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Título
Take
6.9.18

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A Maldição do Terror de Estúdio!

 

O que está em causa não é o simbolismo da freira na nossa cultura, quer na literatura ou no cinema que construíram uma espécie de relação pecaminosa, mas sim, quantos são precisos para pecar desta maneira … “industrial”. Se existia algo de aterrador nisto tudo, isso abundava nos poucos minutos em que a demoníaca freira surgia em cena no segundo The Conjuring, “brilhando” sobre o calculismo de James Wan na sua relação com o espaço e os elementos acessórios. Porém, após atribuído o protagonismo em mais um episódio para encher universos partilhados, a criatura é vendida a uma explosão automática de CGI e artificialismo proveniente de uma Hollywood que não sabe ao certo o que fazer com o género de terror.

 

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Ficamos perplexos com o facto do realizador taiwanês surgir nos créditos sob o cargo de produtor, enquanto que Corin Hardy (já proveniente de um freakshow em The Hallow) é um tarefeiro por entre uma agenda apertada e decisões rigorosas que cai no “gosto geral” das massas. Sim, The Nun está mais interessado em ir ao encontro desse mesmo gosto do que criar qualquer avanço no panorama do terror - é enfadonhamente rotineiro, quer na sua execução (julgávamos nós que as montagens rápidas estavam em desuso neste tipo de Cinema), quer no argumento (“Deus nos valha”, sem qualquer sentido), ou na inutilização do espaço cénico (o espectador não tem qualquer noção do mesmo, não existe uma câmara que mapeia o território como acontecera com Annabelle: Creation).

 

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Nós, espectadores, somos encaminhados por uma somente tentativa, a de seguir um modelo estabelecido sem nunca pensar como desemaranhar dos desafios. Um desses mesmos desafios é o público já tão conhecedor do terror e do seu historial (assim acreditamos) que se desvanecerá perante a previsibilidade e a incompetência de surpreender deste oportunista de estúdio. Depois somos presenteado com bonecos incapazes, sufocados a plano por uma narrativa despachada e avarenta sem nunca preocupar em construir uma relação entre eles. No fim de contas, a freira, esse outro boneco, assume-se como um bibelô, assim como o filme que nunca sobressai do risível acessório. Cruz credo!

 

Real.: Corin Hardy / Int.: Demián Bichir, Taissa Farmiga, Jonas Bloquet, Bonnie Aarons, Ingrid Bisu, Michael Smiley

 

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2/10

publicado por Hugo Gomes às 11:57
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26.7.18

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Linhas de embaraço!

 

O pior filme do cinema português? Parece exagerado esta afirmação concreta, presunçosa que revela antes de mais insegurança em relação à armadilha deixada pela equipa de marketing de Linhas de Sangue. Nesta estratégia é nos deixado uma curta-metragem onde três “supostos” críticos entram em sala de projeção, rindo desalmadamente de todo o filme até que no final discutem as notas a dar. “Eu vou dar bola preta. Aliás, no meu jornal só dou bola”. Este pedaço de “comédia crítica” envenenada por todos os clichés e generalizações evidencia duas patologias. Uma, o desconhecimento do que é crítica de cinema e do que realmente se passa nos ditos visionamentos de imprensa e, segunda, uma vingança ressabiada reconhecível de um dos realizadores (visto que dos dois creditados só um ´sofreu´ nas mãos destes ´malvados´). Porém, por momentos, tenta-se não ser levado pela desinformação causada, até porque, vejamos, essa curta é afinal o melhor de um filme que nunca existiu. O pior é mesmo o seu anexo, aquele que dá pelo título de Linhas de Sangue.

 

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Mas … o pior filme do cinema português? É possível? Nesta quimera produzida sob as luzes de uma indústria inexistente, encontramos as influências, ou diríamos antes, o signo das comédias de Jim Abrahams e David Zucker, o simples spoof movie, hoje vulgarizado pela piada fácil e de teor escatológico. Da nossa memória prevalece Hot Shots: Ases Pelos Ares como principal fusão, o teor ridicularizado que nunca sai da mera caricatura. Porém, havia inteligência nesse sistema de gags, existia sobretudo conhecimento quanto à coletânea de referências e, pelo meio, uma espécie de parábola politica e social. O trabalho de Abrahams / Zucker formou muita da comédia hoje citada aos trambolhões.

 

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Em Linhas de Sangue, isso não acontece. Primeiro, porque não existe um cuidado em abordar seriedade sob o tom trocista e isso reflete-se na pouca sapiência dos gags e como estes são empregues. Dando o exemplo da primeira sequência, onde sobrevoamos uma Lisboa sob a legenda «Berlim, República Checa», a sátira que é desfeita logo de seguida com o anúncio de que tudo não passa de uma piada. Trata-se evidentemente de um método de autodefesa, ou até mesmo de insegurança. O resto é cair na série B (nada contra), sob os efeitos invejáveis de uma “megalómana” produção à portuguesa, os pequeninos sem a modéstia de aceitar uma industria que não existe e muito mais, um público não preparado. Todavia, neste último ponto a culpa não poderá ser totalmente do filme, mas sim da dominância de Hollywood e como certos elementos tornaram-se associados à esta mesma industria. Apropriados em Linhas de Sangue, dos mutantes às amazonas do Tejo, tudo soa a uma artificialidade desaprovadora, muito mais, quando nos apercebemos que tudo não passa de uma brincadeira chapada.

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O que Luís Ismael nos ensinou é que para levar o espectador a um cinema descontraído, fora das tendências do world cinema, é preciso ter paciência e assim aperfeiçoar-se cinematograficamente em cada tempo. Não é por menos que ele é o criador da trilogia Balas e Bolinhos, hoje tido como o case study de progressão técnica e também narrativa. Ora, Linhas de Sangue - sob um jeito glutão - tenta ser levado a sério e ao mesmo tempo pede clemência na perceção do espectador. Porque, afinal, não passa tudo de uma piada (novamente sublinha-se). Contudo, se em Balas’ existe uma certa paixão no seu material, em Linhas’ encontramos somente uma dedicação em criar um filme para amigos. Sim, estes que palmadinhas nas costas darão como etiqueta, sussurrando elogios como “bom trabalho” ou “glorioso”. Depois são 54 atores, caras conhecidas do universo televisivo e teatral do público português. Agora imaginem só os círculos de amigos que cada um detém … Mas no fim de contas, são os atores que elevam este produto, foram, sem dúvida alguma, eles quem mais se divertiram com tudo isto.

 

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Em relação ao pior filme do cinema português, assume-se que tal estatuto será difícil de confirmar até porque, no nosso circuito, muitos atentados já haviam sido produzidos. Só que Linhas de Sangue carece de alma e sobretudo humildade (não confundir com ser despretensioso), aliás, isso também falta aos apoiantes da tal campanha publicitária. Aqueles que persistem em estereótipos numa sociedade saturada deles.

 

PS: só não dou bola preta porque pegar numa câmara é exercício físico.

 

Real.: Sérgio Graciano, Manuel Pureza / Int.: Kelly Bailey, Soraia Chaves, Alba Baptista, José Fidalgo¸ José Raposo, Pedro Hoss, Catarina Furtado, Débora Monteiro, Joaquim Horta, Marina Mota, Miguel Costa, Paulo Pires, Ricardo Carriço, Tino Navarro, Dânia Neto, Gabriela Barros, Alfredo Brito

 

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2/10

publicado por Hugo Gomes às 00:35
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10.7.18

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Prometo Filmar!

