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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Jigsaw (2017)

Hugo Gomes, 26.10.17

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Efeito Lazarus!

 

Let’s the game (re)begin!” A saga de terror mais lucrativa regressa passados 7 anos, sob os moldes de reboot, acima do seu vendido teor de homenagem. Iniciado em 2004, Saw, do na altura desconhecido James Wan, consolidou-se como uma instantânea obra de culto, pelo arriscado passo do fascínio pelo serial-killer em tempos que a consciência moral debatia-se com a violência do género, colocando e recolocando tais temáticas a séries restringidas, longe do mediatismo industrial, e com um argumento em existência com o seu twist final.

 

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Sim, parece uma tendência "Shyamaliana", algo que veio a transfigurar-se caricaturalmente na marca do realizador de The Sixth Sense e The Village, que Wan apropria, devolvendo o fator surpresa a esse dispositivo narrativo. Poderia ser um fracasso, mas não foi. Ainda hoje, o público que experienciou em tempo real Saw como um OVNI / incontornável thriller do ano, relembra o twist como impulso de deslumbramento, e consequentemente a estrutura óssea dos capítulos seguintes. Capítulos, esses, que se foram desenvolvendo com uma periocidade anual e assídua (Halloween era a meta de estreia), dando no seu total um franchise composto por 7 filmes (8, se incluirmos este Jigsaw), impressionante exemplo de como os baixos custos consistiam sobretudo em surpresas de box-office. O suposto último capítulo deu-se em 2010, uma manobra estratégica de “matar dignamente” o “menino” que tem erguido a produtora Lionsgate. O resultado, esse, foi dececionante e Jigsaw foi “definitivamente” enterrado. Rest in Peace.  

 

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Porém, no cinema, nada morre, e é quase regido aos mandamentos de Lavoisier (“nada se perde, tudo se transforma”). Neste caso, o franchise converte-se num lutador exausto pronto para o segundo round, contornando os espinhos narrativos deixados pela ronda anterior. Agora sob a batuta dos irmãos Spierigs (Predestination, Daybreakers), este Jigsaw, que muito bem poderia intitular-se de Saw: Legacy, é um espécimen que deambula na sua sala de troféus, as armadilhas em modo “Jogos sem Fronteiras” motivadas por falsos moralismos e falsos profetas. O argumento não há que saber, é o gore arrancado de um causa-efeito, com personagens de papelão a jogarem numa perfeita sala mortuária.

 

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E quanto ao twist final? Sim, o "surpreendente” final está lá, como manda a lei “Saweana”, automatizada e devidamente questionada. Porém, não recomendável a tal, porque no fundo nada faz sentido. Aliás, a existência deste filme não faz sentido algum. Todavia, sabendo que as verdades devem ser ditas (neste caso escritas) a todo o custo, a dupla de realizadores apresenta um trabalho mais proporcionado, mais sereno e sóbrio, do que as confusões reféns da montagens rápida à lá MTV que a saga sempre nos apresentara (sim, James Wan foi o responsável pela tendência, as sequelas apenas usaram hipérboles desse mesmo estado).

 

Now the games are simple. Best ones are. You want mercy? Play by the rules.”

 

Real.: Michael Spierig, Peter Spierig / Int.: Matt Passmore, Tobin Bell, Callum Keith Rennie, Hannah Emily Anderson

 

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The Hitman's Bodyguard (2017)

Hugo Gomes, 25.08.17

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Parceiros do crime!

 

As comédias norte-americanas continuam as mesmas, persistindo o characters type de alguns actores, muitos deles reduzidos a caricaturas, ou a resistências do datados estereótipos, quer geográficos, raciais ou de género. The Hitman’s Bodyguard, possivelmente uma das bem sucedidas deste verão, é a rotina deste catálogo que acompanha gerações, gerações e gerações de espectadores. A esta altura o leitor questiona se o filme em si é merecedor desta revolta, ou se apresenta uma qualidade vergonhosamente descarada. Podemos afirmar que não se trata do pior do ano, nem a “coisa” mais ofensiva dos últimos anos, mas não há motivos para descanso, trata-se de um retrocedo considerar isto entretenimento.

