A Marcha pela Liberdade sob um produto industrializado!
Na altura em que Selma estreou nos EUA, o país vivia sob o calor da indignação do caso Michael Brown, em Ferguson (Missouri). Num momento em que a discriminação racial voltou a dar que falar, a marcha de Martin Luther King em luta pelo direito do voto para os negros foi aderido como um sinal cinematográfico de protesto. E não é por menos, visto que a realizadora Ava DuVernay declarou durante a promoção de Selma, que não se encontrava interessada em retratar heróis brancos.
Como prova de cumprimento das suas palavras, todos os caucasianos do filme são reduzidos a caricaturas generalizadas (provavelmente uma vingança "pessoal" ao tratamento que as personagens negras recebem em muito dos produtos da grande industria norte-americana). A juntar isso temos também um crescente clima de conspiração, fortalecido por uma narrativa constantemente interrompida com citações de relatórios do FBI, durante o processo de rastreamento do activista e o seu movimento. Ou pela inserção reduzida de J. Edgar Hoover (Dylan Baker), director da tal organização, que complementa a ideia de uma conflituosa relação de Luther King com o presidente dos EUA, Lyndon Johnson (Tom Wilkinson), o homem que mais tarde acabaria por aprovar a lei que garantiria os iguais direitos de voto.
Selma, como já deu para perceber não está interessado em abordar a comunidade caucasiana, provavelmente Ava DuVernay aprendeu de certa forma a militância e a agressividade temática de Spike Lee, veja-se o caso do seu Malcolm X, a "chamada" alternativa às ideologias de Luther King. Mas num confronto directo a realizadora acabaria por perder na disputa, porque simplesmente o seu filme em termos produtivos é de um academismo desconcertante. Um eterno sonhador, assim como o protagonista, Selma esforça-se para integrar o rótulo de produto de prestígio, mas acaba por recorrer ao panfleto de martirização, os temas sociais são dissipados pelo "fazer bonito", emotivo e equiparado ao próprio onírico hollywoodesco.
Sob essa vertente, o filme guarda outra fraqueza que se dá pelo nome de Oprah Winfrey, a célebre apresentadora para além de ter um pequeno e pouco relevante papel é ainda a produtora deste trabalho (mais um para juntar à sua lista), apostando numa pedagogia estilística quase homogénea, tal como fizera com o anterior The Butler (O Mordomo). Porém, aquele que foi o grande foro de críticas ao filme, acaba por se tornar na sua mais-valia. Falamos obviamente do britânico David Oyelowo, que encarna sob uma prestação forte o activista e pastor Martin Luther King, e a sua composição está longe da mera mimetização da personalidade real. O actor que já havia trabalhado com a realizadora em Middle of Nowhere (2012), conseguiu, isso sim, oferecer uma personagem humanizada e nobre, devoto à sua causa e sapiente nas suas acções. Como seu alicerce encontramos a actriz Carmen Ejogo como a sua mulher, Coretta Scott King, servida como um ponto estratégico de alargamento do enredo de Selma, mas o efeito não foram os mais desejados.
Tudo porque um filme não sobrevive somente por boas intenções, mas como também por técnica e conteúdo. No primeiro tópico, DuVernay apresenta uma exímia condução na câmara, as imagens das marchas manifestantes são precisas e pensadas ao milímetro para a comoção. Mas quando entramos no ponto do conteúdo, mais concretamente a sua estrutura narrativa e a exposição do enredo, Selma decide apostar no mais seguro, ser conduzido por lugares-comuns e as inevitáveis padronizações da biografia cinematografia. Mas apesar de ser mais um produto de estúdio formalmente moldado, é o seu "embrulho" que o torna numa visualização agradável e facilmente saciável. Contudo, Selma encontra-se verdadeiramente longínquo dos sonhos de Martin Luther King.
“Who murdered Jimmie Lee Jackson? Every white lawman who abuses the law to terrorize. Every white politician who feeds on prejudice and hatred. Every white preacher who preaches the bible and stays silent before his white congregation. Who murdered Jimmie Lee Jackson? Every Negro man and woman who stands by without joining this fight as their brothers and sisters are brutalized, humiliated, and ripped from this Earth.”
Real.: Ava DuVernay / Int.: David Oyelowo, Carmen Ejogo, Tim Roth, Tom Wilkinson, Oprah Winfrey, Common, Dylan Baker
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