómeno Star Wars, que hoje parece ter encontrado os seus piores dias de criatividade com o cunho da Disney, Besson encontra em Valerian mais que o jeito homenagem, o jubilo recorrente à fertilidade de uma imaginação interestelar, como se por momentos o realizador francês propusesse um regresso aos seus tempos de juventude, ao imaginário febril daqueles seus "sonhos molhados” envoltos de naves espaciais e criaturas from outer space, anteriormente apenas possíveis no formato quadradinhos.

 

valerian_and_the_city_of_a_thousand_planets-HD.jpg

 

Se é certo que em Valerian and the City of a Thousand Planets deparamos com a típica produção destinada ao fracasso comercial (nem o orçamento ajuda a contrariar a premonição), é bem verdade que se esperava uma autêntica catástrofe qualitativa por entre galáxias. Toda esse “segurança”, poderemos assim chamar, advém da sua natureza, despretensiosa e ciente das suas inverosimilhanças. Tudo recorre ao estilo de uma auto-paródia, quer com a matéria-prima, quer com a própria filmografia que Besson astutamente brinca nas entrelinhas. Para além de fazer uma constante perpendicularidade com o seu anterior Quinto Elemento, um caso de “pescadinha rabo-na-boca”, onde o filho torna-se o pai e o pai torna-se no seu próprio filho.

 

valerian2.jpg

 

E como é óbvio, 250 milhões de dólares investidos aqui resultam de um visual exuberante que nos remete ao pitoresco e à glória do burlesco criativo. Mas nesse aspecto, Besson é tão próximo de Cameron, tão ligado a esse vínculo tecnológico que suporta a estética do projecto, sempre numa jornada em busca do artificialmente credível, constantemente em confronto com o maior dos seus inimigos – o tempo que nos traz o obsoleto. E é então que o realizador segue os ideais de outro, George Lucas, e o seu paradigma da tela branca, dando asas à criatividade possibilitada pelo CGI e assim adiante, conceber um mundo de raiz. Essa “criação” é nos trazida a largos passos pelos créditos iniciais onde Space Oddity de David Bowie ecoa no profundo espaço, uma montagem de um futuro próximo, atingível daqui a um par de anos, que distancia até dar lugar a este tutti-frutti espacial.

 

Valerian.jpg

 

Enfim, Besson sabe o que faz, apesar do argumento o atraiçoar por diversas vezes e o elenco ser mais apelativo para gerações novas e não os eventuais fãs do original “Valeria & Laureline”, sem com isto negar a química existente entre Dane DeHaan e Cara Delevingne, ou da sedução natural de Rihanna num papel desvanecido de ênfase (vista como uma solução argumentativa que qualquer outra coisa). E como se trata de um filme de Luc Besson, existe sempre a tendência de sermos polvilhados com deliciosos pormenores … e porque não, encontrar no meio deste lunatismo, uma metáfora estrelar ao transgenerismo? Fica o desafio.

 

Real.: Luc Besson / Int.: Dane DeHaan, Cara Delevingne, Clive Owen, Rihanna, Ethan Hawke, Alain Chabat, Rutger Hauer, Benoît Jacquot, Louis Leterrier

 

valerian5.jpg

 

6/10

publicado por Hugo Gomes às 20:40
link do post | comentar | partilhar

22.6.17

Cuidar dos Vivos.jpg

O belo caminho da Morte!

 

A terceira longa-metragem da ainda jovem realizadora e argumentista, Katell Quillévéré, é um pedaço de sensibilidade enrolado num naperon suis "catita". Baseado num premiado best-seller francês (escrito por Maylis De Kerangal), Réparer Les Vivants remete-nos ao tema do transplante de órgãos para revisitar os bons costumes do cinema emocional, num tecido tão próprio para o público mainstream e para os menos absolvidos a essas "multidões".

 

MV5BYTQ3NDZiYjQtZjM4Yi00ZDAwLTkxYjktMmE3MjI5NWQ1Y2

 

Sim, Quillévéré tem estofo na sua direcção, consegue-se envergar pelo tempo, esses compassos de espera, para extrair uma delicadeza fragilizada nas suas personagens, de forma a construir um quadro narrativo, uma espécie de falso filme-mosaico com uma única raiz - o coração de um jovem levado antes do tempo. O título traduzido, Cuidar dos Vivos, explicita essa vontade de juntar os "cacos" depois do acidente, a de cuidar destas personagens que respiram pós-morte, contagiadas pela tragédia.