 

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Se a nova direcção de Patrick Hughes (The Expendables 3) funciona quando Samuel L. Jackson e Ryan Reynolds são deixados à sua mercê ao velho estilo buddy movie, o resto … bem, o resto, é uma colectânea de lugares comuns e de miopia por parte dos envolvidos. Vamos por partes: Gary Oldman é o vilão (who else?), fingindo ser um russo… peço desculpa … bielorrusso, porque antagonismo tem origem no leste, segundo a crença yankee; O português Joaquim De Almeida vem sabe-se lá donde e o espectador conhece automaticamente a sua vilania, devido a esse character type e Salma Hayek é a louca mexicana.

 

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Umas piadas previsíveis ali com júbilos geográficos e fart jokes à mistura, a violência R que parece ter virado moda com Deadpool (tudo se resume a tendências), umas questionáveis lições de justiça e maniqueísmo (até Tarantino consegue ser mais ambíguo) e Samuel L. Jackson a demonstrar que continua o melhor a vestir a pele de Samuel L. Jackson. Isto é comédia para alguns, entretenimento para outros, mas no fundo é a mesma jogada de sempre. Hollywood parece não ter aprendido nada ao fim destes anos todos, nem com as mudanças que testemunha. 

 

Real.: Patrick Hughes / Int.: Ryan Reynolds, Samuel L. Jackson, Gary Oldman, Salma Hayek, Joaquim De Almeida, Elodie Yung

 

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The Dark Tower (2017)

Hugo Gomes, 14.08.17

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A negra percepção de Stephen King!

 

Tenham medo. Tenham muito medo quando o escritor Stephen King expressa publicamente que gosta de uma adaptação cinematográfica de uma obra sua. Recordam-se de Sleepwalkers? Pois, ele apoiou o resultado. Recordam-se de Shining Carrie? Pois, ele não apoiou. Goste-se ou não de Stephen King, a verdade é que um escritor que, por vezes, não possui a perícia de avaliar linguagem cinematográfica frente aos seus próprios escritos dá em resultados destes, o de confundir fidelidade ao trabalho original com transparência cinematográfica.

 

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The Dark Tower não é só a pior adaptação de um trabalho seu, porque para esse título já há muitos candidatos, mas é, no seu "grandioso" potencial, um produto falhado, dilacerado pelas promessas de mercantilização. Sim, existem ideias de um franchise, que neste momento parece encontrar lugar no pequeno ecrã, o que nos leva à maior ambição desta Torre, ser um episódio piloto. Com a sua hora e meia de duração (graças divinas por não se prolongar mais), Nikolaj Arcel (A Royal Affair) transforma o épico fantástico com standards de western de King num wannabe de saga juvenil e inconsequente, narrativamente enfadonho e com uma edição conduzida para fugir de elipses, até porque a "palavra de ordem" é despachar o enredo.

 

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Não há profundidade aqui, nem personagens devidamente construídas para suportarem esta viagem entre dimensões, nem nada que valha um curioso olhar nesta produção. Talvez seja Idris Elba e Matthew McConaughey a transmitirem algum esforço em relação à atribuição de profissionalismo neste seio. Um teor fantasiado, castrado, demasiado preso aos lugares-comuns, quer da imaginação de King, quer dos próprios códigos do entretenimento cinematográfico. É um episódio falhado não pelo seu conceito, mas sobretudo, pela sua execução. Um acidente por inteiro, aquela oportunidade há muito esperada de trabalhar na chamada "obra infilmável", agora reduzida a meras cinzas. Obrigado The Dark Tower por nos mostrar o quanto silly season pode ser o mês de Agosto.

 

Real.: Nikolaj Arcel / Int.: Idris Elba, Matthew McConaughey, Tom Taylor, Dennis Haysbert, Abbey Lee, Jackie Earle Haley, Katheryn Winnick

 

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King Arthur: Legend of the Sword (2017)

Hugo Gomes, 10.05.17

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Camelot já não é o que era!

 

A Espada era a Lei, mas nas mãos de Guy Ritchie só vemos a desordem. Eis um tratamento puramente estilístico da velha história de espadas cravadas em rochas, senhoras do lago e magos repletos de profecias que esbarrou com o tom caótico do realizador britânico. Nesse sentido, é difícil não assumir que estamos perante um filme da sua autoria: os slows vaivém, as lutas corpo-a-corpo e os voluntariamente atrapalhados planos de golpes sob a consciência do gallows humour, tendem em marcar posição na enésima narrativa de A a B com “escolhidos” pelo caminho e uma narrativa despedaçada pelo constante “fast forward”.