 

Olá, sou o Pedro Chagas Freitas e prometo falhar”. O escritor-homenageado apresenta-se sem rodeios e hesitações, trata-se do filme à sua medida, uma obra que nos engana assim como Pedro que na sua primeira frase nos mente. A mentira tem perna curta, até porque em 50 minutos de filme, este Prometo Falhar tem tudo menos “falhanços”, é uma ode ao sucesso do homónimo livro, “o mais sublinhado de sempre”, como gostam de publicitar.

 

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É uma “jornada” ao sucesso da obra em questão, ao invés da relevância do mesmo na nossa cultura popular (dele nasceram oportunistas de “mau gosto” como Afonso Noite-Luar por exemplo), e devido a esse tópico à lá vendedor/merceeiro, este dispositivo altamente televisivo usa a desculpa de uma biografia disfarçada e oculta. Nota-se pelos relatos dos entrevistados, aqueles que coexistem no universo “freiteano” (não tornemos este adjetivo num habito se faz favor), que não poupam elogios à perfeição do autor em qualquer área, em oposição do próprio dialogo de Pedro, que fala de “fracasso e falhas”, como parte integral da sua vida. Mas afinal, quem anda a mentir?

 

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Alberto Rocco [o realizador] é lúcido no seu discurso; “não fiz um filme para o público geral, fiz um filme para um objetivo especifico, os fãs do livro”. Nesse aspeto, convenhamos que Prometo Falhar é um produto que procura agradar o seu filme, induzi-lo num anorético trabalho de pesquisa e pouca introspeção nas palavras produzidas dos escritos, aqui lidas por diversos convidados como se lesse poemas de Sophia de Mello Breyner. Contudo, longe de nós em condenar os gostos dos fãs e da própria temática do filme. O que não poupo na misericórdia é na questão da cinematografia. Documentário-reportagem completamente anexado aos tiques e maneirismos do jornalismo televisivo, vendido como Cinema, tal como vendem gato por lebre.

 

Real.: Alberto Rocco / Int.: Pedro Chagas Freitas, Paulo Calatré

 

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2/10

publicado por Hugo Gomes às 01:11
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9.5.18

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A sensibilidade como prova humana …

 

A primeira longa-metragem do egípcio de A.B. Showky caí sobre nós como um teste endereçado a uma hipocrisia gritante. Seremos capazes de odiar uma personagem tão desafortunada como este Beshay (Rady Gamal), um leproso (o ator detém tais deformidades) viúvo que parte numa jornada ao lado de um órfão, em busca do pai que o abandonou numa "colónia"? Pois bem, Yomeddine desarma-nos. Questionamos quão humanos somos ou, na realidade, se somos seres frígidos sem qualquer compaixão. A verdade é que nunca não passa de uma manipulação. Ou isso, ou sou na realidade um corpo ambulante sem coração. Passo então a explicar: a certa altura deste episódio, o nosso protagonista reúne com um clã de "aberrações" (designação dada por este grupo) que o acolhe como membro de uma longa e família solidária (onde a diferença de cada um os une).

 

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Como cinéfilo, a nossa mente transporta-nos diretamente a Freaks, de Tod Browning, o controverso filme interpretado por verdadeiras "monstruosidades". Contudo, mesmo envolvido em contornos do horror clássico (muito à frente do seu tempo e do nosso) e a uma essência de crueldade, Freaks tem a capacidade de causar no espectador a compaixão, sentimento que Yomeddine é incapaz de indiciar.  Aliás, o filme torna-se mais incapacitado que o próprio protagonista, vítima de uma condescendência profunda por parte da audiência, uma "delicadeza" de etiqueta no qual somos inertes em esconder.

 

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Com um enredo perfeitamente banalizado, sem a criação de um universo trágico-caricato, como o fornecido, por exemplo, por um Kusturica (filmografia cujos elementos testemunhados poderiam nos levar), o filme peca sobretudo pela falta de ênfase dramática necessária para insuflar o discurso do nosso Beshay ("Eu sou um ser humano"). John Hurt atingiu esse pico com O Homem Elefante, mas convém salientar que o fez derivado a uma composição trabalhada por David Lynch em relação ao guião e na emotividade das suas personagens. Essa maturidade é inexistente em Yomeddine.

 

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Contabilizamos hora e meia, nada mais, nada menos, de ganchos narrativos sem espessura, uma realização oscilante incapaz de amar o plano, a montagem amadora e improvisada que ostenta um automatizado desleixo. É um monstro, no sentido de apresentar um cinema nulo que nos apela ao lado samaritano. Diríamos que estamos perante de um filme desumano, que falsamente nos engana com intenções desencorajadas por profecias de solidariedade.

 

Filme visualizado no 71º Festival de Cannes

 

Real.: A.B. Shawky / Int.: Rady Gamal, Ahmed Abdelhafiz, Osama Abdallah

 

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publicado por Hugo Gomes às 23:55
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5.3.18

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Sublimidade não faz parte do cardápio …

 

No cinema português existem vários pecados; os autores passivos que esperam pelo financiamento fácil, os realizadores convertidos à industria e com isso uma evidente perda de identidade cinematográfica e no caso de Luís Diogo uma recusa pelo legado da nossa cinematografia em prol de uma folha de rascunho.

 

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Não é ao acaso a utilização da palavra pecado aqui, Luís Diogo para além de ter na consciência a maldição que foi o argumento de A Bomba, de Leonel Vieira (aquela obra que se tornou num assombrado “mito urbano”), experimentou a realização-a-solo e sob autodidatismo empreendedor (dou graças a isso) com Pecado Fatal, onde cometeu o seu primeiro grande erro - uma promoção sobretudo ignorante (“um filme para quem não gosta de cinema português”) - tendo resultado num produto amador aos mais diferentes níveis. Mas apesar do equivoco, um realizador não se faz de um filme apenas, sendo que é com algum entusiasmo que sigo em frente para uma segunda longa da sua autoria, com a esperança de assistir aperfeiçoamento e sim … redenção.

 

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Mas é com tristeza que saio deste Uma Vida Sublime, até porque Luís Diogo demonstra alguma ocasionalidade nas suas ideias (basta recordar o seu contributo no Gelo, do pai e filho Galvão-Teles). Todavia, aquilo que acabo de presenciar é uma falta de talento e de garra em conduzir um filme para o seu propósito de Cinema. Existe uma cena em particular que demonstra exatamente isso: um plano conjunto onde uma família reúne para consumir a sua refeição matinal. Aqui encontra-se concentrado várias ações distribuídas por quatro personagens, cada uma delas operando por si próprias mas com um foco principal no cansaço do casal (pai e mãe), tendo como representação um episódio envolvendo uma “taça de cereais”. Existe muita informação aqui, o propósito desta mesma cena é evidente e nisso estamos de acordo com a visão do realizador, porém, algo de errado se passa. O plano não obtém a profundidade necessária, a câmara é incapaz disso e a ação principal, que poderia manipular a nossa atenção com um cuidado quase “velasqueano” (o segundo plano jogado como o primeiro), é simplificado à mão de semear pelo espectador deixando o resto da ação (o pedinchar de um telemóvel por uma das filhas do casal) num total desaproveitamento.

 

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A nível técnico estamos esclarecidos, passemos agora para o interpretativo e nesse termo confrontamos com uma agravante, Luís Diogo é incapaz de comportar como um diretor de atores, é insciente a captar e incentivar nos seus colaboradores desempenhos verdadeiramente convincentes, e a cena referida anteriormente é contagiada por esse mesmo mal. Esse, que nos leva a outro - os diálogos - a somente ponta do iceberg para a escrita do filme. Se deparamos uma ideia ou outra inserida com convicção, no seu todo somos atingidos por um argumento costurado com tiques e manias dos “rodriguinhos” do género de terror (um Saw à Portuguesa, resumidamente), onde não falta pseudofilosofias de autoajuda como moralismos quase propagandísticos e ditatoriais. Ainda temos os diversos absurdos, mas não vale ser drama queen nesse sentido.

