Qual é a tua história?

A Souleymane, um guineense em Paris, é pedido que conte a sua história. O futuro da sua estadia em território francês depende disso: da sua vivência, das palavras que escolhe, daquilo que tem para dizer ao mundo.
“L’histoire de Souleymane” chega-nos num momento extremamente pertinente, numa era em que certos ventos políticos varrem multidões ao serviço de uma retórica que deforma o outro, enfatiza as diferenças e transforma o que é diverso numa massa uniforme, desumanizada. O realizador Boris Lojkine faz justiça através da humanização, tal como Jonas Poher Rasmussen fez na animação “Flee” - a maior arma contra a propaganda extremista e anti-imigração é desmontar a narrativa oposta: não abordar os migrantes como números, como "outros", mas como indivíduos com histórias únicas e intransmissíveis. Matteo Garrone fez o mesmo em “Il Capitano”, onde o sonho europeu é desvendado com todas as suas ilusões e desconfortos, culminando numa embarcação de refugiados que encontra porto seguro em Itália, mas “L’histoire de Souleymane” vai para além dessa bolha de aparente conforto: de certo modo, este filme é uma continuação do anterior “Hope” (2014), do mesmo Lojkine.
Desta vez, acompanhamos Souleymane (desempenho sem espinhas por parte de Abou Sangaré, que por um lado deposita a sua experiência de imigrante neste quadro) enquanto resiste, à sua maneira, numa Paris cinzenta, bem distante dos postais turísticos. Vive em asilos, trabalha clandestinamente como estafeta, é burlado e, ainda assim, ergue-se como prova viva de resiliência, o seu quotidiano é feito de transportes ingratos, de um ritmo incessante e de obstáculos intermináveis, tudo capturado num estilo dardenneano que evoca o realismo cru e sem adornos. É um retrato de realismo social puro e duro, mas que encontra, no meio de tanto peso, uma força luminosa: o desejo do protagonista em ser ouvido. Mais do que isso, a sua história exige ser contada com uma sensibilidade que raros retratos deste género conseguem atingir.
“L’histoire de Souleymane" é uma das primeiras grandes surpresas deste início do ano, um filme que desafia o espectador a ser, de uma vez por todas, empático. Mesmo que a empatia pareça desvanecer-se por entre panfletos políticos que nos cercam, confinando-nos, mais e mais, no ódio e na incompreensão, o filme estende-nos a mão e faz-nos esta pergunta: somos humanos ou somos feitos de barro?