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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quase Famosos

Hugo Gomes, 11.01.26

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Seria um pleno seguir a tendência e a fórmula feita: financiar um biopic de Neil Diamond. Ao invés disso, e pegando no jeito do “moço” Hugh Jackman para o canto e a dança, porque não fazer a curva e apontar a um pseudo-biopic, onde a história não é directamente sobre o cantautor, mas sim sobre o seu imitador… peço desculpa, intérprete (calma Kate Hudson, não é preciso fazer essa cara). E assim seguimos num enredo quase underdog de um performista ex-alcoólico, com rendas em atraso e amor que sobra por Neil Diamond, a tentar reconstruir a vida como personificação do artista. Auto-intitula-se por Lightning (porque traz um “relâmpago” no dorso do casaco) e, por mero acaso, cruza-se com a sua Thunder (Hudson, lentamente, num regresso de prestígio), formam um casal-maravilha de palcos de karaoke, casinos e outras digressões, e com isso conhecem um ligeiro sucesso graças à química e performances energéticas in local. 

Song Sung Blue”, com assinatura de Craig Brewer (realizador vindo da sequela de “Coming to America” e do remake de “Footloose”, dois exemplares pouco orgulhosos de exibir, salvo a vibração musical de ambos), é um objecto sofrível com sintomas formulaicos, assumidamente conformista no drama e na miserabilidade “positiva” que instala (todo o infortúnio tem um desígnio, algo superior que nos atenta, e nos encaminha). Reconhece-se passageiro, e ao contrário do expectável (mas não previsível), o filme tende a desconstruir aqui e ali a sua estrutura social (os suburbanos e a América interior abraçados num só concerto), evitando desculpas esfarrapadas na reconstituição de época (os anos 90 surgem filtrados pela televisão enquanto janela ao marcador temporal … ou como James Marsden estava tão novo em “The Nanny”, aquela sitcom protagonizada por Fran Drescher). 

Tudo isto pode soar a elogio da mediania, e talvez o seja. “Song Sung Blue” chega-nos num momento de crise do filme médio americano e, como facilmente nos rendemos à nostalgia (ao contrário do mote desta dupla protagonista), reencontramos um tipo de produção outrora abundante em todas as latitudes da indústria, que continham algumas gemas escondidas prontas a ser grampeadas. Hoje, a sua raridade o tinge com valor.

É na rendição à fórmula, sem chico-espertices, sem pacificações artificiais, com actores com carácter e genica a preencherem as notas certas, que o filme encontra a sua razão de ser. Poderia ter sido outro “Almost Famous”? Claro que sim. Não é por acaso que Kate Hudson anda por aqui. Afinal, quantas oportunidades nos dá a vida?