 

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Sim, Uma Vida Sublime é um objeto longe da sublimidade prometida, a milhas da perfeição o qual esperava ser colhido e sobretudo do dito ativismo contra com o Cinema Português no geral (hipocrisia, visto que Luís Diogo pertence a essa “comunidade” quer queira, quer não) que estes filmes tendem em evidenciar. Está a uns quantos "passos" acima de Pecado Fatal, mas sem grande efeito e significância.

 

Filme visualizado no âmbito do 9º FESTin: Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa

 

Real.: Luís Diogo / Int.: Eric da Silva, Susie Filipe, Rui Oliveira, Mafalda Banquart

 

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2/10

publicado por Hugo Gomes às 17:05
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24.1.18

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Entre DJs e Cinema!

 

Longo nos primeiros minutos deste If I Think of Germany at Night (título internacional), DJ ATA refere que nos tempos de hoje tornou-se mais fácil fazer música, ser músico, entrar na indústria e converter-se num artista. Se pegarmos neste mesmo discurso e transladarmos para outro território – o Cinema – percebermos o quanto é fácil fazer filmes, ser cineasta, e entrar na dita indústria. Sim, o digital tornou a 7ª Arte numa arte democrática, num jogo de faça você mesmo e que melhor género desse exemplo que o documentário.

 

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Se encontramos fascinação de Romuald Karmakar nestes artistas do mixing, o romper da nova fronteira musical, e como os seus trabalhos influenciam e são influenciados pela sociedade atual, é bem verdade que o seu olhar não transmite a devida catarse. Por entre planos fixos sem fundamentalismos para o “corpus” estudo, entrevistas sem o díptico da conversação (e um evidente esclavagismo das suas respetivas palavras) e, por último, sequências de concerto que não diferenciam em nada aquilo que as plataformas de partilha de vídeo nos oferecem, nada de realmente relevante para o Cinema é indiciado aqui. No fundo, falta-lhe a linguagem devida que possa “costurar” os discursos, as batidas e toda a investigação levada a cabo.

 

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O resultado é nada mais, nada menos que uma preguiçosa construção. Nesse aspeto, é inglório o retrato dos artistas que atingem a hibridez de tons, que rompem fronteiras, e oferecem novas melodias numa manifestação tão estéril. Mas deste mal também sofrem muitos "novos talentos”, encorajados por festivais regidos por esse conceito de “arthouse”. Se existe o cinema com nada para dizer, existe obviamente o outro lado, o discurso sem cinema. If I Think of Germany at Night é esse último caso. Esforço sem talento.

 

Filme visualizado no 15º KINO – Mostra de Cinema de Expressão Alemã

 

Real.: Romuald Karmakar / Int.: Ricardo Villalobos, Sonja Moonear, Ata, Roman Flügel, David Moufang

 

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2/10

publicado por Hugo Gomes às 02:12
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10.1.18

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Linha atribulada!

 

É o efeito estafeta. Jaume Collet-Serra recebe os planos gerados por Luc Besson e Pierre Morel que consiste em transformar Liam Neeson num action man cinquentão, e põe em prática tal projeção, posicionando-o como um arquétipo de John McClane. É bem verdade que nesta cumplicidade, produções como Unknown e Run All Night funcionaram de forma moderada.

 

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Todavia, existem “coisas” que perpetuam vícios nefastos, entre eles a maligna avença de Neeson com transportes públicos. Aqui o avião de Non-Stop dá lugar a um comboio numa linha subjacente de Nova Iorque e, em modo teste, o ator, agora tornado em sexagenário (ele faz questão de relembrar isso inúmeras vezes), vê-se enredado num jogo mortal, tendo como objetivo o encontrar um misterioso sujeito. Prazo: até ao fim da linha. Prémio: quantias monetárias que rapidamente passam para a segurança da sua família.

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Assim sendo, a personagem de Neeson terá que usar o seu intelecto e o leque de “especialidades adquiridas por um longa carreira” (velha cantiga) para conseguir decifrar o “enigma”. Uns pozinhos de thriller hitchcockiano o qual Collet-Serra sempre esmiuçara e uma tendência whoddunit digna de uma Agatha Christie de segunda. Pois, não vale a pena suspirar por isto, porque de inteligência este The Commuter nada tem. Aliás, é apresentado “cartão amarelo” para Hollywood.

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Existe um problema (um!), uma grave anomalia na condução dos diálogos, ou melhor, na construção destes. Aqui somos confrontados com falas mais explicitas do que as imagens que se inserem, ou a informação despejada desalmadamente que apresenta um artificio irrealista dos mesmo. Talvez seja de forma a não levar o espectador em erro, ou (pior dos cenários) lançar uma indireta à inteligência do seu público-alvo. Preferimos pensar que é só um agravado desleixo. Porém, o mal desta enésima correria de Liam Neeson é a epidemia que parece invadir muitas das produções cinematográficas, reduzidas a produtos de linha montagem. Mas não avançaremos por esses diagnósticos complexos, não há tempo para isso, seguimos para a próxima paragem.

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O argumento, automatizado, colado a “cuspo”, vislumbrando uma extensa paisagem de lugares-comuns e de manientos truques segue até um twist que se adivinha a léguas. Talvez seja o trabalho técnico que nos dá algumas “luzes” do “potencial”. Desde a edição rotineira e recortada do seu arranque, que provoca em nós o efeito de conformismo férreo, até à grande sequência de ação filmada num só take, uma moda muitas vezes apresentada erradamente por muitos com o palavreado “lufada de ar fresco”. Portanto, nada de novo aqui. Nem a Oeste, Este, Norte ou Sul. Criativamente inexistente, somente mais uma paragem no meio de nenhures.   

  

Real.: Jaume Collet-Serra / Int.: Liam Neeson, Vera Farmiga, Patrick Wilson, Sam Neill, Jonathan Banks, Clara Lago

 

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2/10
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publicado por Hugo Gomes às 14:02
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28.9.17

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Nova definição em Hollywood - "flat" remake!

 

Em 1990, cinco estudantes de medicina desafiavam a morte através de uma experiência radical e de alto risco. O objectivo era decifrar o maior enigma da Humanidade: o que existe para além da morte? Joel Schumacher, antes de se tornar num dos odiados realizadores devido a uma certa aventura de heróis de collants, aventurou-se ele próprio neste thriller de ficção cientifica como prolongamento das maiores fobias de Hollywood, a ciência e o ateísmo. É sabido que o cinema mainstream sempre adorou cientistas que se insurgem contra o criacionismo e a ordem natural, atribuída a uma entidade divina. Por outras palavras, este complexo de Deus, o de desestabilizar os trilhos do "só Deus sabe", remetia à mais perfeita fábula moralista (e como Hollywood ama moralismo!).

 

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Com Flatliners, os jovens estudantes, envergados em nome da Ciência, são punidos pelos seus próprios pecados, uma espécie de Torre de Babel, onde cada personagem enfrenta os seus medos interiores como repreendimento às tentativas de penetrar em territórios desconhecidos, longe da percepção humana. A última sequência desse filme, que resultou num êxito moderado, é a prova da constante "caça às bruxas" cinematográfica. A experiência que desaba, o céptico converte-se num crente, e a ciência revela-se incapaz de tomar uma posição contra a religiosidade do seu cinema. A elipse é "decapitada" com um plano de uma imagem iconoclasta. Os caminhos traçados por Deus são incertos, e quem o desafiar estará a mercê do seu julgamento, assim se lê entrelinhas.