 

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O que funcionou em Sherlock Holmes falha redondamente nesta jornada a Camelot, uma obra aplicadíssima às temáticas e linguagem dos modelos de entretenimento actual, contraindo uma estrutura endereçada aos videojogos (depois deles invejarem o Cinema, é a vez deste último cobiçar a plataforma do primeiro). Convém dizer que Charlie Hunnam (que encontrou melhor sorte em The Lost City of Z, de James Gray) não é certamente o nosso tão procurado monarca, nem sequer um herói com que devidamente nos preocuparíamos, onde é evidente a sua falta de carisma. O resto da equipa, estes cavaleiros da távola redonda, é pura e dispensável palha para contribuir para duas horas de vazio; histórias mais antigas que o tempo e que mesmo assim, não se assumem expiradas. Guy Ritchie fracassa e com essa sua incapacidade desperdiça uma aventura que salienta uma preocupante falta de ideias.

 

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Quando é que Hollywood vai aprender a lição? Ou melhor, quando é que vão terminar estas ditas produções suicidas? Não estará o espectador cansado destas sofisticações que não são mais do que mofo cinematográfico? Sendo assim, mais vale seguir os conselhos dos Monty Python na busca pelo Cálice Sagrado: “On second thought, let’s not go to Camelot, ‘tis a silly place” (Pensando melhor, não vamos para Camelot, é um sítio parvo).

 

Real.: Guy Ritchie / Int.: Charlie Hunnan, Jude Law, Astrid Bergès-Frisbey, Djimon Hounsou, Eric Bana

 

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Song to Song (2017)

Hugo Gomes, 28.04.17

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Barulho para nós, música para Malick!

 

A música toca e toca em modo playlist, continuamente, imperativamente e ritmicamente perante as imagens que funcionam num vórtice de corpos vazios, que bailam ao som das mesmas de forma dessincronizada. A música, segundo Malick, é a alma de Austin, esse paraíso liberal num estado tão fechado como o Texas, e a única alma verdadeiramente sentida, por a arte invocada por estes ritmos diversos não engendrar com a narrativa visual que o realizador “tímido”, agora prometendo uma maior assiduidade na indústria, gera.

 

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Song to Song é a sua nona longa-metragem, a terceira da fase pós-2011 (sem considerar o seu documentário Voyage of Time), e a nova evidência de que os autores, por mais inconfundíveis que sejam, também cedem ao mais profundo conformismo. O “culpado” desta presença repentinamente está no digital, a infinidade e o facilitismo que as tecnologias atribuíram ao Cinema, mas para Malick é o prenúncio do seu fim enquanto ser misterioso da indústria, é o cansaço em pessoa de quem não tem mais nada de novo para contar. Triste realidade, Song to Song é mais do mesmo em doses malickianas, são as “maliquices” levadas até ao fim e o seu cinema tão “autoral” converteu-se na mais perfeita caricatura, a loucura da repetição e dos problemas de primeiro mundo como base de um prolongado sofrimento de personagens. Esse sofrimento entra em loop, na persistência dos mesmos planos “over and over”, e das frases sussurrantes cada vez menos inspiradas e cedidas a uma lamechice de pacotilha. Será Malick o Pedro Chagas Freitas cinematográfico?

 

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Song to Song começa com um triangulo amoroso (Michael Fassbender, Ryan Gosling e Rooney Mara), um ménage de Dreamers, de Bertulocci, com os mesmos “joguinho” sexuais e de foro emocional. Tais vértices vão-se afastando dando origens a trilhos cada vez mais paralelos entre as diferentes personagens. Sim, é triste chamar isto de personagens, até porque Malick brinca com o vazio, com os movimentos erráticos e circulares destas, nos diálogos impostos num falso-raccord. Não existe espaço para personagens, tudo são bonecos que se pavoneiam perante um autor que se assume desorganizado, espontâneo e refém do seu instinto.

 

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Será isso bom? Não será a Arte um veiculo pensante? Ou um instinto humano de comunicar? Conforme seja a escolha, a verdade é que o sedentarismo é um veneno e para Malick esperemos que encontre a cura. Song to Song é um som incorrespondido com a narrativa visual, é a prova de depois de Tree of Life (A Árvore da Vida), Malick não demonstra qualquer sinal de revitalização, mas sim de preguiça no mais incurável sentido.