 

MV5BNDM3NmUzY2YtNTdlOC00MDkyLWJjYmQtNzYwYzhmODU2N2

 

Mas mesmo assim, é na morte que o filme encontra a sua beleza, é nos momentos que a antecedem que a câmara de Quillévéré proporciona-nos uma divina ida pelo purgatório. O olhar debaixo, no arrebatar das ondas. Submerso num oceano de vida, onde a cor mais quente é o azul, as visões que se lançam como coros angelicais num repouso dos bravos, o nosso "morto", um jovem surfista que faz as tréguas com a sua existência antes do seu desfecho. E por fim, a transposição de cenários que abrem essa porta para o desconhecido, a vida para além do leito da morte. São belíssimas e inspiradoras imagens, essas que Quillévéré nos confia, para depois seguir num percurso do sensível, por entre lutos e esperanças de uma nova oportunidade existencial.

 

MV5BYWJjZmE5YmItMzdkYy00ZjFmLWFhMjAtMzE2Y2ExYjMzYm

 

E é sim, depois da morte que o filme parece ter perdido a sua vida inicial, esse vitalidade invejável, ficando assim as réstias de um demorado melodrama com obscuros e melosos toques. Não foi a obra que esperávamos, mas a caminhada até a morte compensou-nos.

 

Real.: Katell Quillévéré / Int.: Tahar Rahim, Emmanuelle Seigner, Anne Dorval, Alice Taglioni, Bouli Lanners

 

MV5BODY4NjY0YWQtYzRiNi00OTJkLTk3NDUtODg0ZDdmZWMxMD

 

6/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 06:45
link do post | comentar | partilhar

1.6.17

Mulher Maravilha.jpg

Girl Power: A primeira vingadora!

 

Esta não é a primeira vez que os super-heróis seguem a batuta feminina, mas é um marco que um deles atinja os 100 milhões de dólares de orçamento o que, tendo em contas as notícias que surgem, trata-se de uma repercussão positiva. Lexi Alexander e Karyn Kusama (citando duas) arriscaram neste mundo ainda plenamente masculino, e os resultados foram, em todo o caso, infelizes. Porém, Patty Jenkins (cuja primeira obra garantiu um Óscar a Charlize Theron) vem provar que é possível quebrar as barreiras estranhamente estabelecidas, fazendo-o da mesma maneira que uma Kathryn Bigelow faria: jogando o mesmo jogo tendo como objectivo superá-lo.

 

wonder_woman_SD2_758_426_81_s_c1.jpg

 

Wonder Woman, o quarto filme do universo partilhado da DC, a meio-gás em comparação com a concorrente Marvel, não chega como um apogeu do seu subgénero, nem como destabilizador dos mesmos códigos. Trata-se somente de uma evolução industrial que simpaticamente exibe alguns dotes valiosos do chamado cinema-espectáculo. Em entrevista, Jenkins afirmou que trabalharia com esta Mulher-Maravilha da mesma maneira que Richard Donner operara com Super-Homem de Christopher Reeve, ou seja, convencer inteiramente que um homem pode realmente voar, neste caso, que uma mulher se assumiria mais, em palco de Guerra, que uma espécie de pin-up bélico, e sim, um catalisador do seu fim.

 

GalleryMovies_1920x1080_WW-01748c_581be0d043d5a5.5

E é verdade, que com a mistura de uma mitologia grega disfarçada e o mundo vivendo a sua Primeira Grande Guerra como se fosse o eterno apocalipseMulher-Maravilha consegue envergar por uma maior transparência da sua personagem feminina, assim como as minorias que compõem este esquadrão de "inglourious basterds". Não há que fingir, Jenkins está interessada, dentro dos vínculos de limitação do produto, em erguer uma espécie de statement sobre a discriminação de género e racial, usufruindo das influências de Edgar Rice Burroughs (o autor de Tarzan John Carter) para se disfarçar num simples filme de aventuras.

18835491_1520672787995146_3661229566888746871_n.jp

Em Gal Gadot encontramos os traços desenvolvidos de uma personagem em constante descoberta. A actriz foi capaz de separar os flashbacks como uma essência temporal manipuladora da sua figura. Aliás, o tempo tem um papel importante nesta intriga, visto que será o mesmo em que o espectador se inteirará por épocas vividas e desvanecidas na memória. Mulher-Maravilha joga com o tempo de duas maneira: na primeira, todo o enredo central é integrado num extenso flashback, narrado pela própria Gal Gadot. Neste duo temporal é possível o espectador assistir a uma metamorfose posicional, assim como emocional, das duas figuras. Segunda, o tempo opera como uma jornada de criação, neste caso, um híbrido de mitologias, expostas de forma dimensional uma com a outra. A paradisíaca ilha helénica onde amazonas, mulheres emancipadas, vivem subjugadas às histórias e leis, e a "civilização", que vive num extremo conflito. Aqui as mulheres vivem em plena transição dos seus iguais direitos sociais (como podemos ver na baixinha suffragette Lucy Davis nas sequências londrinas).