 

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Falando em brincar com a Morte, eis que surge, passados 27 anos, um desesperado remake, que afinal, segundo a mais recente manobra publicitária, trata-se de uma sequela. O porquê? Provavelmente porque alguém olhou para sondagens e estatísticas e percebeu que o público anda saturado de refilmagens. Como solução, a promoção de uma continuação é mais tentadora para o mercado actual. Balelas! Esta Linha Mortal é um embuste, uma cópia descarada que impregna do óbvio e da narratividade do seu antecessor (sem tirar, nem por), sem linha directa alguma (sim, Kiefer Sutherland faz um cameo, mas isso não vem a provar nada).

 

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A obra de 1990 não era nenhuma obra-prima, ou um sofisticado exercício de género. Porém, Schumacher soube aplicar uma linguagem visual que divergia da acção real com o onírico. Havia sobretudo uma apreciação da estética. Em pleno século XXI, perde-se a plasticidade sugestiva e ganha-se com isso uma obra despida, fria, acinzentada, sem asas para acréscimos técnicos, com excepção dos mais vulgarizados CGI. Dominado pelas tendências do terror actuais, os tais habituais jump scares com a música denunciadora que ofuscam qualquer intervenção criativa neste quadro.

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A realização anónima de Niels Arden Oplev (do primeiro capítulo sueco de Millennium), as falhas grotescas da edição, a linguagem primitiva quase kulechoviana que falha o sentido e os constantes erros de produção que desvendam o real "mistério", o de ninguém querer importar-se com esta "sofisticação". Como diria Sutherland na década de 90 - "Today is a good day to die."(Hoje é um bom dia para morrer). E até pode ser dia para tal, contudo, nenhum dia é bom para testemunhar a enésima preguiça de Hollywood.   

 

Real.: Ellen Page, Diego Luna, Nina Dobrev, James Norton, Kiersey Clemons, Kiefer Sutherland

 

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publicado por Hugo Gomes às 13:04
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1.9.17

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Numa escala de 1 a 10, qual é o teu índice médio de felicidade?

 

Caro Joaquim, fora qualquer tendência de superioridade, gostaria de perguntar o que realmente lhe aconteceu? O que é que o levou a tornar-se num mero técnico à mercê das vontades questionáveis de um alarve cinema comercial? O senhor foi uma promessa em plenos anos 90, conseguiu, com algum requinte, êxitos memoráveis no cinema português, sem precisar de se rebaixar.

 

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Julgava eu que Sei Lá tinha sido um equivoco, essa sua passividade para com tão questionável matéria-prima. Perdoei-lhe essa falta de insurreição de conteúdo, perante uma insurreição de forma. A técnica prevaleceu nessa cópia descarada de Sexo e a Cidade, por isso isto não é uma insinuação de incompetências por detrás duma câmara de filmar. Nada disso, eu reconheço o seu potencial, sei que é capaz de mais do que isto. Sim, isto. Este Índice Médio de Felicidade, esta adaptação de outro livro que também não foi capaz de se ver insurgido. Nesta história feel-good decorrida nos tempos de austeridade, que poderia de certa forma acompanhar esta vaga de cinema emergente que tem surgido por aí, cujas más-línguas apelidam de "filmes de esquerda".

 

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Exacto, os Migueis Gomes da vida, essas Mil e uma Noites que tão bem traduziram o estado inerente de um país derrotado e os Sãos Jorges que revelaram força no seu realismo vincado. Poderia ter aprendido com estas abordagens para conceber o seu Índice Médio da Felicidade, porque a vida, por mais optimista que a possamos encarar, precisa de ser tratada com veracidade e tom crítico. Ou se não, aí está, passamos por acríticos com promessas de emocionar com aquilo que os portugueses vêem artificialmente nas telenovelas. O filme é pesaroso, os diálogos não têm orgânica, tal como a narrativa e a direcção de atores.

 

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Pior, esconde as boas intenções de um futuro risonho na crenças de cada um, com uma descredibilização da "desgraça" das suas personagens. Recordo o popular filme de Danny Boyle, Slumdog Millionaire - Quem Quer Ser Bilionário, onde o protagonista (Dev Patel) em pleno concurso de Quem Quer Ser Milionário solicita ajuda numa das mais básicas perguntas. Chocado e de tom trocista, o apresentador (Anil Kapoor) refere que tais temas são ensinados na escola e que todas as crianças da primária sabem responder correctamente à questão. O protagonista confronta, afirmando que qualquer criança da "sua rua", perante a miserabilidade das suas vidas sabe perfeitamente a diferença de rupias entre uma banca de comida e de outra.

 

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Sim, Joaquim, se vai fazer um filme sobre os lesados da crise, do sufoco financeiro que muitos portugueses enfrentaram, nunca coloque uma cena onde o seu protagonista vasculha a carteira em busca de trocos para conseguir comprar um jornal para a sua filha, para que, na cena seguinte, o ponha a levar os filhos ao Jardim Zoológico. Não é filmar num canto só porque parece bem, há que entender que, se vai dirigir este filme para um público, cuja grande parte sofreu com as políticas de austeridade, deve sobretudo falar na respectiva língua. Joaquim, lamento, mas tem aqui o seu pior filme, com uma técnica e linguagem puramente televisiva. Com isto espero as melhoras, atenciosamente…  

 

Real.: Joaquim Leitão / Int.: Marco D'Almeida, Dinarte de Freitas, Ana Marta Contente, Lia Gama, António Cordeiro

 

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2/10

publicado por Hugo Gomes às 10:51
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27.6.17

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Até uma sósia da Megan Fox arranjaram!

 

Arrancamos com o texto com uma controversa afirmação: Michael Bay é um autor desta Hollywood subjugada tecnologicamente. Pronto, está dito. Agora, se isto é um facto a ter em conta, e puxando pela chamada política dos autores que, de certa maneira, os envolve numa imunidade crítica, é com cada um, porque não é isso que vem à baila na confrontação desta "sucata" escarafunchando em outra "sucata". Enquanto não seguimos então um novo efeito Verhoeven, fiquemos com o seguinte equívoco da industria estival.

 

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O quinto Transformers é, de longe, o mais insuportável da saga. O porquê desta afirmação? Simples. Enquanto o cinema de entretenimento tende em inserir no seio da agenda de lufa-lufa um desenvolvimento empático com o espectador, Bay descarta completamente qualquer sobriedade nas suas personagens, acções, tramas, efeitos e todas as consequências trazidas por esse extremo ego.

 

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Falta world building (termo utilizado para a construção de uma mitologia, de uma atmosfera, um ambiente, neste caso a desculpa de vender mais brinquedos e merchandising), não existe dedicação do material, há um desleixo na construção das suas personagens e uma dependência vinculada nos movimentos de câmara que tão bem mimetizam um videojogo. E não nos estamos a referir apenas ao plano americano à lá Bay, das longas sequências a lisonjear as forças militares americanas, da bandeira que baila ao vento, dos enésimos product placements que se camuflam como easter eggs e … pela quinta vez … o dispositivo narrativo do mundo em perigo por um iminente apocalipse (a esta altura já bocejamos com as imagens de destruição e do bye bye monumentos protegidos pela UNESCO).