 

"What part of me do you want?"

 

Real.: Terence Malick / Int.: Ryan Gosling, Rooney Mara, Michael Fassbender, Natalie Portman, Holly Hunter, Cate Blanchett, Lykke Li, Val Kilmer, Bérénice Marlohe

 

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The Circle (2017)

Hugo Gomes, 26.04.17

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Andando em círculos!

 

O que é pior do que um filme assumidamente fascista? Um filme que remexe em tais perspectivas e que não possui capacidade de os "exorcizar" (sendo esse o seu evidente objectivo). O Circulo é esse filme, uma ficção cientifica distopica tão próxima do nosso actual panorama sociopolítico, a tecnologia e a nossa dependência como novas formas de totalitarismo e a clara ideia de "direita"em optar a segurança extrema e por vezes excessiva frente à liberdade individualista.

 

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Baseado num livro de David Eggers, esta obra de James Ponsoldt (The Spectacular Now) é um indicio proeminente de que Hollywood está cada vez mais à mercê das ideias anexadas ao fenómeno Trump e tudo relacionado. Recordamos que Paul Verhoeven, durante a apresentação do seu Starship Troopers no Film Society of Lincoln Center, confrontado com as notícias de uma nova versão do seu filme, com planos de fidelidade com o livro de Robert A. Heinlein, o realizador holandês alertou a possibilidade desta obra vir agradar a presidência Trump, visto que o estúdio não estaria disposto em absorver-se novamente na ironia e no cinismo. Obviamente que distopias são a melhor metáfora para orquestrar qualquer base ideológica e politica de forma subversiva e sugestiva, tendo a capacidade de esquivar a eventuais censuras e auto-censuras, mas será que estas mesmas não deverão ser metamorfoseadas consoante o contexto que nos envolve?

 

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No caso de O Circulo, as boas intenções não pagam imposto (existe lá um certo fantasma NSA e Snowden), ao invés disso, é a sua incompetência extraordinária a fazer frente à distopia em si. Eis um filme que se preocupa com a imagem da sua actriz, Emma Watson (a passar de promissora a "fedelha" irritante), com a estética quase desktop da narrativa ("já entendemos, é uma rede social"), e todo um conjunto de soluções fáceis, moralismos concertantes e personagens secundárias sem dimensão e claro, sem carisma algum. Visto falarmos de uma irritante Watson, o que dizer doutra promessa, neste caso a estrela de Boyhood - Ellar Coltrane? O protagonista de um dos mais desafiantes filmes dos últimos anos oferece-nos um desempenho a esquecer, o mesmo que pelo qual este tão piroso Circulo está destinado.

 

Real.: James Ponsoldt / Int.: Emma Watson, Tom Hanks, John Boyega, Ellar Coltrane, Bill Paxton, Karen Gillan

 

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Underworld: Blood Wars (2016)

Hugo Gomes, 28.11.16

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Guerra Mundial, e o que nós temos haver com isso?

 

Para Selene (Kate Beckinsale) esta guerra entre vampiros e licantropos perdura à séculos, para o espectador, contando com 5 filmes, o conflito prolonga-se mais tempo que uma das duas Guerras Mundiais. A verdade, é que ninguém pediu um novo filme de Underworld. O último, que apesar do êxito, deitou por terra qualquer hipótese de inovação que poderia culminar, o que era difícil, visto que o primeiro filme era tudo, excepto sofisticado.

 

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E assim seguimos, mais um leque de cartas embaralhadas com personagens descartáveis, situações inconsequentes e todo uma ênfase dramática que nunca chega verdadeiramente a conduzir-nos. Muda-se os vilões, mas a existência é a mesma, uma guerra sem motivos algum num filme que perdeu de vez o esforçado profissionalismo do seu original, datado de 2003. Até porque nessa altura, Len Wiseman havia declarado um adepto das sagas dos monstros clássicos da Universal Pictures e até mesmo de um certo filme de John Landis, o qual emprestou muito dos seus efeitos práticos. Todavia, com quatros filmes à frente, só Kate Beckinsale sobrevive do elenco original, esse artesanato no ramo dos efeitos visuais é substituído por nada mais, nada menos que os preguiçosos CGI, e como tal pergunta-se, o que verdadeiramente nos espera este Blood Wars?

