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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Quando o eterno é efêmero ...

Hugo Gomes, 28.07.22

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Pandora (Ava Gardner, primeira vez filmada a cores, ou melhor, em technicolor) tem praticamente tudo ao seu alcance; beleza, sedução, determinação, encantamento e o exotismo encontrado na costa de Barcelona. O calor, a vida boémia recheada de iguarias, álcool e homens, mas mesmo assim, algo a inquieta, o seu olhar pertence ao horizonte longínquo do Mar Mediterrâneo. Uma força magnética constantemente a incentiva a saltar, do abismo para a incerteza do seu desejo, e sem palavra alguma para o descrever é dessa forma escrava de uma invisibilidade tóxica, reminiscência de não sabe donde, que se sente "acorrentada". A curiosidade desse sentimento desconhecido é por fim desvendado através de um gesto inconsequente, Pandora lança-se ao mar, como bem veio ao mundo, em direção a uma embarcação desconhecida, mas que a seduz. Pertinente, penetra no interior do barco, dando de caras com um misterioso homem (James Mason) que lhe pintava, misteriosamente, o seu retrato. Destino ou algo maior?

Tal como o fascínio intraduzível de Pandora, este filme [“Pandora and the Flying Dutch”, 1951] igualmente me atrai para um suposto vórtice espiritual. Não entendo, ou aliás, não desejo entender o fruto desta paixão. É um filme degustado, de uma hibridez diluída num caldo torrente de “amores maiores que a vida” e de predestinadas tragédias. A união de dois mitos, de um lado, Pandora, cuja teimosia abre “caixas” e delas desperta manifestações que tomarão conta do mundo (neste caso, o seu mundo), e do outro, o do “Holandês Voador”, homem condenado ao mar como penitência ao seu crime passional, permitido regressar a terra de 7 em 7 anos, e que cuja maldição só poderá ser quebrada após encontrar uma mulher capaz de o amar e de igualmente morrer com ele. Uma mixórdia, dirão alguns, uma receita apostarão outros, mas “Pandora and the Flying Dutch” é a cerne de que tornam os mitos em mitos, o de desafiar a nossa consciência e submetê-las a uma crença, não para com aquele enredo, e sim para com aquele universo. Talvez seja esse sintoma que me impulsionou a proclamar juras de amores a um filme tão imperfeito como este, a fé na sua mitologia, ali concebida e ali destruída no preciso momento em que o “gorduroso” “The End” surge no ecrã.   

Imperfeito? Sim, porque os filmes a merecer serem amados estão longe da perfeição, e até nesse termo devemos suspeitar se existe tal ‘coisa’ chamada “perfeição no cinema”. Contudo, não sou o único a querer venerar “Pandora and the Flying Dutch”, uma linha de adeptos o fazem diariamente, ou o deixam por escrito, e tem sido assim desde o lançamento algo tumultuoso da "película". Sendo produção inglesa, obteve a sua estreia em Londres, em versão integral (123 minutos), posteriormente apresentado numa edição curta, de 90 minutos apenas, que dilacerava, por completo, o longo flashback do fado do “Holandês Voador”. Dizem as más-línguas, que foi a descrença (aí está) naquela fantasia “rebuscada” que automaticamente levou os encarregados a decretar o corte de tal sequência. A crítica da altura “toureou” o filme, tornando-o num fiasco aos mais diferentes níveis.  

Nos anos 80 encontrou “nova vida”, ou digamos, restaurada vida (novamente reconquistando a sua primeira duração), e a partir daí, rodando por reposições, cineclubes e cinematecas, alcançou um lugar de culto. Hoje, ao lado de “The Portrait of Dorian Gray” (1945), a mais famosa adaptação do livro de Oscar Wilde, é a obra mais notável do muy peculiar realizador e produtor Albert Lewin, que segundo alguns “testemunhos”, teria sido um homem algo pedante, e de uma cultura vasta, tendo “queda” para as artes surrealistas. Esta última estância permanece como um conflito nos seus trabalhos, não pelo surrealismo puro e declarado, mas por fazer trespassar o físico. Se na obra de Oscar Wilde, é clara essa corrupção da realidade como elo mantido entre o eternamente jovem aristocrata e o retrato seu que contrariamente envelhecia, em “The Living Idol” (1957), a sua última realização e também ela fracassada, seguimos uma mulher perseguida por um espírito de um jaguar, novamente o ente de outras dimensões (ou a inexplicabilidade do fenómeno) a romper a sua barreira para seduzir a “carne”.

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Em “Pandora and the Flying Dutchman”, o lado espiritual funciona como um lençol que cobre o romance algo novelesco que Lewin “pariu”. Pandora e o seu “Holandês Voador” são unidos por algo mais que somente os corpos e claro, obstruído da via do romantismo platónico, existe uma vertente destrutiva na sua reunião. Talvez esse (re)encontro seja visto mais como uma maldição do que propriamente uma dádiva. Ora vejamos, se o aprisionado marítimo alcançou a eternidade (mesmo sob um peso existencial), a juventude e a beleza de Pandora estabelece-se no seu auge, os “melhores anos da sua vida” silenciosamente ouve-se dizer. Tudo perdido após o pacto entre almas condenadas. Através de suicídio ou não, a morte reivindica o que é seu.  

Quanto a Lewin, a sua existência não foi imediatamente celebrada. Os seus filmes (com excepção de “‘Dorian Gray”) foram fracassos, cujo apreço apenas tem sido, por fim, endereçado após a sua morte em 1968 [tinha 73 anos]. Talvez com graças dos crentes, primeiros cépticos e depois convertidos a esta “religião”, aos dos mundos metafísicos que determinam as sortes e os azares dos meros mortais. Todos parecem deter um grande desígnio de vida em “Pandora and the Flying Dutchman”, e todos priorizam as suas almas frente ao material. Um toureiro (Mario Cabré) com ambições de viver para lá da sua mortalidade, um corredor (Stephen Cameron) dedicado a destroçar o seu bólide em prol da idealização de um amor pretendido (mas não concretizado) e um “narrador” (Geoffrey Fielding) cuja cultura é o seu essencial néctar jovial, peças que rodeiam o já assumido e derradeiro casal, impedidos de viver neste terreno, mas desejosos por se consolidarem noutra via, talvez espectral, ou simplesmente memorial. Talvez por isso esses protagonistas soam desconectados à sua realidade e magnetizados por uma força maior do que eles juntos. 

“Why don't you come down to earth, Pandora? Happiness lies in the simple things.”