 

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Não, referimo-nos ao ritmo epiléptico induzido na narrativa, às mil e uma coisas a acontecerem no grande ecrã sem a percepção do espectador, os diálogos formatados e sem emoção, o agravamento da continuidade com a saga, a descartabilidade dos eventos e a falta de noção e de astúcia para conduzir isto como um espectáculo circense. Pois, porque nem para isso serve. Gastamos 200 milhões … nisto. Um "filme" que nos deixa mudos, mas devido ao cansaço psicológico causado por esta anarquia mais anárquica, que nem serve sequer para o conseguirmos apelidar de cinema experimental. Apre!

 

Real.: Michael Bay / Int.: Mark Wahlberg, Anthony Hopkins, Josh Duhamel, Stanley Tucci, Laura Haddock, Omar Sy, Isabela Moner, Ken Watanabe John Goodman, John Turturro, Gemma Chan, Jim Carter, Steve Buscemi

 

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2/10

publicado por Hugo Gomes às 21:25
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9.6.17

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Noites felizes, filmes tristes!

 

Despedidas de solteiros em comédias é a garantia de caos e leis de Murphy ao quadrado. Rough Night (com o estranho título traduzido de Girls Night) é o enésimo uso do lema: “um mal nunca vem só”, e não é preciso citar After Hours, de Scorsese, para automaticamente apercebermos de que filme se trata. O enredo centra-se num grupo de 5 amigas que partem para o “fim-da-semana das suas vidas” numa Miami em modo Spring Breakers. Por entre a diversão, noites vividas pela musicalidade, o álcool e a droga, a trupe mata acidentalmente um stripper. Resultado, há que livrarem-se do corpo e ocultar as provas, tarefa nada fácil visto que a postura das nossas meninas parece não ajudar nem por um bocadinho a situação.

 

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Não sigam nas cantigas quando se referem a este filme de Lucia Aniello como a “A Ressaca no feminino”, não convenhamos comparar a astúcia de um para a parvoíce do outro, e verdade seja dita, mesmo sob códigos femininos, as piadas não desgrudam do simples mau gosto. Primeiro, encontramos aqui um concentrado do pior das comédias de estúdio, de personagens bocejantes a dispositivos deus ex machina para facilitar resoluções, neste caso a justificar um homicídio.

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Rough Night recorre a essa violência e disfarça-a como uma piada prolongada, não se tratando propositadamente de humor negro, mas sim de um equívoco em relação ao “girls power”. Apelação do activismo físico e não ideológico, a vingança como ferramenta de “igualdade de géneros” e a descrição de um grupo social numa eterna busca pelo direito da diferença (e não o da integração). Tal como acontecera com o remake de Ghostbusters (sim aquele pseudo-politizado produto de 2016), não basta encher um filme de protagonistas-mulheres para automaticamente este converter-se num filme feminista. Não, basta saber expor as ideias, focar o problema e tecer a crítica necessária, ao mesmo tempo, desenvolver com alguma transparência e sinceramente as suas personagens.

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Confessamos, que nem nós sabemos o porquê de estarmos a referir isto tudo, tendo em conta que Rough Night é somente uma parvoíce (e que dispensa sexos). Nada mais que isso. Comédias há muitas, agora fazer rir … esse é que é o desafio.  

 

Real.: Lucia Aniello / Int.: Scarlett Johansson, Kate McKinnon, Zoë Kravitz, Paul W. Downs, Jillian Bell, Ilana Glazer, Ty Burrell, Demi Moore

 

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publicado por Hugo Gomes às 17:51
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18.5.17

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Escapar não … esconder!

 

Queria dizer isto devagarinho, de forma a atenuar qualquer indício de hostilidade, mas não consigo, peço desculpas aos mais susceptíveis desde já… Bem, aqui vai. O filme Por Onde Escapam as Palavras faria melhor figura, se não deixasse escapar somente as palavras, mas sim se deixasse escapar inteiramente de todos nós. Porque não precisávamos de ver isto.

 

Eis um lixo, visto do ponto vista criativo, artístico, sociológico e mercantil. Uma comédia involuntária que nos remete ao pior que o cinema português possui: a falta de ideias, e, pior, a falta de ideias de cinema. Não é por questões monetárias que a criatividade e a coerência, têm de se ver descartadas. Pelo contrário, por vezes é sobre esse signo de apertos financeiros e outras limitações que nascem… eureka!… as ideias. Mas este projecto de Luís Albuquerque é uma omelete sem ovos, de um oportunismo que dói no que requer a citar o “terror islâmico” para nos oferecer um mau pastiche de auto-ajuda emocional.

 

O argumento, meus amigos, é ele próprio um verdadeiro atentado terrorista. Não acreditam? Vejamos a seguinte situação: um pai, cuja filha foi vítima de um ataque de fazer relembrar os trágicos episódios do Bataclan (Paris, 2015) persegue um dos autores do mesmo. Eis senão que nosso herói encontra o desprezível vilão barricado num antigo edifício, cercado pela competentíssima polícia. Tiros são trocados entre as duas parcelas, um violento duelo entre as autoridades e o perigoso terrorista ilustra o grande ecrã, enquanto a emoção aumenta no espectador pela incerteza do desfecho. "Sendo o nosso protagonista um mero e vulgar cidadão, como conseguirá ele entrar no edifício?", pensamos sem aguentarmos tamanho suspense (peço ao leitor que avalie todas as opções possíveis, use a imaginação, para então seguir com a revelação). Ah, “bonita” revelação desta mente elucidada que é o nosso herói! A personagem entra na dita batalha campal usando... as traseiras. Sim, simplesmente abrindo uma porta descoberta, sem quaisquer vestígios de seguranças! E isto é apenas um exemplo! Um!

 

Por onde Escapam as Palavras é um palavroso e amador filme, que nos apresenta 90 minutos da pior espécie, desde um enredo cosido e mal escrito, uma estrutura académica (mas, vá lá, de um academismo de quem saiu duma escola de cinema) até a um elenco ruinoso, onde cada actor é pior que o anterior. Sabemos que com a vinda do digital, qualquer um pode fazer cinema, mas fazê-lo não aplica apenas a vontade. Há que possuir o talento, a forma e a ideologia. Luís Albuquerque não possui nem uma coisa, nem nenhuma das outras, o que faz desta obra somente mais um "pecado fatal" [ler crítica] neste nosso meio cinematográfico.

 

Peço desculpas leitores pelo meu tom agressivo, visto que não tem a culpa disto. É que, ao contrário do título do filme, as minhas palavras não somente escapam... têm mesmo um objectivo definido.

 

Real.: Luís Albuquerque / Int.: Bruno Manique, Leonor Nobre, Beatriz Dias, Isabel Girão, Tó Zé Ferreira, Miguel Babo, João Damasceno

 

2/10

publicado por Hugo Gomes às 16:36
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13.3.17
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Cinema português … o eterno dilema da dinamização!

 

Diogo Morgado anunciou que esta sua experiência na realização teria como intuito trazer algum dinamismo ao panorama cinematográfico … por outras palavras, lá vamos nós à velha cantiga do cinema comercial português versus o autoral do costume.

 

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Mas será que esta proposta de comédia, um registo tão malfadado na nossa "indústria" actual, consegue vencer e transpor as barreiras da limitação televisiva? Claro que não, este filme que tem como signo a "má sorte" (ou Malapata) persiste numa ideia, e essa é dissipada pelas tendências de mercado que nós próprios abraçamos. Um bilhete premiado, dois amigos improváveis e dois dias cheios mergulhados numa maré de azar poderiam ser motivo para invocar as peças de uma série de infortúnios que funcionaram tão bem em comédias como After Hours, de Scorsese, e nas aventuras surreais de Harold & Kumar.

