"She's a Keeper"

Continuando no percurso de Oz Perkins (para alguma imprensa ainda distanciada da sua progressão, é “o filho do actor Anthony Perkins”), realizador ainda devoto ao terror ao longo das suas cinco longas-metragens, descrito pela imprensa da outra margem do Atlântico como “eerie director”, por cá, numa tradução literal, “realizador do arrepio”, até porque a base da sua carreira nasce de filmes erguidos a partir da atmosfera, do incómodo cénico, da suspeita que por vezes desemboca na frustração visual, nesse arrepio espinal perante um desconhecido encenado. Assim foi nas suas primeiras obras, seguindo depois a eito na sua versão de “Hansel and Gretel” (2020), passando pelo hype de “Longlegs” (2024) e chegando, por fim, à algibeira do universo de Stephen King, no seu mais histérico exemplar, “The Monkey” (2025).
Parte agora para o lugar-comum do género: uma cabana remota num bosque incógnito, elementos gastos no terror e no que o rodeia. Mas, em “Keeper”, o anseio está na construção atmosférica, no indecifrável, no estranho, no bizarro, mesmo quando a explicação sugerida levanta mais suspeitas do que clareza. Digamos que a tal “cabin in the woods” se cruza com a sua casa assombrada, outro lugar-comum, em “I Am the Pretty Thing That Lives in the House” (2016), filme de espectros e fantasmas que pavoneia no nada, no eco, na deambulação por algo fora da industrialização do jumpscare, persistindo no ambiente, nesse medo primordial que outrora nos transtornam… o tal estridente incómodo.
“Keeper” conduz-nos a um ponto directo, envolto na ambiência, no tal nada sem recompensa: um casal decide passar o seu serão romântico e, desde o primeiro instante (basta ao espectador ouvir a expressão “cabana em nenhures” para se alarmar), instala-se um clima de desconfiança em relação ao espaço, e ao estado das ‘coisas’. A partir daí, o filme gira em torno dessa mesma apreensão (a música de Edo van Breemen, que também colaborou com o realizador em “The Monkey”, dá um ajuda), enquanto nos brinda com um ou dois manifestos da ameaça a rasgar o ecrã, seja nas extremidades do plano, seja nos seus pontos de fuga. Há “qualquer coisa” no ar que, ao contrário do registo hollywoodesco, não grita por atenção central.

Por outras palavras: “Keeper” não se envolve em bailes de jumpscares; procura a sobriedade do plano, um exercício de delírio quase lovecraftiano (o tal medo ao desconhecido e do vazio alicerçado), pingado por elementos clivebarkeanos e uma leve polvilhação de folk horror com imaginário yokai. Um batido em contradição com a corrente, não pretende ser alusão nem metáfora (priorizando a viagem psicológica que um suposto tratado sócio-político): apoia-se no fantástico (e, mais uma vez, no incógnito como força vital). A isto junta-se uma actriz que parece encaixar-se naturalmente no universo do realizador: Tatiana Maslany (vista no anterior “The Monkey” e longe da desprestigiante série “She Hulk”), incorporando esta mulher desfeita pela ordem (ou melhor, pela desordem) desencadeada pela sua loucura.
Por um cinema de terror que não se quer espapaçado ou de fácil digestão, Osgood "Oz" Perkins afirma-se como um dos nossos embaixadores contemporâneos.