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10.2.16
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Conhecendo as nossas "quatro paredes"!

 

Em 2008, o Mundo ficou a conhecer a possibilidade do sequestro, do cativeiro e do incesto poderem partilhar o mesmo “quarto”. O caso Fritzl emergiu, e difícil foi encontrar quem não se sentisse imensamente perturbado (e repugnado) com tais actos “monstruosos”, os medias encarregariam de “esvaziar” essa descoberta mina de ouro e o “espectador” de penetrar numa autêntico circo de aberrações, onde a curiosidade e o desejo de impressionar seguiam lado-a-lado. Mas enquanto esse Mundoespantado” ansiava conhecer mais de perto (mas não tanto) este “monstro austríaco” [Josef Fritzl], agora objecto de variados case studies e outras análises psicológicas, tudo parecia esquecer as suas vítimas, e o terror vivido por elas.

 

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Foi assim que se questionou, a escritora Emma Donoghue. O que afinal aconteceu e que acontecerá a esses seres para sempre desfragmentados pelos horrores cometidos por outrem? Metendo “mãos à obra” o resultado desse pensamento gerou, dois anos depois, um livro – Room – que se instalava como uma lente gradual numa mãe e na sua criança, concebida num cativeiro idêntico ao do referido caso Fritz. A sua sobrevivência é, porém, deixada como segundo plano, até porque o livro não intende ser um hino de martirologia, mas sim uma reflexão aos limites do nosso pensamento, do nosso conhecimento e o desabamento de um mundo que outrora parecíamos estar familiarizados.

 

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Esse Mundo é para Jack o seu “Quarto”, um cubículo que reserva todo a sua experiência e conhecimento de uma vida correspondente a metade de uma década. A sua vida foi gerada a partir de uma relação violenta entre a sua mãe, ou como ele apelida ‘Ma’, e do raptor, o estranho homem que frequentemente visita-os durante a noite, trazendo consigo mantimentos e desejos carnais a serem consumados. Mas tal como o livro, Room não se direcciona no campo da psicopatia, mas sim na vivência da criança que automaticamente se torna num naufrago, que à deriva do seu oceano, enfrenta uma tremenda tempestade.

 

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Esse temporal, assim dito, é o seu acesso ao mundo exterior, o escape do seu antigo “lar”. Mas antes, Jack convida o espectador a deslumbrar esse seu ecossistema limitado, as suas ideias sobre o funcionamento do mundo expressado por ‘Ma’, particularmente criado como uma segurança psicológica para o seu filho. A maneira como o protagonista relaciona com cada objecto, cada artefacto ou até mesmo com os elementos naturais que raramente presencia neste seu cubículo, adquirem um tom fabulesco a este conto, que é tudo menos feliz, apesar da satisfação obtida pelas virtudes da ignorância. Mas quando a “idade dos porquês” resolve tomar forma, Jack inicia uma nova aventura, a negação desse biótopo que o acomodou durante 5 anos perante as novas revelações da sua progenitora. Room, de Lenny Abrahamson (do subvalorizado Frank), aprova um complexo da caverna de Platão para confrontar a sua personagem à inquietante verdade – há um mundo lá fora à espera dele.

 

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Assim entramos no segundo acto, o exterior, a descoberta de novas experiências e o alargamento desse “quarto”. Jack comporta-se como um “alien” perante esta nova janela, mas neste novo tomo o holofote está apontado noutra direcção, em ‘Ma’, mais concretamente em Brie Larson que se revela numa personagem tão complexamente emocional como o próprio filme. As suas convenções sentimentais são um território desconhecido, até mesmo para o espectador que neste determinado momento se vê “grego” em entrar no seu íntimo. Se a actriz assenta como um verdadeiro incógnito desta relação ausente ortodoxia entre mãe e filho, é Jacob Trembley, o nosso Jack, que nos defrontamos com a verdadeira "faca" emocional. Há muito tempo que não se via um actor tão novo a conduzir de forma plena o protagonismo e os ponteiros sentimentais da narrativa.

 

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Ao contrário do facilmente identificável, Room é um objecto longe da simplicidade e da limitação do seu espaço. É sim um ensaio dramático claro e preciso para os seus actores que desafiam o espectador a olhar para além do mediatismo, e sim das relações humanas. O afecto que não está à flor da pele, mas que cresce como líquenes, suaves mas salientes.  

 

"When I was small, I only knew small things. But now I'm five, I know everything!"

 

Real.: Lenny Abrahamson / Int.: Brie Larson, Jacob Tremblay, Sean Bridgers, William H. Macy, Joan Allen

 

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8/10
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publicado por Hugo Gomes às 14:36
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