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1.11.18
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A Raiva de filmar!

 

A evidência de uma luta entre classes em Raiva remete-nos sobretudo para o dispositivo de Manuel da Fonseca e o seu romance Seara de Vento (publicado em 1958) em consciencializar um povo para os seus mais profundos desejos políticos. Esta nova ficção de Sérgio Tréfaut, a segunda longa-metragem desta linguagem desde A Viagem a Portugal (2011), é um objeto curioso e subtilmente absorvido pela sua reconstituição histórica, quer a nível cénico ou até mesmo atmosférico (com graças à belíssima fotografia do veterano Acácio de Almeida).

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Nessa demanda pela adaptação, o realizador opta pela raiz da matéria-prima, o neorrealismo tão em voga na década de 50, quer na literatura, quer no teatro e até cinema (os falhanços de Manuel Guimarães, realizador que de maneira nenhuma parece não conseguir reavaliar-se), Como tal, Raiva é puramente simbólico e possivelmente dependente desse mesmo simbolismo, o que o configura como um ensaio de ideias, a “mensagem” que o próprio Tréfaut revelou não interessar como foco propagandístico ou didático. É um filme de imagens (termo que neste momento o leitor troça o escriba devido ao óbvio da caracterização), porque são estas, despojadas da dramaturgia cinematográfica ou ditada pela mesma, que realçam todo uma veia narrativo, dentro e fora do filme. E salientando essa ausência de ênfase e epifania, Tréfaut mutila a sua criação, inutilizando-o para esse estado. Como o faz? Simples manobra, transfigura as leis académicas dos três atos narrativos, opções narrativas que vão contra ao tão chamado storytelling que uma vaga de realizadores e argumentistas nacionais tentam impor. Por outro, essa escolha decepa por completo qualquer emotividade que poderá surgir por parte do espectador, ao mesmo tempo que configura um fatalismo irreversível.

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Em Raiva, há um espelho de uma sociedade que hoje entra em plena negação, um revisionismo histórico dos “feitos salazaristas”, ou da urgência pela preservação distorcida da luta entre classes para induzir-se numa batalha contra as instituições erguidas atualmente. Tréfaut comete essa declaração politica sem o uso do mais grave das leituras politizadas, cada um encontra a sua consciência da forma como pretender.

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Mas dentro desse retrato que esboça um Alentejo a passos do esquecimento, Raiva instala-se ainda como uma celebração das mulheres e sobretudo das atrizes portuguesas (passamos pela geração que tão bem traduz todo o nossos legado cinematográfico; Isabel Ruth, Leonor Silveira, Rita Cabaço, Lia Gama e Catarina Wallenstein). O signo feminino presente como juízos, quer finais ou motivos para os trilhos conflituosos do nosso “herói”, Hugo Bentes, o cartaz de Alentejo, Alentejo (o identitário documentário de Tréfaut) para as ribaltas da ficção, incentivando a sombra de um tipo de ator preciso e sobretudo inexistente no nosso leque profissional. Em Raiva há muito por onde olhar e refletir, uma peça discreta que vence por essa mesmo discrição. Mesmo não tendo a histeria de um ativismo a ser demarcado, este é sobretudo um filme necessário para as nossas consciências.

 

“Em terra sem pão, o pobre nasce pobre, o rico nasce rico”

 

Real.: Sérgio Tréfaut / Int.: Hugo Bentes, Isabel Ruth, Leonor Silveira, Rita Cabaço, Lia Gama, Catarina Wallenstein, Diogo Dória, Luís Miguel Cintra, Herman José

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6/10

publicado por Hugo Gomes às 16:53
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1 comentário:
De Janeca a 18 de Novembro de 2018 às 19:20
Não percebi merda nenhuma do que escreveste, e olha que tenho um pouco mais que a quarta classe e uma licenciatura em cinema.


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