Salvem o planeta verde ...

… ou melhor, salvar-nos da paranoia. Acreditar nestas novas gerações (cineastas que se querem autores ou tarefeiros, conforme a equipa de validação, indústria ou criação) parece sempre um acto de exorcismo frente às paranoias que a espuma dos nossos dias expele. Yorgos Lanthimos, realizador outrora associado ao exquisite, desafiando semióticas em “Canino” (2009), filme da sua consagração, partiu depois para o sonho americano. Fê-lo via metáforas e corpos mecanizados (“The Lobster”, “The Killing of the Sacred Deer”), até se deixar domesticar pela indústria e pelo mainstream, a partir de “The Favourite” (2018), conquistando palco até tombar na sua própria presunção.
“Bugonia” adivinha-se, salvo dois ou três momentos, como a provocação de Lanthimos num registo sóbrio, escasso em escolhas estéticas; sustenta-se sobretudo na parceria com Emma Stone (actriz entregue às suas vontades e excentricidades) e no novo comparsa Jesse Plemons, firme na sua espinha camaleónica. Remake de “Save the Green Planet” (2003), objecto de culto sul-coreano de Jang Joon-hwan, segue um conspiracionista convicto de que a invasão alienígena já ocorreu. Sem necessitar dos óculos de “They Live”, dá-se conta da infiltração milenar: “Eles estão entre nós”. No caso de Lanthimos, a “fantasia” é empurrada para o extremo contextual; toda a paranoia torna-se crível quando equiparada ao ruído discursivo das redes, onde muita da base MAGA e os bestsellers de David Icke se cruzam como se fossem catecismos do fim-de-semana.
A suposta paródia do original é capado a um thriller em malabares de bolas da realidade e da sua ficção, e onde, no entanto, algo sucede: aquele final. Um desfecho que parece justificar toda a ‘chalupice’ contemporânea e que molda, basta abrir a janela, esta realidade, ou o que tomamos por Verdade. O virtuosismo não se salva, nem Emma Stone consegue ser promovida a heróina a um filme condenado ao seu ultraje de provocação. Diria que é perigoso, mas recuso ao moralismo fácil: a ficção científica sempre viveu de alegorias. O problema é outro. Ao contrário dos títulos anteriores do grego, aqui não há alegoria alguma, apenas a reencenação literal do que pretende satirizar. Deviam ter aprendido com os sul-coreanos.