 

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Mas a ideia, essa, é o de somente uma sugestão, o que interessa é polvilhar a narrativa com camadas televisivas que teimam em não deixar ou preencher as elipses e transições com longuíssimas imagens de drones por um Faro em modo turístico. Depois, os cameos, desde o mágico Luís de Matos até à cantora Ana Malhoa, são os de uma cadência de "estrelas" que tende em servir mais como atractivos para o cartaz do que contribuir para a credibilidade do enredo. No caso do primeiro, a sua honestidade leva-nos à real percepção deste projecto: tudo não passa de um verdadeiro espectáculo de ilusionismo.

 

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Assim chegamos ao humor básico tão característico dos alter-egos dos seus protagonistas (Marco Horácio e Rui Unas), à narrativa que falha sem a concepção de um alvo requerido ou de uma linguagem cinematográfica e, como não poderia deixar de ser, a direcção sem brilho e quase anónima de Diogo Morgado, mas ao menos a sua estreia demonstra mais talento que um Leonel Vieira.

 

Real.: Diogo Morgado / Int.: Marco Horácio, Diogo Morgado, Rui Unas, Luciana Abreu, Pedro Marques, Luís de Matos, Ana Malhoa

 

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2/10

publicado por Hugo Gomes às 17:12
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9.3.17
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Vidas … cinematograficamente … destruídas!

 

Consideravam-na num "furacão", uma mulher que transformou a música brasileira para todo o sempre. Apontada como uma das grandes vozes femininas do Brasil, Elis Regina, o ícone, foi agora "vitima" da típica cinebiografia que é cometida por esse Mundo fora (este fenómeno dos biopics não é exclusivo de Hollywood), a vida retalhada em prol de um profundo anonimato cinematográfico. É triste verificarmos o desperdiçar de vidas formidáveis, condensadas, esquematizadas e convertidas aos enésimos ciclos viventes. Por outras palavras, maioritariamente no cinema, ficamos com a sensação que grandes figuras são transformadas em enfadonhas e inexpressivas vozes. Elis, de Hugo Prata, é um mero telefilme, vulgarizado pelos lugares comuns, pela logística da narrativa forçada pelos factos verídicos e pelo estilo anacrónico e de disposição académica.

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A rapariga que euforicamente descobre cantar no mesmo palco que Diane Ross cantara minutos antes, não possui a força, a vontade, nem a criatividade de transgredir o "certinho" formalizado do subgénero, nem mesmo Andréia Horta (que rigidamente limita-se à mimetização, ao alinhamento de tiques e manias em full playback) possui a capacidade de a salvar, nem mesmo invocar a forte presença que Elis fora. Infelizmente, é isto, uma biopic falhada, sem o mínimo interesse, nem para fãs, nem para aqueles que desejam conhecer a sua obra.

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Mas nem nós poderemos ficar a rir dos nossos "irmãos", a nossa grande diva musical, Amália Rodrigues, também ela fora "liquefeita" a igual tratamento. O problema não está no Cinema, portanto, está na ideia errada de como devemos retratar a vida de alguém na grande tela, ou simplesmente, o oportunismo de concretizar matérias fáceis e preguiçosas, que dão pelo nome de biopics. Triste ensaio este Elis.

 

Filme de encerramento da 8ª edição FESTin 2017: Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa

 

Real.: Hugo Prata / Int.: Andréia Horta, Gustavo Machado, Caco Ciocler

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2/10

publicado por Hugo Gomes às 22:32
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11.2.17

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Quando o sadomasoquismo é conservador!

 

No preciso momento em que Marlon Brando pediu a manteiga a Maria Schneider, do cinema erótico pouco faltava para transgredir. A última "pedra" foi com Gaspar Noé e o seu Love, mas isso é outra história. Quanto a Fifty Shades Darker (Cinquenta Sombras mais Negras) ... o que está em causa é um produto vindo da mais defeituosa linha de montagem, existindo mais interesse em apelar aos fãs do livro, reduzindo-se a uma adaptação de adereços, do que propriamente apostar no campo do cinema erótico.

 

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Pois sim, de erotismo este episódio nada tem, e muito menos o teor explicito, apenas dissecado no product placement de qualquer sex shop. Esta sequela, agora sob o cargo de um homem e com maior intromissão da autora E.L. James no guião, não dá dignidade a Anastasia Steel, ao contrário do filme anterior, em que a realizadora Sam Taylor-Johnson tentava perante tão afamado material "infectar" a personagem num "loop" que percorria os mesmos traços de 9 1/2 Weeks. É tudo igualmente púdico, limpo e absolutamente vendido à "pop culture" da MTV (a banda sonora é um autêntico balde de gelo perante qualquer atmosfera sensual).

 

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Os actores nada se esforçam e ambos revelam se limitadíssimos em "rasgar" as suas personagens de papelão. A entrada de Kim Basinger, a única referência pura ao filme de Adrian Lyne, é uma piada de extremo mau gosto, até porque no que diz respeito a personagens secundárias, Fifty Shades Darker nada tem de submissão (o que interessa são os protagonistas, os restantes são adereços). Assim continuamos a criar fenómenos sem razão, a sermos escravos de um marketing bondage, e a ser histéricos por um material "kinky" para maiores de 16 anos.

 

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Depois de Paul Verhoeven ter apresentado em Elle que é possível representar mulheres numa jornada em busca das suas fantasias sexuais, é quase uma censura moral sermos presenteados com um filme sobre sexo tão inofensivo que até o próprio tempo de antena lascivo é um mero embaraço narrativo. Na televisão conseguimos ver bem mais.

 

Real.: James Foley / Int.: Dakota Johnson, Jamie Dornan, Eric Johnson, Kim Basinger, Rita Ora, Marcia Gay Harden

 

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publicado por Hugo Gomes às 18:29
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1.2.17

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Unidos, mas igualmente separados

 

Em Cannes de 2015, Brillante Mendoza apresentaria, em secção Un Certain Regard, Taklub, uma suposta homenagem aos sobreviventes do super tufão Haiyan, que abateu as Filipinas em 2013, vitimando mais de 6.300 vidas. Um episódio catastrófico que nem mereceu a atenção da imprensa global (apesar de ser visto como um dos mais fatais desastres do sudoeste asiático). Tendo em conta esse factor, Mendoza decidiu conceber um filme para reavivar essas mentes que infortúnios como estes acontecem nos quatros cantos da Terra e que cada vida, merece sim, a sua solidariedade. Muito antes disto, em 2002, uma antologia de curtas sobre os atentados do 11 de Setembro de 2001 encontrava-se a ser produzida para a criação de um filme colectivo. Por entre os realizadores convidados a integrar o projecto (11'9"01 September 11), um deles, Ken Loach, decidiu abordar um outro 11 de Setembro, o dia negro que marcou o Chile em 1973, totalmente esquecido na actualidade.

 

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O que queremos insinuar com estes exemplos, não é o menosprezo das vidas perdidas nos atentados de Boston em 2013, onde duas bombas explodiriam por entre a multidão que assistia à maratona festiva de Patriots Day. Os medias captaram, em completa sintonia, o incidente e o desenrolar destes, terminando na captura dos autores desse tal acto. Mediatismo é a essência pelo qual compõe este Patriots Day, a nova colaboração entre o realizador Peter Berg e o actor Mark Wahlberg, que resultou em mais um desesperado e desonesto filme sobre a "força" inerente dos EUA.

 

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Era de esperar algo do género. Porque honestidade e reflexão não são com esta dupla pela qual, relembramos, presenteou-nos com um dos piores filmes bélicos recentes (difícil, visto que não têm sido poucos). Em Lone Survivor, deparávamos com a réplica do videojogo Call of Duty, onde a acção rebuscada e as densas palas "patriotas" eram motivo que bastasse para incutir uma indigna homenagem a "heróis caídos". Heróis? Questionamos os actos. Aliás, assim como deveremos questionar os propósitos desta homenagem às vidas perdidas de Boston, juntamente com a vendida frase - "baseado em factos verídicos".

