Se o gato de Schrödinger estivesse com o cio, seria este filme

“Amor à Segunda Vista" (“Mon Inconnue”) requisita as geringonças temporais para se empestar no moralismo, com os seus “pózinhos” de romance platónico. Digamos que o seu dispositivo narrativo não se afronta na vanguarda da originalidade, já o vimos com melhor gratidão em filmes como o eterno e já tradicional “It’s a Wonderful Life”, de Frank Capra, ou no loop temporal transformado em culto – “Groundhog Day”, de Harold Ramis.
Na obra de Hugo Gélin (Demain tout commence, 2016), um casal vive os seus momentos ternos, mas o futuro guardou-lhes algumas “surpresas”. Enquanto ela, Olivia (Joséphine Japy), abdica dos seus sonhos de ser uma pianista reconhecida, ele, Raphaël (François Civil) persiste na sua ambição de escrever ficção científica para jovens adultos. O sacrifício dela é negligenciado pelo egoísmo do outro, o que desencadeará um lapso temporal que o transportará para uma realidade alternativa, onde a carreira de pianista de Olivia é consagrada e Raphaël limitado ao seu estatuto de mero professor. O que realmente aconteceu nesta dimensão foi que ambos nunca se encontraram. Porém, Raphaël está ciente de tudo e, como tal, está determinado a reaver o seu amor perdido.
O resto faz-se sob o livro de manuais para comédias românticas, com as peripécias todas pelo caminho, pelos “sidekicks” completamente caricaturados e o final tão “agarrado” ao mero clichê dessas desventuras. Nada contra a derradeira ingenuidade, só que esta surge após um único momento de maturação das suas personagens e a partir daí pinta-se novamente o quadro da disfarçada masculinidade tóxica e castradora e da dependência para com as definições absolutas do romance. Porém, sabia-se à partida que nada aqui seria uma reflexão ou desconstrução desses mesmos territórios, apenas um jogo ganho para aquecer corações apaixonados através dos seus mais reconhecíveis códigos.
Talvez, de forma a sentar-se na mesa das bem-sucedidas comédias românticas modernas, “Amor à Segunda Vista" deveria ter aprendido com os erros após uma inconsequente e impensável prova de paixoneta. Enfim, filme a dois, é o que se quer e o que se entrega.