 

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Um videojogo apressado, carente e castrado, mesmo que se sinta alguma ousadia, principalmente em comparação com abominável quarto filme (Awakenings). Nesse aspecto, são as mulheres a darem o melhor neste episódio esquecível, seja o esforço de Beckinsale (atenção, a actriz teve em 2016, mais precisamente em Love & Friendship, um dos seus melhores desempenhos de carreira) ou da vilã, Lara Pulver, a servir de um modelo "carmeliano". Enfim, o resto, sente-se no automatismo da intriga, nos plot twists esforçados, e pouco mais. É para ver e chorar por menos, rezando que não se prolongue uma saga que já viveu melhores dias.

 

Real.: Anna Foerster / Int.: Kate Beckinsale, Theo James, Lara Pulver, Bradley James, Charles Dance

 

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The Secret Life of Pets (2016)

Hugo Gomes, 26.08.16

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Uma animação que se podia ficar no segredo dos deuses!

 

Logo após as primeiras notícias de sucesso, foi instantaneamente anunciado a preparação de uma sequela, mas cá entre nós, o conselho é de não se incomodarem com tal. Dos estúdios que nos trouxeram Despicable Me e o spin-off Minions, a Ilumination Studios parece ter encontrado a sua mais recente "mina de ouro", através de uma intriga de pura preguiça, engano e obviamente, de uma trivialidade identificável para com muitos dos espectadores (será isto a fórmula do sucesso?).

 

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São animais de estimação, reduzidos a um copy/paste de Toy Story, porém, ao contrário da premissa prometida dos trailers - o que fazem o nossos "bichos" durante a ausência dos donos? - esta animação, que melhor figura faria nas grelhas das matines televisivas, é um embuste que passeia por um enredo rudimentar de regresso a casa. Em tempos, faziam filmes destes, só que ao invés de bonecos tecnológicos tínhamos animais "verdadeiros" treinados e muito engodo induzido na narrativa.

 

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Em The Secret Life of the Pets, o que temos é personagens ocas, de motivos vazios e sem carácter que concretizam um macguffin enquanto "bombardeiam" o espectador com um prolongado humor slapstick dedicado unicamente para a faixa etária mais jovem, e mesmo assim, convenhamos, não de todo indicada. The Secret Life of the Pets é um episódio violento, a invocar o lado de "mau gosto" dos Looney Tunes e Tom & Jerry, aquela violência graficamente castrada que nos leva a crer que o mundo que nos rodeia é inquebrável e que uma vida é uma pura piada reciclada.

 

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Sim, apercebemos isso, esta é uma daquelas animações que não nos leva a lado nenhum, de difícil comoção visto que não simpatizamos de todos com estes "bonecos" que se disfarçam de estereótipos já fundamentados desta indústria. Para os pais, questiona-se, será que os nosso filhos não merecem algo melhor que assistir a um imenso vazio, que nem o moralismo pedagógico consegue transmitir? Fica a dúvida, enquanto nos rendemos ao puro vórtice do marketing.    

 

Real.: Chris Renaud, Yarrow Cheney / Int.: Louis C.K., Eric Stonestreet, Kevin Hart, Albert Brooks, Lake Bell, Steve Coogan

 

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Refrigerantes e Canções de Amor (2016)

Hugo Gomes, 24.08.16

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Mais uma pólvora que não arde no cinema português!

 

Esta é a história de Lucas Mateus (Ivo Canelas), um músico de carreira falhada que entra em depressão após descobrir que a sua namorada o traía com o seu melhor amigo, Pedro (João Tempera), que ao contrário do protagonista é um músico com uma carreira bem sucedida. Com as desilusões que se vão acumulando na sua vida, Lucas desesperadamente entra num ciclo vicioso de “carrologia”, uma arte de engate em que consiste “estudar” o conteúdo dos carrinhos de supermercado. É durante essa “caça a mulheres” que Lucas reencontra a ao conhecer uma estranha rapariga, cuja principal particularidade é de viver dentro de um fato de dinossauro cor-de-rosa.

 

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Na teoria, Refrigerantes e Canções de Amor soa como uma variação de criatividade “Sundance style”, mas o pior é quando chegamos realmente à prática, e aí sim, é onde “a dinossaura torce o rabo”. Escrito pelo humorista Nuno Markl, esta é uma comédia de ideias, porém, mal executadas em derivação de um malabarismo de tons, de uma realização ausente de frescura, por um overacting conformado por muitas das suas estrelas e por um timing incorrectamente aplicado.