 

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Patriots Day arranca com um choque completo, tudo é filmado com um handycam constantemente inquieto, auferindo um tom vérité e claro, a aproximação com a plataforma jornalística. Todavia, é apenas isto que Berg, "pupilo" de Michael Mann, consegue fazer. Nesse mesmo jogo, não referido o seu "sensei", um outro realizador, Paul Greengrass sempre havia evidenciado uma certa orgânica da câmara em consolidação com a acção, enquanto que o nosso Berg se perde por constantes batalhas de planificação de última hora, dando uma essência certinha e igualmente desorganizada. Não é found footage meus amigos, é entretenimento "tremido".

 

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Depois de apercebermos o desvaire técnico, seguimos ao encontro de uma panóplia de personagens, 90% delas sem relevância para o enredo em si. São representações, faces das vítimas com todo aquele cenário pastiche e pastelão por detrás. São seres de pura felicidade, como se não existissem conflitos numa Boston antes dos atentados. Perfeitos seres humanos, preenchidos com amor, dedicação e harmonia em todos os seus poros. Esta Boston é um protótipo de cidade perfeita … isso se acreditarmos na hipocrisia das imagens, nesta manipulação "branqueada" que nos leva à outra face da moeda - os autores do atentado. Estes muçulmanos "radicais", cujos ideais oscilam violentamente para anarquismo, acima de qualquer statment político, são seres torturados por um maniqueísmo sem tréguas. Num filme, onde as outras personagens gozam de uma tremenda "joy" em cadeia, estes islâmicos são ainda reduzidos a estereótipos embutidos.

 

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Patriots Day nem sequer tenta disfarçar as suas ideias perigosas, estas servidas de bandeja como uma homenagem às vítimas. O que vemos é um perigoso ensaio da actualidade norte-americana. Mark Wahlberg discursa até certa altura sobre o bem e o mal. Os ponteiros do maniqueísmo sobem a pique. E a sequência final, mais um na tendência de epílogo documental de testemunhos e imagens reais funciona como um soco de realidade à cara do espectador: "o que dissemos até agora é tudo, mas tudo, verdade". E os nossos antagonistas a proclamarem "vamos matá-los os todos". Peter Berg é um artesão de um raio em lavagens cerebrais, e conseguiu mais um feito, e dos grandes. 

 

Real.: Peter Berg / Int.: Mark Wahlberg, Michelle Monaghan, J.K. Simmons, John Goodman, Kevin Bacon

 

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publicado por Hugo Gomes às 23:57
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19.1.17

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"Velocidade Furiosa 7.2"!

 

Com que então Xander Cage está vivo! Matá-lo foi uma decisão a qual os produtores cedo arrependeram-se –  tendo em conta os resultados pouco animadores da sequela / spin-off de 2005, onde substituíam o ascendente Vin Diesel por um Ice Cube em extremo modo de “grumpy cat”.

 

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Passados 12 anos, eis que surge a continuação “digna” do sucesso de 2002, um filme apenas possível graças ao desespero da sua estrela em agarrar os seus antigos êxitos. Parece que os problemas são os seus fãs, estes que estiveram nas “tintas” para a sua tentativa ao Óscar em Mafioso Enquanto Baste (provavelmente o filme mais “cinematográfico” da carreira de Diesel, sob as ordens do lendário Sidney Lumet), salivando apenas para mais entretenimentos instantâneos, como manda esta Hollywood tão Bollywood. Consequência? É ressuscitado Velocidade Furiosa, pelo meio um Riddick e agora esta aspiração de outros tempos –  um xXx demasiado preso ao narcisismo da sua estrela.

 

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O filme é uma versão “light” de Fast & Furious, com Vin Diesel a formar uma nova equipa sob os mesmos moldes culturais e com missões de “encher chouriço” para longas e toscas sequências de acção que nada adiantam ao enredo. Não é que procurássemos nesta “aventura” um dos pilares máximos do cinema enquanto Sétima Arte, mas o efeito paródia que o original transpirava é desfeito por uma produção igualmente séria e desmiolada. Personagens descartáveis, cameos desnecessários (Neymar entra na industria pela “porta pequena”), diálogos sem utilidade e gags previsíveis e sem criatividade fazem as “maravilhas” dos espectadores.

 

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Vale pelo pouco “malabarismo” marcial de Donnie Yen, cada vez mais requisitado nas produções hollywoodescas (ao contrário de Tony Jaa, que nunca é devidamente utilizado). Quanto ao resto… bem, o resto é engodo. Um aperitivo somente apropriado para quem não aguenta esperar pelo oitavo filme de um certo franchise bilionário. Se é para brincar aos “espiões”, fiquemos com a classe politicamente incorrecta de Kingsman.

 

Real.: D.J. Caruso / Int.: Vin Diesel, Donnie Yen, Deepika Padukone, Ruby Rose, Nina Dobrev, Toni Collette, Samuel L. Jackson, Tony Jaa

 

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publicado por Hugo Gomes às 16:12
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22.10.16
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O Evangelho dos Burgueses!

 

A crise dos refugiados contraiu tal dimensão mediática que é praticamente impossível ficar indiferente ao tema. Em consequência disso, são “às centenas”, as obras que são lançadas este ano e que deambulam sobre as condições desta gente. Felizmente, há quem o faça bem, como também, a quem os explores de maneira quase pornográfica. Nesta última opção encontramos Vangelo (em Competição Internacional do Doclisboa) sobre um actor e encenador italiano - Pippo Delbono (conhecido pelo seu desempenho em I am Love, de Luca Guadagnino, ao lado de Tilda Swinton) - que após a morte da sua querida mãe e dos diagnósticos assombrosos da sua saúde, decide aventurar-se entre os refugiados para … sabe-se lá o que se passa na cabeça dele … encenar o Evangelho.

 

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Antes disso, bem, após algumas sequências longas e narcisistas, filmadas por telemóvel sobre a sua pessoa, Pippo afirma que para consolação da sua dor havia encenado um chamado “Evangelho dos Ricos”, uma peça trabalhada com muitos dos seus amigos artistas, que segundo o realizador, são burgueses que desconhecem o mundo real. Bem visto, sim senhor, se não fosse o facto de logo a seguir Pippo afirmar que pessoas infelizes devem se manter próximo de pessoas ainda mais miseráveis para se sentir na melhor das formas.

 

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Solução, o encontro com um grupo de refugiados para confortar o seu pesar. Esta comparação entra logo em conflito com a moralidade do projecto, até porque a restante duração do documentário faz-se com puro bullying. Pippo é um burguês privilegiado que encontra nos refugiados o seu ar de graça para simplesmente troçar, quase obrigando-os a citar frases italianas, o qual se entende que estes homens não percebem nem sequer uma palavra daquilo, até à natureza religiosa cristã da peça sobre vários homens, que sem sombras de dúvidas, são muçulmanos. A persistência nessa evangelização está em perguntas como “Conheces Jesus?”. Será Pippo um jesuíta?

 

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O incomodo é um sentimento vivido por estes homens com vidas destroçadas, os respectivos olhos falam por si. Homens munidos de coragem para deixar para trás as suas vidas anteriores e aventurarem-se nas mais arriscadas façanhas (exemplo, é o único relato de vida destes, Safi, que com o seu péssimo inglês torna-se no ponto alto da obra). Por entre “torturas” (um homem residido minutos sem fim no alto mar para citar textos do Nazareno), até a interrogatórios frios e voyeuristas, Pippo, sob uma sugestiva respiração ofegante, faz de “domador de feras” num circo que ele próprio montou, para além disso, todo este registo funciona numa espécie de “snuff film”.