Wonder-Woman-2017-Movie-Free-Download-720p-BluRay-

Contudo, o tempo atraiçoa o filme e quando este chega ao ponto em que já não existe mais nada para provar (a batalha de No Man's Land leva-nos a essa linha de fim criativo), Mulher-Maravilha cede aos lugares-comuns desta "linha de montagem": cai na previsibilidade amorosa e no estapafúrdio da batalha final, onde os efeitos especiais protagonizam pela enésima vez e a moral sobre a natureza da Humanidade vem à baila como um slogan. É o impasse desta maravilha que não funciona de todo maravilhosamente, mas nota-se: Patty Jenkins é sempre uma rebelde na sua cadeira de conforto e, desafiando a própria convenção de Universo Partilhado,  o filme tende em abrir e a fechar plenamente, sem a necessidade de ganchos, previous episodes ou cliffhangers.

 

"Be careful in the world of men, Diana, they do not deserve you."

 

Real.: Patty Jenkins / Int.: Gal Gadot, Chris Pine, Robin Wright, Connie Nielsen, Danny Huston, David Thewlis, Lucy Davis

 

Vamers-FYI-Movies-Full-Length-Wonder-Woman-Trailer

 

6/10
tags: , ,

publicado por Hugo Gomes às 17:58
link do post | comentar | partilhar

28.5.17

BASED_ON_A_TRUE_STORY_POSTER_70X100CM.jpg

Espaços polanskianos …

 

Como poderemos definir o cinema de Roman Polanski? Os espaços que se limitam enquanto o drama das suas personagens é dimensionalmente amplificado? Ou pelas tramas embutidas nas páginas de um livro, a criação que toma lugar frente ao seu criador? É certo que esse fascínio pelo mundo literário da última questão, representa em parte uma grande fatia do que é o cinema de Polanski, sobretudo quando o imaginário escrito assume uma materialização na ambiência do protagonista.

 

MV5BOGQ0ZDYxODMtMmNlNC00MzA3LWE4NmQtNjJkMWE5OWQxMz

 

Recordo que Johnny Depp procurou o livro do Diabo, mas foi o livro que acabou por encontrá-lo, direta ou indiretamente. Ewan McGregor procurava estrelato no seu anonimato, e sem saber tornar-se-ia uma personagem fulcral da sua ficção. Mathieu Amalric concentrava o texto de von Sacher-Masoch, esperando-o situar num palco de teatro; no virar do acto, tornou-se involuntariamente o actor desse mesmo mundo. Estes são exemplos de que o perseguido (escritor) torna-se o alvo da sua criação ou objetivo (o livro), e D'Après une Histoire Vraie (A Partir de uma História Verdadeira) não foge à regra.

 

MV5BNDc1NWMwZjYtNWVhOS00YTM3LThkMjYtYzdiMDMzZTlmMW

 

O duelo psicológico de duas mulheres que tentam debater-se na dominância social, onde por sua vez poderemos encaixar uma crise identitária. É mais um fruto de dicotomia entre criador / criação. Porém, o resultado nesta página é de um revisitar aos lugares-comuns desse cinema habitué de Polanski, o apartamento que se joga como tour de force para a entrada da sua narrativa, a obsessão que realinha a psicologia das personagens, e os livros que tomam o núcleo deste vértice, o qual chamaremos de thriller polanskiano.

 

MV5BMWQ3YTQwYmQtODRhZi00NmEzLWJhZWUtN2MzYzIyYzk4Nm

 

Emmanuelle Seigner não é uma novata neste mesmo universo e nisso é evidente na sua naturalidade com este voyeurismo (atenção leitor, não confundir com a vida privada do mesmo, discutida e debatida por diferentes meios). Todavia, é Eva Green que concentra o polo magnético desta mesma “raiz do medo”. A actriz, a joia que brilhou em The Dreamers (Os Sonhadores), de Bertolucci, cresceu e tornou-se uma mulher feita, mas a sua atitude provocatória continua em voga e os seus movimentos corporais articularam-na como uma moderna “femme fatale”. A fatalidade da sua figura, mais a vitimização de uma escritora em fraca inspiração, A Partir de uma História Verdadeira joga-se eficazmente como um trabalho de atrizes subjugadas ao olhar perverso de quem é encontra-se apto a distorções psicológicas.

MV5BZGJmY2RhOTktZjU2Zi00Y2MzLWFiY2MtZTUyMzdlYjQ0MT

 

Na teoria, eis um plano de execução à imagem de Persona, de Ingmar Bergman, o confronto existencial e mental de duas “personas” que embatem na diluição de uma só figura. Na pratica, Polanski não possui a sensibilidade de Bergman, mas sim uma depravação tremenda, cúmplice de loucuras e delírios obsessivos. Aqui o espectador duvida quanto à sua intenção e, no final, o desconhecido torna-se na resposta lógica. Infelizmente, os resultados deste caminho leva-nos a conclusões mais preguiçosas e fáceis. A dicotomia exposta converte-se na pista mais óbvia na natureza do seu twist.  