 

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Devo dizer que esta obra tem de tudo para funcionar com um case study, exibido em qualquer aula de preparação para estudantes de cinema nos termos do que se “deve ou não deve fazer”. Verdadeiramente triste que isso aconteça, até porque no leme deste projecto está o veterano Luís Galvão Teles, que ainda este ano presenteou-nos com a louvada tentativa de Gelo, um filme de ficção cientifica que não envergonha ninguém. Infelizmente é na sua direcção que encontramos a “faca de dois gumes” deste Refrigerantes e Canções de Amor, se por um lado a realização de Galvão Teles afasta-nos da usual linguagem televisiva que empesta as produções comerciais (*cof* O Pátio das Cantigas *cof*), é nele que encontramos o desleixo total, confirmado no patético climax, onde não existe qualquer noção espacial e até temporal.

 

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Sim, meus caros, Refrigerantes e Canções de Amor é um produto falhado, sem amor nem carinho, despachado e dilacerado precocemente. Algo bom nisto tudo é Victoria Guerra, que mesmo deixada à sua mercê no interior de um fato de dinossauro rosa, consegue graciosamente contagiar-nos com o seu talento. Aliás é nela que encontramos o termo de requisitada interpretação, onde os gestos e a voz valem mais que muitas expressões faciais.

 

Real.: Luís Galvão Teles / Int.: Ivo Canelas, Lúcia Moniz, Victória Guerra, João Tempera, Sérgio Godinho, Jorge Palma, Margarida Moreira, Marina Albuquerque, Ruy de Carvalho, Gregório Duvivier

 

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Now You See Me 2 (2016)

Hugo Gomes, 09.06.16

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"Olhem para mim", a continuação!

 

Juntamente com o recente Alice do Outro Lado do Espelho (Alice Through the Looking Glass), este Mestres da Ilusão 2 (Now You See Me 2) é já um dos fortes candidatos a sequela não pedida de 2016, um filme cujo título português adequa-se perfeitamente à sua natureza.

 

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Mais do que um filme, este é um verdadeiro truque de ilusionismo, que procura convencer o espectador de que todo este espectáculo é no mínimo saudável para a massa cinzenta de cada um. Contudo, a verdade está longe de ser mágica - tudo se resumo a um argumento reciclável que utiliza como desculpa "o ilusionismo" para explicar o inverosímil. A prequela podia seguir os mesmos erros, mas no caso da sequela, o registo é insuportavelmente longo, atrapalhado com o excesso de informação e precocemente reprimido em consequências de "milésimos" falsos twists, engodos lançados para a audiência como se de burlas se tratassem.

 

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Nem mesmo a ironia o filme consegue suportar. Aliás, temos aqui um enredo sobre mágicos e ilusionistas com Daniel "Harry Potter" Radcliffe como o vilão em cena, o "ateu" nesta ordem apocalíptica de coelhos e cartolas, infelizmente uma piada digna de "stand up comedy" desvanecida por um tom hiperactivo e exaustivamente industrial. Continuando com o fracasso de todo o tamanho, Mestres da Ilusão 2 ostenta um visual de brilhantismo que afoga qualquer indício provocado de "filme de golpe", e quanto toca a explicações de planos intermináveis, o "cenário" torna-se ainda mais desesperado por atenção (verifica-se na entediante e demasiado longa sequência no laboratório).

 

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Por fim, o elenco poderia ajudar a tornar esta experiência mais capaz na sua entrega mais cinematográfica e menos "videoclippeira", mas a esta altura do texto o leitor já deve ter percebido que são mais um ... fracasso. Um Jesse Eisenberg nos seus piores dias, um Woody Harrelson mais preocupado com o cheque (provavelmente a dobrar neste produto), um Dave Franco sem expressão e uma Lizzy Caplain como pneu suplente em modo "Kat Dennigs wanna be", não são certamente os anfitriões que quereremos no nosso serão.

 

"Are you listening, horsemen? You will get what's coming to you. In ways you can't expect."

 

Real.: Jon M. Chu / Int.: Jesse Eisenberg, Mark Ruffalo, Woody Harrelson, Lizzly Caplain, Morgan Freeman, Dave Franco, Michael Caine, Daniel Radcliffe

 

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Ver Também

Now You See Me (2013)