 

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Para finalizar, este homens cujo futuro é incerto, muitos deles com vistos negados e recambiados aos seus países de origem (qual? O filme nem interessa por isso), Pippo, revela o seu pensamento mais egoísta de puro conformista burguês, “estas pessoas são felizes porque tem música e dança”, ou “como estas pessoas não tem medo da morte, sabem o que é viver”. Mas que raio de “moralismo” é este?! Pippo pega nos refugiados para o seu próprio entretenimento (existe também alusões sexualmente fantasiosas com estes mesmos homens), depois reforça a sua miserabilidade humana, como fosse o mais desgraçado de todo este Mundo, esquecendo que é um privilegiado homem branco ocidental.

 

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No final temos a sua “queridaÚltima Ceia, sob o som de uma música em looping I Feel Good”, sim, bastante apropriado, indeed!. Pelos vistos, encontrei o Je m’appelle Hmmm … deste ano [ler crítica aqui], mal executado, mal idealizado e imoral no seu sentido de oportunismo.

 

Filme visualizado no 14ª Doclisboa: Festival Internacional de Cinema

 

Real.: Pippo Delbono

 

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publicado por Hugo Gomes às 16:04
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11.9.16

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E seja quem for que ganhe... nós perdemos … literalmente!

 

Crossovers no género de terror é um truque mais antigo do que aquilo que se julga. Nos anos 40 e por aí fora era comum encontrar este tipo de registo de forma a “despacharfranchises, ícones ou simplesmente combinar dois “clubismos” num só. O resultado, Lobisomens contra Frankensteins, Frankensteins contra Dráculas, Dráculas contra Lobisomens, ou tudo ao “molho” como é o caso de House of Frankenstein (Erle C. Kenton, 1944).

 

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Do outro lado do Oceano, os japoneses não ficaram de fora perante esta artimanha, aliás foi essa mesma que serviu de plano de sobrevivência para uma saga sua, Gojira (Godzilla), e os casos mais gritantes como Gojira Vs King Kong (subliminarmente a desforra do resultado da Segunda Guerra Mundial) ou Gojira Vs Gamera. É lógico que passados estes anos todos, “coisas” como Alien Vs Predator e Freddy Vs Jason (este último acaba por ser o mais modesto dos exemplos hollywoodianos) integram a memória do espectador no preciso momento que se fala em crossovers, embates entre duas sagas.

 

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Sadako Vs Kayako (de um lado Ringu, de Hideo Nakata, do outro Ju-On, de Takashi Shimizu), são duas “vitimas” do desgaste, sombras do que outrora foram - pioneiros no prolifero subgénero j-horror – encontram a única solução de revitalização num confronto cinematográfico. A quem acredite que todo esta manobra de comércio marque o fim de dois franchises, porém, algo é certo, Sadako Vs Kayako é um “caçador formidável”. Digo isto porque tem a proeza de “matar dois coelhos duma cajadada só”.

 

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Pois bem, a ideia está à vista de todos, “vamos juntar dois pesos-pesados do cinema de terror nipónico para facturar o que sobra destas espécies em vias de extinção”. Quanto a argumentos? Segundo a “mentalidade” dos produtores, qualquer coisa serve como desculpa (todo este episódio faz lembrar a "matança" a Freddy Krueger ocorrido em 1991). Os actores? Estes serão apenas reduzidos a caricaturas das caricaturas num filme que não consegue encontrar o seu verdadeiro tom. Quanto às poucas sequências de terror que o filme tenta emanar, palavra de honra, puros motivos de chacota para as audiências.

 

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Estes pesadelos converteram-se em inofensivas imagens, sem força alicerçada, nem sequer rigor para funcionar como sátira, é somente uma produção sem esforço nem vontade, "pastilha elástica" da pior qualidade. Aliás tudo resume-se a uma “palhaçada” com objectivo de extrair o que resta nestas duas sagas em vias de eutanásia. Visto isto, mais valem morrer sozinhas. Abaixo deixo a minha homenagem a estas duas sagas:

 

R.I.P. Ringu: 1998 - 2016

 

R.I.P. Ju-On: 2000 - 2016

 

Real.: Kôji Shiraishi / Int.: Mizuki Yamamoto, Tina Tamashiro, Aimi Satsukawa, Masanobu Andô

 

Sadako-vs-Kayako-2785990crop.jpg

 

Ler também

The Grudge 3 (2009)

The Grudge 2 (2006)

Ju-On: The Beggining of the End (2014)

2/10

publicado por Hugo Gomes às 17:14
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20.5.16

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A inesperada face de Sean Penn!

 

Por onde devemos começar? Pelo facto de Sean Penn, mesmo sob o pretexto de amor ONG, não conseguir esconder um espírito colonialista de uma África auxiliada pelo Ocidente? Pelo seu activismo politico e social com discursos de bolso sobre a ajuda humanitária aos Refugiados e à pobreza mundial? As boas intenções que não conseguem disfarçar o baratismo sentimental como dispositivo de comoção direccionado ao público das mesmas notícias de telejornais? Pelo enésimo branqueamento, literalmente falando, de uma África cinematográfica e problemática? Ou pelos diálogos incrivelmente bacocos e deslavados perante tanta "pirosidade"?

 

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Sim, The Last Face é algo indescritível, o cinema volta a mostrar que pouco sabe de África para além dos estabelecidos lugares-comuns da eterna consciência branca. Sean Penn, defraudado com o seu "high moral ground", convencido que as boas intenções pagam a passagem ao barqueiro, incute um romance desproporcional tal como acontecera anos antes em Beyond Borders (Martin Campbell, 2003), onde Angelina Jolie e Clive Owen apaixonam-se para além das barreiras. Este não é o Penn que conhecemos, o realizador de Into the Wild, é antes um orador de um discurso activista com mais chance de irritar do que propriamente "mudar o mundo".

 

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Uma colecção de "porverty porn" e de desgraças com mais noção hollywoodesca do que propriamente a criação de uma crítica / denúncia social. Nesse sentido, Beasts of No Nation é mais directo, sem a necessidade de condimentos românticos nem personagens ocidentais como atractivos de marketing. Até porque a África actual está longe do romantismo colonial de outrora, daquela "fantasia exótica" que os portugueses tanto adoram invocar nos seus filmes de época (Cartas da Guerra, Tabu, Costa dos Murmúrios). Isto é um assunto sério, a nível global, como também é desprezado por essa mesma escala. Tal como a canção colectiva "we are the world, we are the children", o mundo não muda com cantigas. O paternalismo hippie -  make love, not war -  aludido à primeira legenda deste filme, prevê o fracasso de todo o tamanho que este The Last Face iria se tornar.

 

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Nem mesmo Javier Bardem e Charlize Theron safam-se a este grave atentado, a este Sean Penn "bêbado" que se julga Terrence Malick em causas humanitárias. Falando em atentados, ver a "promissora" actriz Adéle Exarchopoulos, presente no elenco só como garantia de co-produção, é o equivalente a esfaquear o meu coração com uma faca de manteiga. Matem-me, por favor!

 

Filme visualizado no 69º Festival de Cannes

 

Real.: Sean Penn / Int.: Charlize Theron, Javier Bardem, Adèle Exarchopoulos, Jean Reno, Jared Harris

 

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2/10

publicado por Hugo Gomes às 13:45
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