 

Filme visualizado no 70º Festival de Cannes

 

Real.: Roman Polanski / Int.: Emmanuelle Seigner, Eva Green, Vincent Perez

 

MV5BMmE3YWEzMmYtNzM1My00NmY0LWE1YzktYmFkODAyY2MyZm

6/10

publicado por Hugo Gomes às 17:10
link do post | comentar | partilhar

19.5.17

557bb678bf18cec8c2d2476ff4c1f5a2687126b9.jpg

As maravilhas de Haynes … ou as promessas dele!

 

Haynes presenteou-nos com um rebuçado. Um filme doce e macio para ser acompanhado em qualquer altura. É dessa matéria que são feitos os filmes "crowd pleaser", e infelizmente Wondertruck é um deles.

 

MV5BODUxZGJlMmUtZjc0Zi00OTQyLTg0OWUtMTlmZjEyMGI5ZG

 

Duas narrativas intercaladas onde o ponto comum (para além de um twist, cuja existência é adivinhada a léguas) é a marginalidade social das suas personagens - crianças forçadas a viver num mundo silencioso, um ensurdecedor silêncio. São surdos, mas a sociedade vê-os como “freaks” que têm que se adaptar ao Mundo e não o contrário. Duas histórias separadas por gerações, por épocas passadas, vivas na memória cinematográfica, e nessas recordações Todd Haynes incute uma reconhecível linguagem do foro visual.

 

MV5BNDA5ODExODk4OF5BMl5BanBnXkFtZTgwMjU5NjU0NDM@._

 

De um lado os conservadores anos 20, conservadores em comparação com a outra face da moeda, os anos 70 e os seus movimentos contagiantes de sexualização e diversidade cultural. Opostos que se atraem através do rigor de um realizador que após os formalismos contidos de Carol decide arriscar numa suposta reinvenção. Todavia, os formalismos encontram-se lá, perdemos a obra e ganhamos um “docinho” de desfazer nos nossos paladares. Não espero cair no erro, Wonderstruck é um “baú de maravilhas” técnicas: a fotografia, a câmara rígida, mas confiante, a estética que toma conta do prologo, uma banda sonora de primeira linha de Carter Burwell (grande aposta aos Óscares na respetiva categoria), os desempenhos sem falhas (Julianne Moore a merecer destaque), um primor que não faz jus pela sua postura correta, amistosa e sobretudo, tendo aqui causas sociais invocadas, a soar panfletário.

 

MV5BMTU5NzQxNjQ3NV5BMl5BanBnXkFtZTgwOTI5NjU0NDM@._

 

Pois é, por esta altura, enquanto escrevo esta crítica, o dito rebuçado derreteu completamente, já não existe mais, apenas as recordações gustativas daquele mesmo sabor. Todd Haynes parece ter esse efeito, o de atenuar brevemente com um contagioso retrato de “filme de estúdio” (denominações a produções cautelosas para fins comerciais, produzidos por grandes estúdios), dos bens feitos, mas não deixa ser de estúdio. Ah, já me estava a esquecer, os créditos finais possuem um quê de criatividade.

 

Filme visualizado no 70º Festival de Cannes

 

Real.: Todd Haynes / Int.: Oakes Fegley, Julianne Moore, Michelle Williams, Millicent Simmonds, Damian Young

 

f443bf1a1cbef95413057e39cd6c0d0b99ee7e8c.jpeg

 

6/10

publicado por Hugo Gomes às 15:16
link do post | comentar | partilhar


sobre mim
pesquisar
 
arquivos
2018:

 J F M A M J J A S O N D


2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


recentemente

Incredibles 2 (2018)

O Labirinto da Saudade (2...

Diamantino (2018)

La Ragazza nella Nebbia (...

Cuori Puri (2017)

Red Sparrow (2018)

Darkest Hour (2017)

The Disaster Artist (2017...

La Liberdad del Diablo (2...

Thor: Ragnarok (2017)

últ. comentários
Gritos 4: 5*Um filme que traz novas regras, novos ...
Bel Ami: 3*A meu ver é fiel ao livro, gostei do qu...
Gritos 3: 5*Que filme excelente e fenomenal, adore...
Um dos meus favoritos 5*
Gritos 2: 5*Sidney, Dewey e Gale estão de regresso...
Takes
10/10 - Magnífico
9/10 - Imprescindível
8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
5/10 - Medíocre
4/10 - Muito Fraco
3/10 - Mau
2/10 - Péssimo
1/10 - De Fugir
0/10 - Nulidade
stats counter
HTML Hit Counter
counter
links
mais comentados
2 comentários
2 comentários
12511335_1084470088250815_732384524_o
subscrever feeds
SAPO Blogs